sábado, 3 de dezembro de 2016

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Percorrer com a língua o sexo de uma mulher. Senti-lo estremecer ao toque dos dentes. Transformar dentes e língua em instrumentos de silêncio e mansidão, oferecê-los à boca do corpo de uma mulher»

jdact

«A minha vida ficou decidida no instante em que salvei uma mulher das ondas do mar. A acção heróica completa: agarrei num mergulho o corpo inerte, trouxe-o para a praia, fiz-lhe respiração boca-a-boca e assisti ao seu regresso à vida. Quando os primeiros socorros chegaram já estava tudo resolvido. E eu sabia duas coisas: em primeiro lugar, que queria ser médico. Em segundo, que os seios arfantes de uma mulher eram um excelente substituto do paraíso. Mais tarde perceberia que tudo cansa, a salvação ou o paraíso. Tudo se repete. A vida dura cada vez mais tempo, as coisas repetem-se, matemáticas. Quanto mais evidente se torna a repetição, maior se torna a aceleração. A repetição torna-se epidemia, a epidemia instala o pânico e a velocidade. Mais do mesmo, cada vez mais depressa. Sobram-nos as pequenas coisas. Se as pudermos agarrar. Se nos concentrarmos nisso ao ponto de encontrarmos um domicílio fixo para elas. As coisas de que ninguém fala, as coisas sem valor. A cabeça de Ana Lúcia movimentando-se sobre o meu colo, por exemplo. Os méritos do sexo oral são muito subestimados. A pouco e pouco, a ideia da produtividade infiltrou-se e começou a dominar todos os nossos actos, restringindo-os ao ritmo binário, monocórdico, do útil e do inútil. Como se as nossas existências não se encontrassem já saturadas de bifurcações: ricos e pobres, saudáveis e doentes, vencedores e vencidos, feios e bonitos. Pagámos um alto preço pela morte de Deus: a perda da tridimensionalidade. Falta-nos um interlocutor desinteressado, alguém que não nos sirva, que não nos utilize, que nos ensine a sair do nosso invólucro produtivo e a entender a gratuita e caótica beleza do mundo. Percorrer com a língua o sexo de uma mulher. Senti-lo estremecer ao toque dos dentes. Transformar dentes e língua em instrumentos de silêncio e mansidão, oferecê-los à boca do corpo de uma mulher, deixarmo-nos guiar pela luz do seu desejo e gozar com o gozo dela. A experiência sublime de causar uma felicidade instantânea a outro ser. Ou oferecermos o mais precioso e estúpido pedaço do nosso corpo à língua de uma mulher, conduzi-la até ao cume da montanha do nosso prazer, derramarmo-nos na sua boca: tomai-me e bebei-me. Esta forma de intimidade tornou-se escandalosa e risível, não serve para fabricar crianças, não é um exercício de poder, não é sequer um exercício. Tudo o que for exercício está justificado: mais saúde, melhores músculos, um admirável contributo para o trabalho das aparências. O século XXI nasceu um puritano disfarçado de tolerante. Há dias prenderam um rapaz e uma rapariga por estarem a fazer sexo oral dentro de um carro, num ermo, à luz do dia. Atentado ao pudor, escreveu-se nos autos. Hoje exerci o meu acto de cidadania solidária com esse par, praticando sexo oral dentro de um carro, à hora dita de almoço, junto desse monumento arquitectónico de vanguarda que é a Ponte Vasco da Gama.
As honras da ideia, em boa verdade, têm de ser atribuídas à minha amiga Ana Lúcia. Já não a via há semanas e de repente ela telefonou dizendo que precisava de estar comigo hoje, nem que fosse só por uma hora. E hoje, precisamente, eu não tinha mais do que isso. Pediu por favor, expressão inédita nela. Costuma dizer que antes morrer do que pedir um favor a alguém. Combinou encontro comigo à beira-rio, debaixo da ponte, porque era o local deserto mais próximo para ambos. Não percebi a urgência, mas já me habituei às surpresas da frenética Ana Lúcia. Entrei no carro dela e começou logo a beijar-me, enquanto me desapertava as calças, me acariciava e se enganchava em mim, coberta pela saia rodada. Estranhei-lhe, não a fogosidade mas a desenvoltura, Ana Lúcia tem pavor de ser apanhada em falta em sítios públicos. Nessas coisas não se lembra de ser feminista. No sexo também não, e eu agradeço isso. Hoje não sei o que lhe deu. Da segunda vez insistiu, contra os meus protestos democráticos, em querer chupar-me até ao fim e beber-me. Quero que não consigas esquecer-me. Quero ficar com o teu sabor. O temporal protegeu os nossos arroubos. A chuva e o vento eram demasiado fortes para que ladrões, violadores ou autoridades policiais viessem interromper-nos. A ponte e o rio diluíam-se nas cordas de água que desabavam sobre o carro. O universo desfazia-se. Estávamos sozinhos e suados no extremo oriental da cidade, no meio do dilúvio derradeiro. A chuva escureceu os olhos de Ana Lúcia quando olhei para o relógio: Desculpa, menina, és muito bonita mas eu tenho de ir salvar mais umas vidas. Dez minutos. Não dá mesmo. Vontade não me falta, tu sabes. Sei. Vontade não te falta, pois. Entrei a correr no bloco operatório. Contra as normas: nos hospitais a serenidade é obrigatória. Como se dominássemos o tempo». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN: 978-972-204-047-1.

Cortesia PdomQuixote/JDACT

Nas Tuas Mãos. Inês Pedrosa. «Quando agora olho tranquilamente para as fotografias da vossa juventude, vejo dois rapazes elegantes procurando atenuar pela distinção dos adereços, os chapéus de aba larga»

jdact

«A tua cabeça rodou na direcção do meu rosto, os teus olhos fecharam-se e a tua boca avançou para a minha, através de uma lenta rota de luz, risos e lágrimas. Quando os teus dentes morderam os meus lábios alguém gritou Bravo! como na ópera e eu soube que nunca uma rapariga havia sido assim amada. Espere, dizias tu, connosco há-de ser diferente. Travavas-me o corpo todo com um beijo na palma da mão, os meus dedos agarravam-se, entontecidos, à curva funda das tuas pálpebras, e desse canto macio de pele eu inventei um homem para sonhar até ao dia branco da nossa eternidade. António. Dou-te esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade. António. Muito prazer. Chamo-me António José Castro Morais mas toda a gente me trata por To Zé. Raptaste-me ao terceiro dia: Jennifer. Diga à sua mãe que hoje está muito cansada para passear e venha comigo ver a vida verdadeira. O meu nome é Jenny, porque o pai que eu não cheguei a conhecer adorava a heroína da Família Inglesa do Júlio Dinis, uma família aliás semelhante à nossa no culto discreto da riqueza como prolongamento físico da solidez espiritual. Mas tu, António, preferias outra coisa. Eu restituía-te o nome de origem, nem sequer era capaz de pronunciar esse diminutivo portátil que te fazia de toda a gente, e tu inventavas-me para lá do livro de onde eu tinha saído.
Naquela época parecia-me que estas intenções contrárias eram a mesma, um código de segredo automático que escrevia a grande evidência do amor. Só na noite do nosso casamento descobri que havia outra pessoa que te soletrava António, querido. Meu querido. Cuidado. É o auge do sol e todas as formas da montanha se rendem ao totalitário peso da luz. Vais andando, com os binóculos apontados ao mais longínquo dos cumes, e de repente vejo o teu pé direito no ar, sobre o precipício. Grito cuidado e abraço-te pelas costas, cais sobre mim no alto de Meteora. Pões um braço sob a minha cintura, e a tua face recortada a contra-luz rasga-me com a insuportável beleza de uma aparição. Como te chamas, anjo-da-guarda? Foi a única vez em que me trataste por tu. Fizeste o resto da viagem connosco, nesse Verão de 1935. Vinhas dos Mosteiros do Monte Athos, onde nem a sombra de uma mulher se permite, nós vínhamos da desilusão de Atenas, que a minha pobre mãe definia incessantemente como a viúva alegre dos Deuses, para dar a entender que era culta, mordaz e muitíssimo viúva. Não me lembro de nenhuma das másculas estátuas dos museus de Salónica, apenas manchas de mármore sobre as quais os teus dedos evoluíam, longos, quase impúdicos pela transparência dos ossos e das unhas. Esse fascínio pelos teus dedos valeu-me meia dúzia de vitórias ao gamão, no dia em que me levaste às escondidas a ver a vida verdadeira nas sombras sumptuosas das igrejas ortodoxas e nos cafés do cais, povoados de velhos marinheiros gregos com gestos muçulmanos. Explicavas-me as regras mas eu não conseguia ouvir-te, embrulhava-te a voz na velocidade das palavras e na cor incerta da íris, quando sorrias era verde-clara e depois tornava-se castanha, o nariz afilado, perfeito e imóvel como uma decisão, a boca excessiva destoando, lábios grossos com os cantos virados para baixo como uma permanente trincheira de desconfiança.
Nunca fui de falar muito. A minha mãe reforçava convenientemente a minha incomunicabilidade doutrinando-me na lei da poupança verbal: uma ideia, meia palavra. Seguia-te desesperadamente o trilho dos dedos sobre as peças de madeira para que me julgasses inteligente, capaz de te vencer. Nunca mais voltaria a ganhar-te. Dizem que o amor se faz de uma comunidade de interesses subterrâneos, restos de vozes, hábitos que nos ficam da infância como uma melodia sem letra, paixões pisadas na massa funda do tempo, mas nesses anos entre guerras os sentimentos explicados não interessavam a ninguém. O amor era então uma criação fulminante do tédio e da inocência, feito do carnal recorte da beleza, magnífico de crueldade. Amei-te de repente, com a luminosa injustiça que me afastou de todos os que me amaram por me serem semelhantes. Amaram-me ainda mais depois, durante o nosso longo noivado, que me tornou mundana, e adoraram-me a partir do dia em que me fiz oficialmente tua mulher, ouvia-os sussurrar que estranho, está cada vez mais menina, nunca se viu um caso assim.
Namorámos em bailes e recepções, eu dava-te a mão e o Pedro pegava-me logo na outra mão, sentia a inveja alastrando pelos salões como um perfume sensual, eram meus os dois rapazes mais desejados de Lisboa. Talvez não fossem sequer excepcionalmente bonitos. Quando agora olho tranquilamente para as fotografias da vossa juventude, vejo dois rapazes elegantes procurando atenuar pela distinção dos adereços, os chapéus de aba larga, os foulards de seda lavrada, os coletes italianos, os casacos de ombros largos - certas irregularidades de formas e traços. Eram magros, o Pedro ligeiramente mais alto do que tu e quase macilento». In Inês Pedrosa, Nas Tuas Mãos, Publicações dom Quixote, colecção BIS, 2009, ISBN 978-989-660-000-6.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «De curtas e compridas tem-nos chamado de tudo. O médico escreveu no bloco: cab…, curtas, compridas, riscou um traço por baixo como se preparasse uma soma e acrescentou em maiúsculas Car… A enfermeira…»

jdact e wikipedia

«(…) Adiante, perto da 8.a, dois sujeitos de bata branca erguiam o capot de um Toyota para lhe examinar o funcionamento das vísceras orientais. Estes amarelos sacanas começaram pelas gravatas ambulantes, já nos colonizam de rádios e automóveis e qualquer dia fazem da gente os kamikazes de Pearl Harbour futuras; marralhos para dar com os cor… nos Jerónimos no Verão, a dizer banzai, quando casamentos e baptizados se sucedem em ritmo trepidante de metralhadora mística. A doente (quem entre aqui para dar pastilhas, tomar pastilhas ou visitar nazarenamente as vítimas das pastilhas é doente, sentenciou o psiquiatra no interior de si mesmo) apontou-lhe ao nariz as órbitas enevoadas de comprimidos e articulou numa determinação tenaz: seu cab… A dona Maria II encolheu os ombros a fim de bolear as arestas do insulto: está nisto desde que veio. Se assistisse à cena que ela armou para aí com a família o senhor doutor até se benzia. De curtas e compridas tem-nos chamado de tudo. O médico escreveu no bloco: cab…, curtas, compridas, riscou um traço por baixo como se preparasse uma soma e acrescentou em maiúsculas Car… A enfermeira, que lhe espreitava sobre o ombro, recuou um passo: educação católica à prova de bala, supôs ele medindo-a. Educação católica à prova de bala e virgem por tradição familiar: a mãe devia estar rezando a Santa Maria Goretti enquanto a fazia. A Charlotte Brontë a cambalear à beira do KO químico voltou para a janela uma unha onde o verniz estalava: alguma vez viu o sol lá fora, seu cab…? O psiquiatra gatafunhou Car…  + Cab… = Grande Fo…, rasgou a página e entregou-a à enfermeira: percebe?, perguntou ele. Aprendi isto com a minha primeira mestra de lavores, diga-se à puridade e de passagem que o melhor clitóris de Lisboa. A mulher empertigou-se de indignação respeitosa: o senhor doutor anda muito bem disposto mas eu tenho outros médicos para atender. O homem lançou-lhe, num gesto largo, a bênção urbi et orbi que seguira uma vez pela televisão: ide em paz, soletrou ele com sotaque italiano. E não percais a minha mensagem papal sem a dar a ler aos bispos meus dilectos irmãos. Sursum corda e Deo gratias ou vice-versa. Fechou cuidadosamente a porta atrás dela e voltou a sentar-se à secretária. A Charlotte Brontë mediu-o de pálpebra crítica: ainda não decidi se você é um cab… simpático ou antipático mas pelo sim pelo não co… da mãe. Co… da mãe, meditou ele, que exclamação adequada. Moveu-a dentro da boca com a língua como um caramelo, sentiu-lhe a cor e o gosto morno, recuou no tempo até a encontrar a lápis nos sanitários do liceu entre desenhos explicativos, convites e quadras e a recordação enjoada dos cigarros clandestinos comprados avulso na Papelaria Académica a uma deusa grega que varria o balcão com o excesso dos seios, demorando nele pupilas vazias de estátua. Uma senhora magrinha com ar subalterno apanhava malhas num canto sombrio anunciada por letreiro a escantilhão na montra (Malhas Com Perfeissão e Rapidês) tal como os cartazes pregados às grades do Jardim Zoológico avisam os nomes em latim dos animais. Cheirava persistentemente a lápis viarco e a humidade e as damas das redondezas com as compras da praça embrulhadas em papel de jornal vinham queixar-se às mamas helénicas, em murmúrios desolados, das suas misérias conjugais povoadas de manicuras perversas e de francesas de cabaré que lhes seduziam os maridos ao dobrarem em quatro, ao ritmo afrodisíaco da Valsa da Meia-Noite, a nudez experiente dos quadris. O negro que se masturbava no pátio iniciou para edificação dos serventes contorções orgásticas desordenadas de mangueira à solta. L’arroseur arrosé. Incansável, a Charlotte Brontë voltou à carga: oiça lá seu artolas, conhece a dona disto? E depois de uma pausa destinada a deixar alastrar no médico o pânico escolar da ignorância assentou uma palmada proprietária na barriga: sou eu. Os olhos que desdenhavam o psiquiatra raiaram-se de súbito de tracinhos métricos de duplo-decímetro: não sei se o despeço ou se o nomeio director: é consoante. É consoante? É consoante a opinião do meu marido domador de leões de bronze marquês de Pombal Sebastião Melo». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1979, 1983, Publicações dom Quixote, BIS, Grupo Leya, 1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Poesia Nua. «Volta esta noite para mim, volta esta noite para mim. Canto-te um fado, no silêncio, se quiseres, mando recado ao luar, que se costuma deitar ao nosso lado, para não vir hoje, se tu vieres»

jdact

Fado para esta noite

«Volta esta noite p’ra mim,

volta esta noite p´ra mim.

Canto-te um fado, no silêncio, se quiseres,

mando recado ao luar, que se costuma deitar

ao nosso lado, para não vir hoje, se tu vieres.


Anda deitar-te, fiz a cama de lavado,

cheira a alfazema, o meu lençol de linhado,

pus almofadas com fitas de cor.

Colcha de chita com barras de flor

e à cabeceira, tenho um santo alumiado.


Volta esta noite para mim,

volta esta noite para mim.

Canto-te um fado, no silêncio, se quiseres,

mando recado ao luar, que se costuma deitar

ao nosso lado, para não vir hoje, se tu vieres.


Pus o meu xaile p’ra te servir de coberta

um solitário ao pé da janela aberta

pus duas rosas que estão a atirar

beijos vermelhos, sem boca para os dar

sem o teu corpo, minha noite está deserta.


Volta esta noite p’ra mim.

Volta esta noite p’ra mim.

Ser abraçada, por teus braços atrevidos

quero o teu cheiro sadio, neste meu quarto vazio,

de madrugada, beijo os os teus adormecidos.


Mando recado ao luar, que se costuma deitar,

ao nosso lado p’ra não vir hoje, se tu vieres».

In César de Oliveira, Rogério Bracinha


JDACT

Desamparo. Inês Pedrosa. «Diz que deprimiu, entrou em crise existencial, foi parar ao psiquiatra, andou a tomar remédio para a cabeça, caiu de cama e veio se curar em Portugal, me chamou para cuidar dele lá em Lisboa, na casa do irmão»

jdact

«(…) Ele virá antes que o sol me mate. Eu sei que ele virá. Pois se me telefonou falando que viria. Falou: minha mãe, essa semana sem falta eu vou visitar a senhora. A vizinha Rosário achou que eu estava maluca, que tinha inventado o telefonema. Tanto eu brinquei que estava doido na, que agora me tratam como doida, mesmo. Quem me mandou gostar de brincar com todo o mundo? Com esse dia assim azul e quente, é hoje que ele vem. Toda a vida amei a praia e o sol; de manhã cedinho corria até à Praia do Flamengo para nadar antes de ir para o trabalho. Agora essa luz toda vai acabar comigo. Que vergonha, se o meu filho me encontrar caída na laje, o vestido branco de linho que eu mesma bordei feito um trapo velho. E isso que ele vai encontrar, um farrapo de chão em vez de uma mãe, na casa que foi da avó dele e que ele chama de favelada. A única casa a que pude chamar minha, herança de minha mãe, que me renegou duas vezes e depois me chamou para tomar conta dela na velhice. A minha casa de laranjeiras, limoeiros, roseiras e pássaros. Onde será que anda a minha gatinha? Queria enxergá-lo só mais uma vez, ao meu filho mais velho, esse que me rejeitou. Faz quinze anos que não tenho essa alegria. Diz que deprimiu, entrou em crise existencial, foi parar ao psiquiatra, andou a tomar remédio para a cabeça, caiu de cama e veio se curar em Portugal, me chamou para cuidar dele lá em Lisboa, na casa do irmão. Fiz muito bacalhau cozido com grão-de-bico, que ele adora desde criança, muita cabidela de galinha, para puxar o sangue, e ele foi melhorando. Sobretudo dei a ele muito amor de mãe, fiz-lhe muito cafuné. Ao fim de três meses estava bom, acabou se empolgando e comprando casa de férias em Sintra, voltou para o Brasil e nunca mais quis saber de mim. Não, não vou pensar assim. Eu quero a felicidade dos meus filhos. Rafinha tem lá a sua mulher, a sua filha, os seus problemas, as suas mágoas guardadas contra mim. Apanhou muito quando era menino, é verdade. Papai do Céu que me perdoe, eu não sabia como dar educação àquele menino e ainda trabalhar, cuidar da casa, chefiar atelier de costura e atender freguesa ao mesmo tempo. Isso sem a ajuda do pai, que nessa altura trabalhava à noite no jornal e aparecia em casa, quando aparecia. Rafinha estava sempre aprontando. Mandava o irmão pequeno enfiar o garfo na perna da empregada. Aterrorizava os garotos na hora do almoço, botava arroz no copo de suco deles, quando não lhes esvaziava uma garrafa d’água gelada na cabeça. Na rua era o brigão, era mau para os colegas do futebol. Chegava a meter o pé na frente para o amiguinho cair. Na escola, a directora estava sempre me chamando: minha senhora, o Rafael está suspenso, e eu sem saber o que fazer ou como explicar. Era um menino muito difícil, sempre acobertado pelo pai, que achava bonito o filho ser assim, manias de machão. Para ele, homem que é homem não podia levar desaforo para casa. No fundo, aquilo era para chamar a minha atenção. Era ciúme. Ciúme dos irmãos mais novos. Rafinha foi muito estragado pelo pai, eu educava de um lado e Ramiro deseducava do outro.
Como eu adorava aquele homem, Nossa Senhora. E tanto que ele andou atrás de mim para me conquistar. Essa foi a época dourada da minha vida: desquitada, independente. Desejada. Um pedaço de mulher, corpo de nadadora bem torneado, com tudo em cima. Bem firme na ideia de nunca mais ser controlada seja por quem fosse: nem por mãe de criação, nem pelo meu pai, pelo meu ex-marido, por homem nenhum. Eu tinha talento para a moda, ah, se tinha. Cheguei a ter três costureiras trabalhando em casa, noite e dia, fazendo vestido de gala para as madames, tudo com pedras preciosas bordadas à mão. Fiz seis vestidos para o lendário baile do Theatro Municipal do Rio, no Carnaval de 1954. Vestidos de luxo que nem em Hollywood. Não esqueço o orgulho que senti, no meio da multidão da Cinelândia, vendo desfilar as minhas criações na entrada do Theatro. Nem tinha inveja dos grã-finos que podiam entrar ali, bastava-me com os bailes oficiais dos clubes e sociedades, era sempre a mais bem vestida. De manhã cedinho ia nadar no Flamengo, e esse bonitão de bigode me seguia. Ramiro Lobo. Fiscal da Prefeitura, terno branco, gravata colorida, boa figura, comum sorriso feito de goiabada. Nos conhecemos porque em 1952 eu aluguei um quarto na casa da mãe dele. Estava no meu esplendor, com vinte e muitos anos, fazendo nome e dinheiro como modista, livre do casamento com o Álvaro, um minhoto bruto, em que me lançara aos dezoito anos só para me libertar da vida de escrava que me impunha a mulher do meu avô.
Tudo parecia novo e cheio de futuro naquele princípio dos anos cinquenta no Rio de Janeiro. Logo, logo, arrumei um apartamento no Flamengo, mas ele continuou me perseguindo, me esperando na porta, me acompanhando na praia. Era uma coisa..., chegava a sair cedo da casa da mãe em Copacabana para me ver nadar na Praia do Flamengo. Ah, Ramiro, como é que você pôde me trair tanto? Não, não vou pensar nisso, eu já o perdoei há muito tempo. Rosário, minha vizinha, minha santa, me acode! Ninguém me ouve, meu Deus. Morro de sede aqui caída em frente da minha própria porta. Como foi acontecer isso? O diabo do meu joelho me traindo. Esse joelho não gosta de mim, quer me punir por todas as coisas feias que eu fiz. Logo eu, que sempre vivi em busca da Beleza. Minhas rosas estão tão bonitas». In Inês Pedrosa, Desamparo, 2015, Publicações dom Quixote, 2015, ISBN 978-972-205-669-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Desamparo. Inês Pedrosa. «Preferem o sol às chuvas inclementes que por vezes também assolam o simpático país, definido no início do século XX pelo mais internacional dos seus poetas como o rosto que a Europa mostra ao mar»

jdact

«Um silêncio em bruto, como se o torno do mundo não tivesse ainda começado a rodar. Manchas estáticas de verde, pomares interrompidos por casas brancas, amarelas, algumas, poucas, com pórticos em ferro lavrado, escadarias flanqueadas por leões ou jarrões de pedra, dois andares e pátios onde ao fim-de-semana estacionarão automóveis urbanos. Nem os cães ladram debaixo da canícula. Os pássaros desistiram de voar. Na aldeia de Arrifes, concelho de Lagar, milenar dote de princesas e rainhas, nada se move. A carrinha do Centro Social já fez o seu turno, pelas nove da manhã, com duas mulheres de bata azul, para ajudar os velhos que vivem sós a levantarem-se, lavarem-se, vestirem-se, dar-lhes o pequeno-almoço e a medicação e deixar-lhes o almoço. Voltará a meio da tarde com o jantar. Há outra carrinha que os leva para o Centro de Dia, onde podem ver televisão, jogar às cartas ou fazer ginástica. A maior parte deles não quer ir. Dizem que a companhia dos outros velhos os cansa. No parque exterior da turística vila de Lagar, os autocarros continuam a desaguar rios de estrangeiros de chinelos e calções. O calor não os incomoda, sentam-se nas esplanadas a fotografar as muralhas e pedem sangria gelada ou o celebrado licor local, de pêra-rocha, com muitos cubos de gelo. Portugal visto dali é uma paisagem medieval com água potável e confortos modernos, povoada por gente humilde, prestável, dedicada à ciência de ser feliz com pouco. A poucos quilómetros encontrarão praias selvagens e hotéis rodeados de aprazíveis campos de golfe. Preferem o sol às chuvas inclementes que por vezes também assolam o simpático país, definido no início do século XX pelo mais internacional dos seus poetas como o rosto que a Europa mostra ao mar.
Um empregado de café diz a um grupo de turistas que têm sorte, luck, very luck, porque de um calor destes não há memória. Se bem que ele, excepto por motivos comerciais, até prefira a chuva; o caminho da chuva trouxe-o a Lagar há exactamente doze anos. Caíra uma ponte no Norte, lá para Trás-os-Montes, matando cinquenta e nove pessoas que vinham na camioneta da Junta de Freguesia, regressando de um passeio de domingo às amendoeiras em flor. Joaquim morava perto dessa aldeola tornada símbolo de tragédia. Como os corpos afundados não apareciam, e não havia muito que fazer por aquelas bandas, as pessoas começaram a organizar piqueniques à beira do rio ao fim-de semana, para ver se, entre um pastel de bacalhau e um copo de tinto, alcançavam a boa acção de detectar um corpo inchado a boiar, porque não há nada mais triste do que um funeral sem defuntos. Num desses piqueniques conhecera a sua Conceição, que viera com os pais visitar uns parentes e tentar a glória de pescar um morto, já que o pai era bombeiro e especializado em mergulhos. A expedição não teve sucesso, só vinte e três corpos viriam a ser encontrados, mas Joaquim acabou por vir morar para Lagar, aprendeu a ler com a ajuda de Conceição, entrou para a escola, arranjou trabalho no café, casou e tornou-se um homem feliz, pai de um rapazinho de cinco anos. Pensava muitas vezes que se não fosse aquela catástrofe estaria ainda a tratar das vinhas e a coser sapatos à noite, longe dos territórios férteis do turismo. Tudo tem o seu propósito.
As tragédias individuais não são assinaladas por placas, homenagens, celebrações. Falta-nos o tempo para as acolher e são demasiado próximas da nossa vida. Todos os dias morre gente. Na Vila de Lagar a funerária chama-se Zorro, porque é esse o nome de baptismo do seu proprietário, e está escondida no cotovelo de uma das sinuosas ruas que circundam a muralha. Não necessita propriamente de propaganda, os clientes aparecem todos os dias. As grandes multinacionais da morte ainda não aportaram a esta zona rural, porque a clientela não teria dinheiro para pagar as carrinhas de luxo, os bolos sortidos, os livros de condolências encadernados a couro. Há uma mulher caída, a uns oito quilómetros da pacífica animação de Lagar, num mísero pátio de uma das casas mais pobres da aldeia de Arrifes. Como o calor mantém os habitantes recolhidos, a vizinha não veio varrer o alpendre e não chamou por ela. Uma gatita malhada lambe-lhe o rosto, tentando despertá-la. São duas horas da tarde, e a carrinha do Centro de Dia só regressará pelas seis. O miado da gata tem por única resposta a queda de um limão gigante do limoeiro que fica ao canto do pátio, antes das escadas que dão para o telheiro do tanque de lavar a roupa. A mulher caiu perto da porta, longe das duas árvores do quintal, sobre a laje ardente, inundada de sol». In Inês Pedrosa, Desamparo, 2015, Publicações dom Quixote, 2015, ISBN 978-972-205-669-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «Algumas velhas, que as castanholas bocais do Napoleão haviam despertado de letargias de pedra, chinelavam ao acaso de cadeira em cadeira idênticas a pássaros sonolentos»

jdact e wikipedia

«(…) Surpreendia-se que para além de tiques e de gestos a natureza se não houvesse empenhado em transmitir-lhes também, a título de bónus, os poemas de Eliot que conhecia de cor, a silhueta de Alves Barbosa a pedalar nas Penhas da Saúde, e a aprendizagem já feita do sofrimento. E por detrás dos sorrisos delas distinguia alarmado a sombra das inquietações futuras, como no seu próprio rosto percebia, olhando-o bem, a presença da morte na barba matinal. Procurou na argola das chaves a que abria a porta da enfermaria (o meu lado de governanta, murmurou, a minha faceta de despenseiro de navios inventados disputando aos ratos as bolachas-maria do porão), e entrou num corredor comprido balizado por espessas ombreiras de jazigo atrás das quais se estendiam, em colchas duvidosas, mulheres que o excesso de remédios transformara em sonâmbulas infantas defuntas, convulsionadas pelos Escoriais dos seus fantasmas. A enfermeira-chefe, no seu gabinete de dr. Mabuse, recolocava a dentadura postiça nas gengivas com a majestade de Napoleão coroando-se a si mesmo: os molares ao entrechocarem-se produziam ruídos baços de castanholas de plástico, como se as suas articulações fossem uma criação mecânica para edificação cultural de estudantes do liceu ou dos frequentadores do Castelo Fantasma da Feira Popular, onde o cheiro das sardinhas assadas se combina subtilmente com os gemidos de cólica dos carrosséis. Um crepúsculo pálido boiava permanentemente no corredor e os vultos adquiriam, aclarados pelas lâmpadas desconjuntadas do tecto, a textura de vertebrados gasosos do Deus rive-gauche do catecismo, que ele imaginava sempre a evadir-se da colónia penal dos mandamentos para passear livre, nas noites da cidade, a cabeleira bíblica de um Ginsberg eterno. Algumas velhas, que as castanholas bocais do Napoleão haviam despertado de letargias de pedra, chinelavam ao acaso de cadeira em cadeira idênticas a pássaros sonolentos em busca do arbusto onde ancorar: o médico tentava em vão decifrar nas espirais das suas rugas, que lhe lembravam as misteriosas redes de fendas dos quadros de Vermeer, juventudes de bigodes encerados, coretos e procissões, alimentadas culturalmente por Gervásio Lobato, pelos conselhos dos confessores e pelos dramas de gelatina do dr. Júlio Dantas, unindo fadistas e cardeais em matrimónios rimados. As octogenárias pousavam nele os olhos descoloridos de vidro, ocos como aquários sem peixes, onde o limo ténue de uma ideia se condensava a custo na água turva de recordações brumosas. A enfermeira-chefe, a cintilar os incisivos de saldo, pastoreava aquele rebanho artrítico enxotando-o a mãos ambas para uma saleta em que o televisor se avariara num hara-kiri solidário com as cadeiras coxas encostadas às paredes e o aparelho de rádio que emitia, com sobressaltos felizmente raros, longos uivos fosforescentes de cachorro perdido na noite de uma quinta. As velhas tranquilizavam-se a pouco e pouco como galinhas salvas da canja na capoeira de novo em sossego, mastigando a pastilha elástica das bochechas em ruminações prolixas sob uma oleografia piedosa na qual a humidade devorara os biscoitos das auréolas dos santos, vagabundos antecipados de um katmandu celeste. A sala de consultas compunha-se de um armário em ruína roubado ao sótão de um ferro-velho desiludido, de dois ou três maples precários com o forro a surgir dos rasgões dos assentos como cabelos por buracos de boina, de uma marquesa contemporânea da época heróica e tísica do dr. Sousa Martins, e de uma secretária que abrigava na cavidade destinada às pernas um cesto de papéis enorme, parturiente carunchosa afligida por um feto excessivo. Em cima de um naperon enodoado uma rosa de papel cravava-se na sua jarra de plástico como a bandeira remota do capitão Scott nos gelos do pólo Sul. Uma enfermeira parecida com a dona Maria II das notas de banco em versão Campo de Ourique comboiou na direcção do psiquiatra uma mulher entrada na véspera e que ele não observara ainda, ziguezagueando de injecções, de camisa a flutuar em torno do corpo como o espectro de Charlotte Brontë vogando no escuro de uma casa antiga. O médico leu no boletim de internamento esquizofrenia paranóide; tentativa de suicídio, folheou rapidamente a medicação do Serviço de Urgência e procurou um bloco na gaveta enquanto um sol súbito aderia, jovial, aos caixilhos. No pátio em baixo, entre os edifícios da 1.a e 6.a enfermarias de homens, um negro de calças pelos joelhos masturbava-se freneticamente encostado a uma árvore, espiado com gáudio por um grupo de serventes». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1979, 1983, Publicações dom Quixote, BIS, Grupo Leya, 1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Memória de Elefante. António Lobo Antunes. «Classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, repetiam os degraus à medida que os subia e a enfermaria se aproximava dele tal um urinol de estação de um comboio»

jdact e wikipedia

«O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante: a quotazinha da Sociedade, senhor doutor. Pu… que pariu os psiquiatras organizados em esquadra de polícia, pensava sempre ao procurar os cem escudos na complicação da carteira, pu… que pariu o Grande Oriente da Psichiatria, dos etiquetadores pomposos do sofrimento, dos chonés da única sórdida forma de maluquice que consiste em vigiar e perseguir a liberdade da loucura alheia defendidos pelo Código Penal dos tratados, pu… que pariu a Arte Da Catalogação Da Angústia, pu… que me pariu a mim, rematava ele ao embolsar o rectângulo impresso, que colaboro, pagando, com isto, em lugar de espalhar bombas nos baldes dos pensos e nas gavetas das secretárias dos médicos para fazer explodir, num cogumelo atómico triunfante, cento e vinte e cinco anos de idiotia pinamaniquesca. O olhar intensamente azul do porteiro-cobrador, que assistia sem entender a uma maré-baixa de revolta que o transcendia, embrulhava-o num halo de anjo medieval apaziguante: um dos projectos secretos do médico consistia em saltar a pés juntos para dentro dos quadros de Cimabue e dissolver-se nos ocres desbotados de uma época ainda não inquinada pelas mesas de fórmica e pelas pagelas da Sãozinha: lançar mergulhos rasantes de perdiz, mascarado de serafim nédio, pelos joelhos de virgens estranhamente idênticas às mulheres de Delvaux, manequins de espanto nu em gares que ninguém habita. Um resto agonizante de fúria veio girar-lhe ao ralo da boca: senhor Morgado, pela saúde dos seus e meus tomates não me lixe mais com o car… das quotas durante um ano e diga à Sociedade de Neurologia e Psiquiatria e amanuenses do cerebelo afins que metam o meu dinheiro enroladinho e vaselinado no sítio que eles sabem, obrigadíssimos e tenho dito ámen. O porteiro-cobrador escutava-o respeitosamente (este gajo deve ter sido na tropa o pide favorito do sargento, descobriu o médico) reinventando as leis de Mendel à medida do seu intelecto de dois quartos com serventia de cozinha: topa-se logo que o senhor doutor é filho do senhor doutor: uma ocasião o paizinho amandou o fiscal fora do laboratório pelas orelhas. De azimute voltado para o livro do ponto e um seio de Delvaux a esfumar-se no canto da ideia, o psiquiatra apercebeu-se de súbito da admiração que as proezas bélicas do progenitor haviam disseminado, por aqui e por ali, na saudade de certas barrigas grisalhas. Rapazes, chamava-lhes o pai. Quando vinte anos atrás o irmão e ele se iniciaram no hóquei do Futebol Benfica, o treinador, que partilhara com o pai Aljubarrotas áureas de pauladas no toutiço, retirou o apito da boca para os avisar com gravidade: espero que saiam ao João, que quando tocava a Santos era lixado para a porrada. Em 35, no rinque da Gomes Pereira, foram três da Académica da Amadora para São José. E acrescentou baixinho com a doçura de uma recordação grata: fractura de crânio, no tom de voz em que se revelam segredos íntimos de paixão adolescente, conservada na gaveta da memória que se dedica às inutilidades de pacotilha que dão sentido a um passado. Pertenço irremediavelmente à classe dos mansos refugiados em tábuas, reflectiu ele ao assinar o nome no livro que o contínuo lhe estendia, velho calvo habitado pela paixão esquisita da apicultura, escafandrista de rede encalhado num recife de insectos, à classe dos mansos perdidos refugiados em tábuas a sonharem com o curro do útero da mãe, único espaço possível onde ancorar as taquicárdias da angústia. E sentiu-se como expulso e longe de uma casa cujo endereço esquecera, porque conversar com a surdez da mãe afigurava-se-lhe mais inútil do que socar uma porta cerrada para um quarto vazio, apesar dos esforços do sonotone através do qual ela mantinha com o mundo exterior um contacto distorcido e confuso feito de ecos de gritos e de enormes gestos explicativos de palhaço pobre. Para entrar em comunicação com esse ovo de silêncio o filho iniciava uma espécie de batuque zulu ritmado de guinchos, saltava na carpete a deformar-se em caretas de borracha, batia palmas, grunhia, acabava por afundar-se extenuado num sofá gordo como um diabético avesso à dieta, e era então que movida por um tropismo vegetal de girassol a mãe erguia o queixo inocente do tricot e perguntava: hã?, de agulhas suspensas sobre o novelo à laia de um chinês parando os pauzinhos diante do almoço interrompido. Classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, repetiam os degraus à medida que os subia e a enfermaria se aproximava dele tal um urinol de estação de um comboio em marcha, chefiada por uma vaca sagrada que a fim de descompor as subordinadas retirava a dentadura postiça da boca, como quem arregaça as mangas, para aumentar a eficácia dos insultos. A imagem das filhas, visitadas aos domingos numa quase furtividade de licença de caserna, atravessou-lhe obliquamente a cabeça num desses feixes de luz poeirenta que os postigos de sótão transformam numa espécie triste de alegria. Costumava levá-las ao circo na tentativa de lhes comunicar a sua admiração pelas contorcionistas, entrelaçadas em si próprias como iniciais em ângulo de guardanapo e detentoras da beleza impalpável comum aos hálitos de gaze que anunciam nos aeroportos a partida dos aviões e às meninas de saias de folhos e botas brancas a desenharem elipses às arrecuas no rinque de patinagem do Jardim Zoológico, e desiludia-o como uma traição o estranho interesse delas pelas damas equívocas, de cabelos loiros com raízes grisalhas, que amestravam cães melancolicamente obedientes e uniformemente horrorosos, ou pelo rapazinho de seis anos a rasgar listas telefónicas no riso fácil dos guarda-costas em botão, futuro Mozart do cassetete. Os crânios daqueles dois seres minúsculos que usavam o seu apelido e lhe prolongavam a arquitectura das feições surgiam-lhe tão misteriosamente opacos como os problemas de torneiras da escola, e espantava-o que sob cabelos que possuíam o mesmo odor dos seus grelassem ideias diversas das que penosamente armazenara em anos e anos de hesitações e dúvidas». In António Lobo Antunes, Memória de Elefante, 1979, 1983, Publicações dom Quixote, BIS, Grupo Leya, 1983, ISBN 978-989-660-091-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Um Longo Caminho para o Infinito. Os Números Primos. Enrique Gracián. «Quando os chineses falavam das dez mil estrelas que há no céu, não queriam dizer que as tinham contado todas. Num simples relance, o nosso cérebro só é capaz de reconhecer um máximo de cinco objectos»

jdact
Nada mais natural do que um número natural. Nos alvores da aritmética
«Como tudo na vida, também os números primos tiveram uma origem, um nascimento que temos de procurar no próprio início dos sistemas de numeração. Chegaram como números naturais, mas rapidamente se destacaram como números especiais.
Deus criou os inteiros, tudo o resto é obra do homem. Leopold Kronecker (1823-1891), o matemático alemão a quem se atribui esta afirmação, referia-se aos números  naturais, que são os que utilizamos ra contar: 1, 2, 3, 4, 5,…  Kronecker pretendia com isto dizer que grande parte do edifício matemático se constrói a partir da aritmética elementar. Mas afirmar que Deus nos deu os dez primeiros números é o mesmo que dizer, à parte do contexto religioso, que não há nada mais natural do que um número natural, isto é, que estes números sempre estiveram presentes como parte da natureza que nos rodeia. Não seria muito arriscado supor que o processo de contar se iniciou quando o ser humano abandonou o estado de caçador / colector para iniciar o seu longo percurso como agricultor / criador. Nesse momento, numerosos bens, como grãos de trigo, cabeças de gado ou recipientes, deixaram de ter um uso imediato, para passarem a ser produtos, o que tornou necessário inventar diversos processos de contagens. Imaginemos um pastor que leva o seu rebanho a pastar. Ao regressar, tem de se assegurar de que entram no estábulo tantas cabeças de gado quantas saíram. A forma mais natural de o fazer, se não se dispuser de um sistema de numeração, é arranjar um monte de pedrinhas e ir colocando num saco uma pedra por cada ovelha que sai. Mais tarde, ao regressar, só se tem de ir tirando da bolsa uma pedra por cada ovelha que entra e verificar se as contas batem certas. Trata-se de um processo primitivo de cálculo (recordemos que cálculo vem do latim calculis, pedra) que não requer o conceito de número. Em termos matemáticos actuais, diríamos que o pastor estabelece uma aplicação bijectiva ou biunívoca entre o conjunto de ovelhas e o conjunto de pedras. Se pensarmos que, em matemática, o conceito de aplicação biunívoca entre dois conjuntos só se estabeleceu de forma precisa no século XIX, poderá parecer paradoxal considerar o processo de contar como sendo o mais natural que existe. Na verdade, afirmamos que qualquer coisa é natural, temos a obrigação, pelo menos neste contexto, de estabelecer algumas precisões. Poderíamos entender por natural um processo mental que surge de forma imediata, sem necessidade de reflexão prévia. Mas não é de todo certo que o sistema de contagem com uma bolsa cheia de pedras não requeira em absoluto uma reflexão prévia. Seja como for, o que caracteriza esse sistema é o seu imediatismo quanto ao uso, a finalidade prática a que se destina. Tentar avaliar o grau de reflexão exigido por um processo mental para o classificar ou não como natural pode, portanto, revelar-se uma tarefa demasiado complexa. Neste contexto, ser-nos-á mais útil falar de níveis de abstracção. Quando os chineses falavam das dez mil estrelas que há no céu, não queriam dizer que as tinham contado todas. Num simples relance, o nosso cérebro só é capaz de reconhecer um máximo de cinco objectos. Com quantidades superiores, necessita de encontrar uma estratégia para os contar. A introdução de um sistema de numeração implica um forte processo de abstracção, a ponto de muitos especialistas considerarem que, a par da aprendizagem da linguagem, é um dos maiores esforços mentais que o ser humano realiza ao longo da sua vida. Quando dizemos três, podemos estar a referir-nos tanto a três ovelhas como a três pedras, três casas, três árvores ou três coisas quaisquer. Se tivéssemos de utilizar palavras diferentes para numerar cada um dos objectos a que nos referimos, a sociedade agropecuária teria colapsado à nascença. Três é um conceito abstracto, Uma pura imagem mental que, para subsistir como tal num grupo social, requer uma única palavra e um símbolo como veícu1os de comunicação». In Enrique Gracián, Os Números Primos, Um logo caminho para o infinito, o mundo é matemático, RBA, 2010, ISBN 978-844-737-022-1.

Cortesia de RBA/JDACT

Compreensão do Surrealismo em Portugal. António Cândido Franco. «… noite maravilhosa que, em seu ventre, dilatado, sentia germinar um braseiro de sóis, donde saíam, como extintas faúlhas a voar, grandes lágrimas de água e terra escura. […]»

jdact

Das Experiências de Além Mundo ao Supra-real
«(…) Depois de tecer algumas considerações sobre o sonho, de permeio com outras sobre a realidade e a consciência acordada, que com o sonho contrasta, Breton tem a seguinte exclamação: Creio na resolução futura destes dois estados, na aparência tão contraditórios, que são o sonha e a realidade, numa espécie de realidade absoluta, de surrealidade, se assim se pode dizer. Espantoso, não posso deixar de exclamar! Antes mesmo de falar de surrealismo Breton fala de surrealidade, quid do surrealismo. E que diz ele? Que a surrealidade é uma realidade absoluta, que resulta da conciliação entre a realidade sensível, da primeira consciência, e o sonho, que é a realidade, mesmo que disfarçada ou travestida, da segunda consciência. Novalis falou dum real absoluto e Frederico Schlegel dum real autêntico por contaste com o real sensível. Como não ver essa espécie de realidade absoluta de que fala Breton, resultante da conciliação entre a realidade dos sentidos e o sonho, como o real absoluto de Novalis, de resto citado no texto de 1924 a partir do paralelismo, mas não da homologia, entre séries ideais de acontecimentos e séries reais. E já agora como não ligar, ao menos por um cordão de luz, essa surrealidade ao mundo das ideias platónicas e à topografia do extra-mundo, com um litoral próximo e bem demarcado e um oceano distante e indefinível, tal como a regista um platónico como Sohravardi? A coincidência não deixa dúvida, para insistir nela. Ainda assim paga a pena acrescentar que a surrealidade está referida ao surreal e que este se entende como supra-real, quer dizer, como além munda, tal o encontrei nas experiências do sujeito lírico de Teixeira de Pascoaes no livro Sombras.
Sombras, noto agora? Sim, espera do entardecer do dia, anseio crepuscular, e exaltação febril da noite escura pelo autor que pouco depois, no seguimento deste livro de 1907, escreverá Senhora da Noite (1909). Quer ver um exemplo desta exaltacão? Pois aí tem o poema Sombra de Deus: noite maravilhosa que, em seu ventre, dilatado, sentia germinar um braseiro de sóis, donde saíam, como extintas faúlhas a voar, grandes lágrimas de água e terra escura. […] Ó noite imensa feita de sóis, de pedras, de alvoradas! Ó noite criadora! Ó noite escura! Ó tenebrosa mãe de Satanás! […]
A noite apaga a realidade sensível e revela o além-mundo, o supra-real, o real autêntico e absoluto; a noite é o lugar de origem, um mundo de anti-matéria, de vazios, de incandescências solares. Experiências de além-mundo, experiências de surrealidade só de noite se experimentam. Sem essa câmara escura, exterior ou interior, impossível contemplar as estrelas ou as ideias. As viagens ao supra-rea1 são nocturnas, quer dizer, a resolução da oposição entre a realidade sensível e o sonho necessita dum estado crepuscular, translúcido, em que as tinturas profundas da noite se misturem ao brilho opaco e esmaltado do dia. Vejo agora que esta resolução a favor dessa nova realidade absoluta que é o supra-real tem tradução em linguagem freudiana. Assim: resolver a oposição entre o sensível e o sonho imaterial, chegar ao estado translúcido crepuscular, é permitir e incentivar o pacto e a ponte entre as duas consciências. É a mascarada dos símbolos a invadir a primeira consciência, a poesia a tomar cona da lógica do real,
a noite a beber o dia». In António Cândido Franco, Notas para a Compreensão do Surrealismo em Portugal, Lisboa, Peniche, Évora, Editora Licorne, 2012, ISBN 978-972-8661-90-8.

Cortesia de Licorne/JDACT

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «Para a imagem, hoje bastante questionada, da Roma assassinada pelos bárbaros, os saques visigodo e vândalo parecem funcionar como duas facadas iniciais»

jdact e wikipedia

«(…) Do primeiro grupo de análises indicado, aquele que metaforiza o Império Romano como um grande ser vivo, tornou-se célebre e emblemática a frase do historiador Piganiol, que costumava afirmar que a civilização romana não morreu de morte natural; foi assassinada. A grande crise económica, política e militar do século III, marcada por intensas guerras civis, para Piganiol teria dado origem a uma nova concepção de poder imperial que se consolidaria no futuro Império Bizantino. A parte ocidental, contudo, não teria resistido aos avanços bárbaros, para utilizar esta expressão do próprio historiador, de modo que aqui a explicação da queda do Império é direccionada para os factores externos. Nesta mesma esteira, Arther Ferril (1989) defende a ideia de que o grande marco da queda seria o ano 476, por ocasião da deposição de Rómulo Augusto, o último imperador romano do Ocidente, por Odoacro, o que teria contribuído decisivamente para destruição do poderio militar romano. Guardemos esta primeira posição: ela nos revela o olhar do corte que vem de fora, da ruptura mais imediata. Outras datas importantes para este tipo de leitura da passagem que privilegia os eventos bélicos podem ser buscadas nos momentos emblemáticos em que povos não latinos saqueiam Roma, berço e símbolo máximo do poderio do Império Romano. Neste sentido, o saque de Roma pelos visigodos sob o comando de Alarico, em 410 d.C., vivido de maneira particularmente traumática pelos habitantes de Roma e de modo mais geral pelos cidadãos do Império nas diversas províncias, bem como o saque de Roma pelos vândalos em 455 d.C., parecem prenunciar de uma certa óptica este acontecimento aparentemente mais definitivo que é a deposição de Rómulo Augusto por Odoacro, rei dos hérulos, em 476 d.C.. Para a imagem, hoje bastante questionada, da Roma assassinada pelos bárbaros, os saques visigodo e vândalo parecem funcionar como duas facadas iniciais, e de facto pode-se dizer que de algum modo estes acontecimentos contribuíram significativamente para ferir irremediavelmente, no âmbito simbólico, a ideia de uma Roma inexpugnável. Mas daí a situar acontecimentos como estes na centralidade de um processo que por suposto teria conduzido abruptamente ao desaparecimento do mundo romano vai uma distância maior, e, em vista de um posicionamento crítico em relação à centralidade dos acontecimentos militares que teriam promovido todo um fim de uma época, surgiram concomitantemente novas interpretações, conforme veremos mais adiante. Por ora, vale lembrar ainda que mesmo a leitura do assassinato do Império Romano permite-se a examinar este que seria o fatídico momento ou o processo do assassinato, se assim podemos dizer, de modo bem mais complexo, e neste caso o acontecimento das invasões bárbaras pode ser lido não necessariamente como um saque em destaque ou uma invasão específica, mas sim como todo um conjunto de acontecimentos relacionados às invasões ou migrações germânicas. Neste sentido, fariam parte de um mesmo acontecimento-pacote, entre outros itens, os confrontos que se dão entre povos germânicos e romanos a partir do século III d.C., bem como eventos mais específicos, como o facto de que os godos já tinham aniquilado legiões romanas em Adrianópolis em 378 d.C., os saques visigodo de 410 d.C.. e vândalo de 455 d.C., fechando-se o pacote, finalmente, com a deposição de Rómulo Augusto em 476 d.C. Estes, naturalmente, são apenas alguns exemplos, e o acontecimento-pacote ao qual nos referimos engloba certamente muito mais eventos, alguns que possivelmente sequer passaram à história registada, mas que devem ter trazido a sua contribuição atomizada para o resultado geral que em um tempo relativamente curto mudou a face da história do mundo antigo». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereges na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

A noite de Babilónia. Juliette Benzoni. «Tal como na câmara dourada do Entemenanki, esperava-os uma mulher que dormira no templo e que devia acolher no seu corpo o faraó, filho preferido de Amon-Ré e seu substituto nas núpcias divinas»

jdact

Ao princípio eram os deuses…
O harém de Amon…
«(…) Tal como Karnak, Ipt-resit era dedicado não apenas a Amon, o senhor dos deuses, representado na sua forma humana com duas grandes plumas na cabeça e o sexo erecto do deus Min, simbolizando a sua força fecundadora, mas também à sua esposa Mut e ao seu filho Khonsu. Mut, corpo de mulher e cabeça de abutre, tinha a coroa dupla do Alto e do Baixo Egipto. Quanto a Khonsu, era venerado sob a sua forma habitual: embrulhado num sudário e com o disco lunar na cabeça. No dia indicado, sempre na mesma data do mês de Paochi, a estátua de Amon deixava, aos ombros de uma centena de carregadores, a nave do grande templo e descia até ao Nilo para tomar lugar na sagrada e multicolorida nave dourada. Seguiam-no Mut, depois Khonsu e por fim o próprio faraó. Cada um dos membros da família sagrada era depositado numa barca quase tão magnífica como a de Amon. O trono dourado do faraó ocupava a popa. As quatro barcas divinas subiam então o Nilo até ao novo templo, erguido num terreno sobre-elevado para fugir às cheias. Os deuses abandonavam então as suas verdadeiras embarcações por navios simbólicos feitos de madeira dourada e munidos de esticadores, aos quais se atrelavam os sacerdotes mais vigorosos. Ao som dos tambores sagrados e dos cânticos religiosos, Amon, Mut, Khonsu e o faraó eram então levados para as profundezas do templo, cujas portas de cedro incrustadas a ouro se fechavam durante dez dias, ao mesmo tempo que cada uma das barcas-cadeiras era guardada numa capela particular.
Tal como na câmara dourada do Entemenanki, esperava-os uma mulher que dormira no templo e que devia acolher no seu corpo o faraó, filho preferido de Amon-Ré e seu substituto nas núpcias divinas, mulher que, dizia-se, não fizera comércio com mais nenhum homem. O povo sonhava com o destino da criatura, que só podia ter uma beleza ideal e que, após dez dias de amor com o deus, viveria apenas das suas recordações. De facto, o papel de esposa divina pertencia a maior parte do tempo à própria rainha do Egipto ou a uma das numerosas esposas que povoavam o imponente harém do faraó, mas a Grande Esposa real podia estar grávida no momento da festa, levando a que o faraó desejasse outra companheira. Calcula-se que o efectivo do harém de um faraó por norma constituído fosse de mais ou menos trezentas e vinte mulheres. Assim, a virgem, do templo podia ser uma das princesas estrangeiras cujos pais, reis vencidos, enviavam para o Egipto para se tornarem esposas do faraó, caso da princesa Tadukhipa, filha do rei Tushratta de Mitanni, que foi oferecida a Amen-hotep IV (e que conheceu as dez noites de amor de Lucsor) e que alguns historiadores associaram a Nefertiti, A Bela Chegou.
Uma vez fechadas as portas, iniciava-se um cerimonial secreto, infinitamente mais complicado e mais estranho do que o praticado nos zigurates mesopotâmicos. O faraó e a sua esposa não caíam assim, sem mais nem menos, nos braços um do outro durante dez noites e dez dias. O ritual exigia que a identificação dos reis com os deuses fosse completa. Amon despia-se da sua divindade ao apoderar-se do corpo do faraó e este, no momento em que se transformava em Amon, devia vestir o traje e os atributos do deus: o toucado de plumas, a cruz ank, símbolo da vida, e o ceptro em forma de cabeça de chacal. À sua volta os sacerdotes e as sacerdotisas cobriam os rostos com máscaras representando as diversas divindades animais que escoltariam Amon ao leito real para a consumação do casamento místico e carnal segundo o texto da lei sagrada. Assim falou Amon-Ré, rei dos deuses, senhor de Karnak, supremo soberano de Tebas, ao assumir a forma deste macho (aqui o nome do faraó em exercício), rei do Alto e do Baixo Egipto, distribuidor da vida, ao encontrar a rainha quando ela repousava no esplendor do seu palácio. O perfume suave do deus acordou-a e encantou-a. Sua Majestade aproximou-se, apoderou-se dela, penetrou-a com o seu coração e revelou-lhe a sua forma divina. A beleza do deus arrebatou-a e o amor espalhou-se-lhe por todos os membros porque o odor e o bafo do deus cheiravam aos perfumes de Punt... A rainha, honrada, devia mostrar-se reconhecida: que a tua força seja duas vezes grande! Sublime de contemplar é o teu rosto quando me concedes a graça de te unires a mim. O teu orvalho fecunda-me os membros... De uma maneira geral, a. festa da fertilidade e as núpcias divinas culminavam com o nascimento de um príncipe ou de uma princesa, filho ou filha de deus, sem que alguém se atrevesse a pôr em causa uma tão augusta paternidade...» In Juliette Benzoni, Na Cama dos Reis, Noites de Núpcias, 2010, tradução de Nuno Lorena, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012/2013, ISBN 978-989-657-351-5.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

A noite de Babilónia. Juliette Benzoni. «Ipt-resit. Assim chamava a Tebas das Cem Portas ao novo templo de Lucsor que o faraó Amen-hotep III acabava de mandar construir na margem oriental do Nilo»

jdact

Ao princípio eram os deuses…
«(…) O senhor feudal, porque bravo entre os bravos (ou maligno entre os malignos), tomou o lugar da divindade. As coisas, claro, foram-se alterando ao longo dos dias e das noites. O direito sagrado dos primeiros tempos transformou-se depressa num privilégio aplicado em exclusivo às raparigas mais belas, mas entretanto os pretendentes também começaram a deixar de querer ver os mais corajosos do que eles abrirem a porta misteriosa por trás da qual esperava o templo da fecundação. Mas voltemos aos tempos em que os deuses estendiam o seu poder pelos quatro pontos cardeais. Esplêndida, portanto, era a noite que a Babilónia oferecia ao seu deus. Bastante mais austera, porém, era a que a severa Assíria oferecia, em Kalah e depois em Ninive, ao seu deus Nabn, no terceiro dia do mês de Igyar. Não havia orgias nem virgens divinas oferecidas nuas ao desejo de Nabn porque nenhum humano era digno de o encarnar incluindo o rei. Quem entrava na câmara, a meio caminho do céu, onde a esperava uma sacerdotisa, era a sua estátua de ouro e esmalte. Naquele dia o seu leito era consagrado na cidadela, o deus penetrava na câmara e regressava ao seu lugar no dia seguinte..., sem, entretanto, ter feito grande coisa.
Após a consagração do leito e a apresentação das oferendas rituais, a sacerdotisa pegava numa cana, mergulhava-a em óleo perfumado, purificava os pés da imagem divina, em seguida aproximava-se do leito, perfumava-o três vezes, ia beijar os pés da estátua e por fim sentava-se, após o que os sacerdotes regressavam para consagrar madeiras aromáticas, queimá-las e fazer libações com as cinzas. Em seguida vinha o banquete nupcial: longas e sumptuosas mesas em honra dos cruéis deuses do panteão assírio, mas só as efígies de ouro ou de prata é que tomavam assento, servidas com respeito e reverência. Por fim, a noite terminava com uma oração pelo rei, para que os deuses aceitassem abençoar as suas armas, sempre mais ou menos prontas a servi-los. Ao nascer do Sol o pobre Nabn era levado a casa em procissão. Instalavam-no num carro ao lado do condutor e levavam-no a dar uma volta até um certo bosque sagrado, onde ele recebia as homenagens e os sacrifícios de mais sacerdotes barbudos, mas onde não encontrava qualquer bacante, atraente ou não, disposta a brincar com ele, após o que o reintegravam, durante mais um ano, no seu templo obscuro, onde as únicas distracções eram as salmodias dos sacerdotes, os fumos do incenso, os sacrifícios e o sangue dos animais degolados, alternando com alguns banhos de pés oleosos e, nos dias de jejum, com o massacre ritual de alguns prisioneiros de guerra ou de alguns escravos quando o inimigo não estava pelos ajustes...
Têm-se os deuses que se merecem. Nabn não era um deus alegre. Em 612 a. C., o império assírio, rapace e guerreiro por natureza, desmoronou-se sob os golpes dos Medos e dos Babilónios, deixando atrás de si os gigantescos touros androcéfalos alados, os baixos-relevos do palácio de Sargon, em Khorsabad..., e também a morte fantasista de Sardanapale, obra do pincel romântico e genial, mas pouco documentado, de Eugène Delacroix, eternizando na memória dos homens a recordação dos Jardins Suspensos de Babilónia, o sonho de Sémiramis e a espantosa cultura das asas de tijolo nascida na aurora do mundo com os Sumérios e que ofuscou os séculos à custa de vários povos escravizados, mas que também concebeu a matemática e a ciência do Céu antes de se perder, pela mão de Deus, nas areias do deserto...

O harém de Amon…
Ipt-resit. Assim chamava a Tebas das Cem Portas ao novo templo de Lucsor que o faraó Amen-hotep III acabava de mandar construir na margem oriental do Nilo a pedido de Tié, a sua amada Grande Esposa real, para ali celebrar todos os anos as núpcias de Amon-Ré com a terra do Egipto, fecundada pela sua semente divina para ainda maior riqueza e felicidade do povo. Como grande construtor que era, Amen-hotep III mandara também construir na outra margem do rio, a dos mortos, porque era nela que o Sol se punha, um palácio gigantesco, do qual só restam, infelizmente, as famosas colunas de Memnon, para nele viver e reinar sob a protecção da Eternidade, para além de ter mandado ampliar e embelezar, na margem da vida e do Sol nascente, o grande templo de Karnak, templo principal de Amon, cujo novo santuário era apenas uma dependência». In Juliette Benzoni, Na Cama dos Reis, Noites de Núpcias, 2010, tradução de Nuno Lorena, Planeta Manuscrito, Lisboa, 2012/2013, ISBN 978-989-657-351-5.

Cortesia de PlanetaM/JDACT

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «… os valores greco-romanos que futuramente se tornariam uma base para a cultura burguesa, e o cristianismo, que se tornaria a religião predominante no Ocidente…»

jdact e wikipedia

«Delimitar um grande período historiográfico no tempo, separando-o de um que se estende atrás dele e de outro que começa depois, é uma operação que traz indeléveis marcas ideológicas e culturais que nos falam da sociedade na qual está mergulhado o próprio historiador, dos seus diálogos intertextuais, de visões de mundo, que de resto estende-se para muito além do historiador que está estabelecendo seus recortes para a compreensão da história. Os próprios desenvolvimentos da historiografia, os novos campos históricos e domínios que surgem, a emergência de novas relações interdisciplinares, os enfoques a abordagens que se sucedem como novidades ou como reapropriação de antigas metodologias, trazem obviamente uma contribuição importante para que a cada vez se veja o problema da passagem de um a outro período histórico sob novos prismas. Examinaremos sob esta perspectiva a questão da Antiguidade e de sua oscilação de fronteiras temporais em relação à Idade Média, quando se tem em vista uma periodização da história no Ocidente. Será oportuno partir da constatação de que o acontecimento fundamental que rege muito habitualmente esta fronteira, ainda que se discutindo qual o momento mais emblemático a ser considerado, é recorrentemente o fim do Império Romano, ou o fim da civilização greco-romana, para considerar o problema em uma perspectiva mais ampla. Este acontecimento, que de resto não teria maior importância para as diversas histórias possíveis de serem construídas em relação às espacialidades não europeias, busca colocar precisamente em relevo a importância do Ocidente na história do mundo. De igual maneira, aqui temos um acontecimento-demarcador que também favorece uma historiografia cristã específica, pois o mundo antigo vai cedendo lugar ao mundo medieval à medida que a Igreja Cristã vai-se afirmando como força política importante, como aspecto definidor de uma nova civilização e, sobretudo, de uma nova cultura. É interessante observar, aliás, que a Antiguidade e a Idade Média são parceiras no projecto de fornecerem ao Ocidente Moderno e ao Contemporâneo dois de seus principais traços definidores de identidade: os valores greco-romanos que futuramente se tornariam uma base para a cultura burguesa, e o cristianismo, que se tornaria a religião predominante no Ocidente. Identitariamente, o Ocidente poderia ser apresentado simultaneamente como filho de Aristóteles e filho de Cristo, para falar em termos metafóricos. Por outro lado, se o fim do Império Romano, tomado como signo do próprio fim do mundo antigo, é habitualmente proposto como evento demarcatório entre os dois períodos, é relevante destacar que entre o desaparecimento do mundo antigo e a emergência da Idade Média existe uma grande zona temporal repleta de ambiguidades, por assim dizer, onde se confrontam intensamente as rupturas e permanências entre estas duas fases da história europeia. Por isso, esse grande período de alguns séculos, que alguns situam entre os séculos IV e VIII, ou mesmo entre os séculos III e VIII, tem sido perspectivado de maneira diferente pelos vários grupos de historiadores, gerando inclusive denominações distintas. Alguns dos historiadores da Antiguidade chamam-no de Antiguidade Tardia. Já alguns dos medievalistas preferem-no chamar de Alta Idade Média ou de Primeira Idade Média. Vale dizer que muitos dos medievalistas costumam ver neste período um começo, o início de uma nova era, e incorporam-no como seu território historiográfico. Reconhecendo as permanências trazidas da Antiguidade, que só lentamente se desfazem, centram contudo o principal de suas atenções sobre as rupturas, sobre o que este período traria de singularmente novo para a história. A posição no campo dos antiquistas é bastante dividida. Uma das dicotomias mais tradicionais, de certo modo já superada pela historiografia recente, é aquela que se estabelece no seio do grupo de historiadores que comparam a civilização greco-romana a um organismo vivo. De um lado teremos aqueles que investem no imaginário de que a civilização greco-romana teria desaparecido abruptamente; de outro, teremos aqueles que investem na ideia de que a civilização greco-romana foi definhando ou decaindo mais ou menos gradualmente. À parte isto, já veremos, seria possível visualizar o Império Romano não como organismo vivo, e sim como algo que a partir de certo momento vai se transformando nas novas realidades civilizacionais que se afirmariam no período medieval, de um lado o Império Bizantino, de outro a civilização ocidental cristã partilhada pelos novos reinos europeus. Por fim, a visualização do Império Romano não como organismo, mas como um outro tipo de sistema complexo, permitiria examinar o seu rápido ou gradual desaparecimento, conforme a perspectiva do analista, como uma desagregação das forças que o sustentavam e que lhe davam a sua especificidade». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereges na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

As Viúvas de dom Rufia. Carlos Campaniço. «De presenças fugazes, os soldados causavam sempre grande reverência às gentes do campo; era como se a República e os novos tempos acompanhassem a patrulha ocasional»

jdact

«(…) Nisto, com a alentejana pronúncia de pôr graça até nas situações mais adversas, um dos presentes descuidou as palavras na língua: está visto que fica tudo em águas de bacalhau. De imediato se ouviu uma gargalhada gorda por cima da multidão. Ora, o viril cabo, disciplinador até no aprumo dos seus homens, determinou prontamente a prisão de Marcelino Piolho por não admitir zombarias com o seu nome, tampouco conclusões apressadas sobre a investigação. Do pó da multidão ficou apenas Armindo Costureira, imune às ordens do cabo. Armindinho, Armindinha, Costureira ou Costureirinha, todos os nomes na boca do povo lhe assentavam como as roupas femininas com que andava por casa: justas e de outra natureza. Numa terra de homens rudes, fingia-se um deles e punha seu colete e sua cinta, colonizando-se, e seu chapéu e sua jaqueta. Só os gestos mais pronunciados o denunciavam entre os demais homens daquele coro curioso. Tinha os olhos emudecidos, humedecidos também, preso à terra por um medo que não sabia descrever. O mando do cabo não chegou até si, porque as suas boas atenções estavam no passado vivido com o morto. Foi preciso um bom grito de um dos guardas e um aceno de indignação para que acordasse do seu letargo de saudades. Então lá foi, campo fora, que a aldeia se fazia escura, dando desacostumados passos em terra tão crua. Enquanto se afastava com sua jaqueta escura e o seu corpo magro, o cabo Catarino Bacalhau olhava-o a desaparecer-se entre os cabeços, fixando-lhe a melancolia. Naquele tempo, Fernão Baixo não tinha Guarda, pelo que os zelosos soldados vieram todos da vila de Moura, mandados chamar à pressa, visto ser coisa rara haver um morto matado nos chãos do concelho. De presenças fugazes, os soldados causavam sempre grande reverência às gentes do campo; era como se a República e os novos tempos acompanhassem a patrulha ocasional. Como o carteiro, que trazia pedaços de outros mundos dentro do saco, a Guarda trazia a esperança de que melhores tempos, por melhores ideias, estariam para chegar, ainda que se lhe notassem já alguns autoritarismos. Porém, naquele dia em que apareceram na aldeia com Marcelino Piolho preso de mãos, para o levarem para os calabouços de Moura, à custa de graça tão vulgar, os olhares e os modos não foram já os mesmos. Metia dó ver o Piolho atado ao rabo do cavalo com pavor das patas altas do bicho, coisa que um verdadeiro piolho ou afim na arte de parasitar certamente não teria. Dois guardas ficaram encarregados de fazer a vigília a dom Rufia até meio da noite, os outros dois cumpriram a outra metade, enquanto o cabo Bacalhau deitara seu rabo, que pelo que se pôde assistir não era de fiel-amigo, numa cama de ocasião nas acomodações da Junta de Freguesia. Os restantes dois soldados passaram a noite a vigiar o Piolho numa devoluta prisão da Guarda Real, um anexo da mesma casa da Junta de Freguesia. Se aquela fosse gente instruída, conhecedora das histórias dos homens desde a antiguidade, poderia ter pensado que a vigília militar ao cadáver era a mais inútil das acções desde os dias em que Ícaro tentara subir aos céus. Dir-nos-ia, com esta comparação de mostrar sabedoria, que dali não fugiria o morto, muito menos haveria quem o quisesse em sua própria casa. Esta afoiteza, por não ter existido, nunca chegou aos ouvidos do temido cabo. A casa do falecido que se abrira, de porta em par, para receber o velório sem morto tinha cada vez mais veladores, como era o hábito de então. Dom Rufia tinha uma irmã algures no mundo, mas esta e os seus pretensos filhos não o podiam chorar neste dia. Ela havia emigrado muito nova para lá do oceano, julgando-se estar em terras argentinas, mas não era isso certeza para uma teima. Assim, os únicos parentes do falecido eram os tios maternos, Homero Dente d'Alho e sua irmã Maria Teresina. À luz das velas, e apertados nas cadeiras que tinham trazido para a casa do morto, os rostos amarelados dividiam-se quanto à proveniência do tiro. De marido cabrão era a convicção geral, pois bem poucos achavam que fosse paga de negócio. Num desses instantes em que ninguém diz palavra e se pode ouvir o ruído do pensar alheio, um homem já de idade, que se esfregava de sono na face, disse qualquer coisa para se acordar e lamentou que, no dia da sua morte, se continuasse a chamar dom Rufia ao malogrado. Se Rufia fora nome bem merecido em vida, naquela fria posição campestre o homem devia designar-se apenas pelo nome próprio ou pela sua condição de morto». In Carlos Campaniço, As Viúvas de dom Rufia, 2016, Casa das Letras, Grupo Leya, 2016, ISBN 978-989-741-491-6.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

As Viúvas de dom Rufia. Carlos Campaniço. «Logo depois taparam dom Rufia com uma manta que lhe deixou os sapatos à mercê do escuro. Pelo meio, o único interrogatório possível foi o da velhinha Chica Laura…»


jdact

«Estava o céu murcho no dia em que morreu dom Rufia. Ninguém julgou que se conciliava a meteorologia com uma certa tristeza divina, porque até o mais poucachinho dos homens percebera a vontade de um Inverno firme. A luz diurna, intimidada pelo negro das nuvens, sombreava as gentes que se comichavam à porta do defunto. Das ruas vizinhas, das casas mais distantes, de toda a aldeia de Fernão Baixo, vinha gente, em passo aberto, empunhando aquela curiosidade difícil de disfarçar. Depressa a casa se encheu de géneros humanos, de idades e de profissões. Para o velório, para aquele imprevisto velório, faltava apenas o morto, que dormia demoradamente num chão frio em terras de campo. Não o podem trazer para casa sem autorização da Guarda, prevenia o padre Xermano, enquanto acomodava as carnes ricas em sestas numa cadeira que alguém lhe trouxera até ao começo de uma mão estendida. Mesmo que os que cacarejavam a desventura do morto ficassem sob o telhado do céu, ainda aceso por uma luzinha de tarde, o padre preferiu o da casa baixinha do infeliz, pois mesmo aquela impotente claridade lhe fazia comichões insuportáveis, gatanhando a pele macia de uma Galiza de homens claros. A habitação pouco asseada, como eram as dos homens sozinhos daquela época, tinha uma sala de entrada pequena; um quarto onde só podia pertencer um enxergão de palha e uma mesa-de-cabeceira; e uma divisão interior destinada ao lume e às refeições, na qual havia cinza suficiente para emparedar a aldeia. Ao fundo, estava uma porta baixinha, luxuosa em buracos e fabricos de aranha, donde se podia adivinhar o quintal. Se por aí se saísse, impunha-se um mato de décadas, ervas virgens e esplendorosas que subiam o mais que podiam sem o acanho das visitas humanas. Apenas uma clareira, onde se supunha que dom Rufia aliviava as águas, parecia não prosperar entre aquele festival de salubridade silvestre. Quando o padre abriu a porta do quintal, fazendo caso da sua bexiga, urinou no preciso local das ervas baixas e então percebeu a fidelidade do morto àquele santuário, que permitia um alívio sem picadelas. O Sol, agasalhando-se como é sua obrigação, deixava, entretanto dom Rufia à mercê de uma geada implacável, que haveria de vitrificar as poças de água, de murchar as folhas das laranjeiras e de reduzir a salsa a um seco de inutilidade. Mas o que preocupava as gentes tranquilizaria, certamente, o falecido, uma vez que se supõe que os ossos desempregados de vida não temem temporais. Não obstante se adivinhar que o frio congelaria tudo, os seis soldados da Guarda Nacional Republicana não deixaram que se levantasse o corpo enquanto não ficassem apuradas as circunstâncias do assassinato. Mediram a distância a que eventualmente se dera o disparo, deram passos largos com medidas de metro, indo um comprovar o cálculo do anterior, estudaram o desenho das pegadas, mas tantas as vezes o fizeram que só sobrou o das botas negras da novel República, perguntaram a gentes de montes e de caminhos quem haviam visto por ali, mas tanto esforço em vão deixava-as divididas sobre de quem ter mais compaixão, se do morto, se dos investigadores. Foi assim até a noite mandar mais do que a persistência humana. Logo depois taparam dom Rufia com uma manta que lhe deixou os sapatos à mercê do escuro. Pelo meio, o único interrogatório possível foi o da velhinha Chica Laura que nessa manhã o achara dormido para sempre, sem mugir dor ou acção, misturando o último sangue com a água nocturna das ervas, dando-se isso quando recolhia uns ramos de azinho para o lume. A velhota, enfadada com as perguntas, tentando desenvencilhar-se daqueles homens obrigatórios, declarou que, com efeito, a melhor testemunha do caso era o Alfaiate, que com suas ventas de cão encontrara morto dom Rufia. Porém, logo retorquiu o cabo que, para o bem ou para o mal, os donos tinham sempre de responder pelos seus animais. Sonolenta e velha, Chica Laura encolheu os ombros, encolheu-se e disse e redisse o que podia: encontrara-o assim e logo que avistara Fernão Baixo chamara a vizinhança. Os seis homens, dos melhores soldados às ordens do cabo Catarino Bacalhau, desabafavam com as gentes que a República estabelecia a ordem até no mais recôndito alqueive da nação. Os curiosos aldeões, embora com uma fome de palmo, não arredaram pé até o cabo tirar uma prepotência da boca, decretando aos presentes que fossem imediatamente para suas casas». In Carlos Campaniço, As Viúvas de dom Rufia, 2016, Casa das Letras, Grupo Leya, 2016, ISBN 978-989-741-491-6.

Cortesia da CdasLetras/JDACT