terça-feira, 30 de agosto de 2016

Casanova. Ian Kelly. «Desde a estreia da ópera, algumas transformações tinham sido feitas no teatro. Quando Casanova atravessou a plateia, seguindo por trás das poltronas do Nostitz, abriu-se diante dele uma visão…»

jdact e wikipedia

«No primeiro minuto do meu sonho, tenho visões de corpos dançando, cujas formas me são perfeitamente familiares, iluminados por um estonteante conjunto de luzes». In 1791, Casanova

«Doze de Setembro de 1791. Engarrafamento em duas ruas de Praga. Os cavalos se mostram nervosos com os clarões e os fogos de artifício. A comida, transportada em carretas do mosteiro de Prikopy para o baile da coroação, é escoltada por soldados diante da multidão faminta. Um veneziano de 66 anos caminha com passos firmes da carruagem de seu patrão até às luzes do pórtico do teatro Nostitz. Apenas alguns dias antes, ele assistira ali à estreia da nova obra de Mozart, composta em homenagem ao recém-coroado imperador. Porém La Clemenza di Tito não agradou a Giacomo Casanova, e muito menos ao grupo real a quem a obra fora dedicada: a jovem imperatriz zombou dela, declarando que Herr Mozart tinha composto uma porcheria tedescha, uma ópera pior do que uma salsicha alemã ordinária. Casanova preferia Don Giovanni. Ele havia colaborado no libreto e assistido à première naquele mesmo teatro. Se assisti?, teria respondido ele a seu velho amigo Da Ponte, o libretista veneziano. Praticamente vivi tudo aquilo.
Desde a estreia da ópera, algumas transformações tinham sido feitas no teatro. Quando Casanova atravessou a plateia, seguindo por trás das poltronas do Nostitz, abriu-se diante dele uma visão que lhe chegava directamente de sua infância em Veneza. Para além da boca de cena, onde apenas uma semana antes existia um palco, depois das cortinas suspensas, onde a lista das conquistas de dom Giovanni foi apresentada pela primeira vez, via-se um cenário de pano: um pátio de seis metros de comprimento montado para o baile de coroação daquela noite. Ele se prolongava para trás, para além do poço da orquestra, da plataforma de cargas e mesmo da parede dos fundos do palco, demolida pelo imperial professor de engenharia de Praga, a fim de que o salão em forma de galeria pudesse se esticar para fora do ponto de fuga da perspectiva do palco, como se chegasse ao infinito. Forrado por oito mil varas de linho vermelho da Boémia, o salão-palco ficou lotado com a corte inteira dos Habsburgo, que dançava com a música da orquestra imperial de Antonio Salieri, comprimida nos camarotes do teatro. A cena era reflectida por uma dupla falange de espelhos venezianos. Os cortinados, os fios de ouro, os candelabros e o falso mármore, as cornijas e os céus em trompe l’oeil: todo um mundo por apenas uma noite, além da arte ou da razão, formado de gesso e tecidos, desaparecia pelo proscénio. Aquela noite de 1791 no Nostitz marcou o final de uma era. A França fora tomada pela revolução, e sua rainha, a irmã do novo imperador, foi presa. Para muitos daqueles seis mil aristocratas no palco do Nostitz, sob os céus pintados de Giovanni Tartini, aquela seria a dança derradeira no mundo que eles conheciam: sua última performance no Carnaval de Veneza, o último de tantos bailes de máscaras.
Quando criança, Casanova tinha assistido a espectáculos semelhantes. Todos os anos em Veneza, na Festa da Ascensão, quando o doge realizava o ritual das núpcias da República de Veneza com o mar, e a cidade inteira se entregava ao Carnaval, os venezianos esperavam desfrutar seus teatri del mundo. Havia dois tipos. Um era um palco flutuante, que pertencia à República. Este ficava atracado diante da piazzeta São Marcos e era usado para espectáculos patrocinados pelo Estado, encenações mirabolantes de contos míticos e fábulas celestiais nas quais se destacavam aristocratas trajados de maneira esplendorosa e fogos de artifício. Além disso, havia também, na praça São Marcos, situada nas proximidades, pequenos espectáculos de lanterna mágica encenados nas ruas: lampejos da escuridão para um mundo ao mesmo tempo sublime e ridículo, iluminações de rinocerontes, monstros, imagens americanas e amorosas, recriadas à luz de caixas com lanternas para um admirável mundo novo de consumidores voyeuristas. Por esse motivo, esses pequenos teatro del mundo também eram conhecidos como mondi nuovi: novos mundos. A julgar pelas anotações de Casanova sobre seus sonhos, descobertas no arquivo de Praga, que agora abriga suas notas um tanto esparsas (uma descoberta incalculavelmente excitante para o biógrafo), sua mente se voltou para esses teatri a partir daquela noite de 1791, quando ele passou a sonhar com o Nostitz em visões surrealistas de seres humanos que dançavam nus, olhos e narizes, órgãos genitais de ambos os sexos e outras partes do corpo cujas formas me são tão familiares. O grande cronista do século foi testemunha daquele último baile: a corte dos Habsburgo criando o seu próprio teatro del mundo sob a forma de corpos humanos cabriolando atordoados sob as luzes do teatro, reflectidos nos espelhos, dançando em meio aos cenários.
De Praga, Casanova retornou à sua escrivaninha, na biblioteca onde trabalhava, num castelo frio da Boémia. Seus sonhos estavam cheios de recordações perturbadas, porém ele passava os dias se dedicando a uma narrativa mais bem estruturada, a qual jamais veria publicada: o registo de pessoas, lugares, odores, sabores, do sexo e da sensibilidade do século anterior à revolução. O século XVIII de Casanova fora em muitos sentidos um teatro del mundo: um mundo escravizado pelo teatro. Moldada e espelhada em suas luzes e na sua literatura, deliciando-se nos artifícios do teatro, a vida dele, segundo suas anotações de sonhos e memórias, estruturou-se por essa ideia de desempenho, uma vez que ele foi formado pelas perspectivas mutáveis e reflexivas de Veneza e de sua commedia dell’arte.
Nascido em Veneza, então uma capital do teatro, oriundo de uma família de actores, ele viajou a vida inteira por toda a Europa, seguindo a antiga tradição dos mascarados venezianos. Mais do que isso, seu sucesso na vida e no amor, como libertino e libertário, foi obtido por sua capacidade de reinventar a si mesmo, de jogar todas as suas cartas em benefício próprio e de viver inteiramente para um presente estonteante. Naquela noite em 1791, é provável que não lhe tenha escapado a ironia, a ele, que era capaz de se sentir vivo apenas por meio das recordações e da escrita, de o mundo parecer compreender mais a fundo as alegrias da vida quando está diante do drama de sua recriação artificial. Sua obra-prima, história da minha vida, dá vida, como nenhum outro documento, ao século em que ele viveu, mas a alegria com que ele construiu sua vida, singularmente própria de um actor, permanece também como testamento para uma nova compreensão do eu. Como qualquer veneziano sabe, existe a máscara, e também a substância por trás dela, e um novo alvorecer revolucionário procurou compreender a personalidade com referência a ambas». In Ian Kelly, Casanova, 2008, Aletheia Editores, colecção nº 1, 2009, ISBN 978-989-622-175-1.

Cortesia de AletheiaE/JDACT

O Mistério das Lágrimas da Virgem. Alana White. «Por que motivo uma voz não gritou sinais de alarme dentro de si? As famílias Medici e Pazzi não eram amigas. As suas casas eram demasiado antigas»

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«(…) A voz única e doce do coro era apenas um murmúrio e as pessoas curvavam as cabeças, esperando pela Elevação da Hóstia. Determinado, abriu caminho por entre a multidão até chegar ao vulto escuro e musculado de Lorenzo Medici, perto do lado sul do altar, onde tinham combinado encontrar-se naquela manhã, mas recuou ao vislumbrar o irmão de Lorenzo, Giuliano, estranhamente isolado com Francesco Pazzi e Bernardo Bandini, no lado oposto da igreja, perto da Via Servi. Aqueles três não eram amigos. Francesco, hirsuto e de cabelo claro, parecia nervoso, com o braço pousado sobre os ombros de Giuliano e lançando olhares furtivos para um lado e para o outro. Os olhos de Guid'Antonio desviaram-se para Lorenzo e novamente para o outro lado. Não viu o machado de Bandini até que a lâmina brilhou com a luz das velas e cortou a cabeça de Giuliano. Depois disso, o tempo abrandou, como se se desenrolasse languidamente numa longa e negra fita. Giuliano caiu de joelhos, com a cabeça a jorrar sangue. Francesco saltou para cima dele com uma excitação selvagem e espetou-lhe uma faca na carne suave do pescoço desnudo. Perto deles, um rapaz gritou: A cúpula vai cair! Homens, mulheres e crianças atrapalharam-se e caíram numa nova onda de medo e pânico. Não!, gritou Guid'Antonio. Giuliano! Tentou avançar, mas perdia repetidamente terreno, como se mãos fantasma lhe agarrassem no manto carmesim e o puxassem para trás pela bainha. Giuirano! O seu bom e jovem amigo, esfaqueado repetidamente como se de um boneco de trapos se tratasse e não de um corpo feito de músculos rijos e ossos. Assassinado, enquanto Guid’Antonio observava à distância. Como podia ter sido tão impotente? Ouviu o som da trovoada a rugir no exterior do apartamento no castelo, em Plessis-les-Tours, e escutou o vento francês a gemer e a uivar. Inquieto e transpirado, atirou os lençóis para trás e ficou a olhar para o vazio, agarrado às memórias que cravavam nele as suas garras sem jamais o largarem.
Vinte e seis de Abril de 1478, dois anos antes. Ainda conseguia sentir o ar fresco do interior da Catedral de Florença e cheirar o aroma residual do Inverno. Conseguia ouvir o tinir do sino do padre. O que via quando ficava acordado de noite era a imagem de Giuliano Medici no chão da igreja, com o sangue a jorrar-lhe da cabeça. A dor dilacerava o peito de Guid’Antonio. Porque não percebera o que estava a acontecer quando viu Giuliano com Francesco Pazzi e Bernardo Bandini, aqueles dois insurrectos? Por que motivo uma voz não gritou sinais de alarme dentro de si? As famílias Medici e Pazzi não eram amigas. As suas casas eram demasiado antigas, bem conhecidas e ricas. A rivalidade entre ambas era feroz. Porém, até àquela manhã de Abril, as duas grandiosas casas florentinas tinham conseguido gerir as animosidades. Nadando à superfície das águas espelhadas, nenhuma das duas se afundava. Eram mentiras em cima de mentiras. Por que motivo não tinha ido para junto de Giuliano quando o viu na igreja? Porque não ficou ao lado dele a rezar? Mas não. Não. Em vez de salvar o filho favorito de Florença, ajoelhou-se ao lado do seu corpo mutilado no chão de pedra fria da igreja e ergueu as mãos para o céu na mais completa e crua incredibilidade. Deitara-se à sua frente, protegendo-o da debandada de gente de sandálias, de botas e de pés descalços. Tinha ajudado os monges a embrulhar o corpo de Giuliano no manto de veludo preto do jovem Medici; ficara profundamente grato por Lorenzo ter conseguido escapar ao padre armado que o atacou, conseguindo apenas fazer-lhe um golpe superficial no pescoço, isto, se o que os monges afirmaram era a verdade. Como podiam saber? Os dedos manchados de tinta dos monges estavam tão trémulos como os de Guid’Antonio». In Alana White, O Mistério das Lágrimas da Virgem, 2012, Marcador Editora, 2013, ISBN 978-989-847-096-6.

Cortesia de MarcadorE/JDACT

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A Coroa. Nancy Bilyeau. «Ouvi um ruído áspero. Era o meu próprio riso, um som amargo e desprovido de alegria. Que passou despercebido, pois ouviu-se um grito mesmo ao lado da carroça»


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Londres. Maio de 1537
«(…) Encostei-me às guardas da carroça. Passámos por um pequeno mercado, que parecia não vender senão especiarias e ervas aromáticas. Tinha deixado de chover, pelo que os vendedores afastaram as mantas que protegiam as suas bancas estreitas. Uma mistura rica de borragem, salva, tomilho, alecrim, salsa e cebolinho espalhou-se pelo ar, dissolvendo-se à medida que nos afastávamos sacolejando. Os odores urgentes da cidade retomaram a sua intensidade. Uma fila de edifícios de quatro andares surgiu à nossa vista: ainda não tinha visto nada tão próspero. Uma placa de ourives pendia numa esquina. Um rapaz novo, que ia sentado à minha frente, sorriu e disse, em voz alta, para todos os passageiros da carroça: estamos gratos ao rei Hal por queimar uma jovem beldade em Smithfield. A última pessoa a morrer na fogueira foi um falsário velho e feio.
Um pedaço do pão que engolira subiu-me à garganta. Tapei a boca com a mão. Mas é uma beldade?, perguntou outra voz. Um velhote, com os olhos azuis aguados, torceu um pêlo comprido que lhe nascia no meio do queixo. Conheço uma pessoa que viu lady Bulmer em carne e osso, e, sim, é bonita, declarou lentamente. Mais bonita do que a rainha. Qual das rainhas?, bradou um dos homens. Todas as três, replicou outro. Um riso nervoso percorreu a carroça. Troçar dos casamentos do rei, do divórcio da primeira mulher e da execução da segunda para abrir caminho para a terceira, era crime. Já tinham sido amputadas mãos e orelhas por causa disso. O velhote torceu o pêlo do queixo ainda com mais força: lady Bulmer deve ter ofendido gravemente o rei, para ele a mandar queimar em público, diante da plebe, em vez de a condenar ao machado em Tower Hill ou de a enforcar em Tyburn.
O rapaz novo retorquiu: todos os nobres e aristocratas que seguiam Robert Aske foram trazidos para Londres. Pela justiça do rei. Ela vai ser apenas a primeira a morrer. O meu coração bateu mais depressa. Que diriam aqueles londrinos, que me fatiam, se soubessem quem eu era e de onde vinha? Uma coisa era certa: nunca chegaria a Smithfield. Procurei uma oração que pudesse sustentar-me o ânimo. Ó Senhor, meu Deus, ajudai-me a ser obediente sem reserva, pobre sem servilismo, casta sem vacilação. Essa tal Bulmer é uma rebelde nojenta!, gritou a mulher que tinha partilhado o seu pão comigo. É uma papista do Norte, que conspirou para destronar o nosso rei. Humilde sem pretensão, alegre sem depravação, séria sem afectação, activa sem frivolidade, submissa sem amargura, verdadeira sem duplicidade. O velhote replicou suavemente: no Norte, deram a vida pelos costumes antigos. Queriam proteger os mosteiros. Houve uma irrupção geral de desprezo. Esses frades gordos escondem potes de ouro, enquanto os pobres morrem de fome às suas portas. Ouvi contar de uma freira que teve um filho de um padre. As freiras são prostitutas. Ou então são aleijadas. Idiotas corridas de casa pelas famílias. Ouvi um ruído áspero. Era o meu próprio riso, um som amargo e desprovido de alegria. Que passou despercebido, pois ouviu-se um grito mesmo ao lado da carroça. Um diabrete corria ao nosso lado, tão depressa que ultrapassou os cavalos. Um olhar aterrorizado, por cima do ombro, revelou que a criança não era um rapaz, mas sim uma rapariga de rosto enfarruscado e cabelo curto. Um pedaço de lama voou pelo ar e atingiu-a no ombro. Au!, gritou ela. Seus canalhas! Dois rapazes grandalhões, que corriam pesadamente ao lado da carroça, riram. Estavam quase a apanhá-la. Os homens que viajavam na carroça puseram-se a encorajá-los.
A presa dos rapazes acelerou pela rua abaixo, em direcção a uma fila de lojas. Outra rapariga acenou-lhe de uma porta, bradando: aqui! A criança correu lá para dentro e a porta fechou-se atrás delas. Os rapazes chegaram lá poucos segundos depois e bateram furiosamente, mas a porta estava trancada». In Nancy Bilyeau, A Coroa, 2012, Editorial Presença, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-234-862-1.

Cortesia de EPresença/JDACT

Uma Questão de Orgulho. Linda Carlino. «Estais de acordo em nunca fazer perguntas, nem escolher outros caminhos, e a confiar sempre no meu julgamento? Ainda bem! Então podemos dar início…»


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«(…) Digo-te já, Alonso, que talvez tenhamos sorte, respondeu Manuel, que era ligeiramente mais alto, dando uma palmada no ombro do amigo. Espero bem que sim. Foi uma desgraça completa em Jarandilla. Passámos semanas a fio sem uma mulher. Tens razão, não havia lá nada para fazer. Só gente feia. Mas estas aqui não estão nada mal. O problema é que cheiram mal. Tu também cheirarias se tivesses de dormir com os animais durante o Inverno, seu idiota! Nós temos muita sorte, sabes? Dormimos em cima do feno. Elas têm de dormir na palha, ao pé de bosta de vaca e das cabras. Pelo menos é o que parece pelo cheiro. Então não deve haver problema, desde que seja ao ar livre, não achas, Manuel? É mesmo isso! Prenderam as túnicas de linho grosseiro dentro das calças castanhas, mal cortadas mas resistentes, apertaram os cintos, ajeitaram os casacos de lã, tapando com um capuz o cabelo penteado com os dedos. Por fim, cuspiram na biqueira dos coturnos de couro e limparam-nos na parte de trás das pernas.  Que tal? Estamos apresentáveis? Bom, vamos lá! Alonso foi à frente, passando pelos enormes portões de madeira, escancarados em sinal de boas-vindas, e atravessando o chão de gravilha para se juntarem a um grupo de rapazes que também se estava a preparar. Meu Deus! Sentiste isto, Alonso? Parece que alguém abriu uma porta e passou uma corrente de ar gelada! Não, não senti nada. Estarás a chocar alguma coisa? Já, vais aquecer, quando estiveres no meio de umas coxas bem macias!
Tereis de desculpar estes tão fervorosos rapazes. Ao que parece, têm muito poucos prazeres na vida. Espero que a nossa presença não lhes tenha arrefecido o ardor. Bem-vindos a Yuste, este esplendoroso mosteiro de São Jerónimo. Não poderia haver lugar mais tranquilo. Pois bem, estais aqui para saber o mais possível sobre Carlos, o homem que, até há pouco tempo, ostentava as coroas do Sacro Império Romano e de Espanha. Como tão bem dissestes, toda a gente já ouviu falar do imperador e rei, mas o que se sabe realmente sobre o homem? Farei todo o possível por ajudar-vos. Serei o vosso guia, levando-vos, como observadores invisíveis, à presença do rei; espreitando pelos corações e pelas mentes de todas as pessoas que iremos conhecer. Espero também ser fonte de informações úteis. Estais de acordo em nunca fazer perguntas, nem escolher outros caminhos, e a confiar sempre no meu julgamento? Ainda bem! Então podemos dar início a uma experiência que, prometo, será muito interessante. Mas, primeiro, uma ou duas palavras acerca de Yuste. Há mais de um século que a Ordem dos Jerónimos aqui está instalada e é, hoje uma comunidade abastada, proprietária de vastos hectares de terra fértil ao longo do vale, e de muitos pomares, olivais e florestas nas montanhas vizinhas. Não há muito tempo, construíram aquele magnífico segundo claustro do lado esquerdo e acolhedores aposentos para o rei, o seu pequeno palácio, graciosamente acrescentado do lado direito, o mosteiro tornou-se uma verdadeira jóia, incrustada num mar verde-esmeralda de carvalhos e castanheiros. E, ao fundo, à esquerda, há uma outra extensão necessária, as cavalariças; através do arco, vê-se parte do pátio». In Linda Carlino, Uma Questão de Orgulho, 2008, Editorial Presença, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-234-705-1.

Cortesia de EPresente/JDACT

A Coroa. Nancy Bilyeau. «Quando trepei para a carroça, vi um misto de piedade e desprezo nos rostos dos outros passageiros. O meu anel devia valer mais do que o preço da viagem»

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Londres. Maio de 1537
«Sempre que é anunciada uma execução pelo fogo, as tabernas de Smithfield encomendam mais uma porção de barris de cerveja, mas quando a pessoa que vai ser executada é mulher e nobre de nascimento, a cerveja é encomendada às carroças. Seria numa dessas carroças que eu viajaria, na sexta-feira de Pentecostes, no vigésimo oitavo ano do reinado do Rei Henrique VIII, para rezar pela alma da traidora condenada, lady Maryaret Bulmer. Percorria a Cheapside Street, agarrada ao mapa de Londres que tinha copiado de um livro em segredo, há duas noires, quando ouvi o brado do carroceiro. Agora que estava numa rua tão larga e calcetada, conseguia avançar mais depressa, mas doíam-me as pernas. Tinha passado a manhã a caminhar penosamente pela lama. Smithfield, quem vai para Smirhfield? Era uma voz alegre, como se o destino anunciado fosse uma feira do Dia de S. Jorge. Um pouco mais adiante, mesmo em frente de uma fábrica de curtumes, vi quem apregoava: um homem corpulento, que fazia estalar um chicote sobre o dorso de quatro cavalos atrelados a uma grande carroça. Meia dúzia de cabeças espreitavam por cima das guardas da carripana. Esperai!, gritei, o mais alto que pude. Quero ir para Smithfield. O carroceiro virou-se bruscamente; os seus olhos esquadrinharam a multidão. Acenei e o seu rosto exibiu um sorriso húmido. Quando me aproximei, senti o estômago contrair-se. Tinha jurado não falar com ninguém em todo o dia, não procurar auxílio. O risco de ser descoberta era demasiado grande. Mas Smithfield ficava fora das muralhas da cidade, para noroeste, ainda bastante longe. Ao ver-me chegar, o carroceiro mirou-me de cima a baixo e o seu sorriso vacilou. Eu vestia um pesado traje de lã, o único de que dispunha para aquela jornada. Tratava-se um conjunto de corpete e saia feito para o pino do Inverno, não para a Primavera, e seguramente não para um dia em que a neblina ondulante servia de âncora a ondas de calor. Tinha a bainha da saia empastada de lama. Só podia agradecer o facto de ninguém poder espreitar através do tecido pesado e ver a minha camisa encharcada em suor. Mas sabia que o meu aspecto desalinhado não era a única causa da hesitação do carroceiro. O meu aspecto parece estranho a muita gente. Tenho o cabelo preto como ónix polido, os olhos, castanhos mesclados de verde. A minha pele cor de azeitona não fica vermelha em Julho, nem pálida no Advento. Herdei as cores da minha mãe espanhola. Mas não as suas feições delicadas. Não, o meu rosto é o do meu pai inglês: testa larga, malares altos e queixo forte. É como se a dissonância do casamento dos meus pais lutasse na própria estrutura da minha cara, à vista de todos. Num país de raparigas rosadas e brancas, destaco-me como um corvo. Houve um tempo em que isso me perturbava, mas, aos vinte e seis anos, já não me preocupava com tais ninharias. Um xelim pela viagem, dona, disse o carroceiro. Pagai e arrancamos. Aquela exigência apanhou-me de surpresa, embora, claro, fosse de esperar. Não tenho moedas, gaguejei. O carroceiro ladrou uma gargalhada. Julgais que faço isto para me divertir? Tenho pouca cerveja..., bateu num barril de madeira equilibrado atrás de si..., e preciso de ganhar com que pagar a carroça. Os passageiros esticavam o pescoço por cima do barril, para olharem para mim.  Esperai, atalhei. Procurei a pequena bolsa de pano que escondera no bolso cosido ao meu vestido. Revolvi a bolsa e encontrei um anel delgado. Não queria dar-lhe nada de maior valor. Ainda tinha de pagar alguns subornos importantes. Estendi-lhe o anel. Isto chega? A carranca dele transformou-se imediatamente numa expressão deliciada, e o pequeno anel de ouro da minha falecida mãe desapareceu na palma da mão suja. Quando trepei para a carroça, vi um misto de piedade e desprezo nos rostos dos outros passageiros. O meu anel devia valer mais do que o preço da viagem. Descobri um bocado de palha limpa num canto e baixei os olhos, tentando evitar os olhares curiosos assestados sobre mim, enquanto a carroça se punha de novo em movimento. Alguém me acotovelou. Uma mulher robusta chegou-se para o meu lado. Era de meia-idade e a única outra mulher presente. Sorriu e estendeu-me um pedaço de pão escuro. Eu não comia nada desde a noite anterior. Normalmente, orgulhava-me de resistir às ânsias da fome, da sensação de domínio sobre a minha fraca carne mortal, mas a missão que empreendera exigia um certo vigor. Um pouco de comida e um trago da cerveja aguada da caneca de madeira da minha companheira de viagem deram forças ao meu corpo aturdido». In Nancy Bilyeau, A Coroa, 2012, Editorial Presença, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-234-862-1. 
Cortesia de EPresença/JDACT

A Obra Prima Desaparecida. Jonathan Harr. «O palazzo ocupava um quarteirão completo. Tratava-se de um edifício gigantesco construído em travertino rústico e tijolo, coberto de fuligem e enegrecido pelo incessante tráfego do Corso»

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O inglês
«(…) Deram início ao seu trabalho de investigação na Biblioteca de Arte Nacional, situada na Piazza Venezia. Começaram por estudar um livro conhecido informalmente como a bíblia dos estudos sobre Caravaggio, compilada por uma historiadora de arte de seu nome Mia Cinotti. Tinha como subtítulo Tutte le Opere, Todas as Obras, e a sua bibliografia integrava três mil artigos de jornais, monografias e outras obras sobre Caravaggio. Na secção sobre o S. João, ficaram a saber que a maioria dos estudiosos acreditava que Caravaggio havia criado a obra entre 1598 e 1601, apesar de alguns apontarem 1596 como a data mais provável. Existiam onze cópias conhecidas. Cinotti considerava a versão do Capitolino descoberta por Denis Mahon a autêntica, apesar de a autora admitir que a pintura de Doria, a única cópia digna de importância, na sua opinião, poderia ter sido concebida pelo próprio Caravaggio. A primeira menção ao quadro foi efectuada por outro artista, Giovanni Baglione, que vivera e trabalhara em Roma na mesma época que Caravaggio. Os dois homens haviam sido rivais, inimigos implacáveis. Nenhum deles tinha algo de positivo a dizer acerca do outro. Trinta anos após a morre de Caravaggio, Baglione publicara uma série de pequenas biografias de artistas e escultores de Roma. Deixara registado que Caravaggio, um indivíduo agressivo, cujas obras eram excessivamente apreciadas por pessoas maldosas, havia criado o S. João e outras duas obras para um abastado cobrador romano chamado Ciriaco Mattei. Uma dessas obras, ao que parecia, era o desaparecido A Deposição de Cristo. Depois da morte de Mattei, segundo Cinotti, o S. João tivera uma história rocambolesca, passando por várias mãos antes de vir a acabar na Galeria Capitolina. A história do S, João de Doria era, simultaneamente, mais simples e envolta em contornos mais misteriosos. Conhecia-se apenas um proprietário, a família Doria Pamphili. A obra estivera na sua posse desde, pelo menos, 1666, ano em que veio à luz pela primeira vez num inventário familiar, mais de quinze anos após a morte de Caravaggio. Não se conhecia a história do quadro anterior a esta data. Vários estudiosos haviam tentado recuar no tempo, mas os seus esforços haviam sido infrutíferos. Francesca e Laura chegaram a acordo. Decidiram começar pela versão de Doria. Visto que era sobre este quadro que menos informação havia, parecia ser aquele que ofereceria as maiores probabilidades de dar origem a uma verdadeira descoberta. Para além disso, Palazzo Doria Pamphili ficava mesmo ao virar da esquina, na Via del Corso, cinco minutos a pé desde a biblioteca.
O palazzo ocupava um quarteirão completo. Tratava-se de um edifício gigantesco construído em travertino rústico e tijolo, coberto de fuligem e enegrecido pelo incessante tráfego do Corso. Ao centro do palazzo, visível através de uma entrada, as duas jovens estudantes vislumbraram um pátio repleto de laranjeiras, limoeiros e palmeiras enormes, um jardim onde quase não chegava qualquer som da cidade circundante. A família Doria Pamphila e os seus descendentes ocupavam este palazza havia quase quatro séculos. A galeria de arte, com uma colecção de centenas de pinturas e esculturas, estava aberta ao público. O arquivo da família encontrava-se bem no interior do palazzo. Nas traseiras do edifício, acabadas de sair de uma ruela estreita chamada Via della Gatta, Francesca e Laura entraram por uma porta de madeira castigada pelo tempo, subiram um lanço de escadas em mármore mal iluminado e atravessaram um corredor povoado de pequenos gabinetes pardacentos, o centro burocrático do património da família, opulento em tempos idos. Um homem sentado à escrivaninha indicou-lhes o caminho, percorrendo o corredor até chegarem a duas enormes portadas de madeira. Abriu-se diante delas uma sala espaçosa com o pé-direito alto e o tecto trabalhado, pavimento em terracotta e janelas com vistas para outro pátio. No centro da sala, jazia uma sólida mesa de madeira rodeada por estantes pejadas de centenas de antigos volumes encadernados a couro e estojos muito bem classificados.
Por uma porta entreaberta, Francesca conseguiu entrever o centro do arquivo, uma câmara comprida e estreita ladeada por prateleiras de metal cinzento que guardavam milhares de livros. A arquivista que as veio receber era uma jovem inglesa, apenas alguns anos mais velha do que elas, de longa cabeleira ruiva que lhe caía solta sobre o pescoço e de tez branca a fazer lembrar uma boneca de porcelana. Tinha uma voz doce, quase murmurada. De início, Francesca pensara que era assim que se devia falar no arquivo Doria Pamphili, apesar de não se achar mais ninguém na sala. Mais tarde, quando encontrara por acaso a arquivista em plena rua, Francesca compreendera que era esta a sua forma habitual de se exprimir. Como um espectro de tempos idos, observara». In Jonathan Harr, A Obra Prima Desaparecida, 2005, Editorial Presença, Lisboa, 2006, ISBN 978-972-233-676-2.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 28 de agosto de 2016

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «Velha estúpida! Como te atreves a entornar o vinho. A mulher baixou a cabeça em sinal de submissão e, quando o senhor fez menção de lhe dar uma bofetada…»

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Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha
«(…) Até os cavalos, quietos, com os seus grandes olhos redondos assestados nele, pareciam aguardar a resposta de Bernat. Ao meu casamento, senhor. Com quem casaste? Com a filha de Pere Esteve, senhor. Llorenç Bellera permaneceu em silêncio, olhando Bernat por cima da cabeça do seu cavalo. Os animais resfolegaram ruidosamente. E?, ladrou Llorenç Bellera. A minha mulher e eu próprio, disse Bernat, tratando de dissimular o seu asco, sentir-nos-íamos muito honrados se sua senhoria e seus acompanhantes tivessem por bem juntar-se a nós. Temos sede, Estanyol, afirmou o senhor de Bellera, como única resposta. Os cavalos puseram-se em movimento sem necessidade de que os cavaleiros os esporeassem. Bernat, cabisbaixo, dirigiu-se para a casa, ao lado do seu senhor. No final do caminho tinham-se juntado todos os convidados, para o receber; as mulheres de olhos no chão, os homens descobertos. Um rumor ininteligível ergueu-se quando Llorenç Bellera se deteve diante deles. Vamos, vamos, ordenou-lhes, enquanto desmontava. Que siga a festa! As pessoas obedeceram e deram meia-volta, em silêncio. Vários soldados aproximaram-se dos cavalos e encarregaram-se dos animais. Bernat acompanhou os seus novos convidados até à mesa a que tinham estado sentados Pere e ele. Tanto as suas escudelas como os seus copos tinham desaparecido. O senhor de Bellera e os seus dois acompanhantes sentaram-se. Bernat afastou-se alguns passos quando estes começaram a conversar. As mulheres acudiram, rápidas, com jarros de vinho, pães, escudelas de galinha, pratos de porco salgado e com o borrego acabado de assar. Bernat procurou Francesca com o olhar, mas não a encontrou. Não estava entre as mulheres. O olhar de Bernat cruzou-se com o do sogro, que já estava junto dos restantes convidados, e este fez sinal com o queixo em direcção às mulheres. Com um gesto quase imperceptível, Pere Esteve abanou a cabeça e deu meia-volta. Continuem com a vossa festa!, gritou Llorenç Bellera com uma perna de borrego na mão. Vamos, venham, avancem! Em silêncio, os convidados começaram a dirigir-se para as brasas, onde os borregos tinham sido assados. Só um grupo permaneceu quieto, a salvo dos olhares do senhor e dos seus amigos: Pere Esteve, os filhos e mais alguns convidados. Bernat avistou o branco da camisa de linho entre eles, e aproximou-se. Vai-te embora daqui, estúpido!, rosnou o sogro. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, a mãe de Francesca aproximou-se, colocou-lhe um prato de borrego nas mãos e sussurrou-lhe: trata de atender ao senhor e não te aproximes da minha filha. Os camponeses começaram a dar conta do borrego, em silêncio, olhando de soslaio para a mesa. No terreiro só se ouviam as gargalhadas e os gritos do senhor de Navarcles e dos seus amigos. Os soldados descansavam, afastados da festa.
Antes, ouvia-vos rir, gritou o senhor de Bellera. De tal forma que me espantaram a caça. Riam, malditos sejam! Ninguém o fez. Bestas rústicas, disse para um dos seus acompanhantes, que receberam o comentário com gargalhadas. Os três saciaram o apetite com o borrego e o pão branco. O porco salgado e as escudelas de galinha ficaram abandonados na mesa. Bernat comeu de pé, um pouco afastado, e olhando de soslaio para o grupo de mulheres, entre as quais se escondia Francesca. Mais vinho!, exigiu o senhor de Bellera, levantando o copo. Estanyol, gritou de repente, procurando-o por entre os convidados, da próxima vez que me pagues o censo das minhas terras, terás de me trazer vinho como este, e não a zurrapa com que o teu pai me andou a enganar até agora. Bernat escutou-o, atrás dele. A mãe de Francesca aproximava-se com mais um jarro. Estanyol, onde estás tu? O cavaleiro bateu na mesa quando a mulher aproximava o jarro para lhe encher de novo o copo. Algumas gotas de vinho salpicaram a roupa de Llorenç Bellera. Bernat já se aproximara dele. Os amigos do senhor riam-se da situação e Pere Esteve levou as mãos ao rosto. Velha estúpida! Como te atreves a entornar o vinho. A mulher baixou a cabeça em sinal de submissão e, quando o senhor fez menção de lhe dar uma bofetada, fugiu e caiu por terra. Llorenç Bellera voltou-se para os amigos e desatou a rir, vendo como a anciã se afastava, gatinhando, Depois, recuperou a seriedade e dirigiu-se a Bernat: ai estás aqui, Estanyol. Vê só o que fazem as velhas inúteis. Por acaso pretendes ofender o teu senhor? Serás tão ignorante que não sabes que os convidados devem ser atendidos; pela senhora da casa? Onde está a noiva?, perguntou, passeando o olhar pelo terreiro. Onde está a noiva?, gritou, perante o silêncio de Bernat». In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

Mistérios Sombrios do Vaticano. Paul Jeffers. «… depois de ter sobrevivido a invasões bárbaras, perseguições, inúmeras pragas e cismas ocasionais, o papado agora enfrenta um problema da era moderna: um profundo aperto financeiro»

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Os Tesouros do Vaticano
«(…) Centro geográfico da Igreja Católica Romana, o Vaticano possui algumas das mais preciosas obras de arte do mundo, e muitos acreditam que seja a organização mais rica do planeta. Num livro sobre os tesouros do Vaticano, The Vatican Billions (Os bilhões do Vaticano), Avro Manhattan observou que a Igreja Católica é o maior poder financeiro, maior acumuladora de riquezas e a maior proprietária de terras actualmente. Possui mais riquezas materiais do que qualquer outra instituição, corporação, banco, truste gigantesco, governo ou estado do mundo inteiro. O papa, como governante desse imenso acúmulo de riquezas, é, consequentemente, o indivíduo mais rico do século XX. Ninguém tem condições de dizer precisamente quanto ele vale em termos de bilhões de dólares. Segundo o autor, a Santa Sé tinha grandes investimentos com os Rothschild na Inglaterra, França e Estados Unidos, e no Hambros Bank e Credit Suisse em Londres e Zurique. Nos Estados Unidos, tem holdings com o Morgan Bank, Chase-Manhattan Bank, First National Bank of New York, Bankers Trust Company e outros. Entre seus investimentos estão bilhões de acções das mais poderosas corporações internacionais, como Gulf Oil, Shell, General Motors, General Electric, IBM e outras. Segundo uma estimativa conservadora, a quantidade de investimentos é superior a 500 milhões de dólares só nos Estados Unidos. Num comunicado publicado recentemente, a rquidiocese de Boston declarou activos no valor de US$ 635.891.004, o que representava 9,9 vezes o seu passivo. Com isso restava um património líquido de US$ 571.704.953. Não é difícil descobrir a riqueza absolutamente impressionante da igreja, disse Manhattan, quando somamos as riquezas das vinte e oito arquidioceses e 122 dioceses nos Estados Unidos, algumas das quais são ainda mais ricas que a de Boston. Pode-se ter uma ideia das propriedades e outras formas de riqueza controladas pela Igreja Católica pela declaração de um membro da Conferência Católica de Nova Iorque, segundo a qual sua igreja provavelmente só perde para o governo dos Estados Unidos no volume de compras anuais.
Essas estatísticas indicavam que a Igreja Católica Romana, uma vez calculados todos os activos, era o corrector mais incrível do mundo. A Santa Sé, independentemente do papa que estivesse ocupando o cargo, foi se voltando cada vez mais para os Estados Unidos. Um artigo do Wall Street Journal disse que os negócios financeiros do Vaticano só nos Estados Unidos eram tão grandes, que frequentemente envolviam a compra ou venda de ouro em lotes de um milhão de dólares ou mais de cada vez. Segundo a United Nations World Magazine, o tesouro do Vaticano chegava a vários bilhões de dólares em ouro. Boa parte dele estava armazenada em lingotes no Federal Reserve Bank dos Estados Unidos, e o restante em bancos da Suíça e Inglaterra. A riqueza do Vaticano apenas nos Estados Unidos era maior do que a das cinco corporações mais ricas do país. Mas, em 1987, a revista Fortune noticiou que apesar de todo o seu esplendor, o Vaticano está praticamente falido. O artigo dizia: depois de ter sobrevivido a invasões bárbaras, perseguições, inúmeras pragas e cismas ocasionais, o papado agora enfrenta um problema da era moderna: um profundo aperto financeiro. Os custos da burocracia crescente do Vaticano superam em muito os seus recursos. No ano anterior, a Santa Sé captou 57,3 milhões de dólares de fontes tão diversas quanto taxas de cerimónias; receitas de publicações, anúncios em jornais e vendas de videocassetes; e modestos ganhos de investimento de 18 milhões de dólares. Com investimentos da ordem de 500 milhões de dólares, o Vaticano controlou menos recursos financeiros do que muitas universidades norte-americanas. Na Primavera de 2008, o Vaticano informou que seus contabilistas haviam registado uma perda em suas contas anuais pela primeira vez em quatro anos. O relatório dizia que a Santa Sé perdera quase 10 milhões de euros depois de investir em dólares antes da queda acentuada da moeda norte-americana em relação ao euro. E o buraco no orçamento teria sido ainda pior, disse uma fonte, se a Igreja não tivesse elevado os contratos das suas propriedades em Roma, sobre as quais não paga impostos ao estado italiano.
Os aumentos nos contratos teriam provocado grande polémica em Roma, pois a Igreja teria ameaçado despejar os inquilinos que não pagassem. O prejuízo também foi atribuído ao péssimo desempenho dos meios de comunicação do Vaticano, incluindo um jornal e uma estação de rádio, que haviam perdido aproximadamente 15 milhões de euros no ano anterior. Em 2007, o Vaticano reportou uma receita geral de 236,7 milhões de euros, enquanto as despesas totalizaram 245,8 milhões de euros. Boa parte da receita do Vaticano vem de doações de membros da Igreja em todo o mundo. Os católicos norte-americanos contribuem com cerca de 80 milhões de dólares. Especialistas avaliaram que a riqueza total do Vaticano em 2008 superava os 5 bilhões de euros». In Paul Jeffers, Mistérios Sombrios do Vaticano, 2012, tradução de Elvira Serapicos, Editora Jardim dos Livros, 2013, ISBN 978-856-342-018(7)-3(6).

Cortesia de EJLivros/JDACT

sábado, 27 de agosto de 2016

A Mancha Humana. Philip Roth. «… fez a confidência acerca de Faunia Farley e do segredo de ambos foi, por curiosa coincidência, aquele em que o segredo de Clinton se tornou conhecido nos mais ínfimos…»

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«Foi no Verão de 1998 que o meu vizinho Coleman Silk, que, antes de se reformar dois anos antes, fora professor de estudos clássicos no Athena College durante vinte e tal anos, além de ter servido dezasseis como reitor da faculdade confidenciou que, aos 71, tinha um caso com uma empregada de limpeza de 34, que trabalhava na universidade. Duas vezes por semana também fazia a limpeza do posto dos correios rural, uma pequena construção de madeira que poderia ter abrigado uma família Okie dos ventos da Dust Bowl (Okie era o nome dado na época, em geral depreciativamente, aos trabalhadores agrícolas migrantes, sobretudo de Oklahoma; Dust Bowl é uma região que os ventos, as tempestades de areia e a seca tornam árida) nos anos 30 e que, solitária e desamparada defronte da estação de serviço e do armazém-geral, hasteia abandeira americana no cruzamento das duas estradas que assinala o centro comercial desta cidade da encosta da montanha. Coleman vira-a pela primeira vez a lavar o chão do posto dos correios quando lá fora ao fim de um dia, poucos minutos antes da hora de encerramento, buscar a sua correspondência. Era uma mulher alta, magra e angulosa, com o cabelo louro a encanecer puxado para trás e preso num rabo-de-cavalo e o género de feições duramente vincadas que costumamos relacionar com as donas de casa dominadas pela igreja e sobrecarregadas de trabalho que sofreram as agruras dos duros primeiros tempos da Nova Inglaterra, colonas austeras, tolhidas pela moral vigente e obedecendo-lhe. Chamava-se Faunia Farley e, fossem quais fossem os sofrimentos que suportava, escondia-os atrás de um daqueles inexpressivos rostos ossudos que não escondem nada e denunciam uma imensa solidão. Vivia num quarto numa herdade leiteira local, onde ajudava na ordenha para pagar a renda. Frequentara a escola secundária durante dois anos.
O Verão em que Coleman me fez a confidência acerca de Faunia Farley e do segredo de ambos foi, por curiosa coincidência, aquele em que o segredo de Clinton se tornou conhecido nos mais ínfimos e mortificantes pormenores, nos mais ínfimos pormenores reais em que tanto a realidade como a mortificação supuravam da pungência dos dados específicos. Não tínhamos uma estação assim desde que alguém descobrira, por acaso, a nova Miss América nua num número antigo da Penthouse, em fotografias que a mostravam em elegantes poses de joelhos e de costas e tinham forçado a jovem a abdicar da coroa e a tornar-se uma grande estrela pop. O Verão de 98 foi, em Nova Inglaterra, um verão de calor e sol intensos; no basebol, um verão de combate mítico entre um deus do home-run que era branco e outro que era acastanhado, e na América o verão foi caracterizado por um enorme regabofe de devoção, um regabofe de virtude, quando ao terrorismo, que destronara o comunismo como ameaça predominante à segurança do país, sucedeu o brochismo e um presidente viril, vigoroso e de meia-idade e uma impetuosa e enfeitiçada funcionária de 21 anos, desaforados no Salão Oval como dois putos adolescentes num parque de estacionamento, ressuscitaram a mais antiga paixão comunal da América, historicamente talvez, até, o seu prazer mais pérfido e subversivo: o êxtase da beatice hipócrita. No Congresso, na imprensa e nas televisões os farisaicos paladinos encartados da moral e dos bons costumes, sôfregos por censurar, deplorar e punir, apareciam em todo o lado numa estridente campanha moralizadora: todos eles num furor deliberado e com aquilo que Hawthorne (que, na década de 1860, morava a relativamente poucos quilómetros da minha porta) identificou, no país incipiente de há muito tempo, como o espírito persecutório; todos eles ansiosos por porém em prática os cáusticos rituais de purificação que excisariam a erecção do ramo executivo, tornando assim as coisas suficientemente cómodas e seguras para que a filha de 10 anos do senador Lieberman pudesse voltar a ver televisão com o seu embaraçado papá. Não, quem não viveu no ano de 1998 não sabe o que é a indignação hipócrita. O colunista conservador William Buckley escreveu: quando Abelardo o fez, foi possível impedir que voltasse a acontecer, insinuando assim que a prevaricação do presidente, aquilo a que, noutro lugar, Buckley chamou a carnalidade incontinente de Clinton, poderia ser mais justamente punida com algo que não fosse tão incruento como a impugnação, mas, antes, com o castigo do século XII aplicado ao cónego Abelardo pelos companheiros de faca em punho do colega eclesiástico daquele, o cónego Fulberto, por ter seduzido e casado secretamente com a sobrinha deste, a virgem Heloísa». In Philip Roth, A Mancha Humana, 2000, Publicações dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-206-034-9.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

Na Esfera do Mundo. António Borges Coelho. «O pessoal dirigente e militar ficava sujeito a três anos de serviço pago. Levavam madeira lavrada e acertada para na India montar duas galés e um bergantim»

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Cochim, o cais da pimenta
«(…) Duarte Pacheco Pereira regressou a Lisboa no dia l1 de Junho de 1505, integrado na sexta armada, comandada por Lopo Soares Albergaria. Eram doze naus grossas carregadas de pimenta. Manuel recebeu Duarte Pacheco Pereira como um herói romano. Na procissão do triunfo, da Sé a São Domingos. Caminhou debaixo do pálio ao lado do rei. As procissões estenderam-se ao Algarve e às principais cidades e vilas. O mundo urbano e marítimo aprovava a aventura da Ásia. Veneza mobilizava secretamente o novo sultão do Egipto para a luta contra os portugueses. Estrangulavam a rota de Alexandria. Em 1505 chegou a Lisboa, vindo de Roma, onde se avistara com o papa, frei Mauro, monge de Santa Catarina do Monte Sinai. Se o rei Manuel I não desistisse, o sultão do Egipto ocuparia os Lugares Santos e proibiria as peregrinações e o culto cristão. Em resposta ao apelo de frei Mauro, Manuel I enviou embaixadores a Henrique VII de Inglaterra e a França, Flandres e Roma. Propunha-lhes uma nova cruzada com destino a Alexandria e daí para a Terra Santa. Pelo seu lado, a armada portuguesa da Índia viria pelo Mar Vermelho até ao Suez.
Boas contas se faziam em Lisboa, ainda não sabiam o que era o Mar Vermelho. Pelo seu lado, os reis indianos e os mercadores mouros instavam com o sultão do Egipto: levante uma armada no Suez. Juntos, expulsaremos os portugueses da Índia. Quando frei Mauro chegou a Lisboa, já a sétima esquadra, a de Francisco Almeida, partira com 22 velas e 1500 homens de armas, gente limpa, em que entravam muitos fidalgos e 400 moradores registados nos livros do rei. Manuel I delegava os seus poderes em Francisco Almeida que na Índia assumiria o título de vice-rei. O pessoal dirigente e militar ficava sujeito a três anos de serviço pago. Levavam madeira lavrada e acertada para na India montar duas galés e um bergantim. E ferro, breu, pregos, alcatrão, linho, lonas, panos de Vila do Conde, âncoras, fateixas, remos, armas e muita artilharia e munições. Em cada nau, havia botica bem provida, barbeiro sangrador, mestre para curar e dois capelães para confessar.
João Nova, alcaide pequeno de Lisboa e comandante da terceira armada que se dirigiu à Índia, repetia a viagem e um Lopo Deus era simultaneamente capitão e piloto. Embarcaram carpinteiros, calafates, ferreiros, cordoeiros e degredados que viam perdoada parte substancial dos degredos. Os cronistas esqueceram-se dos escravos. Assalto a Quíloa e a Mombaça O ouro de Quíloa e Sofala aguçava a gula de Lisboa. Dobrado o Cabo da Boa Esperança, os nautas lusos fundearam, a 22 de Julho, em Quíloa, a cidade do ouro, ligada pelo comércio e pelos laços de sangue às cidades do Mar Vermelho, do Golfo Pérsico, de Cambaia e da Índia. Francisco Almeida mandou um recado ao rei: pague as párias a que foi obrigado por Vasco da Gama. Não quero ser vassalo do rei de Portugal.
Os atacantes desembarcaram ao som das bombardas e das trombetas. As ruas estreitas estavam desertas. Os moradores esperavam-nos nos eirados das casas com pedras e setas. Espingardeiros e besteiros lusos despejaram-nos das janelas e entraram nos eirados. O rei fugiu. Substituíram-no pelo mouro que ficara refém de Vasco da Gama. Puseram-lhe na cabeça a coroa que destinavam ao rei de Cochim. Usaram-na e levaram-na. De Quíloa seguiram para Mombaça. Um português renegado gritava de terra: estes não são os de Quíloa que se entregaram ao som das bombardas. Na madrugada de Nossa Senhora de Agosto, os assaltantes, organizados em três corpos, atacaram. O primeiro tomou as naus de Cambaia, fundeadas no porto. Os outros dois avançaram pelas ruas estreitas. Dos terraços e janelas choviam pedras que, favorecidas pelo declive, saltitavam pelas ruas abaixo». In António Borges Coelho, Na Esfera do Mundo, Editorial Caminho, 2013, ISBN 978-972-212-642-7.

Cortesia Caminho/JDACT

Tópicos para a História da Civilização. Ideias no Gharb al-Ândalus. António B. Coelho. «O escrito foi lido em todos os púlpitos. Deus destrói nações por coisas como as que trouxe este grupo malvado, que adultera a tradição…»

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Filósofos Orientais
«(…) Ibn Masarra, Muhammad b. Abd Allah b. Masarra Al-Djabati (Córdova 883-Córdova 931). Seu pai Abd Allah ibn Masarra (+Meca 899) introduziu o mutazilismo na península e transmitiu ao filho os seus ensinamentos. Este, aos dezassete anos, retirou-se com os seus discípulos para a Serra de Córdova. Suspeito de heresia, partiu para o Oriente. Deteve-se em Meca e Medina. Regressou a Córdova durante o governo de Abderramão III e aí morreu rodeado de discípulos. Nenhum dos seus escritos chegou aos nossos dias. Para reconstituir a sua doutrina, temos de recorrer a Said al-Andalusi, a Ibn Hazm e a Ibn Al-Arabi, o seu mais conhecido herdeiro, por intermédio do movimento dos Muridines e do seu imã Ibn al-Kasi. Baseado nas indicações dos diferentes autores, Asin Palacios delineou as possíveis linhas do seu ensino e prática ascética. No seguimento do Pseudo-Empédocles, defendeu que o ser espiritual está sob a influência do princípio do amor puro enquanto o corpo, como todos os seres corporais, está submetido à acção da discórdia. A filosofia provoca na alma o desejo de partir deste mundo porque a alma não pertence cá abaixo, está prisioneira do corpo. O fim do homem é a purificação e a libertação da alma. Os caminhos para atingir esse fim são a pobreza voluntária, a mortificação, o silêncio e a prática da humildade, do perdão das ofensas, do amor dos inimigos. O exame quotidiano de consciência elevava a alma à estação mística da Sinceridade. Ibn Hayyan conservou-nos, num contexto condenatório, algumas informações sobre a doutrina de Ibn Masarra. A seita do suspeitoso Muhammad b. Abdallah b. Masarra, que aparentava piedade ocultando secretos desígnios e embustes de sedição, tinha-se propagado entre a gente no começo do reinado do califa an-Nasir (Abderramão III). Atraía-os graças ao ascetismo e piedade que aparentava, sendo mui rigoroso nos méritos do crente e negando a benevolência divina. Apartava-se das gentes e preferia afastar-se delas, aferrando-se na sua propriedade numa alqueria de Córdova… Com a sua doçura de expressão, solidez dialéctica, penetração exacta dos conceitos e variados conhecimentos arrebatava as mentes sem cuidar do caminho direito… Compôs livros excelentes, difundiu acertadas epístolas e elaborou artigos devastadores cuja intenção oculta cobriu com os véus do equívoco, difundindo o cumprimento das promessas e ameaças divinas e a falta de autoridade dos hadices sobre a intercessão, dando por inverosímil a benevolência e a misericórdia… Dispôs as Mudawwana maliquitas, pilar da Suna, por concomitâncias, dividindo-as, ao nosso querer, com a mais clara traça e criando secções extratadas excelentes, declaradas unanimemente, até pelos seus opositores, como melhores, mais resumidas e claras que qualquer outro compêndio da dita obra. Graças à solidez da sua extensa ciência e à sua paciência para confundir o adversário atraía e capturava os corações.
Os seguidores de Ibn Masarra foram condenados pelo califa Abderramão III que mandou ler uma proclamação em todos os pontos do Andaluz. Deus, exaltada seja a sua acção e glorificada a sua menção, fez do Islão a melhor religião, sustendo-a, enaltecendo-a e não aceitando nem querendo outra para seus servos, pois diz em sua excelente revelação: quem siga outra religião que não o Islão não se aceitará… Fostes a melhor nação que saiu da gente, pois ordenais o bom e condenais o reprovável. Ele vos estatuiu a religião que recomendara a Noé e que te temos inspirado e que recomendamos a Abraão, Moisés e Jesus: cumpri a religião e não discrepeis dela… Empenharam-se na sua ignorância, perderam-se no seu extravio e deram de cabeça no ódio da comunidade pia, professando aborrecê-la, declarando lícito o derramamento do seu sangue e justificável a violação de suas esposas e o cativeiro dos seus filhos: o ódio apareceu nas suas bocas, mas maior era o oculto em seus corações. O escrito foi lido em todos os púlpitos. Deus destrói nações por coisas como as que trouxe este grupo malvado, que adultera a tradição, ataca o grande Corão e os hadices do fiel Profeta. E Ibn Hayyan acrescenta. Al-Farabí, na sua obra sobre os sábios do Andaluz, diz dele que era grande conhecedor de história e das versões das obras e de variados conhecimentos: filósofo, sábio, médico, astrónomo, astrólogo, literato excelente, poeta, orador, cuja ciência era acompanhada pela habilidade dialéctica e domínio da gramática e o vocabulário do árabe… É sobejamente conhecido que a opinião de Ibn Masarra se separava de muitas crenças dos sunitas». In António Borges Coelho, Tópicos para a História da Civilização e das Ideias no Gharb al-Ândalus, Instituto Camões, Colecção Lazúli, 1999, IAG-Artes Gráficas, ISBN 972-566-205-9.

Cortesia de I.Camões/JDACT

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Os filhos do Graal. Peter Berling. «Quanto tempo durará isso?, falou Esclarmonde, dirigindo-se novamente ao visconde. O comandante da fortaleza parecia mergulhado em profunda reflexão. Frederico não nos abandonará à nossa sorte...»

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Montségur. 1243
«(…) Leve-a você mesmo! Se continuar soprando à medida que subir para o castelo, e se a Virgem Santíssima lhe emprestar seu alento, não se apagará! Como o legado não fizesse o gesto de aceitar o ramo, o senescal devolveu-o à fogueira e retirou-se. Seus súbditos, já acostumados a tais rompantes, reprimiam o riso a duras penas. Com o entardecer, eram acesas fogueiras por todo lado. As cantineiras enchiam os caldeirões, e os soldados faziam girar a carne trespassada; haviam conseguido muitas peças com a caça nos bosques de Corret e o saque das fazendas de Taulat. Não fosse essa sorte grande, teriam de conformar-se com as glandes de carvalho e com as castanhas, e o pão seco que os forrageadores repartiam. A tropa compunha-se em sua maioria de mercenários. Os cavaleiros templários, seus senhores, eram nobres procedentes do norte do país e que não viam de que forma se opôr ao desejo de seu soberano Luís; havia os que lá estavam para conseguir favores do rei; e também simples aventureiros que, depois de perderem seus feudos e benefícios, prometiam a si mesmos algum lucro procedente dos saques ou outras vantagens, já que além do mais a Igreja prometera, a cada participante, o perdão por seus pecados. As muralhas do Montségur, cujo flanco mais pronunciado formava um ângulo obtuso bem em cima do acampamento, douravam-se com os raios de sol em seu ocaso.
Quantos devem ser?, perguntou Esclarmonde Perelha, a jovem filha do senhor e dono do castelo, que, se aproximando sem medo algum da encosta da muralha, deteve-se para observar o vale. Seis mil? Dez mil? O visconde Pierre-Roger Mirepoix, cunhado de Esclarmonde e comandante da fortaleza, sorriu. Isso não deverá preocupar-nos, enquanto eles não forem capazes de fazer subir mais de cem nestas muradas. Mas vão nos deixar morrer de fome... Até o momento, cada um desses senhores armou a barraca como bem quis, bem separados uns dos outros, e Mirepoix apontou na direcção do prado, montanha e vales. Essa arrogância estúpida, aliada a um território acidentado e pouco visível e à escuridão dos bosques, para os que temem, têm para nós uma consequência favorável: o cerco a que pretendem submeter-nos tem mais buracos que o queijo dos Pirenéus que recebemos fresco toda semana. Era evidente que desejava fazer-se de importante. O nome de baptismo de Esclarmonde o obrigava a considerar o exemplo daquela outra cátara, a mais famosa de todas, chamada também irmã de Parsifal, que há quarenta anos restaurara e reabilitara a fortaleza de Montségur. Como ela, a jovem Esclarmonde era uma parfaite, uma virgem pura. Se a montanha da salvação não resistisse, correria o maior perigo. Mas não parecia gostar de riscos. Jamais conhecerão o Santo Graal, retrucou em voz baixa, externando assim sua única preocupação ao visconde
Jamais cairá em suas mãos. Duas crianças pequenas tinham chegado vagarosamente. O rapaz rodeou com seus bracinhos as pernas da jovem, enquanto a menina, de estatura pequena e delicada, aproximou-se com bastante atrevimento da encosta do muro. Lançando uma pedra ao abismo, escutou com atenção e entusiasmo o barulho que anunciava o fim de seu voo. Foi esse barulho que atraiu a atenção do comandante. Vou proibi-los de vir até aqui em cima, exclamou enquanto já via a aia subindo pela íngreme escada de pedra que seguia pelo pátio interior do castelo. Depois de dar uma leve palmada na menina, agarrou-a pelo pescoço e entregou-a à criada. Esclarmonde acariciou o cabelo do rapaz, que seguiu, obediente, à menina. Quanto tempo durará isso?, falou Esclarmonde, dirigindo-se novamente ao visconde. O comandante da fortaleza parecia mergulhado em profunda reflexão. Frederico não nos abandonará à nossa sorte..., mas sua voz não conseguia esconder de todo a dúvida. O germano não duvidaria em pisotear o que fosse de mais sagrado, replicou a menina com cepticismo, mas sem amargura, em seu próprio proveito ou de sua estirpe. Não devem confiar nele, pelo bem dessas crianças!, e lançou um olhar em direcção às duas crianças, que faziam o quanto podiam para dificultar a descida da aia pela íngreme escada de pedra. Mas posso dizer com toda certeza que existe um poder superior, e posso jurar-lhe, Esclarmonde, de que eles se salvarão! Venha aqui! Aproximou-se do lado oriental, onde estava o observatório coberto. Por este lado, onde o rio Lasset atravessa os montes Tabor, onde suas águas cortam o desfiladeiro profundo, não há vigilância nem pode haver. Esclarmonde uniu as palmas das mãos para saudar os anciãos, vestidos de branco, parfaits como ela, que da plataforma observavam o curso dos astros cujas luzes iam se acendendo. Além da pouca disciplina que caracteriza nossos inimigos, prosseguiu Mirepoix, favorece-nos também o facto de que muitos dos mercenários, no fundo, simpatizam connosco. Por exemplo, os de Camón, que são antigos vassalos de meu pai, e que estão acampados exactamente debaixo do Roc de la Tour, buscava assim dar ânimo à jovem. Enquanto esta rocha estiver em nossas mãos, a comunicação com o mundo exterior não será interrompida, e assim sempre poderemos ter esperanças...». In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

Os filhos do Graal. Peter Berling. «Faidits!, resmungou o arcebispo. Traidores infiéis e rebeldes! Sem falar do senhor feudal desta região, o visconde de Foix, a quem não pareceu sequer necessário apresentar-se para cumprimentar-nos»

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Montségur. 1243
«Montségur é uma rocha cnica de encostas escarpadas que´se ergue de uma planície tortuosa, a ponto de à primeira vista parecer uma ilusão longínqua, qualquer coisa não pertencente a este mundo. Parece estar lá para acolher os exércitos de anjos que, de sua perspectiva seráfica, talvez sejam capazes de descobrir aquele palmo de patamar plano onde possam apoiar uma escada celestial. O invasor humano que se aproxima a partir do norte parece ter o monte ao alcance da mão, como um capacete que alguém retirou da cabeça, mas que, depois, uma mão mágica vai elevando mais e mais à medida que os pés do caminhante se aproximam de algum de seus flancos. Caso chegue do leste, abandonando-se ao engano de um suave declínio da montanha, o escudo erguido do Roc de la Tour o fará retroceder, quiçá arrojar-se sem mais nem menos à espumosa garganta do rio Lasset, tão profundamente cortada na rocha que de lá em baixo sequer se vê o cume da montanha e menos ainda o castelo. Apenas pelo sudoeste se oferece, após ultrapassar um declive harmonioso, uma encosta coberta por bosque; mas, no momento em que o alpinista arquejante abandone a protecção da mata selvagem, verá que a parede restante, composta por uma pedra nua, ascende quase verticalmente. Verá, então, os muros da fortaleza assomarem-se por cima dele, seu coração se entregará a um galope selvagem, sua respiração se tornará mais difícil, o ar escasseará; no alto dos Pirenéus, uma luz violeta e azulada iluminará o caminho, mostrando seus picos que, naquele verão de San Martin, de 1243, apareciam já cobertos de neve. O vento sacode ruidosamente as folhas do buxal. O invasor não chegará a ouvir o silvo da flecha que lhe abrirá a garganta deixando-o pregado ao tronco de um arbusto, e o sangue brotará da ferida como faria a fonte refrescante que tanto desejava encontrar durante a subida. Acompanhando as batidas de seu coração, que desfalece, o sangue continuará jorrando, até que as acinzentadas rochas lá de cima confundam-se com as muralhas, enchendo-se de uma luz clara como o céu, e os sentidos o abandonarão antes que caia de costas em direcção ao verde-escuro do bosque, do qual nunca deveria ter se afastado. A ordem era montar acampamento no prado cuja suave encosta situava-se a uma boa distância do penhasco, suficientemente longe para evitar as bestas. No centro do acampamento foram armadas as barracas para os dois capitães: a de Pierre Amiel, arcebispo de Narbona e enviado do papa que, possuído de um feroz fanatismo, tinha por objectivo destruir aquela sinagoga de Satanás; e, a uma conveniente distância, embora sem especial intenção, a de Hugues des Areis, senescal de Carcassone, a quem o rei nomeara chefe militar da missão. Como fazia a cada manhã, o senescal havia oficializado a missa diante do exército completo, embora tivesse preferido assaltar rapidamente a fortaleza dos hereges, encabeçando seus homens, munidos de escadas e torres de assalto; e novamente ajoelhara-se diante de sua barraca, também como sempre, enquanto tocavam os sinos do Angelus, rodeado dos três capelães de campanha, entre os quais William de Roebruk. O arcebispo, considerando que rezavam muito e lutavam pouco, esperou com enorme impaciência o fim daquela prece: deveriam buscar o bem de vossas almas não tanto na paz com Deus, mas na luta contra seus inimigos! O senescal preferiu ainda não levantar o joelho, que mantinha fincado na terra, e permaneceu com os olhos fechados e as mãos juntas, os punhos apertados até mostrar os nós dos dedos, mas não respondeu. Já faz muito tempo que o conde de Tolosa sustenta essa espécie de cerco atenuado, e meu senhor, o papa... Eu sirvo ao rei de França, interrompeu-lhe nesse instante Hugues des Areis, que tinha conseguido restabelecer seu equilíbrio interior e não hesitou em fazer sentir a seu concorrente sacerdotal, sem perturbar-se nem um pouco, o desgosto que lhe provocava sua presença, e, se Deus assim o quiser, executarei fielmente suas ordens: conquistarei o Montségur!

Levantou-se e dispensou seus capelães com um gesto brusco de mão. A perseguição dos hereges que tanto afecta seus corações deve seguir submetida à primazia de minhas ordens. Esperar que o conde de Tolosa cumpra essa tarefa revela uma pobre visão política, posto que os defensores do castelo são seus antigos vassalos, inclusive em muitos casos seus parentes próximos. Faidits!, resmungou o arcebispo. Traidores infiéis e rebeldes! Sem falar do senhor feudal desta região, o visconde de Foix, a quem não pareceu sequer necessário apresentar-se para cumprimentar-nos. O senescal iniciou a retirada: faz tempo que designou sucessor: Guy de Levis, filho do companheiro de armas do grande Monfort. Pretende-se ser este que lhe tire do fogo... Pierre Amiel seguiu-o bem de perto, espumando de raiva. Falam de fogo? Isso é o que vocês devem prender lá em cima: incendeiem esse ninho de víboras malignas, e que a fumaça e as chamas os carreguem ao Inferno! O senescal, muito calmo, inclinou-se para tirar um ramo que queimava numa das fogueiras. A tocha da Inquisição (maldita)!, disse, ironizando, entregando a madeira que ardia ao surpreso arcebispo». In Peter Berling, Os filhos do Graal, 1991, Editorial Presença, colecção Grandes Narrativas, 1996, ISBN 978-972-231-982-9.



Cortesia de EPresença/JDACT

As Cruzadas vistas pelos Árabes. Amin Maalouf. «… reina nesses tempos de incerteza um estranho personagem a que chamam Danishmend, “o Sábio”, um aventureiro de origem desconhecida que ao contrário dos emires turcos, que na maioria eram analfabetos, é instruído nas mais diversas ciências»

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A Invasão. 1096-1100
«(…) Embriagado pelo sucesso, Kilij Arslan quer ignorar as informações que se sucedem, no Inverno seguinte, a respeito da chegada de novos grupos de franj em Constantinopla. Para ele, e mesmo para os mais sábios de seus emires, não há mais nada com que se preocupar. Se outros mercenários de Aléxis ousassem ainda transpor o Bósforo, seriam feitos em pedaços como aqueles que os precederam. No espírito do sultão, é tempo de voltar às preocupações cruciais do momento, isto é, à luta sem mercê que trava desde sempre contra os príncipes turcos, seus vizinhos imediatos. E ali, e em nenhum outro lugar, que será decidido o destino de seu domínio. Os confrontos com os rum ou seus estranhos auxiliares franj nunca passarão de um intermédio. O jovem sultão está bem colocado para sabê-lo. Não foi num desses intermináveis combates de chefes que seu pai Suleiman perdeu a vida em 1086? Kilij Arslan tinha então apenas sete anos, e deveria ter assumido a sucessão sob a regência de alguns emires fiéis, mas fora afastado do poder e levado para a Pérsia sob pretexto de que sua vida corria perigo. Adulado, cercado de cuidados, servido por uma legião de escravos atenciosos, ainda que estreitamente vigiado, com interdição formal de visitar seu reino. Seus hospedeiros, ou melhor, seus carcereiros, não eram senão os membros de seu próprio clã: os seldjúcidas.
Se há, no século XI, um nome que ninguém ignora, das fronteiras da China ao longínquo território dos franj, é esse. Vindos da Ásia Central com milhares de cavaleiros nómades de longos cabelos trançados, os turcos apossaram-se em alguns anos de toda a região que se estende do Afeganistão ao Mediterrâneo. Desde 1055, o califa de Bagdad, sucessor do Profeta e herdeiro do prestigioso império abássida, e apenas um boneco dócil em suas mãos. De Ispahan a Damasco, de Niceia a Jerusalem, seus emires ditam a lei. Pela primeira vez em três seculos, todo o Oriente muçulmano está reunido sob a autoridade de uma única dinastia que proclama sua vontade de devolver ao Islão sua glória passada. Os rum, esmagados pelos seldjúcidas em 1071, nunca se recuperaram. A Ásia Menor, a mais vasta de suas províncias, foi invadida; sua própria capital não esta mais em segurança; seus imperadores, entre os quais o próprio Alexis, não cessam de enviar delegações ao papa de Roma, chefe supremo do Ocidente, suplicando-lhe que convoque a Guerra Santa contra esse ressurgimento do Islão.
Kilij Arslan não se sente pouco orgulhoso por pertencer a uma família tão prestigiosa, mas também não se ilude quanto a aparente unidade do império turco. Entre os primos seldjúcidas não se conhece solidariedade alguma: é preciso matar para sobreviver. Seu pai conquistou a Ásia Menor, a vasta Anatólia, sem a ajuda de seus irmãos, e foi por ter querido estender-se para o sul, em direcção à Síria, que ele foi morto por um de seus parentes. E, enquanto Kilij Arslan era mantido à força em Ispahan, o domínio paterno foi despedaçado. Quando, em fins de 1092, o adolescente foi solto graças a uma contenda entre seus carcereiros, sua autoridade não se exerce além das muralhas de Niceia. Ele tinha então apenas 13 anos. Depois, foi graças aos conselhos de emires do seu exército que pode, por meio da guerra, do crime ou da astúcia, recuperar uma parte do legado paterno. Hoje, ele pode se gabar de ter passado mais tempo sobre a sela de seu cavalo do que em seu palácio. No entanto, quando chegam os franj, nada ainda está definido. Na Ásia Menor seus rivais continuam poderosos, mesmo que, felizmente para ele, seus primos seldjúcidas da Síria e da Pérsia estejam mergulhados em seus próprios conflitos.
Notadamente, a leste, nas alturas desoladas do planalto da Anatólia, reina nesses tempos de incerteza um estranho personagem a que chamam Danishmend, o Sábio, um aventureiro de origem desconhecida que ao contrário dos emires turcos, que na maioria eram analfabetos, é instruído nas mais diversas ciências. Ele vai em breve tornar-se herói de uma epopeia célebre, intitulada A Gesta do Rei Danishmend, que descreve a conquista de Malatya, uma cidade arménia situada a sudeste de Âncara e cuja queda é considerada pelos autores da narrativa como a curva decisiva da islamização da futura Turquia. Nos primeiros meses de 1097, quando se deu a chegada em Constantinopla de uma nova expedição franca, era anunciada a Kilij Arslan que a batalha de Malatya já se abrira. Danishmend cerca a cidade, e o jovem sultão recusa a ideia de que este rival, que se aproveitou da morte de seu pai para ocupar todo o Nordeste da Anatólia, possa alcançar uma vitória tão prestigiosa. Determinado a impedi-lo, dirige-se à frente de seus cavaleiros para as cercanias de Malatya e instala seu acampamento próximo ao de Danishmend a fim de intimidá-lo. A tensão aumenta, as escaramuças multiplicam-se, cada vez mais mortais». In Amin Maalouf, As Cruzadas vistas pelos Árabes, 1983, Colecção História Narrativa, nº 38, Reimpressão, Edições 70, Ensaio, 2016, ISBN-978-972-441-756-1.

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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Afonso. 4º conde de Ourém. Alexandra Barradas. «Barcelona onde esteve seis semanas não seria uma novidade para ele. O relato assinala o local onde terá ficado instalado: ... na praçaa de Santa Anna, que era a paa[r] donde pousava o Conde ... No actualmente denominado Bairro Gótico, a toponímia regista uma Rua de Santa Ana»

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«(…) Esta viagem pela península itálica que levou o conde de Ourém até Basileia permitiu-lhe contactar com um ambiente completamente diferente daquele que tinha visto na Flandres. Frequentemente, o relato assinala conflitos latentes e situações de insegurança, demonstrativos do ambiente instável que se vivia nalgumas cidades-estado. E esta luta travava-se não só no campo de batalha, mas também nos edifícios públicos de reunião e administração comunal, cuja construção era promovida e paga pelas associações comerciais e/ou artesanais, e nos que o senhor patrocinava, paços, capelas privadas ou outras construções, ricamente decoradas com pinturas e esculturas. Naqueles territórios, no início do século XV, uma cultura mecenática estava em germinação e dava já passos seguros no sentido de uma atitude de valorização e enriquecimento cultural e artístico que foi levada a cabo, a partir do início do século XV, por inúmeros encomendadores privados, naquela zona tão particular da Europa mediterrânica.
Tudo o que ficou assinalado nos textos e que expressamente é referenciado, constitui um conjunto bastante interessante de obras de arquitectura que o conde de Ourém viu: vários paços régios e outros de natureza mais modesta, estaus, castelos e alcáçovas e edifícios de carácter religioso: Catedral de Tarragona, Mosteiro de Montserrat em Barcelona, Catedral e Baptistério de Pisa, Catedral, Torre e Baptistério de Florença, Basílica de S. Petrónio em Bolonha, Catedral de Milão, Mosteiro de São Bernardo nos Alpes e as catedrais de Basileia, Ruão, Estrasburgo, Colónia e Mosteiro de São Francisco e das Onze Mil Virgens, na mesma cidade. Mas, certamente, outros edifícios igualmente importantes e que o texto não assinala, devem ter sido observados. Esta afirmação fundamenta-se no facto de, sendo as estadas do 4º Conde de Ourém por vezes prolongadas e sendo aqueles edifícios marcos significativos nas cidades, decerto foram vistos. Podemos afirmar que em Valencia, Afonso terá, pelo menos, visto a respectiva Catedral, construída entre meados do século XIV e o início do seguinte, que já apresentava o seu campanário, el Miquelete, uma torre octogonal que se erguia a mais de 51m, concluída em 1429.
Barcelona onde esteve seis semanas não seria uma novidade para ele. O relato assinala o local onde terá ficado instalado: ... na praçaa de Santa Anna, que era a paa[r] donde pousava o Conde ... No actualmente denominado Bairro Gótico, a toponímia regista uma Rua de Santa Ana, junto à Praça da Catalunha. Decerto esta é uma designação recente, pelo que se apresenta provável que Afonso tenha pousado num edifício desta praça, que no século XV deveria evocar o nome da mãe de Nossa Senhora. O relato descreve com pormenor os encontros que Afonso teve com a rainha de Castela que estava acompanhada da irmã, no paço onde pousavam. O texto não assinalou o nome pelo qual era conhecido, mas pela importância e posição de quem nele se hospedou só poderia tratar-se do palácio real, localizado próximo da catedral, confirmando assim que Afonso conheceu, com algum detalhe (a passagem do relato do encontro descreve-o demorado) este importante paço de Barcelona e teve oportunidade de admirar novamente a magnífica arquitectura gótica daquela cidade. Relativamente à estada em Florença que ocorreu entre 8 e 21 de Julho, julgamos que se terá revelado muito significativa, não tanto pelas questões relacionadas com a missão diplomática do conde de Ourém mas porque nesta tão importante cidade da Toscânia se vivia um singular momento: no final do mês seguinte ou seja a 30 de Agosto de 1436 seria sagrada a cúpula do Duomo, ainda não rematada pelo lanternim que mais tarde a coroou, em 1461. Por estes tempos, a fama de Brunelleschi deveria ecoar pela cidade e com ela a renovação da arquitectura florentina. Sabemos que o estaleiro da catedral, onde estariam algumas das máquinas concebidas/inventadas por aquele arquitecto e que possibilitaram o fecho da cúpula, passados mais de sessenta anos sobre a conclusão das obras, ainda era ponto de atracção e passagem obrigatória de viajantes curiosos. O que não seria em 1436 a um mês da inauguração da grande obra?» In Alexandra Leal Barradas, D. Afonso, 4º conde de Ourém, Revista Medievalista, director Vasconcelos Sousa, Ano 2, Nº 2, Instituto de Estudos Medievais, FCSH-UNL, FCT, 2006, ISSN 1646-740X.

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A Ceia Secreta. Javier Sierra. «A chave foi dada por uma das ninfas de Primavera, Chloris, pintada com um ramo de trepadeira saindo de sua boca. Era o símbolo inequívoco da “linguagem verde” dos alquimistas»

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O Áugure
«(…) Dediquei-me à mensagem ali mesmo. Não havia dúvidas de que a carta havia sido escrita pela mesma pessoa que as anteriores: os mesmos cabeçalhos e caligrafia delatavam seu autor. Leia-a, irmão!, insistiu. Logo compreendi tanta insistência. O Áugure revelava, mais uma vez, algo que ninguém esperava ouvir. Retrocedia quase sessenta anos, aos tempos do papa Eugénio IV, quando o patriarca de Florença, Cosme de Medici, chamado o Velho, decidira financiar um concílio que poderia ter mudado para sempre o rumo da cristandade. Era uma velha história. Ao que parece, Cosme promovera um infrutífero encontro entre delegações diplomáticas muito díspares, que durara vários anos, com o qual pretendia conseguir a reunificação da Igreja oriental e a de Roma. Os turcos ameaçavam, então, estender sua influência sobre o Mediterrâneo e era preciso detê-los de qualquer maneira. O velho banqueiro tivera a estranha ideia de unir todos os cristãos sob uma mesma cabeça e enfrentar o inimigo comum com a força da fé. Mas seu plano fracassara. Ou não.
O que o Áugure revelava naquela mensagem é que existiu uma agenda secreta por trás do concílio. Um objectivo mascarado, cujos efeitos ainda se faziam sentir seis décadas depois em Milão. Segundo ele, além das discussões políticas da época, Cosme Medici empregou boa parte de seu tempo em negociar com as delegações provenientes da Grécia e de Constantinopla a compra de livros antigos, instrumentos ópticos e até manuscritos, atribuídos a Platão ou a Aristóteles, considerados perdidos. Mandou traduzir todos, sem excepção, e com eles aprendeu coisas surpreendentes. Assim, descobriu que já em Atenas acreditavam na imortalidade da alma e sabiam que os céus eram responsáveis por tudo o que se movia na Terra. Entendamos bem: os atenienses não acreditavam em Deus, e sim na influência dos corpos celestes. Segundo aqueles desprezíveis tratados, os astros influenciavam a matéria graças a um calor espiritual, parecido ao que conecta corpo e alma nos seres humanos. Aristóteles falou disso depois de aprender nas crónicas da Idade do Ouro, e Cosme ficou fascinado com suas lições. Segundo o Áugure, o velho banqueiro fundou uma academia no estilo das antigas, só para ensinar esses segredos aos artistas. Por causa daquelas leituras, tinha certeza de que o desenho de obras de arte era uma ciência exacta. Uma obra realizada de acordo com certos códigos subtis actuaria como reflexo das forças cósmicas e poderia ser utilizada para proteger ou destruir quem a possuísse.
Então? Já se deu conta, frei Agustín?, a pergunta de Gozzoli me tirou do aturdimento. O Áugure diz que a arte pode ser empregada como arma! De facto. Um parágrafo mais abaixo, a mensagem falava da força da geometria. O número, a harmonia, o som, eram elementos que podiam ser aplicados a uma obra de arte para que irradiasse influências benéficas à sua volta. Pitágoras, um dos gregos defensores da Idade do Ouro que deslumbrou Cosme Medici, dizia que os únicos deuses comprováveis são os números. O Áugure amaldiçoava todos. Uma arma, murmurei. Uma arma que o Mouro pretende esconder em Santa Maria delle Grazie. Exacto! Gozzoli estava orgulhoso. É exactamente o que diz. Não é incrível?
Eu estava começando a entender o repentino interesse de mestre Torriani por tudo isso. Anos atrás, nosso amado superior geral havia condenado os trabalhos do pintor Sandro Botticelli por causa de uma suspeita similar. Acusara-o de empregar imagens inspiradas em cultos pagãos para ilustrar obras da Igreja, mas sua denúncia encerrava algo mais. Graças aos informantes de Betânia, Torriani soube que Botticelli, em Villa di Castello, da família Medici, havia representado a chegada da Primavera utilizando uma técnica mágica. As ninfas que dançavam no quadro haviam sido dispostas como as peças de um gigantesco talismã. Mais tarde, Torriani descobriu que Lorenzo di Pierfrancesco, patrão de Botticelli, havia lhe pedido um amuleto contra o envelhecimento. O quadro era o remédio mágico solicitado. Na realidade, encerrava todo um tratado contra a passagem do tempo, que incluía metade das divindades do Olimpo dançando contra o avanço de Cronos. E pretendiam fazer passar por devota uma obra assim, propondo-a como decoração para uma capela florentina!
Nosso superior geral descobriu a infâmia a tempo. A chave foi dada por uma das ninfas de Primavera, Chloris, pintada com um ramo de trepadeira saindo de sua boca. Era o símbolo inequívoco da linguagem verde dos alquimistas, desses buscadores da eterna juventude, embebidos de ideias espúrias que o Santo Ofício (maldito) perseguia onde quer que despontassem. Embora em Betânia jamais tenhamos conseguido decifrar os detalhes dessa misteriosa linguagem, a suspeita bastou para que o quadro nunca fosse mostrado em uma igreja. Mas agora, se o Áugure estivesse certo, essa história ameaçava se repetir em Milão. Diga-me, irmão Giovanni, sabe por que o mestre Torriani me pede que analise esta mensagem? Meu assistente, que já havia se sentado a uma mesa contígua e se distraía olhando um livro de horas recentemente ilustrado, fez cara de quem não entendera a pergunta: Como? Não chegou ao fim da carta? Tornei a fixar os olhos nela. No último parágrafo, o Áugure falava da morte de Beatrice d’Este e do quanto isso aceleraria a consecução do plano mágico do Mouro. Não vejo nada de particular, querido Giovannino argumentei. Não lhe chama a atenção o facto de que cite a morte da duquesa em termos tão explícitos? E por que haveria de me chamar a atenção? O padre Gozzoli bufou: porque o Áugure datou e enviou esta carta em 30 de Dezembro. Três dias antes do infausto parto de donna Beatrice». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

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