segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A Filha do Conspirador. Philippa Gregory. «É a nova rainha que nos vai conduzir ao salão de banquete, e as damas dispõem-se cuidadosamente atrás dela; há uma ordem a respeitar e é extremamente importante que cada uma de nós se certifique de que ocupa o lugar certo»

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Torre de Londres. 1465
«(…) Foi muito mal feito da parte dele agir sem se aconselhar primeiro com o meu pai; toda a gente o sabe. Foi a primeira vez que Eduardo agiu assim durante a longa e triunfal campanha que resgatou a Casa de Iorque da vergonha, quando eles tiveram de
implorar o perdão do rei adormecido e da rainha má, e a levou à vitória e ao trono da Inglaterra. O meu pai tem estado sempre ao lado de Eduardo, aconselhando-o e orientando-o, ditando cada gesto seu. Foi sempre o meu pai a avaliar o que seria melhor para Eduardo. O rei, mesmo que agora seja o rei, é um jovem que deve tudo ao meu pai. Não teria chegado ao trono se o meu pai não tivesse defendido a sua causa, ensinando-lhe como se faz para liderar um exército e travando as batalhas dele em seu lugar. O meu pai arriscou a própria vida, primeiro pelo pai de Eduardo e depois pelo próprio Eduardo, mas então, logo depois de o rei adormecido e de a rainha má terem fugido, e de Eduardo ser coroado rei, quando tudo deveria ter ficado bem para todo o sempre, ele foi casar em segredo com ela.
É a nova rainha que nos vai conduzir ao salão de banquete, e as damas dispõem-se cuidadosamente atrás dela; há uma ordem a respeitar e é extremamente importante que cada uma de nós se certifique de que ocupa o lugar certo. Estando quase a fazer nove anos, já tenho idade mais do que suficiente para compreender isto; comecei a aprender as ordens de precedência na escola quando ainda era muito pequena. Como ela vai ser coroada amanhã, segue na frente. A partir de agora será sempre a primeira em tudo aqui na Inglaterra. Passará sempre à frente da minha mãe até ao fim da sua vida, e esse é outro pormenor que não agrada particularmente à minha mãe. Atrás da nova rainha deveria seguir a mãe do rei, mas ela não está aqui; declarou a sua absoluta inimizade pela bela Isabel Woodville e jurou que não assistirá à coroação de uma plebeia. Toda a gente está a par desta cisão na família real e as irmãs do rei ocupam os respectivos lugares sem a supervisão da mãe. Parecem perdidas sem a bela duquesa Cecília para lhes indicar o caminho, e, ao ver o espaço vazio onde deveria estar a sua mãe, o sorriso confiante do rei desaparece-lhe do rosto por um fugaz instante. Nem sei como ele se atreve a contrariar a duquesa, a tia do meu pai; ela é tão aterradora como a minha mãe e nunca ninguém desobedece a uma ou a outra. A única explicação que encontro é que Eduardo deve estar mesmo muito apaixonado pela nova rainha para desafiar a própria mãe. Deve amá-la mesmo de verdade. Já a mãe da rainha está presente, não perderia, de maneira nenhuma, um momento de triunfo como este. Vem ocupar o seu lugar trazendo atrás o seu séquito de filhos e filhas e com o seu belo esposo, rir Ricardo Woodville, a seu lado. Ele é o barão Rivers, e a piada de que os rios estão a subir começa a ser sussurrada entre os convidados. É um facto que eles são tantos que até custa a acreditar. Isabel é a filha mais velha e atrás da sua mãe estão as suas sete irmãs e os seus cinco irmãos. Fico a olhar fixamente para o belo e jovem João Woodville, que está ao lado da sua nova esposa e que mais parece um menino pequeno a acompanhar a avó. Casaram-no à pressa com a duquesa viúva de Norfolk, Catarina Neville, a minha tia-avó. É um escândalo, até o meu pai o diz. Catarina, a senhora minha tia-avó, é muito idosa, uma valiosíssima ruína com quase setenta anos; poucas pessoas terão alguma vez visto, ainda com vida, uma mulher tão velha. Por seu lado, João Woodville é um jovem de vinte anos. A minha mãe diz que é assim que as coisas vão ser a partir de agora; quando se senta no trono da Inglaterra a filha de uma mulher que é pouco mais do que uma bruxa, é forçoso que se testemunhem acontecimentos sombrios. Se fizermos rainha uma ave de rapina, ela acabará por rapinar tudo. Forço-me a desviar o olhar do rosto enrugado e cansado da minha tia-avó e concentro-me no que tenho a fazer. A minha tarefa é certificar-me de que me mantenho ao lado de Isabel e atrás da minha mãe, sem lhe pisar a cauda do vestido, acima de tudo, que não lhe piso a cauda do vestido. Ainda só tenho oito anos, mas é obrigatório conseguir fazer isto bem. Isabel, que já tem treze anos, suspira ao ver-me olhar para baixo e arrastar os pés de maneira que as pontas dos mesmos estejam sempre por debaixo do opulento brocado, para garantir que não há possibilidade de cometer algum erro. E então Jacquetta, a mãe da rainha, a mãe da ave de rapina, vira-se e espreita de detrás dos próprios filhos para confirmar que eu estou no sítio certo e que não houve nenhum engano. Olha para trás como se o meu bem-estar a preocupasse, e, ao ver-me, atrás da minha mãe e ao lado de Isabel, lança-me um sorriso tão belo como o da sua filha, um sorriso que é apenas para mim; depois torna a voltar-se para diante, toma o braço do seu elegante esposo e segue a filha, neste que é o momento do seu triunfo absoluto». In Philippa Gregory, A Filha do Conspirador, 2012, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-263-519-6.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

O Papa Negro. Ernesto Mezzabota. «E como Henrique olhasse para ela cheio de espanto: pois vós ignorais este facto, monsenhor?! É natural; isto ocorreu quando ainda éreis criancinha…»

Cortesia de wikipedia

«(….) Nos olhos de Diana brilhou fulgurante e fulgás um lampejo de orgulho. Havia muitos dias que ela esperava ouvir aquelas palavras, que não eram uma promessa vã, pois que aquele que diante de Diana se expandia com ardor tão apaixonado era o segundo personagem do reino, era Henrique de França, filho e herdeiro presuntivo do rei Francisco I, e que depois reinou com o nome de Henrique II. O príncipe tinha então dezoito anos. Era um mancebo de altiva e nobre figura, muito mais desenvolvido do que a idade parecia permitir. Em lugar dos traços delicados e moles da juventude adolescente, havia nele o desenvolvimento de formas e a robustez de um homem de trinta anos. A caça e a guerra, os seus dois passatempos predilectos, tinham contribuído para dar àquele filho dos Valois a aparência rude e semi-selvática de um soldado aventureiro. Como seu pai, também Henrique era de uma estatura de gigante; mas, principalmente diante de uma mulher, o seu olhar era tímido e doce, e nos seus movimentos havia tal ou qual embaraço. Enfim, era o mais belo Hércules, que jamais se deixara prender nos laços de uma Ônfale moderna. Mas, por outro lado, que admirável domadora era aquela, que tinha feito curvar a cabeça deste leão!... Todos os poetas daquela época nos deixariam o retrato da deusa, que por tantos anos brilhou no céu da corte de França. Pintores, escultores, cinzeladores, como o Primaticcio, como Jean Goujon, como Benevenuto Cellini, idealizaram as formas admiráveis da bela sereia. Ela era realmente a grande cortesã, a mulher que podia desafiar o tempo, e receber, passados os cinquenta anos, as entusiásticas homenagens com que tinha sido saudada na sua primeira mocidade! Diana de Poitiers, condessa de Brezé, orçava então pelos trinta e cinco anos. Nenhum colorido de artista, a não ser o que saía dos pincéis mágicos do Ticiano, poderia reproduzir a cor de pérola daquela carnação, onde todavia ondeavam os reflexos dourados de um sangue quente e vivo. Tinha os cabelos castanhos escuros, tão finos e macios, que comparada com eles a seda pareceria áspera lã. Os olhos negros, grandes, aveludados, profundos, ora pareciam perdidos numa espécie de êxtase, ora relampagueavam clarões de voluptuosidade, capazes de entregar nos braços de Satanás o mais austero anacoreta da ordem de S. Francisco. A condessa trazia um vestido muito simples, todo preto, de luto. Um decote em quadrado sobre o peito deixava entrever a brancura deslumbrante do colo e do seio, que arfava. Das mangas curtas, segundo a moda da época, saíam dois braços admiráveis, que pareceriam de mármore, se não fosse o azulado das veias, que se desenhavam sob aquela finíssima pele. Nenhuma jóia nos braços, nem no colo. Na mão direita só um anel, um só, o anel nupcial do defunto senhor de Brezé. Monsenhor!, disse a condessa, depois de uma pausa habilmente calculada, o que acabais de prometer-me bastaria para tornar feliz a maior princesa do mundo, quanto mais uma pobre viúva como eu. Diana!... Deixai-me continuar. Hoje sois príncipe, monsenhor; hoje não dependeis senão de el-rei, vosso pai; amanhã sereis o senhor absoluto. Mas tereis de ouvir os conselhos da política, que vos dirá que o chefe de um grande povo não pode aparentar-se senão com famílias de soberanos. Nasci bastante próxima do trono, monsenhor, para compreender quanto é perigoso para alguém, mesmo sem o querer, aproximar-se da coroa. As jóias dela queimam a mão profana que as toca. Se o rei Francisco nosso senhor tivesse ouvido as imprudentes palavras, que há pouco pronunciastes, a prisão ou exílio seriam o meu destino. O rosto de Henrique coloriu-se e os olhos injectaram-se-lhe de sangue.
Se tal ousasse!..., exclamou ele, levando a mão aos copos da espada. Diana deteve-o com um olhar. Vós resistiríeis, monsenhor!..., e eu teria o infinito remorso de ter indisposto um filho com seu próprio pai, de ter amargurado a vida de um rei, que foi tão bondoso para com a pobre Diana de Saint-Vallier e que concedeu às súplicas da filha o perdão de seu pai... E como Henrique olhasse para ela cheio de espanto: pois vós ignorais este facto, monsenhor?! É natural; isto ocorreu quando ainda éreis criancinha, e desde então para cá têm-se operado grandes mudanças na corte. Mas desejo que o saibais: meu pai, o conde de Saint-Vallier, implicado na fuga do condestável de Bourbon, foi condenado à morte. O rei estava tão indignado contra os cúmplices e protectores de Bourbon, que ousaram pegar em armas contra o seu rei, que só alguns amigos é que ousaram implorar o perdão de meu pai; mas tudo foi inútil, a condenação era irrevogável. Tive então uma ideia, que decerto me foi inspirada por Deus. Penetrei no Louvre, e na ocasião em que o rei ia passar, lancei-me aos pés dele. Vós!, exclamou o delfim com indizível expressão de ciúme, bem justificada para quem conhecia a galanteria do rei cavaleiro. E ele..., recebeu-vos… Como se recebe uma filha, que implora o perdão para seu pai, respondeu Diana com tal acento de nobreza misturada de melancolia, que era do mesmo passo a censura e a destruição das suspeitas de Henrique. Fez-me erguer e interrogou-me com afabilidade; e como o terror, o respeito, a comoção me tinham alquebrado as forças, recomendou-me benignamente a sua mãe, Luísa de Sabóia, e, um momento depois, meu pai livre dos seus ferros, tornava a abraçar sua filha… E depois disso não tornastes a ter outras conversações…, com o rei meu pai?... Não, monsenhor; disse Diana com altiva dignidade, poucas semanas depois desposava eu o conde de Brezé, grande senescal da Normandia. Conservei sempre sem mácula o meu nome de esposa…, como hei-de conservar o de viúva…» In Ernesto Mezzabota, O Papa Negro, 1947, tradução de Adolfo Portela, Brasil, Exilado dos Livros, Epub, 2001, ISBN 858-671-001-6.

Cortesia de Wikipedia/JDACT

O Último Teorema de Fermat. Simon Singh, «E o mais interessante eram os próprios matemáticos e a paixão que demonstravam quando falavam de Fermat. A matemática é uma das formas mais puras de pensamento»

Cortesia de wikipedia e jdact

Introdução
«Finalmente me encontrei com Andrew Wiles do outro lado daquela sala. A sala não estava cheia, mas era suficientemente ampla para conter todo o pessoal do departamento de matemática de Princeton. Porém naquela tarde não havia tanta gente por lá, só o suficiente para me deixar em dúvida quanto a quem seria Wiles. Depois de alguns momentos, apresentei-me para aquele homem de aparência tímida, que ouvia as conversas enquanto tomava chá. Era o final de uma semana extraordinária, em que eu conhecera os melhores matemáticos da nossa época e começara a vislumbrar seu mundo. Mas apesar de todos os meus esforços para encontrar Andrew Wiles, falar com ele e convencê-lo a participar do documentário para o programa Horizonte, da BBC, narrando sua realização, aquele era nosso primeiro encontro. Ali estava o homem que recentemente anunciara ter encontrado o santo graal da matemática. O homem que anunciara ter achado a prova para o Último Teorema de Fermat. Enquanto conversávamos, Wiles mantinha uma aparência ausente e retraída. Embora fosse amável e educado, parecia claro que gostaria de estar tão longe de mim quanto possível. Ele explicou, de modo muito simples, que não poderia se concentrar em outra coisa além de seu trabalho, o qual se encontrava num estágio crítico. Talvez mais tarde, quando as pressões estivessem aliviadas, ele ficaria feliz em participar do programa. Eu sabia, e ele tinha conhecimento disso, que Wiles estava enfrentando o colapso da grande ambição de sua vida. O santo graal que ele encontrara estava se revelando não mais do que um belo copo. Wiles descobrira uma falha na anunciada demonstração.
A história do Último Teorema de Fermat é única. Na ocasião em que me encontrei com Andrew Wiles eu já percebera se tratar de uma das maiores histórias no campo da pesquisa científica e académica. Tinha visto as manchetes no Verão de 1993, quando a sua demonstração colocara a matemática nas primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro. Na ocasião eu tinha apenas uma vaga lembrança do que era o Último Teorema, mas percebia que se tratava de algo muito especial. Algo que cheirava a tema para um filme da série Horizonte. Passei as semanas seguintes falando com muitos matemáticos: desde aqueles envolvidos com a história, ou próximos de Andrew, quanto os que simplesmente tinham compartilhado da emoção de testemunhar um grande momento em seu campo de pesquisa. Todos generosamente compartilharam suas concepções sobre a história da matemática e pacientemente me ensinaram o pouco que eu poderia compreender sobre os conceitos envolvidos. Rapidamente percebi que aquele era um assunto que talvez apenas meia dúzia de pessoas em todo o mundo poderia compreender completamente. Por um momento pensei se não seria loucura tentar fazer um filme sobre aquele tema. Mas, do meu contacto com os matemáticos, aprendi também a história interessante e o significado profundo de Fermat para os matemáticos e então compreendi que ali estava a parte mais importante.
Fiquei conhecendo as origens gregas do problema e como o Último Teorema de Fermat era o monte Everest da teoria dos números. Aprendi a beleza da matemática e comecei a perceber por que se diz que ela é a linguagem da natureza. Por meio dos colegas de Wiles eu percebi o trabalho hercúleo que ele realizara, apelando para todas as técnicas recentes da teoria dos números para usá-las em sua demonstração. Seus colegas em Princeton me contaram a história dos intrincados avanços de Andrew, durante anos de estudos solitários. Acabei montando uma imagem extraordinária de Andrew Wiles e do enigma que dominara sua vida. Embora a matemática envolvida na demonstração de Wiles seja uma das mais difíceis do mundo, eu percebi que a beleza do Último Teorema de Fermat está no facto de que o problema em si é bem simples de entender. Trata-se de um problema que pode ser enunciado em termos familiares a qualquer estudante de primeiro grau. Pierre de Fermat foi um homem de tradição renascentista, colocado no centro da redescoberta do antigo conhecimento dos gregos. Todavia, ele fez uma pergunta que os gregos não poderiam ter imaginado, e, ao fazê-la, produziu aquele que se tornou o problema mais difícil da Terra. Como se não bastasse, ele deixou uma nota dizendo que encontrara a resposta, mas sem revelar qual era. Era o começo de uma busca que levou três séculos. Este período mostra muito bem a importância do enigma. É difícil imaginar um problema, em qualquer ramo da ciência, enunciado de forma tão simples e clara, que pudesse ter resistido tanto tempo aos avanços do conhecimento. Considere os saltos na compreensão da física, da química, da biologia, medicina e engenharia que ocorreram desde o século XVII. Avançamos dos humores da medicina para a divisão dos genes, identificamos as partículas atómicas fundamentais e colocamos homens na Lua. Mas na teoria dos números o Último Teorema de Fermat permaneceu inviolado.
Houve um momento, na minha pesquisa, em que busquei uma justificativa para que o Último Teorema interessasse a alguém que não fosse matemático e por que seria importante fazer um programa a seu respeito. A matemática tem uma infinidade de aplicações práticas, mas no caso da teoria dos números as aplicações mais importantes que encontrei foram na criptografia, no projecto de revestimento acústico e nas comunicações com espaçonaves distantes. Não era provável que isso despertasse uma grande audiência. E o mais interessante eram os próprios matemáticos e a paixão que demonstravam quando falavam de Fermat. A matemática é uma das formas mais puras de pensamento, e para os que estão de fora os matemáticos parecem gente de outro mundo. Em todas as minhas conversas o que mais me impressionou foi o modo extraordinariamente preciso de suas respostas. Eles raramente respondiam a uma pergunta de imediato. Eu tinha que esperar alguns momentos enquanto a natureza precisa da resposta era montada nas suas mentes. Mas, quando falavam, eu obtinha uma declaração tão cuidadosa e articulada quanto poderia desejar. Quando mencionei isso a Peter Sarnak, amigo de Andrew, ele me disse que os matemáticos odeiam fazer uma declaração falsa. É claro que eles empregam a intuição e a inspiração, mas declarações formais precisam ser absolutas. A demonstração está no coração da matemática, e isso é o que a distingue das outras ciências». In Simon Singh, o Último Teorema de Fermat, 1997, Edição BestBolso, nº 367, Editora Record, 2011-2014, 978-857-799-462-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

domingo, 22 de janeiro de 2017

O Círculo Virtuoso. Contos. Maria Isabel Barreno. «O cofre estava aberto, com a porta escancarada para trás. Nada mais desaparecera senão o anel. Caído no chão, junto à porta do aposento, estava o dono da casa, misteriosamente morto»

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O diamante roubado
A Estória
«Ansiosamente procurava o fim da estória. Escrevera-a quase de um só jacto, como se uma inspiração tivesse descido dos céus e lhe tivesse mostrado aquele desenrolar de enredos. Assim fora durante três dias: como de costume se levantara cedo, durante esses três dias, e aguardara a saída do marido e dos filhos com impaciência. Deixada só no silêncio da casa, sentara-se, rápida, na sua mesa de trabalho, não se arrastando pela casa, como frequentemente fazia, inventando pretextos para retardar o começo do trabalho. Isso acontecia quando ela não sabia o que escrever. Quando previa que, sentando-se, teria de prosseguir num esforço árduo, numa invenção laboriosa. Havia dias em que pensava que já não havia mais estórias para contar, que poucos contos diferentes existiam. Existiriam, quando muito, uns dez ou onze modelos, dizia dez porque era um número que toda a gente citava, a certa dezena; dizia onze porque era um número de que muito gostava. Haveria uns dez modelos de estórias, mais certamente onze, e depois todas as estórias eram versões desses modelos, no fundo com poucas variantes. E por isso havia dias em que a sua escrita lhe dava um enjoo quase insuperável, e ela inventava toda a espécie de tarefas urgentes antes de se sentar à mesa e começar o trabalho diário. Mas surgira-lhe então aquela estória radiante, descida do céu; prontinha, como se alguém lha sussurrasse ao ouvido. Afadigara-se três dias inteiros, tentando acompanhar o ritmo rápido com que a narração se lhe revelava. Helena escrevera e escrevera, antevendo o prazer dos seus eventuais leitores: uma estória onde instalara uma heroína bela e enigmática, com nome igual ao seu.

O Roubo da Jóia
O cofre estava aberto, com a porta escancarada para trás. Nada mais desaparecera senão o anel. Caído no chão, junto à porta do aposento, estava o dono da casa, misteriosamente morto. O médico legista observava-o.Veloso, o detective encarregue do caso, sentou-se numa poltrona, defronte da viúva. Esta tinha um olhar angustiado, mas em tudo o mais mantinha a calma: nos gestos, nas mãos suaves pousadas sobre o regaço. Talvez um pouco determinadas de mais, essas mãos, como se agarrassem os joelhos, para não tremer? Para ocultar receios, ou culpas? Recapitulemos, disse Veloso. O cofre contém vários outros valores: dinheiro, jóias, papéis. Sim, respondeu a dona da casa, em voz baixa. Só desapareceu o anel, com o diamante Nur, famoso em todo o mundo pela sua água puríssima e pelo seu valor? Sim, repetiu a bela Helena; hesitou, depois acrescentou, sempre em voz quase sussurrada. No mundo, ele é apreciado sobretudo pelo valor em dinheiro que lhe foi atribuído. Mas eu e o meu marido apreciávamo-lo sobretudo pela sua beleza. Pela sua transparência absoluta. Havia qualquer coisa de estranho naquela frase que Veloso não conseguiu identificar. Como sempre fazia em casos semelhantes, memorizou-a letra por letra, para depois a analisar mais tarde, também letra a letra, som a som, nas mais ínfimas inflexões de voz, deitado na cama, olhando o tecto. A posição horizontal inspirava-o particularmente, e o escuro, e o silêncio da noite. Tudo tem um significado, acreditava, tanto no comportamento das pessoas como nos factos que nos rodeiam, tudo se interliga e nada acontece por acaso. Firme nestas convicções continuou perscrutando solidamente o rosto da sua interlocutora». In Maria Isabel Barreno, O Círculo Virtuoso, Contos, Editorial Caminho, 1996, ISBN 978-972-211-063-1.

Cortesia deECaminho/JDACT

O Vírus Mona Lisa. Tibor Rode. «Onde está o Claude?, perguntou Helen. Teria gostado de ver a reacção dele à fracassada experiência da ressonância magnética e de lhe prestar um esclarecimento conclusivo»

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«(…) Sim, sim, já vou. Over!,ressoou a voz de Betty, com um misto de consternação e de preocupação. O campo de visão de Helen coloriu-se de um lilás-amarelado.
O pensamento de que, sozinha, não conseguiria libertar-se do interior da máquina assustou-a ainda mais. Sentiu o suor frio a brotar-1he de todos os poros. O coração começou a bater muito depressa. O interior da máquina era demasiado apertado. E se faltasse a electricidade? Quando tempo teria de ficar deitada às escuras? As pancadas e o zumbido pararam de repente e a máquina estremeceu e sacudiu-se. A parte de cima começou lentamente a mover-se, e Helen ouviu o som chiante do sistema de abertura automática enquanto a plataforma em que estava deitada começou a sair de dentro da máquina. A electricidade não falhara. Sentiu um alívio enorme. Duas mãos abriram-lhe a armação que lhe rodeava a cabeça e Helen viu o rosto de Betty. Que contraste com a anterior visão que ainda momentos antes pairara sobre ela! Rodeados de sardas. dois olhos verdes, tristes e preocupados, olharam-na de cima. E depois Helen sentiu no pescoço as cócegas provocadas pelos caracóis ruivos de Betty.
Está tudo bem contigo?, perguntou Betty, de testa franzida. Ajuda-me a levantar, gemeu Helen, estendendo as mãos na direcção da colega. Os dedos húmidos quase deslizaram das mãos de Betty. Quando finalmente se endireitou, Helen sentiu-se entontecida. Pela primeira vez em minutos, teve a sensação de que conseguia voltar a respirar. Era melhor guardar a verdade só para si. Sendo chefe de um projecto de pesquisa de uma envergadura tão grande não se podia dar a estas fraquezas. Preciso de ir urgentemente à casa de banho. Bebi demasiado chá hoje de manhã, afirmou, soltando-se dos cabos. Reparou como Betty a observava com ar pensativo. E inquiriu-a, a rir-se: o que é? Esperou que a sua voz não soasse demasiado artificial. Acreditas que eu tenho medo de estar dentro de uma máquina de ressonância magnética? Esta coisa é a minha vida! Betty coçou a testa. Apertaste a bola da emergência... Porque me senti desesperada!, retorquiu Helen, e abanou a cabeça com ar divertido. Talvez por causa do calor. Não sabes como é? Para dar ênfase às suas palavras, apertou os joelhos um contra o outro, como uma criança, e dirigiu-se para a porta com movimentos desajeitados. Regista os valores que obtivemos até agora. Volto já, disse a Betty, antes de desaparecer pelo corredor fora. A casa de banho não ficava longe.
A água fria com que humedeceu o rosto fez-lhe bem. Gemeu devido à sensação de frio, mas também pelo alívio que sentiu. Ocorrera precisamente o desastre que tanto tinha receado durante anos. Sentiu o sangue a concentrar-se no rosto. Mas não podia ficar a sentir-se envergonhada. Havia dentistas que tinham medo de tratamentos dentários. Polícias que conduziam carros depressa demais. E havia até uma especialista em neuroestética que se enchia de pânico na cabina da máquina de ressonância magnética. Helen enxaguou o rosto com os toalhetes de papel rijo, que tinham um cheiro sulfuroso, olhou para o espelho, de relance, ajeitou o cabelo e regressou à sala de controlo. Cortaria pela raiz qualquer conversa sobre o que sucedera. Era a vantagem de estar ao comando dos acontecimentos. Betty encontrava-se sozinha, sentada numa consola que fazia lembrar o cockpit de um avião. Atrás de um painel de vidro, via-se o agora inútil tomógrafo de ressonância magnética. Betty concentrava toda a sua atenção num enorme monitor. Onde está o Claude?, perguntou Helen. Teria gostado de ver a reacção dele à fracassada experiência da ressonância magnética e de lhe prestar um esclarecimento conclusivo. Antes que o assunto se fosse espalhando por entre os colegas. Deve ter ido comer alguma coisa rapidamente, respondeu Betty, absorta. Estavam lá dois tipos de fato, disse Helen. Era necessário agir normalmente. Pensei que te agradasse.
Helen massajou as têmporas. Imaginou estar ainda a ouvir um ligeiro zumbido. Os barulhos dentro da máquina dão cabo de uma pessoa, afirmou. São muito mais intensos lá dentro. São mesmo psicadélicos! Betty ergueu uma bolsa onde meteu um CD sem desviar os olhos do monitor. Helen decifrou as palavras Magnetic Sounds. O Claude recolheu o som da ressonância magnética e gravou-o no CD, explicou Betty. Quando faz a mistura do som e depois o ouve no carro, acha que é melhor do que música ambiente. Até me perguntou se eu queria cantar qualquer coisa para acompanhar. Helen sorriu. Que havia alguma coisa entre Betty e Claude era uma coisa de que há muito suspeitava. A mim não me disse nada, disse. Betty riu-se e retorquiu: talvez receasse ter problemas por causa disso. Isto aqui não é nenhum estúdio de som». In Tibor Rode, O Vírus Mona Lisa, 2016, Topseller, 20/20Editora, 2016, ISBN 978-989-883-989-3.

Cortesia de Topseller/20/20E/JDACT

A Filha do Conspirador. Philippa Gregory. «A minha irmã Isabel lança-me um olhar carrancudo. Estáveis ali parada a olhar como uma idiota, sussurra-me. Embaraçastes-nos a todas»

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Torre de Londres. 1465
«A senhora minha mãe, uma grande herdeira de pleno direito e a esposa do mais importante súbdito do reino, é a primeira a entrar. Atrás dela vai Isabel, visto ser a mais velha. A seguir sou eu; vou no fim, vou sempre no fim. Não consigo ver grande coisa quando entramos na grande sala do trono da Torre de Londres. A minha mãe conduz a minha irmã até diante do trono, para ela fazer uma vénia, e depois afasta-se para o lado. Isabel desce o corpo quase até ao chão, tal como fomos ensinadas, porque um rei é um rei, ainda que se trate de um homem novo colocado no trono pelo meu pai. A esposa dele vai ser coroada rainha, não importa o que pensemos dela. Avanço para fazer também uma vénia e é então que consigo ver bem pela primeira vez a mulher que viemos honrar com a nossa presença na corte. É uma mulher deslumbrante, a mais bela que já vi em toda a minha vida. Compreendo de imediato por que razão o rei mandou parar o seu exército ao vê-la pela primeira vez e a desposou poucas semanas depois. O sorriso dela abre-se devagar e depois resplandece, como se fosse o sorriso de um anjo. Já vi estátuas que pareceriam reles ao lado desta mulher e também já vi representações da Virgem Maria cujas feições teriam um ar vulgar em comparação com a sua graciosidade pálida e luminosa. Ergo-me, concluindo a vénia. e fico parada a fitá-la como se ela fosse um ícone de extremo primor; não consigo desviar o olhar. Sob o meu exame minucioso, ela acaba por corar; depois sorri-me e eu não consigo evitar abrir um sorriso radiante em resposta. Isso fá-la rir, como se achasse divertida esta minha adoração descarada, e então eu reparo na olhadela furiosa que a minha mãe me lança e vou rapidamente pôr-me a seu lado.
A minha irmã Isabel lança-me um olhar carrancudo. Estáveis ali parada a olhar como uma idiota, sussurra-me. Embaraçastes-nos a todas. O que diria o pai? O rei avança até nós e beija afectuosamente a minha mãe nas duas faces. Já tivestes notícias do meu estimado amigo, o vosso senhor?, pergunta-lhe. Está a trabalhar diligentemente ao vosso serviço, responde ela com prontidão. O nosso pai não vai estar presente no banquete desta noite ou nas outras celebrações, visto ter-se ido encontrar com o rei da França em pessoa e com o duque da Borgonha; vai reunir-se de igual para igual com estes poderosos homens da Cristandade, para fazer as pazes com eles agora que o rei adormecido foi derrotado e que somos nós os novos governantes da Inglaterra. O meu pai é um homem muito importante; é ele quem representa este novo rei e toda a Inglaterra. O rei, o novo rei, o nosso rei, cumprimenta Isabel com uma vénia na brincadeira e depois afaga-me o rosto. Conhece-nos desde que as duas éramos ainda muito pequenas para virmos a banquetes como este e ele próprio era um rapaz à guarda do meu pai. Entretanto. a minha mãe pôs-se a olhar em volta como se estivesse na nossa casa, no castelo de Calais, a avaliar o serviço dos criados. Sei que ela está ansiosa por ver alguma coisa que possa depois descrever ao meu pai como prova de que esta rainha muito bela não está à altura da posição que ocupa. Mas, pela irritação no seu rosto, percebo que não conseguiu encontrar nada.
Ninguém gosta desta rainha; eu não deveria admirá-la. Não deveria importar-nos que ela sorria calorosamente a mim e a Isabel, ou que depois se erga do seu cadeirão e avance para vir apertar as mãos da minha mãe nas suas. Estamos as três determinadas a não gostar dela. O meu pai tinha um bom casamento já planeado para este rei, uma esplêndida união com uma princesa francesa. O meu pai esforçou-se por isso, preparou o terreno, redigiu o contrato nupcial e convenceu aqueles que odeiam os Franceses de que tal união seria benéfica para o país, protegeria Calais e talvez até nos devolvesse Bordéus, mas então Eduardo, o novo rei, este novo rei bonito de nos cortar a respiração e tão sedutor, o nosso querido Eduardo, que era como um irmão mais novo para o meu pai e como um tio adorado para mim e para a minha irmã, declarou, tão simplesmente como se estivesse a pedir o jantar, que já era casado e que nada poderia ser feito a tal respeito. Que já era casado...? Sim, e com ela». In Philippa Gregory, A Filha do Conspirador, 2012, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-263-519-6.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

O Vírus Mona Lisa. Tibor Rode. «Mas era o que eu pensava!, ouviu Betty dizer. E nós com medo de que tivesses adormecido. Muito engraçado, pensou Helen»

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«(…) Abriu os olhos e sentiu vontade de se mexer e de se espreguiçar. Mas o tubo estreito em que se encontrava metida não o permitiu. Num pequeno visor fixo, mesmo por cima dos seus olhos e à distância de uma mão, viu a imagem de um homem sorridente. E não era seguramente um jovem. O cabelo estava perfeitamente penteado e de um negro azulado que era reluzente como se lhe tivessem aplicado uma camada de orvalho fresco. Sobre a testa pendia um único caracol, o que despertou em Helen o reflexo de estender o braço para o afastar para o 1ado. Mas lembrou-se a tempo de que não se podia mexer. Sentiu o braço muito pesado. As maçãs do rosto do homem eram muito pronunciadas e os dentes eram brancos como a neve. Uma sugestão de barba por fazer dava-lhe uma aparência especialmente masculina. O olhar temerário prometia aventuras. Sim, ser-lhe-ia talvez difícil arrancar uma mulher da cama. Helen fechou os olhos por instantes. Negro. Sentiu uma picada no peito. E então? O que achas?, perguntou a voz metálica. Helen pensou ouvir um tom de divertimento na voz. Procurou os botões com os dedos, tendo o cuidado de não mexer a mão toda. Bastava uma ligeira pressão dos dedos. Esperou.
Mas era o que eu pensava!, ouviu Betty dizer. E nós com medo de que tivesses adormecido. Muito engraçado, pensou Helen. O corpo produzira tanta adrenalina que ela nessa noite até iria ter dificuldade em adormecer. Para ela tinha sido uma cavalgada no dorso de um cavalo desenfreado. E quem é que conseguiria dormir numa situação dessas? O suor frio colou-se-lhe à testa. Abriu mais uma vez a boca, ofegante, à procura de ar. Sentiu um formigueiro nos dedos. Havia um motivo para ter adiado este processo durante tanto tempo. Todos os seus colegas se haviam submetido há muito tempo aos testes de ressonância magnética. A maioria enquanto estudantes. De algum modo ela conseguira sempre evitá-los. Até agora. Mas, quando se conduzia um projecto experimental, havia que se dar o exemplo. E não havia mais ninguém a quem coubesse o dever de testar o equipamento experimental. As pancadas ganharam uma nova coloração. Helen afastou as imagens coloridas dos seus olhos interiores e concentrou-se no visor. Bom, agora a próxima fotografia, anunciou Betty. Desta vez foi o rosto de uma mulher que apareceu. Helen pensou primeiro que o rosto estivesse completamente limpo de maquilhagem, mas depois, vendo melhor, notou-lhe sinais de sombra para os olhos e vestígios de maquilhagem. Apesar disso, a mulher parecia ter um rosto banal. Descorado. A pele das faces era um pouco flácida. Os lábios eram estreitos. O nariz parecia torto, o olhar desinteressado e as pálpebras caídas. Clareza, era o que esta imagem queria dizer. Desinteressante. Helen fechou os olhos. Vermelho-claro. Seria uma consequência do zumbido? Voltou a mexer o dedo indicador. OK, ouviu Helen, em tom céptico, vindo de um altifalante.
Tens a certeza de que não te estás a baldar? Helen procurou outra vez respirar com mais força, mas o peito pareceu-lhe feito de cimento. Começou a ter a sensação de que iria sufocar. Quero sair daqui!, exclamou, de repente, e quase se surpreendeu com as suas próprias palavras. Ainda não acabámos..., afirmou Betty, com um tom de voz inseguro. Acabem com isto!, tornou Helen, com voz firme. As pancadas haviam retomado a sua sequência, fazendo surgir sombras lúgubres dentro da sua cabeça. A sério?, perguntou Betty, incrédula. Ainda temos dez fotos... A sério!, respondeu Helen, já em pânico. Esperou alguns instantes e, como nada acontecesse, tacteou à procura da pequena bola de borracha que devia encontrar-se junto do braço direito. Cem vezes pusera ela própria a campainha junto da pessoa que estava a ser sujeita ao teste na máquina de ressonância magnética, associando-a à indicação tranquilizadora de que a cobaia devia apertar a bola se houvesse alguma emergência. Compreensivelmente, nunca ocorrera nenhuma emergência. E ninguém recorrera à bola. E agora era ela própria que o fazia». In Tibor Rode, O Vírus Mona Lisa, 2016, Topseller, 20/20Editora, 2016, ISBN 978-989-883-989-3.

Cortesia de Topseller/20/20E/JDACT

A Rosa de Sebastopol. Katharine Mc Mahon. «Estava sentado em cima da cama, com o conteúdo do embrulho espalhado à sua volta. Peguei no tabuleiro e pu-lo lá fora, no corredor. Em seguida, fechei a porta e aproximei-me da cama»

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«(…) Não sei nada disso. Acha que eles se apaixonaram? Não posso falar por ele. Só sei que aquela rapariga não faria nada para magoá-la. O que hei-de fazer? O que lhe hei-de dizer? E se ele continuar a confundir-me com ela? Diga-lhe a verdade. Diga-lhe que não é a Rosa. Diga-lhe que estamos todos muito preocupados porque sabe-se lá onde a pobre rapariga se encontra agora.

Londres. 1840
Durante os quatro meses que Henry ficou em nossa casa, vi-o chorar pela mãe uma vez. Um dia, depois de ele ir para a escola, chegou um embrulho, com o endereço escrito numa letra incerta, que, como viemos a verificar, era da tia que acolhera o pai. Numa carta anexa, comunicava que viera ao Sul com o objectivo de separar os pertences da defunta para que, dentro de pouco tempo, pai e filho pudessem regressar a casa e começar de novo. Encontrara os objectos que enviava e que a mãe de Henry deixara ao filho como recordação. Os meus pais falaram do assunto ao pequeno-almoço. Não podemos interferir, disse a mãe. O Henry já tem idade para aguentar este embate. É quase um homem. Precisamente quando o rapaz estava a progredir tão bem, chegou isto, disse o pai. Na minha opinião, era preferível guardarmos estas coisas. Mas ele tem de ficar com alguma coisa da pobre Eppie. Tem a recordação dela. Isso deve ser suficiente.
Durante todo o dia, mantive-me à distância do embrulho, sempre que passava pelo corredor, e não falei dele a Henry quando fui ao seu encontro no portão do jardim, porque queria prolongar o mais possível a sua boa disposição. Nessa época, em geral levávamos uma hora ou mais a chegar a casa. Se o tempo estava quente, deitávamo-nos debaixo do cedro e deixávamo-nos ficar ali, com as agulhas caídas a picarem-nos as costas, a observar os ramos complicados, ou então ele encostava-se ao tronco e lia um livro de anatomia que um professor lhe emprestara. Eu não estava autorizada a espreitá-lo, porque Henry dizia que o conteúdo não era adequado a uma menina e eu optava por me encostar às suas costelas ossudas e ouvir o bater do seu coração. Uma vez, quando me disseram que fosse apanhar framboesas para o jantar, enchemos ambos as nossas taças até eu ficar tonta com o cheiro a feno e a açúcar e ter de me sentar à sombra, enquanto ele prosseguia a sua tarefa e de vez em quando me enfiava, com os dedos manchados, frutos na boca. Quando se aproximou a hora do jantar, fomos para casa, ofuscados pelo ambiente exterior, despejámos as taças em cima da mesa da cozinha e subimos as escadas das traseiras que iam dar ao patamar de acesso aos nossos quartos. Ele puxou-me a trança Vai lavar a cara, Mariella. Desgraças o nome da família.
Na tarde em que chegou o embrulho, dei-lhe a mão e acompanhei-o até ao corredor. Assim que Henry pegou nele, aconteceu precisamente o que eu receava; ele refugiou-se em si mesmo, foi para cima e fechou-se no quarto. Não desceu para jantar. Mais tarde, a mãe subiu com um tabuleiro e meia hora depois mandou-me buscá-lo. A porta do quarto dele ficara aberta e o aposento cheirava a carne cozida porque Henry não tocara na comida. Estava sentado em cima da cama, com o conteúdo do embrulho espalhado à sua volta. Peguei no tabuleiro e pu-lo lá fora, no corredor. Em seguida, fechei a porta e aproximei-me da cama, onde fiquei com as mãos atrás das costas, à espera de que ele desse pela minha presença. Henry não era ainda um rapaz muito bem-parecido; demasiado magro, a sua pele, embora mais bronzeada do que quando chegara, continuava vulnerável a manchas, e o cabelo era escorrido. Mas eu considerava-o belo devido ao seu olhar grave e perspicaz, e lamentava a luz que em geral lhe iluminava o rosto sempre que me via. Pouco depois, aproximei-me da cama, pousei-lhe a mão no ombro e inclinei o pescoço de tal maneira que fiquei com a cara quase virada ao contrário por baixo da cabeça dele. Fitei-o. Não houve reacção alguma. Posso ver o que estava no embrulho?, perguntei. Nada. O sofrimento dele era tão palpável que percebi que se impunham medidas drásticas. Sentei-me no seu colo desconfortável e passei-lhe as mãos à volta do pescoço. Mostra-me, disse eu». In Katharine Mc Mahon, A Rosa de Sebastopol, 2007, tradução de Filomena Duarte, Casa das Letras, 2010, ISBN 978-972-461-938-5.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

sábado, 21 de janeiro de 2017

Silver Bay. Jojo Moyes. « Durante anos fui conhecida como a “Rapariga dos Tubarões”, mesmo depois de os meus dias de rapariga terem passado havia muito»

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Kathleen
«O meu nome é Kathleen Mostyn e, quando tinha dezassete anos, fiquei famosa por apanhar o maior tubarão jamais visto em Nova Gales do Sul: um tubarão-touro cinzento, com uma expressão maldosa que parecia ainda querer rasgar-me ao meio vários dias depois de o termos pescado. Isto foi no tempo em que toda a cidade de Silver Bay se dedicava à pesca desportiva e, durante três semanas, não se falou de outra coisa a não ser daquele tubarão. Veio de propósito de Newcastle um jornalista que me tirou uma fotografia, de pé, ao lado do tubarão. O tubarão é bem mais alto do que eu, nessa fotografia, apesar de o fotógrafo me ter mandado calçar sapatos com saltos altos. O que se vê na fotografia é uma rapariga alta, de ar bastante severo, mais atraente do que julgava ser, com ombros largos, para desespero da mãe, e uma cinturinha de vespa que nunca precisou de corpetes. Ali estou eu, incapaz de esconder o orgulho, ainda sem saber que ficaria ligada àquele animal para o resto dos meus dias, tão firmemente como se tivéssemos casado. O que não se vê é que o tubarão estava suspenso por dois arames, seguros pelo meu pai e pelo seu sócio, Brent Newhaven, ao puxá-lo para terra tinha dado cabo de vários tendões do meu ombro direito e, quando o fotógrafo chegou, eu nem sequer conseguia levantar uma chávena de chá, quanto mais um tubarão.
Apesar disso, foi o bastante para cimentar a minha reputação. Durante anos fui conhecida como a Rapariga dos Tubarões, mesmo depois de os meus dias de rapariga terem passado havia muito. A minha irmã Norah estava sempre a dizer, na brincadeira, que, tendo em conta a minha aparência, deviam ter-me chamado Ouriço-do-mar. Mas o meu sucesso, segundo o meu pai, foi o que salvou o Hotel Silver Bay. Dois dias depois de essa fotografia aparecer no jornal o hotel estava completo, e assim continuou até a ala ocidental ser destruída pelo fogo, em 1962. Os homens vinham porque queriam bater o meu recorde. Ou porque pensavam que, se uma rapariga conseguia apanhar um animal daqueles, o que não conseguiria um pescador a sério. Alguns vinham pedir-me em casamento, mas o meu pai sempre disse que conseguia farejá-los antes de chegarem a Port Stephens e despachava-os num instante. As mulheres vinham porque, até então, nunca tinham pensado que pudessem praticar pesca desportiva, quanto mais competir com os homens. E as famílias vinham porque Silver Bay, com a sua baía protegida, as dunas intermináveis e as águas calmas, era um bom sítio para estar.
Construíram-se apressadamente mais dois pontões, para dar vazáo ao acréscimo de tráfego marítimo, e todos os dias o ar se enchia do som de remos na água e de motores fora de borda, enquanto a baía e o mar à sua volta eram praticamente esvaziados de toda a vida aquática. À noite só se ouvia o barulho dos motores dos carros, de música suave e de copos a tilintarem. Houve uma altura, durante os anos 50, em que, e não estou a exagerar, Silver Bay era o sítio da moda. Agora, ainda temos os nossos barcos e os nossos pontões, embora só um seja utilizado, e aquilo que as pessoas perseguem é bastante diferente. Há quase vinte anos que não pego numa cana. Já não tenho grande interesse em pescar. A cidade é bastante calma, mesmo no Verão. A maior parte do movimento de férias tem como objectivo os clubes e os hotéis em arranha-céus, os prazeres mais óbvios de Coffs Harbour ou de Byron Bay, e, para dizer a verdade, a maioria de nós não tem nada a opor». In Jojo Moyes,  Silver Bay, 2007, Porto Editora, 11/17, 2014, ISBN 978-972-077-514-6.

Cortesia de PEditora/1117/JDACT

Poemas de Amor. Inês Pereira. «Então, descontentes disto, levaram-na a longes terras esconderam-na entre umas serras, onde o sol não era visto e a Crisfal deixaram guerras»

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«Num tão alto lugar, de tanto preço,
este meu pensamento posto vejo
que desfalece nele inda o desejo,
vendo quanto por mim o desmereço.

Quando esta tal baixeza em mim conheço,
acho que cuidar nele é grão despejo,
e que morrer por ele me é sobejo
e mor bem para mim do que mereço.

O mais que natural merecimento
de quem me causa um mal tão duro e forte
o faz que vá crescendo de hora em hora.

Mas eu não deixarei meu pensamento,
porque, inda que este mal me cause a morte,
un bel morirwir tutta la vita onora».


Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho logo mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como o acidente em seu sujeito,
assim como a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia;
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
Sonetos de Camões, in “Poesia


«A qual, logo aquele dia
que soube de seus amores,
aos parentes de Maria
fez certos e sabedores
de tudo quanto sabia.
Crisfal não era então
dos bens do mundo abastado
tanto como do cuidado;
que, por curar da paixão,
não curava do seu gado.

E como em a baixeza
do sangue qu’é pensamento
é certa esta certeza,
cuidar que o merecimento
está só em ter riqueza,
inquiriram que teriam
e do amor não curaram;
em que bem se descontaram,
riquezas, se faleciam,
por males que sobejaram.

Então, descontentes disto,
levaram-na a longes terras
esconderam-na entre umas serras,
onde o sol não era visto
e a Crisfal deixaram guerras.
Além da dor principal,
para mor pena lhe dar,
puseram-na em lugar
mau para dizer seu mal,
mas bom para o chorar.

Ali os dias passava
em mágoas, da alma saídas,
dizer a quem longe estava,
e chorava por perdidas
as horas que não chorava.
Em vale mui solitário e
sombrio e saudoso,
send’o monte temeroso
para o choro necessário
para a vida mui danoso.
[…]
Poema de Cristóvão Falcão, in “Crisfal

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A morte do Inquisidor-Geral. António Borges Coelho. «As instalações são amplas, as paredes grossas e forradas de alcatifas, mas não abafam de todo o marulhar do povoléu do Rossio nem os gemidos dos cárceres»


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«1 de Janeiro de 1653. Francisco Castro está a morrer na sua câmara, deitado em leito de pau-santo armado com quatro cortinas e céu de damasco verde e branco. Assistem-no três médicos e duas dezenas de fâmulos. Está acamado e sangrado. Na câmara, um Ecce Homo e as imagens de S. Pedro Mártir e de Santa Catarina de Sena. Do guarda-roupa, constituído por centenas de peças, vestimentas multicores, camisas, meias de seda, ceroulas, roupões, carpas, sotainas com cauda e sem cauda, barretes, chapéus, escolheu para  última viagem, uma vestimenta roxa de chamalote de ouro guarnecida de passamanes de ouro com estola e manípulo. À volta do pescoço, a cadeia de oiro que sustém a cruz peitoral também de ouro: no dedo o anel grande de ouro dos pontificais com cinco pedras em cruz, uma no meio, branca, duas verdes e duas azuis. Por baixo da roupa, colada ao corpo, traz ainda uma cruz de ouro niquelada com poderes, concedidos pelo papa Gregório XV de tirar uma alma do purgatório todas as vezes que com ela se rezar a missa.
O Inquisidor-Geral está a morrer ao Rossio, nos aposentos em que vive, situados nos Paços do Santo Ofício (maldito) que Mateus Couto, arquitecto das inquisições deste reino, remodelara por mandado do Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor Francisco Castro, bispo inquisidor-geral e do Conselho de Sua Majestade. As instalações são amplas, as paredes grossas e forradas de alcatifas, mas não abafam de todo o marulhar do povoléu do Rossio nem os gemidos dos cárceres. Na capela privativa inventariaram-se centenas de objectos: alfaias de ouro e prata dourada, toalhas, frontais, panos de damasco, luvas, albas, sobrepelizes, vestimentas da Índia, de Castela e de Holanda. Nos aposentos pessoais, além da câmara onde agoniza, dispõe de um lavatório e nele um cântaro de cobre para aquecer a água, uma bacia de latão com o seu jarro coberto para Sua Ilustríssima lavar as mãos pela manhã, uma bacia de latão para lavar os pés, uma bacia de barbear, um cuspidor de prata.
Os retábulos de Santa Cecília, de S. Jerónimo, de S. João, de novo o de S. Pedro Mártir, agora com o relato do martírio, e ainda o retrato de frei Fernando Cruz, sobrinho do moribundo, enfeitam as paredes da antecâmara. Os livros da livraria, dominada pelo retrato de S. Tomás, haveriam de render 645 820 réis. Na mobília, o bufete em que escrevo, o contador de pau-santo onde guarda 700 000 réis em ouro e mais 200 moedas antigas de ouro, afora os 800 000 que tinha o secretário Diogo Velho e os 375 000 de dinheiro secreto. Num caixão de pau-santo guarda papéis do Santo Ofício (maldito) que manda entregar sob dupla chave ao inquisidor-geral que lhe suceder. As instalações pessoais compreendiam ainda a cozinha, a copa, o tinelo ou refeitório dos criados com a mesa do pobre, e ainda as áreas reservadas aos hóspedes.
A dispensa e a cavalariça ficavam nos fundos. O inventário dá notícia de arrobas e arrobas de passas e figos, moios e moios de grãos-de-bico, de lentilhas, de feijões, de ervilhas, sete arrobas de bacalhau, onze arráteis de açúcar mascavado, três barris de biscoito, arrobas de velas e de cera. Não faltariam o trigo, a carne, o vinho. Na cavalariça ficavam os animais de tracção, entre eles um macho novo de 90 000 réis, uma liteira grande, uma liteira pequena, o coche e a carroça da água. Em viagem, a cavalo, de coche ou de liteira, os criados embalavam nos baús de caminho as comodidades do amo e as alfaias da capela. Nestas, a cruz de prata de altar, os castiçais de prata, a caixa de hóstias dourada, um abano com pau de prata, as vestimentas de tafetá de diferentes cores, uma capa de tafetá da Índia branca e roxa com franjas de ouro, o missal na sua bolsa de couro, o Evangelho de S. João, duas bolsas de veludo negro para as esmolas. A cama de caminho em damasco azul seguia em duas caixas. Noutras caixas e baús ia o resto do guarda-roupa, onde não faltava um estojo com as tesouras para a barba e um urinol de prata para o caminho». In António Borges Coelho, A morte do Inquisidor-Geral, Questionar a História, Editorial Caminho, colecção universitária, 2007, ISBN 978-972-211-888-0.

Cortesia da ECaminho/JDACT

Os Sensos Incomuns. Maria Isabel Barreno. «Era o que sentia: aquilo era como uma gota de óleo, que insidiosamente se alastraria a toda a sua vida, contaminando-a»

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(…) Sentindo-se infeliz, passou de guloso a glutão, de rechonchudo a gordo. Sobressaltava-se com as gargalhadas dos outros, corava, fugia. A sua vergonha e o seu ridículo mais foram aguçando a agressividade dos outros rapazinhos. Aos doze anos foi violado por um grupo de colegas. Eram cinco ou seis, dois deles corpanzudos, de virilidade precoce. Um buço escuro acentuava-lhes já a expressão estúpida, declarando seu desenvolvimento praticamente completo: era mesmo aquilo que eles iriam ser, não havia mais esperança de crescimento. Esses dois lideravam os outros, excitando-lhes mais a burrice do que o sexo. Encurralaram num canto o rapazinho gordo, baixaram-lhe as calças e as cuecas. O rapazinho gordo ficou aterrado, paralisado, incapaz de reagir. Dar-nos-ás a cada um momento de prazer, disse um dos matulões enquanto lhe (…) o (…). E o rapazinho gordo teve, nesse momento, uma erecção. Mais aumentou o gáudio dos outros, olha pra ele, ele está a gostar, está a gostar. Um resto de dignidade se interpôs, se ofendeu, o seu sexo murchou. Nada se consumou para ele, nesse dia, a não ser um negro sentimento de culpa. E uma dúvida. Estás a ver o meu problema, disse ele, muito baixo. Nunca contei isto a ninguém. E a primeira vez que sou capaz. Eu senti prazer naquele momento, senti um desejo que só posso chamar perverso porque eu próprio me comprazia ao ver-me reduzido a mero objecto de prazer dos outros. Isto era apenas resultado do terrível estado de humilhação em que então vivia? Ou sou, de
facto, um homossexual? Até hoje, nunca consegui aproximar-me de nenhuma mulher, com receio de ser um homossexual reprimido; e nunca me aproximei dos homens, porque eles me lembram esse horrível sentimento de humilhação, de abjecção. És o meu primeiro amigo.
Contigo, não sei porquê, sinto que posso estar completamente à vontade. Por isso te contei tudo. Manuel ouviu, primeiro com interesse. Simpatizava com aquele seu colega de emprego, gordo e calado, sempre perdido na contemplação de alguma coisa, e que ele imaginava fazendo versos às escondidas de todos, talvez até de si próprio. Quando percebeu o rumo dos acontecimentos, no passado do seu gordo confidente, o interesse transformou-se em mal-estar; não lhe agradava ficar assim, inesperada e profundamente, envolvido na vida de alguém. Depois veio o terror. O horror, quando sentiu uma súbita erecção ao ouvir relatada a frase dar-nos-ás a cada um momento de prazer, relatada a penetração que a acompanhou. Foi como se tivesse ficado repentinamente irmanado com o seu gordo amigo, pior, como se intimamente tivessem partilhado uma experiência, como se tivessem feito amor juntos. Manuel nunca tivera, até então, qualquer dúvida sobre a sua sexualidade. Gostava bastante de si próprio, apreciava-se nas suas qualidades, julgava conhecer todos os seus defeitos, arranjava namoradas sem dificuldade, tinha êxito e prazer com elas. E agora chegava aquela confidência, aquela nojenta gota de óleo. Era o que sentia: aquilo era como uma gota de óleo, que insidiosamente se alastraria a toda a sua vida, contaminando-a.
E assim se passou o futuro imediato de Manuel: olhares ansiosos sobre corpos de mulheres, súbitas interrupções do acto de amor dizendo não sei o que tenho hoje, olhares de soslaio para corpos de homens, interrogações sombrias, solitário, num bar, em casa, com um copo de uísque na mão. E fugindo do gordo violado a sete pés, inventando desculpas porque não gostava de ser malcriado nem agressivo». In Maria Isabel Barreno, Os Sensos Incomuns, 1993, colecção Campo da Palavra, Grande Prémio do Conto, Editorial Caminho, 2008, ISBN 978-972-210-886-7.

Cortesia ECaminho/JDACT

Os Sensos Incomuns. Maria Isabel Barreno. « Sorriu, era uma terna imagem. Querida, disse, eu entendo o teu entusiasmo pela ficção científica, e a tua convicção de que a análise racional…»

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(…) Assim Dezembro se enchera de festas: primeiro esse culto gélido da semente germinando em berço escuro, promessa discreta e ameaçada de tesouros futuros. Depois a antecipação, tão cara ao género humano, trouxera algumas abundâncias enganosas: presentes que enchiam os olhos das crianças, podendo-se neste ponto argumentar com a inocência da infância, festas celebradas com fritos quentes e frutos secos, também aqui se podendo invocar em desculpa a imitação das naturais armazenagens, os régios e mágicos açúcares e gorduras que do cerne da semente vinham a caminho, seguindo a estrela da vida, cheios já de presentes, ainda que simbólicos. Tudo isto era invocável, embora com algum esforço. Mas posteriormente haviam acumulado os ruídos, as luzes, muitas e piscantes, as trocas, as invejas e as ambições, e o dinheiro, tornando-se símbolo totalitário, tapara de vez as superiores energias, suas simbolizadas. Era esta alternância que urgia endireitar, enterrar os ruidosos faustos, extrair do ventre da terra os tesouros silentes. Fora esta a tarefa que ele fora enviado a cumprir, para que o tempo perdesse a perigosa curva que ameaçava rompê-lo no próximo decénio.
Ele ouviu a voz sussurrada da mulher, entrou no quarto do filho, viu-a lendo esforçadamente, na penumbra, os cabelos caídos ocultando-lhe a face, viu a criança na sua pequena cama de grades. Sorriu, era uma terna imagem. Querida, disse, eu entendo o teu entusiasmo pela ficção científica, e a tua convicção de que a análise racional é sempre exigível, de que todo o maravilhoso deve ser mostrado na mais chã e ancestral de suas origens, mas não achas esse conto pesado demais para uma criança de dois anos? De forma alguma, disse a mulher, vê como ele já dorme, tão tranquilo. Acordará em Setembro, a caminho de Dezembro, quando o ruído se tornar excessivo e ele tiver que abandonar o sonho.

O mártir e o redentor
Era um rapazinho rechonchudo, frequentemente distraído em densos pensamentos, muito seus. Enquanto viveu inteiramente em casa, inteiramente sob a alçada da mãe e das empregadas, foi uma criança bem disposta, risonha e gulosa. O mundo era pouco maior do que a cozinha e o quarto de dormir. Quando entrou para a escola tornou-se o alvo favorito das graçolas e agressões dos outros. Chorava em casa, primeiro, contando aos pais. O pai zangava-se, era um homem iracundo: ficava pálido, rangia os dentes de fúria. Gritava: defende-te, tens que aprender a ser homem, eu com a tua idade. Virava-se para a mulher e continuava a gritar: fizeste dele um inútil, um maricas. O rapazinho deixou de contar em casa as suas desgraças. Para não afligir a mãe, para não irritar o pai. Sentiu-se sozinho no mundo, tornou-se absolutamente vulnerável. Continuava inclinado às suas densas reflexões, que o distraíam, que o tornavam ausente e desajeitado, e lhe impediam os reflexos de defesa. Passara a sentir-se culpado por esses densos pensamentos, que, no entanto, eram sempre relativos à beleza do mundo e ao subtil funcionamento das coisas, passara a sentir-se indigno de qualquer amor». In Maria Isabel Barreno, Os Sensos Incomuns, 1993, colecção Campo da Palavra, Grande Prémio do Conto, Editorial Caminho, 2008, ISBN 978-972-210-886-7.

Cortesia ECaminho/JDACT

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Tempo de Lacraus. António Borges Coelho. «Ensaboou-se devagar. E deu consigo a explorar a parede. Lá estava o buraco tapado com miolo de pão por onde ele e o Alfredo espreitavam no banho a mulher do secretário»


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«(…) A mãe lançou-lhe o braço ao redor dos ombros. Subiram abraçados. Conversavam sobre pequenos nadas. Os olhos de André, aparentemente distantes, falavam com os objectos reencontrados, perguntavam pelos que faltavam ou saíram do lugar. Ficas no teu quarto. O quarto era dele e do Alfredo. Fora da bisavó.

Tenho um canário numa gaiola
canta tão bem que até consola...
Minha criada chamada Aurora
pôs-se a brincar
deitou-me o canário fora.

No meio da cantiga acabou-se-lhe o ar. Tinha noventa e sete anos. Quando se penteava, a cabeleira branca caía-lhe quase até à cintura. O anjo da guarda continuava parado à cabeceira da cama. Protegera-os com as suas asas na travessia da ponte da vida. Mas não impedira as zaragatas, as dentadas e os arranhões por tudo e por nada. O soalho rangeu sob o seu peso. Ouvia palavras antigas. Cada vez estás mais maluco! Palavras de outro tempo, de outro regresso. A mãe olhava-lhe os sapatos gastos, o fato grande de mais para o seu corpo, a mala de viagem aparentada com os sacos de linhagem dos que regressavam pela Brunheda. Assomou à varanda. A casa continuava plantada à beira da estrada olhando as oliveiras do vale e as montanhas verde-cinza, agora mergulhadas na penumbra. Ainda procurou no horizonte os castros antigos. Outrora comunicavam entre si por sinais de fogo. Agora só se os relâmpagos queimassem a noite e, nas tempestades de Verão, coroassem de fogo o alto da serra dos Vilares. Já no quarto, noite cerrada, reproduzia na memória a casa toda, os mais pequenos vãos. A sala e os quartos da frente abriam-se para a varanda. Debaixo do soalho, encontraram luíses de cobre, usados depois no jogo da malha. No canto da sala, onde velaram o corpo da bisavó, estava agora o televisor. Enterraram a bisavó numa manhã de chuva. Encaixilhado na vidraça da porta da varanda, André menino ficou a ver o caixão a descer a rua no ruído do arrastar dos socos sobre os paralelepípedos de granito.
Nos baixos da casa ficava a adega, atravancada pelo bojo do tonel e a massa de castanho da salgadeira. No cair do Inverno, ali penduravam o porco, de barriga aberta e vazia, antes de baixar, já desfeito, à guarda da salgadeira. Nos baixos e no sótão viviam os fantasmas. Murmuravam no uivar do vento e no tropear dos ratos. Certas noites ouviam-se nitidamente os pés de cabra do diabo pisando os degraus de madeira que subiam da adega. Mé! Mé! A mãe ouvira diferentes vezes o e as patas de bode do diabo. Não era possível nem prudente duvidar da sua palavra. Precisava de um banho quente. O esquentador substituíra a bacia de latão e os jarros de água quente que a mãe lhes lançava pela cabeça. Esfregava-lhes com força o surro que teimava em juntar-se nos joelhos e nas orelhas.
Ensaboou-se devagar. E deu consigo a explorar a parede. Lá estava o buraco tapado com miolo de pão por onde ele e o Alfredo espreitavam no banho a mulher do secretário. Quando o corpo grande, branco e nu, emergia das águas da bacia incendiava os olhos e os sentidos. Mas agora, em vez da mulher do secretário, era o corpo nu e imaginado de Joana que lhe acendia a fogueira do corpo.
Tem juízo. Quem te mandou a ti aceitar a boleia. Gozavas as férias noutra altura.
Deitou-se, já anoite ia alta. Apesar do cansaço, o sono não chegava. Nas trevas e no silêncio, os mortos caminhavam pela casa ao encontro dos vivos. Não te esqueças de ir à missa! Vai à senhora Marquinhas pagar a letra. Deixa lá que não perdes pela demora. Tenho de tirar a Joana da cabeça. Eram vozes e cheiros. O cheiro dos enchidos nos alguidares, o cheiro do doce de abóbora na caldeira de cobre com o batalhão das crianças à espera do sinal para rapar o fundo. André levantou-se, veio ao quintal. A noite estrelada permitia distinguir o contorno das coisas. Encostou-se ao bocal do poço, ladeado pelo patamar de cimento. Ali, numa tarde de calor africano, Basílio e Alfredo esperaram Maria, a criada, que saía da retrete. De sexo em riste, as mãos apertaram até que o esper… saltou enquanto a serviçal fugia com o rosto e o alto das pernas em fogo: Vou dizer à vossa mãe!» In António Borges Coelho, Tempo de Lacraus, Editorial Caminho, Lisboa, 1999, ISBN 972-211-271-6.

Cortesia de Caminho/JDACT

Ao Rés da Terra. Poesia. António Borges Coelho. «Olha pela vidraça toma café música e a chuva que cai na praça»

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Asfalto
«[…]
«A cidade está deitada nas colinas
venho a olhá-la desde a Outra Banda
lá dentro há casas sem varanda
angustia o drama de lutas intestinas

O medo tem olhos virados em cada esquina
o desespero a cara destas ruas amarelas
com vendedores harmónica bombas de gasolina
e uma pensão Austrália escrita nas paredes amarelas

Apetece arrancar o asfalto
para apalpar a terra
Nem que estejas a mascar de fome
fala como quem come

Se te destapam a fraqueza
que morde na barriga
se te ouvem o dente
que falsamente rilha
ensaiam uma festa
poem-te uma cilha»


Café no Campo Grande
«A árvore acompanhada
o automóvel com gente
na almofada

Um homem está só

Olha pela vidraça
toma café
música e a chuva
que cai na praça

Está como um café
dentro da chávena das coisas

Rapariga alta caminhava
e pelas pernas novas
ventos ou lagartos
remoinhavam em secretas covas
baixando levantando as saias
os cabelos tirados dum ramo de maias
enquanto nas esquinas dos balcões
escarvavam rinchavam
ocultos garanhões»
Poemas de António Borges Coelho, in “Ao rés da terra

In Editorial Caminho, 2001-2002, ISBN 972-211-454-9.

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