domingo, 16 de julho de 2017

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Desta vez, a cidade cairá e os infiéis serão vencidos!, exclamou o abade, que muitos já consideravam um santo. Nas suas palavras, descobri igualmente forte admiração por Afonso Henriques»

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«(…) Contudo, mal vi pela primeira vez a princesa da Sabóia, tive pena do meu melhor amigo. Que injustas eram as leis do mundo! Chamoa era uma beldade, um mulher entusiasmante e inimitável, mas aquela rapariga de dezanove anos jamais chegaria perto dela. Mafalda da Sabóia não era nem bonita, nem simpática. Baixa e feia, de olhar zangado e tenso, transpirava irritação e contrariedade, sendo absolutamente óbvio que abominava a ideia de deixar a sua terra para casar com um príncipe distante e reinar sobre gente que considerava inferior. Nem por uma vez nos sorriu, mirando-nos com desprezo, e recusou mesmo estar presente na ceia que Amadeu de Maurienne nos ofereceu, demonstrando uma consideração e uma amabilidade que a filha não herdara. Cristão e descendente de famílias nobres, Amadeu era parente de importantes figuras da Cristandade, onde se contavam um papa já falecido, Calisto II; o imperador romano-germânico, Henrique IV, de quem era vassalo; e o rei de França, Luís VII, de quem era tio por via do casamento.
A sua filha Mafalda era, portanto, sobrinha de um dos mais poderosos reis da Europa e prestava vassalagem ao único imperador que a Cristandade aceitava como legítimo, laços que permitiriam a Afonso Henriques autonomizar-se em definitivo de seu primo direito Afonso VII. Aquela seria, pois, uma união de máxima importância para o nosso rei. Porém, ao contemplar Mafalda da Sabóia uma última vez, quando nos despedimos, tive a certeza de que seria difícil o meu melhor amigo apaixonar-se por uma mulher tão desapontada com o seu destino, em cujo rosto e corpo não se viam dádivas que pudessem incendiar os desejos de um príncipe que dormia com a lindíssima Chamoa e com a estrondosa normanda, Elvira Gualter. Certamente pressentindo as minhas angústias, meu pai tentou dissolvê-las quando me disse, já a caminho de Cluny:
julgais que é a primeira que casa contrariada? As rainhas só têm de ser pacientes, deixar os reis tomá-las e dar-lhes filhos.
Era essa também a opinião de Bernardo de Claraval, que visitámos, dias depois, na Abadia de Cluny. O famoso religioso, principal responsável pela formação da Ordem do Templo e grande entusiasta das cruzadas, ficou muito agradado por saber que Afonso Henriques ia finalmente desposar Mafalda da Sabóia. Sereno e simpático, com o aspecto de um avô carinhoso, Bernardo de Claraval surpreendia, no entanto, pela vertiginosa velocidade dos raciocínios e pela impetuosidade feroz das vontades. A luta contra os infiéis era o centro da sua vida e pregava há vários anos a favor de novos contingentes serem lançados a caminho de Jerusalém, para garantir a conquista da cidade onde Cristo morrera. A1ém disso, defendia que aquela imensa guerra não se travava apenas na distante Terra Santa, mas também no nosso território. Embora sem estabelecer prazos, Bernardo de Claraval garantiu-nos que em breve uma nova vaga de cruzados, saída do Norte da Europa, poderia ajudar-nos a tomar Lisboa em definitivo, tirando desforra do acontecido dois anos antes.
Desta vez, a cidade cairá e os infiéis serão vencidos!, exclamou o abade, que muitos já consideravam um santo. Nas suas palavras, descobri igualmente forte admiração por Afonso Henriques, que julgava grande rei e valoroso guerreiro, mas não por Afonso VII, que o patrono dos templários desaprovava por encontrar nele semelhanças desagradáveis com sua mãe, dona Urraca, como a propensão para a mentira e o excesso de ambição. Para o emérito abade de Cluny, só uma qualidade distinguia o imperador da Hispânia da sua progenitora: a perícia guerreira. Ao contrário da mãe, está cada vez mais forte, uniu a Hispânia e em breve conquistará Córdova e Sevilha e chegará ao mar! A destreza nas batalhas fazia de Afonso VII um monarca cristão respeitável, mas era necessário não o deixar ir longe de mais. Embora não tivesse conseguido subjugar Afonso Henriques, o santo abade avisou-nos de que o imperador continuaria a tentar minar o primo direito de outras formas. Os portucalenses deviam tomar atenção redobrada às suas manigâncias extremas e sujos estratagemas». ». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT