quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Poesia. Alexandre O’Neill. «Minuciosa formiga não tem que se lhe diga: leva a sua palhinha asinha, asinha. Assim devera eu ser e não esta cigarra que se põe a cantar e me deita a perder»

Cortesia de wikipedia

Adeus Português
«Nos teus olhos altamente perigosos vigora ainda o mais rigoroso amor a luz dos ombros pura e a sombra duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo à roda em que apodreço apodrecemos a esta pata ensanguentada que vacila quase medita e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira onde passo o dia burocrático o dia-a-dia da miséria que sobe aos olhos vem às mãos aos sorrisos ao amor mal soletrado à estupidez ao desespero sem boca ao medo perfilado à alegria sonâmbula à vírgula maníaca do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo em trânsito mortal até ao dia sórdido canino policial até ao dia que não vem da promessa puríssima da madrugada mas da miséria de uma noite gerada por um dia igual
Não podias ficar presa comigo à pequena dor que cada um de nós traz docemente pela mão a esta pequena dor à portuguesa tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces esta roda de náusea em que giramos até à idiotia esta pequena morte e o seu minucioso e porco ritual esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira da cidade onde o amor encontra as suas ruas e o cemitério ardente da sua morte tu és da cidade onde vives por um fio de puro acaso onde morres ou vives não de asfixia mas às mãos de uma aventura de um comércio puro sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante que vai ser que já é o teu desaparecimento digo-te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti»
Alexandre O'Neill

Minuciosa formiga
«Minuciosa formiga não tem que se lhe diga: leva a sua palhinha asinha, asinha.
Assim devera eu ser e não esta cigarra que se põe a cantar e me deita a perder.
Assim devera eu ser: de patinhas no chão, formiguinha ao trabalho e ao tostão.
Assim devera eu ser se não fora não querer».
Alexandre O'Neill

Gaivota
«Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se um português marinheiro, dos sete mares andarilho, fosse quem sabe o primeiro a contar-me o que inventasse, se um olhar de novo brilho no meu olhar se enlaçasse.
Que perfeito coração no meu peito bateria, meu amor na tua mão, nessa mão onde cabia perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida as aves todas do céu, me dessem na despedida o teu olhar derradeiro, esse olhar que era só teu, amor que foste o primeiro.
Que perfeito coração morreria no meu peito morreria, meu amor na tua mão, nessa mão onde perfeito bateu o meu coração».
Alexandre O'Neill


JDACT

Cortesia de Users/Isr/Ist/Utl/JDACT 

A Instrução dos Amantes. Inês Pedrosa. «Jurara a si própria que o corpo de Filipe nunca retiraria do seu um perfume parecido. Desinteressou-se do sexo antes mesmo de o conhecer, por causa de um cheiro a água-de-colónia barata…»

jdact

«(…) Nessa mesma noite, voltaram a brincar às escondidas por entre os túmulos, no cemitério. Quando saltavam o muro do território sagrado já não eram senão um feixe de corações estereofónicos; chegavam a temer que os mortos acordassem a rir às gargalhadas daquela orquestra cardiológica. Faziam-se muito heróicos. Os rapazes içavam as pequenas que ainda cheiravam ao quente da cama onde se tinham enfiado todas vestidas. Eram exímias em abrir a porta da rua sem o mínimo ruído. Treinavam-se a olear dobradiças como a pintar os olhos, nas horas desertas das casas. Faziam ginástica pelos corredores para se tornarem leves nesse momento em que eles as tomavam nos braços, sobre o muro. Teresa às vezes sonhava que estava excessivamente pesada e que o seu par a abandonava do lado de cá, no chão. Salta, Comanecci!, ordenava-lhe agora o seu príncipe João, e ela fechou os olhos e voou para o colo dele tonta de alegria, a acreditar que ele via mesmo nela a aura da estrela romena. Salta, Comanecci!, repetiu ele, como numa canção, mas Teresa olhou para trás e viu o corpo de Cláudia ascendendo, radioso, às mãos de João. Teresa decidiu então que os rapazes se repetem para melhor se ocultarem. João recordara-se de Nadia Comanecci em honra dela. A frase transbordara da sua viril timidez, e ele apressara-se a banalizá-la para que ninguém entendesse o que ela queria dizer. E evidentemente, o que a frase queria dizer era que João amava Teresa. Cláudia nunca atribuiria àquela frase outro significado que não o literal. Literalmente, o que a frase dizia era: vá lá, não tenhas medo, sobe!. Eventualmente, em post-scriptum, poderia também querer dizer: sou tão engraçado, não sou? Mas era só isso. Mesmo que estivesse apaixonada por João, Cláudia não levaria mais longe aquelas palavras. Mas nunca lhe passaria pela cabeça apaixonar-se por João. Nem sequer se apaixonara por Ricardo. Traio-te enquanto te atraio, era o seu lema secreto. Não por uma especial resolução de infidelidade, mas porque lera nos olhos tristes da mãe que os homens têm em geral a fatalidade de se prenderem ao desapego. Cláudia não era capaz de inventar romances e torná-los reais. Não tenho imaginação, confessava ela, com uma inveja simpática, quando lia os poemas de Teresa. Onde é que tu vais buscar estas coisas? Depois ria-se: que grande romântica que tu me saíste! O rosto de Teresa iluminava-se, e começava a pensar na grande tragédia amorosa que ia criar para si. Cláudia era tão bonita e tão prática que estava definitivamente arredada desse grandioso destino.
O jogo tinha regras precisas: sorteava-se a vítima, que contava até trinta para que os fantasmas corressem a esconder-se atrás das campas. De olhos vendados, a vítima tinha que procurar, agarrar e nomear o fantasma, sem falar com ele. Todas as partes do corpo serviam para o jogo; e, uma vez agarrado, o fantasma tinha que ficar quieto a deixar-se identificar. Se a vítima errasse o nome, continuaria a sua peregrinação de morto-vivo até ao reconhecimento. Então, o fantasma revelado tornar-se-ia a próxima vítima humana. Tratava-se de um jogo muito simples. Ricardo Luz estava atrasado, e os outros hesitavam em jogar sem ele. Diziam que era chato, que não tinha graça, mas na verdade tinham sobretudo medo de provocar a ira do deus, porque Cláudia estava ali. Viam-no já atroando os ares de insultos e acusações temíveis, bramando que o que eles queriam era pôr as mãos no corpo da rainha, entre outras coisas. As raras zangas de Ricardo Luz desencadeavam tremores de terra. Sem ele, punham-se a andar à toa, a irritar-se uns com os outros, a deixar de ter ideias divertidas, a pensar no mundo. Filipe sussurrava agora meiguices pueris ao ouvido de Isabel. Beijava-a muito e com muito aparato, como sempre que os outros estavam por perto. Isabel fechava os olhos e encolhia-se-lhe nos braços para fingir que estavam sozinhos e que ele continuaria a ser assim extremoso se não houvesse ali mais ninguém. Mas sentia-lhe nos ombros um perfume horrivelmente alheio. Durante muito tempo Isabel não percebera que odor era aquele. Até que um dia a criada entrou no quarto e ajoelhou-se ao seu lado a arrumar as camisas na gaveta. Desde então, Isabel recusava-se a ir a casa de Filipe quando a criada estava lá. Não suportava a memória do sorriso maternal que a mulher lhe lançara, acariciando devagar as camisas do namorado dela. Estava tudo dito, e Isabel calara-se uma vez mais.
Jurara a si própria que o corpo de Filipe nunca retiraria do seu um perfume parecido. Desinteressou-se do sexo antes mesmo de o conhecer, por causa de um cheiro a água-de-colónia barata misturada de suores. A intimidade não podia compadecer-se da desordem dos sentidos. Para Isabel, o amor pertencia ao reino da absoluta inacção. Filipe podia fazer tudo o que quisesse, desde que continuasse a preferi-la num só olhar. O resto, os beijos, as prendas, os chocolates que ele lhe dava, eram legitimações exteriores, apetites momentâneos, que não tinham mais significado do que os gritos, os amuos e o tal perfume de criada. Se alguém ousava defendê-la da ocasional brutalidade do amado, revelava-se feroz: Não te metas. Ninguém tem nada a ver com isto. Depois fazia-se um grande silêncio. Isabel sabia tornar-se invisível como ninguém. Teresa passava horas a olhar para ela, meditando no desperdício de tamanha beleza». In Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, Publicações dom Quixote, 1997, ISBN 978-972-200-972-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A Instrução dos Amantes. Inês Pedrosa. «Cláudia aparecia com uma fita métrica no bolso, para medir a cintura e as ancas das outras, por vingança. Teresa invejava-a…»

jdact

«(…) E depois tinha ficado de boca aberta à espera que ela pusesse lá a fatia do bolo. Duas palavras bastaram para disparar nela esse passatempo terrível. Teresa fazia de qualquer obstáculo um pretexto para o mistério, uma ponte de glória para a solidão. Apaixonara-se já por quase todos os rapazes do grupo, um a um e para a eternidade. Estavam muito encostados uns aos outros, magicando em alternativas confortáveis ao gelo da tarde, quando se ouviu aquele ruído seco, e depois o grito da senhora que vinha do café. Foi no dia seguinte, no funeral de Mariana, que Cláudia se tornou outra. Dinis parou junto dela em frente da campa aberta e ela quase desmaiou. Era um odor de terra húmida e de sal e de chuva e de rosas queimadas em álcool. Pareceu-lhe que era a morte, aquilo que assim a entontecia. Nem sequer lhe viu o rosto. A morte é a única testemunha da paixão. Tem ciúmes dos corpos e queima-os devagar. Quando os corpos se entregam ao império dos seus lumes é a morte que os ilumina. Depois rouba-os, como se perpetrasse um crime perfeito, esquecendo-se de que os corpos deixam traços. Escusado será dizer que nenhum destes pensamentos turvou, por um momento que fosse, a cabeça de Cláudia. Mais tarde houve quem comentasse que lhe faltava naquela época idade e experiência. A própria Cláudia gosta de repetir que nessa altura era demasiado jovem e irreflectida, como se a vida nos concedesse um prémio de serenidade em troca dos nossos perdidos quinze anos. O que faltou a Cláudia naquele instante parado no tempo foi o que sempre lhe faltaria: esse elementar instinto de defesa que disfarçamos sob o nome de razão. Há seres assim, irremediavelmente unos, incapazes de isolar partes dentro do seu próprio corpo e de as estruturar como castelos autónomos e armados.
O comum dos mortais reage à queda de uma das suas praças-fortes redobrando o armamento da outra. Os monumentos espalhados pelas cidades evocam os que levaram esta técnica aos limites da perfeição humana. Em menor ou maior grau, quase todos recebemos no sangue uma capacidade de separação interna que nos habilita para as obras da sobrevivência. Cláudia não sabia dessa distinção nem de distinção nenhuma. Deixava correr os dias e precisava do espelho para se entender como peça solta. As inquietações da literatura faziam-na rir porque lhe pareciam artificiais. A beleza e a ausência de imaginação punham-lhe laivos de mulher fatal. Desde que Ricardo Luz a elegera rainha ela convencera-se simplesmente disso mesmo: sou uma mulher fatal. O seu corpo era a tradução perfeita das linhas ideais. Nos dias em que o pai lhe batia, Cláudia aparecia com uma fita métrica no bolso, para medir a cintura e as ancas das outras, por vingança. Teresa invejava-a, Isabel admirava-a, e a fusão destes dois sentimentos criara-lhe uma aura que a tornava segura do mundo. Todos os rapazes sonhavam, obviamente, com ela. Cláudia via nesse excesso de sonho a prova física da sua inteira realidade. O cérebro de Cláudia pensava tanto como os seus braços, o seu estômago ou o seu coração. Formava uma unidade resplandecente. Nada a podia proteger da fissura sem centro que a mudou de uma só vez, como um abalo sísmico. Nem lhe viu o rosto. Aliás, Dinis não tinha propriamente o tipo de semblante que se recordasse. Vira-o já centenas de vezes, de passagem, e não saberia dizer de que cor eram os olhos do irmão de Isabel Marta. Havia fotografias de James Dean nas paredes do quarto dele, mas Isabel dizia que o Dinis nascera velho, porque passava a vida a ir à Gulbenkian ver filmes a preto e branco, muito antigos. Ou então fechava-se no quarto a ouvir música clássica. O grupo via-o passar, muito sério, com uma pasta de cabedal na mão, e só não o hostilizava abertamente por respeito para com Isabel.
Nessa mesma noite, depois do funeral, Cláudia adormeceu a tentar lembrar-se de um qualquer pormenor visual que a sossegasse, e não conseguiu mais do que a memória daquele cheiro pesado e quente. Decidiu que a culpa era do corpo da morta, da chuva sobre a terra, do cansaço dela, e entrou pelo sono a sonhar com perfumes num rapaz que tinha a cara do namorado dela e que a beijava doidamente sobre a relva molhada. Mas, reparando melhor, ao fundo do sonho havia o cemitério, e um ser, lá muito ao longe, agarrado a uma enorme pedra tumular em forma de ursinho de peluche. Não se percebia se aquela figura parda metida numa capa de plástico era homem ou mulher. O ser permanecia imóvel e curvo como um fantoche esquecido sobre o tempo, e olhava». In Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, Publicações dom Quixote, 1997, ISBN 978-972-200-972-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

A Instrução dos Amantes. Inês Pedrosa. «Mas daquela vez, há exactamente cinco meses e seis dias, o João fizera-lhe uma festa no queixo e dissera: tão querida…»

jdact

«(…) O teu pai só pensa nele, Filipe Manuel, vê se te convences disso. Ele nem os teus estudos paga, filho. Sou eu que me mato para tu andares a chumbar anos a fio, e tu só pensas no homem, que Deus Nosso Senhor me valha! O homem, o homem. Até parece que não foi ele que me fez. O que é que tu estás a insinuar, Filipe Manuel? Nada, mãe. Só me espanta que tu, que até és bruxa, não consigas ganhar a lotaria. Neste ponto da conversa a mãe de Filipe Manuel atirava-se para o sofá a gemer, ameaçando desmaios transcendentes, e o filho abraçava-a, com pedidos de perdão e juras de eterno amor. Desde que o marido saíra de casa, a mãe de Filipe dedicara-se à causa espírita e aos espoliados do Ultramar. Afirmava-se eternamente devedora do espírito do bisavô Anselmo, que lhe aparecera em sonhos, seis meses antes do reviralho, exortando-a a sair de Lourenço Marques, porque os turras iam ganhar. O bisavô Anselmo só não lhe contara, talvez por falta de intimidade com a bisneta, que o marido havia de mandar vir, com o resto das bagagens, uma mulata vinte anos mais nova do que ela, e grávida dele. Filipe nunca quis conhecer a meia-irmã e ficava com os cabelos em pé só de ouvir falar em esquerdas ou liberdades. Almoçava com o pai no primeiro e no último sábado de cada mês, se tudo corresse bem. A maior parte das vezes, não corria: os negócios estavam difíceis, o trabalho no Partido era muito, o país mudava devagar.
Compreendes, não é, meu filho? Filipe fazia voz grossa e dizia que sim. Pensava que com o tempo se habituaria à indisponibilidade do pai, mas não conseguia, e o ódio às liberdades crescia-lhe na proporção directa da saudade. Um senhor. Filipe insistia: à uma em ponto, pai. Não te atrases, por favor. Mas ele atrasava-se sempre. Uma e meia, desastre completo: os outros já estavam todos a almoçar, não o viam chegar no Mercedes prateado. Se ele ao menos lhe desse a mota. Filipe estava farto de andar com o capacete debaixo do braço. Dizia que era para as boleias, mas ninguém acreditava. Até no comboio para o liceu, usava o capacete em vez de livros: gastam-me o músculo, que foi feito para outras matérias. Mas precisava de grandes audiências e muita companhia para dar aplicação aos famosos bíceps. Quando o provocavam a solo, fazia que não ouvia, e estugava o seu passo largo de forcado imaginário. Contava mil e cem vezes a pega que fizera a um touro bravio, numa festa ribatejana. Esquecia-se invariavelmente de contar que o touro em questão era uma vaca escura, e sentada. Ricardo Luz era pouco dado a narrativas, e menos ainda a relatórios de feitos. Escondia o tronco rijo em camisas largas. Tinha uma vulgaríssima Honda 50. A Kawasaki 750 era do João Brito, que dormia numa cama de dossel. Os outros escarneciam-lhe a casa barroca e o dinheiro da família.
Não tens vergonha de ser novo-rico, ó Jonas? Novo-rico, com um pai que podia ser avô dele? E, calhando, é mesmo! João batia duas vezes as longas pestanas, lançava-se em voo picado sobre os difamadores e restaurava em meia dúzia de safanões a fachada da honra. Depois sacudia a poeira do blusão e compunha os caracóis acetinados numa olhadela discreta ao espelho retrovisor. Os setenta e cinco anos do pai não o incomodavam; a mãe ainda não atingira os quarenta e ofuscava qualquer garota de vinte. Adoravam-se: João e a mãe faziam um belo par. O velhote, era como se não existisse; falava sozinho, não se sabia de quê. Só se calava enquanto preenchia cheques, e a família fazia por multiplicar estes agradáveis momentos de silêncio. Então, o que é que se faz hoje? Era Radar, o anão, a pôr a voz nos bicos dos pés. Nutria uma paixão funda por Cláudia, a partir daquele primeiro instante, já lá iam dois anos. No entanto, estaria disposto a alimentar paixões igualmente fundas por qualquer outra rapariga, desde que fosse um bocadinho correspondido. E desde que a garota tivesse pelo menos treze anos. Infelizmente, a única apaixonada que recenseara festejara há pouco o décimo aniversário, usava aparelho nos dentes e era sua prima direita. Então, pessoal? O que é que se faz?, repetia o mal amado.
Ainda por cima, as pastilhas elásticas tinham-se acabado, e ninguém se sentia com paciência para ir lá abaixo ao Kuanza comprar mais. João tirou o último pedaço da boca e ofereceu-o, num gesto magnânimo. Teresa corou e aceitou. Gostava dele há cinco meses inteirinhos, com uma constância desesperada. Lembrava-se do momento exacto em que ele lhe tinha feito aquela festa no queixo. O sol transbordava os contornos do céu. João estava sentado na mota e as luvas ampliavam-lhe a forma das mãos. A luz reflectia-se nos metais da máquina, fulgia-lhe nos olhos verdes, mergulhava-o numa ilusão de celulóide. Ela roubara de casa metade de um pão-de-ló para distribuir pelo grupo. Como de costume, toda a gente devorou o bolo a troçar dela: Olha a Santa Teresa, protectora dos famintos, e coisas assim. Teresa ficava triste. Parecia-lhe que o cabelo e os olhos acompanhavam, num progressivo embaciamento, a invasão daquela tristeza. Pedia a Deus milagres cada vez mais pequenos e profanos: cinco centímetros a mais de altura, dez centímetros a menos de largura, um ondeado, por ligeiro que fosse, no cabelo. Dava prendas para se tornar famosa no coração dos outros, mas os outros eram rapidíssimos a desmontar-lhe o engenho, numa gargalhada. Queria alcançar a sublime vulgaridade de Cláudia, que ganhava sempre. Mas daquela vez, há exactamente cinco meses e seis dias, o João fizera-lhe uma festa no queixo e dissera: tão querida». In Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, Publicações dom Quixote, 1997, ISBN 978-972-200-972-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. « Mais tarde, haveria de dizer tantas coisas. Naquele momento, não soube dizer nada. Toquei a face do menino com as pontas dos dedos. Toquei a testa da minha mulher com os lábios»

jdact

«(…) Sentia a minha mulher acordada. Poderia ter-me lembrado que faltavam poucos dias para a data que o médico tinha dito, mas lembrava-me apenas das noites em que o calor não a tinha deixado adormecer. Era o início de Setembro. Ela dava voltas impacientes na cama. De cada vez que se virava, o mundo ficava suspenso nos seus gestos porque era tudo muito lento, porque era difícil e, às vezes, parecia que era impossível. O seu corpo era grande de mais. Os seus braços tentavam agarrar-se aos lençóis. Não encontrava posição. As juntas da cama rangiam. Eu estava acordado, adormecido, acordado, adormecido. Quando adormecia, continuava meio acordado. Quando acordava, continuava meio adormecido. Nos pensamentos vagos que tinha, acreditava que era o calor que não a deixava adormecer totalmente. Estremunhado, abri os olhos quando senti as pernas quentes e molhadas, quando ela me abanou os ombros, gritando e sussurrando: acorda! Rebentaram-me as águas. Custou-me a acertar com os pés nas calças. Tentava acertar com um pé e dava pulinhos com o outro. Ela fechou-se na casa de banho. Quando bati à porta, pediu-me para ir avisar a Marta. Entrei no quarto das nossas filhas às escuras. A Marta acordou assustada. Esperei pelo silêncio até se ouvirem apenas as marés da respiração da Maria a dormir. Nesse momento, disse-lhe: a tua mãe está quase a ter a criança. Vamos agora para a maternidade. Toma conta dos teus irmãos quando acordarem. Na penumbra, os olhos da Marta escutavam-me muito sérios. Saí do quarto das nossas filhas. A Marta ficou sentada na cama. Os seus olhos eram preocupados e brilhavam. Abri a porta do quarto do Simão. Era ainda tão pequeno, e dormia. Fechei a porta devagar.
Procurei a minha mulher. Atravessei o corredor. A camioneta tinha menos de um ano e, nos últimos meses da gravidez da minha mulher, estacionava-a à porta de casa. Amparei a entrada da minha mulher na camioneta. Corri para a porta do condutor. Arranquei em segunda. Limpei as remelas com o indicador nas primeiras vezes em que parámos atrás de automóveis parados. Prestava pouca atenção ao início daquela manhã. Às vezes, a minha mulher começava a queixar-se mais alto. Então, acelerava, dava solavancos nos carris dos eléctricos, ultrapassava automóveis que apitavam, passava por semáforos vermelhos. Depois, tinha automóveis à frente e não conseguia passar. Virava-me para a minha mulher e perguntava-lhe se estava bem. Olhava para o relógio, o tempo era muito rápido. Perguntava-lhe outra vez se estava bem. Acelerava um rugido do motor sem sair do lugar, olhava para o relógio, o tempo era muito rápido. Perguntava-lhe outra vez se estava bem e, quando conseguia andar, voltava a acelerar: solavancos nos carris dos eléctricos, ultrapassar carros, passar semáforos vermelhos. Ela, no seu sofrimento, dizia-me: vai com calma.
Eu enervava-me: como é que eu posso ir com calma? Ela dizia-me: calma. E chegámos à maternidade, corri para ela, e entrámos de braço dado, eu a puxá-la, ela pesada com dores, e eu a puxá-la. Dirigi-me a uma enfermeira e, antes de conseguir dizer alguma coisa, a enfermeira disse-me: calma. E levou-a. A minha mulher virou-se para trás para me ver sozinho, com os braços e com os olhos abandonados. E esperei. Olhava para o relógio. A manhã. A manhã com o tamanho de um Verão. Toda a manhã. Olhava para o relógio. O tempo era muito lento. A enfermeira passava por mim, eu ia atrás dela e, antes de conseguir dizer alguma coisa, era ela que me dizia: tenha calma. Vá comer qualquer coisa. E eu desistia. Foi depois da hora de almoço que a enfermeira voltou a entrar na sala de espera e me disse: então, não quer ir ver o seu filho? Os meus pés deslizaram pelo chão de mosaicos, o meu corpo atravessou os corredores de paredes cinzentas e de lâmpadas quase fundidas, intermitentes, a falharem. Os meus olhos não viam nada. E entrei no quarto. De uma vez: a minha mulher deitada na cama a segurar o nosso Francisco nos braços. A sorrir com a vida. Caminhei mudo e lento até à cama. Não soube dizer nada. Mais tarde, haveria de dizer que, logo ali, tinha percebido tudo aquilo de que ele seria capaz.
Mais tarde, haveria de dizer tantas coisas. Naquele momento, não soube dizer nada. Toquei a face do menino com as pontas dos dedos. Toquei a testa da minha mulher com os lábios. O tempo não existia. Sem um instante para gastar com perguntas sem resposta, a minha mulher volta a entrar na casa de banho com a íris ao colo e, quando abre a porta do armário dos medicamentos, não quer pensar em quem poderia estar a telefonar-lhe. A íris já é pesada. A minha mulher senta-se na ponta do bidé e pousa-a no chão. À sua frente, a íris fica de pé, com a mão aberta e estendida para ela. São uma avó e uma neta. Sobre os joelhos, a minha mulher equilibra algodão, tintura de iodo, fita adesiva e um rolo de ligadura. Tem a voz delicada porque quer que a íris não chore mais. Tenta sorrir e tenta distraí-la: agora, vinhas ao hospital para te curares. Então diga lá, senhora, teve um acidente? Com os lábios apertados e os olhos muito grandes, a íris murmura gemidos magoados, quase fingidos, e estende-lhe mais a mão. Oh, vamos já curá-la. E despeja tintura de iodo sobre uma bola de algodão que aproxima da ferida». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «No início da tarde de sábado, olhámo-nos com uma satisfação tímida quando soubemos que o piano estava pronto. A meio da manhã, o meu tio saiu para ir buscar o afinador»

jdact

«(…) Nas sombras imaginava segredos de um tempo, antes de eu nascer, que me seria proibido para sempre: a eternidade: e que, no mesmo instante, se tornava tão concreto e simples como os objectos que tocava todos os dias, como o caminho entre a casa e a oficina, como as memórias que tinha e que me guiavam. Sozinho, sentindo-me vigiado por todos os pianos sem arranjo, avançava. Contornei um piano vertical e, no fundo desse novo corredor, vi o meu tio com os braços dentro de um piano de cauda e apressei-me na sua direcção. Deu um passo atrás, pousou-me uma mão no ombro, apresentou-me o mecanismo do piano com a outra mão e disse que aquele seria um dos pianos a que voltaria para buscar peças. Olhei-o incrédulo, mas encontrei tal confiança que, nesse momento, deixei de ter dúvidas de que seríamos capazes de consertar o piano. Nessa tarde, e no dia seguinte, e no outro, e na manhã de sábado, aprendi a parte mais importante daquilo que, durante toda a minha vida, haveria de aprender sobre pianos. Solene, o meu tio olhava-me directamente com o seu olho esquerdo quando me queria explicar os pontos que eu não deveria esquecer nunca. Eu abanava a cabeça e prestava atenção a cada uma das suas palavras. Ficavam gravadas em mim, como se, no meu interior, existisse um lugar feito de pedra à espera de receber a forma do significado dessas palavras. Da mesma maneira, prestava atenção a todas as histórias que o meu tio contava. Quando se perdia em pormenores e começava a esquecer-se de contar o fim de alguma, eu perguntava-lhe o que tinha acontecido depois do ponto em que se afastara. Ele não estranhava o meu interesse súbito pelas suas histórias e continuava. Nas histórias que o meu tio contou durante esses dias, percebi um pouco mais da minha própria história. O meu pai, como o seu pai antes dele, tinha passado anos a fazer portas e janelas porque não conseguia sobreviver apenas de consertar pianos. Na maior parte do tempo, o meu pai fazia portas e janelas, fazia bancos para as pessoas se sentarem, fazia mesas a desejar que as pessoas tivessem pratos de sopa para pousar nelas; mas, em todas as ilusões, escutava pianos, como se escutasse amores impossíveis. Quando acabava de consertar um piano, sozinho, sem saber uma nota, o meu pai fechava a oficina toda para, no centro da carpintaria, tocar músicas que conhecia e músicas que inventava. Gostava talvez de ter sido pianista mas, nem mesmo quando ainda não tinha desistido de todos os seus sonhos, se tinha permitido sonhos desse tamanho. O meu tio fixou o seu olho esquerdo em mim para garantir que eu nunca iria esquecer e disse: o teu pai, quando falava ou pensava em pianos, tinha redemoinhos de música dentro dele. Durante esses dias, o meu tio mandou-me muitas vezes ao sótão.
Antes, apontava-me a peça de que precisava: um abafador, uma mola da alavanca, um botão de regulação: e, logo a seguir, voltava a esconder o rosto no interior do piano. Nas primeiras vezes, a voz da minha mãe, repetida pela memória, voltava a dizer-me as palavras de quando eu era criança e lhe falava daquela porta fechada na minha oficina. Depois, aos poucos, fui-me convencendo com as palavras do meu tio: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse. E comecei a acreditar que, qualquer que fosse a ideia da minha mãe: proteger-me, proteger a lembrança do meu pai: eu estaria a respeitá-la porque estava a dar uma vida nova aos sonhos do meu pai, da mesma maneira que estava a dar uma vida nova às peças mortas daqueles pianos. Às vezes, demorava-me um pouco mais do que seria necessário porque ficava a entender a tranquilidade, ou a olhar para os pianos que me rodeavam e a imaginar as histórias que cada um deles guardava: palcos de tábuas, bailes, mestres a ensinar, meninas com punhos de renda a aprender. Quando regressava à carpintaria, o meu tio nunca dava pelo atraso e sorria-me quando lhe estendia a peça certa que tinha pedido.
No início da tarde de sábado, olhámo-nos com uma satisfação tímida quando soubemos que o piano estava pronto. A meio da manhã, o meu tio saiu para ir buscar o afinador. Chegou, trazendo-o pelo braço. O afinador era cego. Apontava a cabeça para cima ou para lugares onde não acontecia nada. A cabeça girava-lhe autónoma sobre o pescoço. Era mais velho do que o meu tio. Tinha as mãos lisas. Falava pouco. Passámos horas a acertar notas em cada tecla. O afinador apertava as cordas com uma chave de prata que segurava, firme e cuidadosamente, entre os dedos. E os sons puros: nítidos no silêncio: desenhados no ar, a demorarem-se breves, a ecoarem na memória e a deixarem outro silêncio: outro silêncio: outro silêncio diferente. Quando por fim se ouviu uma palavra, foi o meu tio que me pediu para ir avisar o italiano. Sorri-lhe, abanei a cabeça afirmativamente e não fui capaz de dizer nada porque, dentro de mim tinha um redemoinho infinito de música infinita». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Cemitério de Pianos. José Luís Peixoto. «Sentou-se, levantou a tampa que cobria o teclado e percorreu-o com o olhar. Quase comovido, disse: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse»

jdact

«(…) O telefone continua a tocar. Os passos da minha mulher são rápidos na alcatifa porque ninguém costuma telefonar durante o dia. Dentro de si, teme que seja uma má notícia, teme que seja uma notícia que a deite por terra, que a destrua, que a condene outra vez: a morte. Aperta a menina de encontro ao peito e avança ansiosa pela alcatifa: o mais depressa que é capaz. E o telefone pára de tocar. Os passos da minha mulher perdem o sentido, abrandam e param. Na cozinha, a música de piano continua a nascer da telefonia e é empurrada pelo vento que entra através da janela aberta. Não queria dizer nada ao meu tio, porque queria ver o resultado do seu entusiasmo. Ele rodeava o piano com palavras e passos que, subitamente, mudavam de direcção. À distância, com os braços cruzados sobre o peito, eu olhava-o e não acreditava em nada do que dizia. Na serradura que cobria o chão, havia o desenho de uma forma irregular que era o carreiro por onde o meu tio seguia. Num impulso, quebrou essa corrente de passos desenhados e foi buscar um banquinho: coberto de restos de tinta e de pregos tortos: que colocou à frente do piano. Sentou-se, levantou a tampa que cobria o teclado e percorreu-o com o olhar. Quase comovido, disse: o teu pai iria ficar tão feliz se aqui estivesse.
Foi nesse momento que tudo encontrou um sentido dentro de mim. O meu pai. Como um dedo sobre uma tecla a despertar um mecanismo adormecido, compreendi. À entrada da oficina, à direita, havia uma porta fechada, tapada pelo tempo e por cadeiras a que faltava uma perna, por tampos de mesas e outros restos que se foram acumulando num monte desordenado. Nesse início de tarde, eu e o meu tio afastámos tudo e, como não sabíamos da chave, fui eu que arrombei a porta com dois pontapés na fechadura. A minha mãe evitava falar dessa divisão fechada da oficina. Se o fazia, dizia sempre que não havia lá nada que me interessasse. Quando essa explicação deixou de ser suficiente, falou-me de sustos. Disse: há sustos lá dentro.
Com dez anos, essa explicação chegava-me. Depois, passaram verões e invernos. Deixei de fazer perguntas. Havia uma porta fechada à entrada da oficina, lentamente tapada por tábuas, por trastes, e eu não pensava nisso. Pensava noutras coisas. Nesse início de tarde, ficámos parados durante um momento perante essa porta subitamente aberta. Lá dentro, a escuridão absoluta cobria todas as formas. Era como se tivéssemos aberto uma porta sobre a noite. Diante de nós, na escuridão podiam estar campos cobertos pela noite, ou um rio coberto pela noite, ou uma cidade inteira: adormecida ou morta: coberta pela noite. O meu tio entrou primeiro. Deixei de vê-lo entre sombras de sombras: um vulto entre vultos. Ele sabia os caminhos, e foram precisos poucos passos, poucos sons misteriosos dentro da escuridão, até que, com a manga da camisola, começasse a limpar o vidro da pequena janela coberta de pó. Através dos seus movimentos, entraram raios de luz. Devagar, a claridade encheu todo o vidro.
A luz deslizou pelas superfícies de pó. Pouco se via da sujidade das paredes e o peso do tecto baixo era mais real porque havia pianos de todos os géneros que se erguiam, sólidos e empilhados, quase a tocarem o tecto. Encostados às paredes, havia pianos verticais uns sobre os outros: na ordem com que o meu pai, ou o seu pai antes dele, os tinha equilibrado. Ao centro, havia muros de pianos sobrepostos. A luz atravessava os espaços vazios entre eles e, mesmo da porta, podia distinguir-se o labirinto de corredores que camuflavam. E sobre um piano de cauda estava outro piano de cauda, mais pequeno e sem pés; sobre esse estava um piano vertical, deitado; sobre esse estava um monte de teclas. Ao lado, separados por uma fresta que a luz atravessava, dois pianos verticais, com a mesma altura, encostados um ao outro, suportavam um piano vertical mais robusto que, no seu topo, segurava um pequeno piano de armário. Havia pianos encaixados de todas as formas possíveis. Nas folgas onde não se encaixavam completamente, a claridade atravessava teias de aranha abandonadas que seguravam gotas de água, como pontos de brilho. O ar fresco entrava nos pulmões e trazia o toque húmido do pó pastoso que era a única cor: o cheiro de um tempo que todos quiseram esquecer, mas que existia ainda. O silêncio desprendia-se dessa cor clara e antiga. A luz atravessava o silêncio. No chão, havia tampos esfolados de pianos, ao alto, encostados a outros pianos. Em certos cantos, havia varões de metal, teclas, pedais e pernas de piano presas umas às outras com arames. Através do espaço entre dois pianos, a partir da pequena janela finalmente luminosa, o meu tio olhava-me com um sorriso. Quando fixei directamente o seu rosto, sorriu mais, saltou para o chão com um estrondo das botas e desapareceu entre os pianos. Entrei, escolhendo o lugar onde pousava cada pé, como se temesse alguma coisa que desconhecia». In José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, 2006, Bertrand Editora, Quetzal Editores, 2009, ISBN 978-972-564-823-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Um golo extra tem um gosto de presente. Não gostam de ver bons golos, é? Não estão habituados, os vermelhinhos…»

jdact

«(…) Finge que não ouve o nosso praguejar, escolhe por nós as entradas e o vinho. Tinha onze anos quando começámos a vir para a tasca, mas trata-nos como filhos malcomportados. Aos onze anos já nos tratava assim. Pouco falamos de mulheres, pelo menos das nossas. Comentamos as que aparecem na televisão, as actrizes, as ministras, as jornalistas. Comentamo-las basicamente para dizer que o que lhes falta é uma …da fenomenal. Somos todos fenomenais, à volta desta mesa, picando queijos, enchidos, pataniscas, chamuças e torresmos. Vai uma saladinha? Achas-nos com cara de grilos, Celinha? Queres matar-nos? Fazia-vos bem. Célia, querida, morrer quase nunca faz bem. Célia ri-se. Não se intimida com a nossa aparatosa boçalidade. Não nos dá muita importância. É uma de nós. O jogo arrasta-se, enfadonho. Só as injustiças lhe dão alguma animação: um penálti não marcado, a favor do Benfica. O Guilherme agarra-se ao seu amuleto: um urso de peluche com cachecol do Benfica, no qual tem fé porque lhe foi oferecido por um sportinguista. Há uma nítida falta de entrosamento da equipa, que joga à distância, espalhada. O tempo da bola está sistematicamente atrasado, com lançamentos longos de mais, ou passes curtos e atrasados. Não há contra-ataque, nem movimentação. O Porto também parece desarrumado, mas tem uma velocidade muito maior. Vocês têm de aprender a correr, rapazes. O futebol é para quem tem pernas para isso. Cala-te, o árbitro está comprado, aquele penálti até um cego via. Desculpas, pá. Desculpas. Só justifica quem perde. Aliás, depois de terem ganho a taça ao Sporting através da vergonhosa anulação de um golo, vocês deviam abster-se de falar da seriedade dos árbitros durante um ano inteiro. Pelo menos. Gooooooolo!
Só eu me levanto em êxtase. Gosto destes êxtases solitários que me oferecem alegria, vitória e vingança num só gesto. No estádio, este prazer torna-se perigoso, isto é, ainda mais vibrante. Gritar, Chega-lhes, Porto! Num estádio cheio de benfiquistas é um acto de bravura sujeito a consequências imprevisíveis. Em certa ocasião, levei uma tareia à saída. Agora começo a ser demasiado famoso para levar tareias. As pessoas não estão dispostas a respeitar muitas coisas além da fama. O que, em Portugal, representa uma fartura de respeitinho. Qualquer pessoa que apareça na televisão de vez em quando é famosa, e qualquer pessoa pode aparecer na televisão de vez em quando. Chama-se-lhe politólogo e pronto. O restaurante está cheio de benfiquistas ferrenhos que desatam a resmungar contra o tempo de jogo, dizendo que o árbitro prolongou o desafio para lá do devido, de modo a que o Porto pudesse completar a jogada do golo. Como se o Porto não estivesse já a ganhar. Um golo extra tem um gosto de presente. Não gostam de ver bons golos, é? Não estão habituados, os vermelhinhos… Pronto. Ganhou o Porto, a próxima rodada é minha. Augusto tem bom perder. É um homem fácil. Gaba-se de ser um homem fácil. Vê qualidades em todas as mulheres. É administrador de uma empresa discográfica, sabe defender os méritos da música mais manhosa. Perdeu uma riqueza infinita com a independência de Angola, pelo menos é o que ele diz. Não se cala com os encantos da ilha do Mussulo da sua adolescência, mas não é, de modo algum, um ressentido. Chegou a ser militante do Partido Comunista. Durante a juventude, encontrou na luta uma espécie de acelerador da sua identidade, ou superador das frustrações, o que vem a ser o mesmo. Com a idade tornou-se socialista, ou julga que se tornou. Mantém todavia o farfalhudo bigode da era estalinista, conjugado agora com uma volumosa cabeleira cor de prata fosca. Deve gastar uma pipa de latas de laca para manter o penteado. Não há vento nem humidade que lhe abata um só fio da moldura. Quando Pedro começa a criticar o governo, Augusto enfuna-se: o que é que vale a opinião sobre Portugal daqueles que nunca de cá saíram? Tu és descendente do velho do Restelo, meu filho. Um menino da mamã com uma visão de quintal. Pedro vitupera o arrivismo dos retornados e acusa Augusto de ser um novo-rico do neoliberalismo. Augusto põe-se de pé e puxa pela sua medalha costumeira: os-sete-dias-sete-em-que-foi-sujeito-à-tortura-do-sono-e-resistiu». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.
                                                                                                                     
Cortesia de PdomQuixote/JDACT

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Augusto chama-me sacana presunçoso, rouba-me um charuto, lembra-me que ainda faltam vinte e cinco minutos, tempo para a desforra»

jdact

«(…) Hoje já posso evocar estes factos sem naufragar neles. Como se tivessem acontecido a outra pessoa, noutra vida. Tudo se tornou muito mais simples, desde então. O hábito dos jantares mensais na tasca vem dessa época. Mês a mês, no dia da morte de Leonor. Ainda hoje os jantares são sempre no dia da morte de Leonor. Nenhum de nós menciona a data, ou o nome dela. Nem sei de quem foi a ideia – lembro-me que da primeira vez o Augusto me telefonou dizendo que estava combinado um jantar com a malta para daí a três dias no sítio tal, onde se comia uma dobrada quase melhor do que as do Porto, e informou-me que passaria pela minha casa às oito para me ir buscar. Calas o bico e vens. Nem penses em pôr-te com mer… A última coisa em que eu poderia pensar, naquela época, era em pôr-me com mer… Calei o bico e fui. Por sorte, é um dos poucos restaurantes de Lisboa onde continuamos a poder fumar. Numa esquina discreta, perto do Largo do Carmo. Paro no largo deserto, iluminado. Estou dentro de um cenário de cinema. Como se as casas fossem de cartão prensado, e a vida se suspendesse para poder ser inventada, debaixo das luzes que vacilam na noite por causa da chuva, uma chuva miudinha, falsa, melodiosa, regulada como banda sonora. A tasca tem mesas corridas, louça desemparelhada, cinzeiros matarruanos de vidro grosso e toalhas de papel. Nada de design, como gostam as mulheres e os gajos que não gostam de mulheres. Deixei de almoçar com o meu velho amigo Jacinto por causa das toalhas de mesa. Mal chegou à direcção do jornal, Jacinto começou a recusar-se a almoçar em restaurantes com toalhas de papel. Dizia que não podia ser visto em pardieiros. Que não lhe ficava bem. E que não havia privacidade. Um director sem privacidade não é ninguém. Eu, pelo contrário, só me sinto bem em tascas. Gosto particularmente dessas toalhas onde se pode tomar notas ou fazer desenhos. Os restaurantes elegantes deprimem-me: são lugares onde uma trivial sopa de cenoura adquire um nome sonante que lhe rouba o sabor. Em geral as doses são curtas e os silêncios demasiado indiscretos. Gosto do espaço acanhado da casa de pasto A Claque. Gosto desta sala atulhada de quinquilharia e de vozes. As vozes das pessoas, oitenta por cento de homens, o que também me é agradável, a voz do relato na televisão. Um plasma gigante, para que nenhum passe ou drible nos escape. O calor humano embacia os vidros. Lá fora chove cada vez com mais força. Nos últimos meses, parece que Deus decidiu lixar o cartaz turístico do país: a canalização celeste estoirou precisamente em cima de Portugal, o país da cortiça. O pessoal flutua, não há problema. Gosto desta sensação de viver num aquário onde toda a gente bóia. Vivos e mortos, tudo a boiar, uma enchente de corpos flutuantes. No estádio também chove, o que neste momento é uma vantagem, os bravos Dragões do Norte não se deixam intimidar com a força da água, ao contrário das águias de sequeiro. Dois a zero, e os minutos a avançar. Mais uma vitória à vista. O único defeito dos dragões é esse: ganham demasiado depressa. A meio do jogo já não há adrenalina. Neste lugar, durante estas horas, não preciso de ser inteligente. Nem sedutor. Nem mandão. Nada do que se espera de mim, lá fora. Tantas expectativas, lá fora. Vou fazer cinquenta e cinco anos, é tempo de me libertar destas mer… Quem é que eu estou a enganar? Sei que nunca me libertarei destas mer…
Augusto chama-me sacana presunçoso, rouba-me um charuto, lembra-me que ainda faltam vinte e cinco minutos, tempo para a desforra. Pobre rapaz, toma outro charuto, para não chorares. O que é que eu não sei destes gajos? O meio campo. Os minutos de empate. Os ziguezagues. Fora isso, conheço-os melhor do que a mim mesmo. Somos um grupo. Uma coisa sem ego. Uma comunidade. Gostamos de estar juntos, de sofrer juntos por causa do futebol, de nos insultarmos uns aos outros por causa do futebol. Então esse cabrito assado, sai ou não sai, princesa? Portem-se bem, meninos. Já vos dou mais uma dosezinha de pataniscas e torresmos. O cabrito está quase no ponto. Não é como tu, querida, que já nasceste no ponto. Ainda agora chegaram e já estão tão engraçadinhos… Ao fim da noite não há-de haver quem vos ature. Enganas-te, Celinha, há resmas de mulheres desejosas de nos aturar. Mas nós só gostamos de ti. E uma sopinha, entretanto, ninguém quer? Vade retro. Eu até acho que me casei só para deixar de ter de comer sopa. Passa-me o queijo, cab… Não é todo para ti. Como a Célia, também não é toda para ti. A Célia é a filha do dono da tasca, uma miúda lindíssima, mãe de duas crianças, que está sempre a fazer pouco de nós». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Um oncologista está protegido pelo fantasma da própria doença; é muito difícil acusá-lo de negligência médica. Mesmo que ela exista»

jdact

«(…) País menstruado, diz antes. Feito do sangue e dos humores das mulheres, que atordoam e excitam os homens. Isto dizia Leonor, que mantém comigo uma conversa ininterrupta. Era lúcida, a Leonor. Sonhadora e lúcida, uma combinação invulgar. Não se prestava à redução ao interdito que é tão fácil neste país. Não tinha vergonha do que sabia, nem medo, por muito tumultuoso que fosse esse saber. Haveria de se rir com a esperteza neoliberal dos revolucionários de ontem, vestida com togas gregas de costureiros da Roma pós-moderna. É também por isso que preciso destes amigos. Como uma espécie de conspiração contra o individualismo imperial, que brada aos valores com o único fito de valorizar os interesses económicos dos seus pregoeiros. Essa pregação esbarra na couraça da nossa inteligência gregária, que se contenta em existir sem o exibicionismo de cabaret das letras em que se transformaram todas as discussões do nosso tempo. Às vezes vem mais alguém, um extra variável seleccionado entre os nossos conhecidos. Podemos olhar nos olhos uns dos outros sem experimentar o cansaço que nos provocam os olhares convencionais: o olhar das mulheres, turvo de expectativas de mudança; o olhar dos colegas de serviço, carregado de jogos de poder; o olhar avaliador dos recém-conhecidos; o olhar ausente do comum dos mortais, obcecado com a velocidade da sua própria corrida. Nós olhamo-nos como se nos víssemos ao espelho. Ritual espontâneo de reconhecimento. Olhamo-nos com a alegria de estarmos vivos e inteiros. A calvície que avança, o vinco que se acentua entre as sobrancelhas, a barriga que cresce e amolece. Envelhecemos juntos, barafustando e rindo à volta de uma mesa. Não esperamos nada de especial de cada um de nós. Não há decepções nascidas de ilusões desproporcionadas. Não há ilusões. Nem sombra dessa maçada incomensurável que se chama análise da relação. Não existe a contabilidade do deve e do haver em que as mulheres são educadas. Dar para receber. Dar racionadamente. Sofrer quando a ração recebida é menor do que a ração dada. Que vida triste, a dessa metade da humanidade educada assim. Sempre à procura da culpa. Detectives em défice permanente. Eu não sofro por amor, parece-me um paradoxo. Deixei-me disso depois da bendita traição de Elisa. O amor é um estímulo para a imaginação, uma droga sem efeitos secundários. Não é por não ser correspondido que deixa de me dar alento. Pelo contrário: a nega aumenta a tusa. A dificuldade atiça o engenho. O amor é um sucedâneo da arte. Ou a própria arte, agora que tudo é sucedâneo. Freud argumentaria que esta forma de pensar é própria de um narcísico que nunca foi capaz de ultrapassar a fase primária. Talvez Freud tivesse sido mais feliz se experimentasse as virtudes do narcisismo, em vez de se fixar nos mistérios da infância, que é apenas a época mais chata da vida. As crianças que o digam.
Um oncologista está protegido pelo fantasma da própria doença; é muito difícil acusá-lo de negligência médica. Mesmo que ela exista. Matei três pessoas por negligência. Uma delas a minha própria mulher. Das três vezes, a minha negligência foi baptizada como excesso de empenhamento. Uma aposta radical: ou extirpava o sacana do tumor e o doente ressuscitava para uma vida nova, ou o doente finava-se. Nesses três casos, os doentes foram-se. Um deles era a Leonor. Sem essa operação, teria vivido mais um ano. Um ano de miséria, ela própria o sabia. Mas a nossa filha teria tido tempo de se adaptar ao desaparecimento da mãe. Teria dez anos, em vez de nove. E talvez ainda hoje estivesse viva, faria agora vinte e cinco anos, a Mariana. Caiu de uma ribanceira, na Escócia, nove meses depois da morte da mãe. Aconselharam-me a inscrever a miúda num curso de Verão, bem longe, com muito ar puro e muito divertimento, para que ela esquecesse e ganhasse apetite. Mariana não queria, mas os avós e os meus colegas achavam que era o melhor para ela. E eu deixei-me ir na conversa. Soube-me bem. Queria um tempo só para mim». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «E o próprio conde, ao convidar sua alteza real, jamais imaginaria que ele viesse a considerá-lo tanto, mesmo que tal consideração fosse manifestada por interposta pessoa»

jdact

«(…) Em frente à porta principal do solar de João Afonso Telo, no terreiro enlameado pelo derretimento da geada batida pelo sol daquela manhã de fim de Outubro, começaram a aglomerar-se, ainda cedo, dezenas de convidados para o casamento de Leonor Teles Menezes com João Lourenço Cunha. Os homens, quase todos enrolados em ricos mantões talhados à moda da antiga corte de São Luís, rei de França, apresentavam-se de capuzes na cabeça, de sapatos de pontilhas e de colares de ouro presos ao pescoço ou à cintura; as mulheres, um pouco mais exigentes do que os homens na maneira de vestir, ostentavam os tradicionais balandraus, sobre cujos peitos brilhavam sumptuosos broches e outros adereços ditados pelos figurinos inglês e italiano daquela época. Do mesmo modo também, e porque as circunstâncias assim o impunham, todas exibiam uma coifa especial, fosse um toucado revestido por fora a fios de ouro ou de prata, fosse outra cobertura de igual aplicação mas de maior imponência, como os chapéus altos segundo a voga inspirada nas chamadas coiffures à cornes, que as damas francesas usavam nos grandes acontecimentos.
A uma distância considerável do terreiro, onde os convidados iam batendo os pés para acudir à dor do frio e espantar os cães famintos, tinham-se concentrado dezenas de populares a observar o movimento da chegada de nobres, clérigos, lentes e burgueses, quase todos em luxuosas liteiras, ou montados no dorso de cavalos de excelente porte, ou, até mesmo, conduzidos em carroças puxadas por juntas de bois. Entre os convidados destacava-se um jovem fidalgo, Afonso Peres Sousa, que Fernando I, rei de Portugal, enviara como seu representante à cerimónia. Afonso Peres Sousa fora o único, aliás, a ser recebido formalmente por João Afonso Telo antes da celebração do consórcio, o único com direito a esperar no interior da casa e o primeiro a felicitar a nubente, em nome, claro está, d'el-rei de Portugal.
A presença do emissário de Fernando I, que um ano antes subira ao trono por morte de seu pai, Pedro I, colheu de surpresa os convidados, que interpretaram a atitude do rei como um indiscutível gesto de admiração pelo conde de Barcelos. E o próprio conde, ao convidar sua alteza real, jamais imaginaria que ele viesse a considerá-lo tanto, mesmo que tal consideração fosse manifestada por interposta pessoa. Por isso, e à parte as razões pelas quais o monarca Fernando I decidiu enviar um consignatário ao casamento da sobrinha de João Afonso Telo Menezes, distinto nobre que fora armado cavaleiro por Pedro I, a verdade é que Afonso Peres Sousa acabaria por suscitar mais curiosidade do que o nubente João Lourenço Cunha. Os convidados, que aos poucos se foram juntando em pequenos grupos, acabaram assim por falar mais do rei do que do casamento ou dos noivos, centrando as conversas na situação da corte e do país, no processo de desenvolvimento de Portugal nos domínios do comércio e da indústria, na colossal fortuna herdada pelo jovem monarca, na importância extraordinária das primeiras medidas de protecção à marinha e à agricultura determinadas pela coroa de Lisboa, ou na perigosa intenção de Fernando I intervir nos dissídios do país vizinho, em relação aos quais seu pai se manteve sempre afastado, não obstante as ferozes lutas fratricidas que duravam desde a morte de Afonso XI, ocorrida em 1350.
Acerca desta última questão, porventura a mais complexa de todas, as opiniões não foram unânimes: uns, os mais estúpidos e gananciosos, entendiam que o rei Fernando I devia imiscuir-se rapidamente nos negócios políticos de Castela para alargar o domínio territorial português a norte do Minho, evitando que Henrique, o filho bastardo que o falecido Afonso XI teve de Maria de Portugal, viesse um dia, pela força ou à traição, usurpar o legítimo trono a seu irmão Pedro. Outros, porém, menos usurários e canalhas, defendiam que Fernando Ijamais deveria meter-se nos assuntos que lhe não dissessem respeito, sequer respeito à coroa de Portugal, sob pena de vir a pagar cara a ousadia. De qualquer modo, por respeito ou por medo, todos reconheciam que sua alteza real era soberano nas decisões, pelo que, fosse qual fosse o modo como as assumisse e aplicasse, elas seriam sempre acolhidas pelos súbditos com a vénia devida. Também a Universidade de Coimbra foi discutida nesse dia, e no terreiro, sobretudo pelos lentes, que não se cansaram de gabar o acto de nomeação de Estêvão Domingos Vouzela para conservador da respectiva escola, cargo que havia sido ocupado durante bastante tempo por João Esteves, considerado por muitos como um dos homens mais desqualificados da Universidade». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

domingo, 14 de janeiro de 2018

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Ouviste? Briolanja Mendes recuou um passo, colocou a mão no peito como era seu hábito e, ofendida, respondeu: Senhora, disse-lhe já uma vez que da minha boca não sairá uma só palavra»

jdact

«(…) As tranças, essas, cobriu-as com um véu comprido e transparente. Ao chegar à cozinha, depois de ter atravessado a casa e de passar disfarçadamente em frente à sala comum onde estava João Afonso Telo a falar de política com outros homens, Leonor encontrou Briolanja Mendes, sozinha, de pé, encostada à janela, olhando pensativa as urzes do campo cobertas de geada. Então?..., perguntou num tom de voz muito suave. Senhora, precisamos de falar. A atitude serena de Briolanja deixou a jovem dama mais inquieta do que aparentava. Tanto assim que logo lhe segurou o braço com a mão tremente e, quase em segredo, voltou a perguntar: que te disseram as estrelas? Muita coisa, mas temos que ir falar para outro lado. Leonor Teles ajeitou as tranças sob o véu descaído pelos ombros, aproximou a boca do ouvido direito da criada e segredou: encontramo-nos na câmara do santuário. Não te demores, que eu vou andando. E saiu. Na sala comum, o conde e os seus amigos continuavam à conversa, tão entretidos e entusiasmados que nem deram pela segunda passagem da jovem no corredor. A câmara do santuário situava-se no lado oposto à sala, na outra extremidade do solar. Quando Leonor abriu a porta do compartimento mal iluminado precipitou-se imediatamente para o genuflexório e ali ficou rezando ave-marias atrás de ave -marias até Briolanja chegar. Só que o seu estado de ansiedade e de pânico eram tais que já nem a última oração concluiu ao ver a aia aproximar-se. Nesse momento levantou-se de um salto, agarrou a ama pelo capote e voltou a perguntar: que te disseram as estrelas? Minha boa amiga, diz-me, que te disseram elas?
Briolanja Mendes pegou-lhe nas mãos, conduziu-a à proximidade dos bancos que ambas haviam ocupado no dia anterior e respondeu: disseram que deve casar com o fidalgo João Lourenço... Ao ouvir semelhante conselho, a jovem deixou-se cair no assento de madeira, lançou as mãos ao rosto e pôs-se a carpir baixinho. Senhora... Não digas mais nada, por amor de Deus. Pai Nosso que estás no Céu... Briolanja comoveu-se no mesmo instante. Com uma mão acariciou as tranças da jovem e com a outra puxou para si o segundo banco. Depois, já sentada, disse: senhora, eu gostaria que me ouvisse agora, porque tenho muita coisa para contar. Falei com as estrelas, e o que elas disseram é que a senhora não deve contrariar o senhor conde, seu estimado tio, por ele ser quem é, por tudo o que ele fez pela sua vida, pela sua graça, pela sua esmerada educação e conduta. Reconhecem que o fidalgo João Lourenço não é homem para a senhora, mas também acham que o casamento com ele, ou mesmo que com outro fosse, não tem que durar a vida inteira. Aconselharam-me, no entanto, a preparar daqui a algum tempo dois ou três filtros de amor para dar de beber ao seu futuro marido. E eu sei como prepará-los, senhora, eu sei. E então verá que depois de ele os tomar, misturados no vinho, nunca mais será o mesmo...
Num misto de silêncio, respeito e medo, Leonor Teles ouviu tudo. Mas, depois de Briolanja se calar, virou-se para ela e perguntou: vais dar cabo dele, não é? A cuvilheira não respondeu imediatamente. Fez uma pausa, persignou-se duas vezes e, com a sabedoria da idade de que tanto se socorria, esclareceu: que Deus Nosso Senhor me perdoe, mas não é preciso dar cabo dele, nem eu seria capaz disso. Basta que ele dê cabo de si próprio. Eu não lhe ponho nada na garganta, ponho-lhe, isso sim, uma coisa no vaso do vinho, e nem sequer lhe peço para beber. Mas, se o beber, só ele e mais ninguém é o culpado. Leonor percebeu claramente o alcance brutal das palavras de Briolanja Mendes e o que elas significavam. Arrepiada com tal solução, a jovem levantou-se, foi à janela espreitar o tempo e, de costas para a ama, comentou apenas com uma interrogação: tenho de me casar com João Lourenço, não é verdade? Sim, senhora. Tem de se casar com ele. E é já no dia vinte e dois de Outubro, não é?, continuou num tom de voz cínico e invulgar, antes de abandonar a câmara. É verdade.
Instantes passados, Leonor Teles virou-se para Briolanja, fitou-a com os olhos muito abertos e, com o dedo em riste, preveniu, alterada: nunca fales a ninguém destas nossas conversas, nem o que quer que seja sobre o meu passado que conheces como nenhuma outra pessoa. Ouviste? Briolanja Mendes recuou um passo, colocou a mão no peito como era seu hábito e, ofendida, respondeu: Senhora, disse-lhe já uma vez que da minha boca não sairá uma só palavra. Tudo quanto sei irá comigo para a cova. E, como a minha morte não deve andar longe, depressa os meus segredos deixarão de a preocupar. Ao ouvir estas palavras, serenas mas muito firmes, Leonor percebeu que fora demasiado impiedosa com a única mulher do mundo que lhe guardava os segredos com lealdade e segurança idênticas às de um guarda do rei. Por isso, e para atenuar de algum modo os estragos que fizera na esfera emocional da sua ama sempre atenta e dedicada, acrescentou com um suave sorriso: eu sei que me és fiel, nem foi por mal que te pedi para guardares os meus segredos. Aliás, há muito que andava para te dizer o seguinte: depois do meu casamento, quando for viver com o fidalgo João Lourenço para Pombeiro, desejo que vás comigo. Vou pedir ao meu estimado tio para te levar e ele decerto não dirá que não. Emocionada, Briolanja apenas respondeu: irei com a senhora até ao fim do mundo, se o mundo tiver fim. E em silêncio começou a chorar». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Rosa Brava. José Manuel Saraiva. «Mas pior que as piores lembranças de uma parte do seu passado oculto, que naquela noite lhe chegavam em tropel como um sonho de miséria e horror»

jdact

«(…) Na manhã seguinte, ainda cedo, Leonor decidiu falar com a ama para lhe pedir que nunca dissesse a ninguém o que horas antes observara. Por Deus, senhora! Da minha boca não sairá uma só palavra, prometeu a velha aia depois de se benzer e de colocar a mão direita no peito, sobre o coração. E, para ainda vincar melhor tal propósito, acrescentou: que um raio me reduza a cinzas se não cumprir o segredo que me pede. O caso, ocorrido três anos antes, aos quinze de idade, terá sido a primeira de uma série de aventuras protagonizadas por Leonor Teles, de que só mesmo Briolanja Mendes era conhecedora. Desse catálogo de episódios há a registar também o que envolveu Guilherme Vasconcelos, um belo cavaleiro de Mogadouro que, por razões nunca apuradas, passou um dia por Barcelos para visitar João Afonso Telo, acabando depois por se hospedar em sua casa por três semanas. Aí conheceu a sobrinha do conde; aí se apaixonou por ela e ela por ele.
Leonor Teles lembrava-se agora do seu encontro com Guilherme Vasconcelos e da impressão física que desde logo o moço lhe causou. Viu-o pela primeira vez na sala comum do salão nobre. Era um homem alto, distinto, de cabelo liso e preto, de pele branca e muito fina. Vestia uma camisa de seda encarnada e calças justas de cor cinzenta e preta a modelarem-lhe a perna e a coxa, e, enfiados nos pés, uns sapatos castanhos de pontas desmesuradas, conforme a moda francesa acabada de chegar naquele ano a Portugal. Presa ao cinto por um atilho podia ver-se pendente uma bolsa móvel, de seda pura, para acudir à ausência de bolsos. Dos ombros descaía-lhe uma opa larga, em tom de amarelo-torrado, de cauda muito comprida e com as mangas a tocar o solo. Ao convocar a lembrança do jovem, Leonor fez desprender um tímido sorriso não só pela festa de felicidade que dois anos antes ele lhe proporcionara, mas também por, estranhamente, não se recordar de nada sobre o que ambos disseram na hora única do primeiro encontro. Sabia descrever-lhe a imagem, sabia como o rapaz estava vestido, mas não tinha nenhuma ideia acerca do que ele lhe terá dito e ela lhe dissera. Desse tempo quase perfeito guardava, porém, a recordação admirável do momento em que se ofereceu a Guilherme Vasconcelos no quinto dia da sua estada em casa do conde.
Foi no palheiro, situado a pequena distância da zona da cozinha, do celeiro e dos currais, que os dois jovens se entregaram ao fim de uma tarde quente de Verão. O acto, testemunhado ocasionalmente por um assalariado rural que trabalhava na casa do conde, foi por ele mesmo revelado a Briolanja Mendes, que, por dever de lealdade e de servidão, o transmitiu a Leonor. A jovem ficou transida de medo e quis saber naquele preciso instante quem foi o pobretão que a viu assim, por que motivo foi ele ao palheiro naquela hora e por que não calou o segredo. Quanto à resposta a dar, e receando qualquer vindicta, a velha começou por dizer que não conhecia o homem, depois que lhe ignorava o nome, argumentando seguidamente que ele era louco. Dias mais tarde, sem se conhecerem as circunstâncias, o pobre apareceu morto ao fundo do lameiro, em frente à casa, já próximo da extensa mata que se perdia lá longe, junto à costa oceânica. Sobre este insólito caso, Leonor negou sempre, nas conversas secretas com a ama, que tivesse mandado matar o homem. Não que lhe não apetecesse, mas da vontade à concretização do acto, refutada sob jura solene por alma de seus pais, ia uma longa distância. Apesar de tudo, o falecimento do assalariado celebrou-se como uma espécie de bênção divina que, na altura, deixou a rapariga mais tranquila e Briolanja Mendes refém de um novo segredo.
Mas pior que as piores lembranças de uma parte do seu passado oculto, que naquela noite lhe chegavam em tropel como um sonho de miséria e horror, eram o presente e as perspectivas do futuro que mais alarmavam o espírito de Leonor Teles Menezes. É verdade que àquela hora de insuportável desassossego lá estava Briolanja Mendes no recato dos seus aposentos, conversando com as estrelas para colher delas as informações que lhe permitissem construir uma resposta adequada ao trágico problema da sua estimada dama. Talvez elas, amigas e feiticeiras, a ajudas sem a decifrar os enigmas propostos e lhe consentissem o poder de restituir toda a esperança a uma mulher à beira da ruptura emocional. Nessa noite, longa e fria, Leonor dormiu pouco e sonhou muito. Sonhou que Briolanja Mendes, com o auxílio dos generosos subsídios de Deus, dos anjos e dos astros, conseguira deslindar a maneira de a salvar sem dor dos braços de João Lourenço e de a conduzir à descoberta de outras paragens, onde porventura morasse o príncipe da sua vida, sereno, perfeito. E o sonho foi de tal modo revelador que, mal o dia acordou, deu um salto da cama, enfiou à pressa uns sapatos de cordovão preto, vestiu uma fraldilha em tecido de lã muito fino e uma saia comprida plissada de cetim vermelho aveludado, enrolou à cintura um sirgo e adornou-se com uma camisa branca, sob a qual dispôs dois paninhos justos ao peito para lhe sustentarem os seios. Por cima, despejou um manto de brocado carmesim». In José Manuel Saraiva, Rosa Brava, Oficina do Livro, 2005, ISBN 978-989-555-113-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

Poemas del Alma. Juan Gelman. «… en representación de los que caen por la vida, pasa la luna de rosados dedos, pasa safo abrigando al ruiseñor que canta, canta, canta»

jdact

Ruiseñores de nuevo
«En el gran cielo de la poesía/mejor dicho
en la tierra o mundo de la poesía que incluye cielos, astros
dioses/mortalhes
está cantando el ruiseñor de keats, sempre,
pasa rimbaud empuñando sus 17 años como la llama de amor viva de
san juan,
a la teresa se le dobla el dolor y su caballo triza
el polvo enamorado francisco de quevedo y villegas,
el dulce garcilaso arde en los infiernos de jJohn donne,
de césar vallejo caen caminos para que los pies de la poesía caminen,

pies que pisan callados como un burrito andino,
baudelaire baja un albatros de su reino celeste,
con el frac del albatros mallarmé va a la fiesta de la nada posible,
suena el violín de verlaine en la fiesta de la nada posible/recuerda

que la sangre es posible en medio de la nada,
que girondo liublimará perrinunca lamora, y
girarán los barquitos de tuñón,
contra el metal de espanto que abusó a Apollinaire,

oh lou que desamaste la eternidad de viaje,
el palacio del exceso donde entró la sabiduría de blake,
el paco urondo que forraba en lamé la felicidad
para evitarle fríos de la época,

roque dalton que trepaba por el palo mayor de su alma y gritaba
Revolución
y veía la Revolución y la Revolución era la sola tierra firme que veía,
y javier heraud que fue a parar tiernísimo a la selva
y abrió la selva de la boca con su torrente claro,

y el padre darío que a los yanquis dijo no,
como sandino dijo no,
y el frente amplio de la poesía y de la guerra les volvió a decir no,
y nicaragua brilla en su ejercicio de amar,

martí yendo y viniendo por el aire con los muertos queridos
que vió volar como una rosa blanca,
no ves a mis compañeros volar por el aire ochenta años después?,
Estás despierto par que sigamos diciendo no?
Los muertos se ponen pálidos como magdalena cuando amasaba
sus panes con más lágrimas que harina?/¿hasta que venga el día?
Día enque toda américa latina subirá lentamente?
Amorosamente?, navegando como hacen mis planetas del sur?
Ahora canta el ruiseñor del griego al fondo de los siglos?
Pasa walt whitman con el ruiseñor al hombro cantando en paumanok,
pasa el comandante guevara a hombros del ruiseñor,
pasa el ruiseñor que se alejó de la vida callado como burrito andino

en representación de los que caen por la vida,
pasa la luna de rosados dedos,
pasa safo abrigando al ruiseñor
que canta, canta, canta».
Juan Gelman

La más mujer del mundo
«Sonríe como un cómplice
bajo el calor suelta sus animales belos desnudos indolentes y
recorren la tierra llenándola de ansias de carne en libertad
ella prepara sus abismos
ninguno la conoce
en la mitad de la noche me despierta la oigo
como enciende su furor
y las crepitaciones
de rostros que ella quema lentamente
contra su voluntad».
Juan Gelman

JDACT