quinta-feira, 20 de julho de 2017

Madre Paula. Patrícia Muller. «Vou mostrar-te onde te podes refrescar e trocar de roupa. O hábito que vais usar é antigo. Não temos dinheiro para um novo»

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«(…) Não sabia que recebíamos mendigas no convento, abadessa. Mariana Castilho fingiu não ter ouvido a indelicadeza de Madalena Máxima Miranda, uma monja que muito tinha pago ao entrar para Odivelas. Com um gato persa ao colo, acariciava o pêlo do bicho como se fosse o peito de um amante. Interroguei-me se tinha fugido de um casamento combinado com outro fidalgo de igual importância; se a maternidade a enojava; se a humilhação de uma traição masculina, prática comum, a aterrorizava; se a ideia das obrigações matrimoniais a repugnava. Saberia ela dançar? Gostaria do cheiro de homem? Também não entendo, abadessa. Já não basta uma irmã pobre?
Carolina Augusta era da mesma laia: birrenta, insegura e muito invejosa. Eu era demasiado escura, alta e forte, demasiado do povo, sem dinheiro ou nome, Todas me olhavam como uma aberração. A Paula vai conhecer a sua cela. A sua irmã pode levá-la. Ficarão próximas uma da outra. A Luz mantinha-se de cabeça baixa. Tão humilhada e pequena, a minha irmã mais velha. Não era assim quando morávamos juntas. Percebi exactamente o que se passava naquele convento. Fechei os punhos, preparando-me para a guerra. A minha irmã pousou suavemente a mão no meu ombro. Vamos, querida. Fiz menção de ignorar o pedido. Eu levo-te. Que se transformou numa súplica. A Luz rejeitava o confronto. Obedeci, contrariada. Fi-lo por lealdade ao sangue, no convento há anos, domesticada como o gato. Aqui as regras não são diferentes das regras lá de fora, Paula. Fidalgas são mais gente do que nós. Pensava que éramos todas monjas, iguais aos olhos de Deus. Aos olhos de Deus somos todos iguais. Aqui dentro, continuamos todas diferentes.
Quando cheguei à minha cela vi o que me esperava diante da janela sem esperança: uma cama dentro de grades, como numa capoeira, um altar carunchoso, um armário sem uma perna. Mas o que me deixou em alvoroço não foi a cela em si, foi ter passado por outras de porta aberta e ter visto o luxo que ali imperava. Veludos e madeiras, ouro e prata, espelhos e vidros. Jurei a mim mesma que um dia, custasse o que custasse, haveria de ter uma cela infinitamente mais luxuosa do que qualquer uma daquelas. E não era porque estivesse habituada ao luxo e ao conforto. Era apenas porque a ideia de inferioridade nunca me assentou.
Vou mostrar-te onde te podes refrescar e trocar de roupa. O hábito que vais usar é antigo. Não temos dinheiro para um novo. Este que estou a usar foi-me dado por... O tempo em que a Luz se deliciava com negras e homens atrás de negras, numa sensualidade rebelde, tinha passado. Tinha sido esmagado pelo convento. Éramos felizes antes. Voltei do banho, embrulhada num manto envelhecido. Entrei na cela e, de cima da cama, tinham desaparecido as roupas. Procurei por todo o lado, o manto teimava em escorregar até que, com um puxão, alguém mo retirou pelas costas. Apenas tive tempo de me virar e vislumbrar a cauda do gato ao colo de quem corria. As roupas estão no claustro da Moura, noviça. Risos vindos do corredor. Comecei a tiritar. Preparei-me para gritar. A sua irmã não a ouve. Mandámo-la para o jardim, bem longe. A voz não acompanhava uma cara, mas eu sabia a quem pertencia». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Madre Paula. Patrícia Muller. «De dentro para fora, pude avistar o claustro grande, onde algumas noviças passeavam: relva e pequenas sebes aparadas na perfeição, geometricamente erguidas, a ladear uma fonte»

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«(…) O pai sorria, esperançoso. A falta de ouro fez com que tivesse de mandar os seus tesouros mais preciosos para longe da oficina onde fabricava, ele mesmo, tesouros. Mas a minha entrada no mosteiro foi banal, mais uma menina que ia poder viver sem passar necessidades, ser educada para a fé. Tantas outras foram iguais a mim. Não há ninguém igual a mim. O cheiro a comida inebriou-me mas não me cegou. Gosto, pai. Não poderia atribuir culpas a quem não se interroga quanto aos hábitos com que foi criado. A cozinha tem uma passagem para a igreja e uma escada para as celas de cima, interrompida por diferentes portas: a que acede a um quarto com as pinturas de S. Bernardo no tecto, a que leva apenas a um espaço de arrumações e outra que desemboca na sala grande. A sala grande tem um chão em madeira clara que se estende brilhante diante dos nossos olhos, num rectângulo faustoso, Reflecte a luz das janelas de vidros da Boémia e a talha dourada do tecto. O amarelo predomina, mesmo nos gonzos e nas ferragens em ouro das portas de madeira rica trazida do Brasil. Imaginem um espaço onde o ar que se respira reluz. Os azulejos azuis parecem envergonhados por conviverem com tal intensidade de cor e magnificência.
De dentro para fora, pude avistar o claustro grande, onde algumas noviças passeavam: relva e pequenas sebes aparadas na perfeição, geometricamente erguidas, a ladear uma fonte. O claustro da Moura era igual, labiríntico, com árvores em redor, e a estátua da abadessa dona Maria Luísa Moura, envergando roupas mouriscas e um turbante na cabeça. Admirei essa abadessa do passado, que tinha ousado erigir uma estátua em sua honra, apresentando-se em trajes tão pouco católicos. Saberia o meu pai o que estava a fazer? Era difícil conceber que, profundo conhecedor do clericalismo popular, das histórias pecaminosas de freiras e padres, freiras e nobres, freiras e reis, não soubesse para onde enviava as filhas. Talvez tenha considerado que os seus ensinamentos tenham sido tão explícitos que nós não prevaricaríamos. Ou talvez tivesse desejado, na sua alma universal, que obtivéssemos dividendos do contacto social com damas de outra cultura e autoridade. Em Odivelas existiram verdadeiras amazonas, guerreiras da guerra social e do poder, que chegavam ao êxtase divino da clausura, o excesso de reza, a leitura cristã, todo o ambiente espiritual permitia que as reacções fossem excessivas em todos os campos da existência, e ao patamar máximo das tentativas de domínio e influência. Confessores, outras freiras, fidalgos, familiares, subalternos e outros tentos eram peões em lutas de poder fortíssimas, intrigas complexas e desmandos de senhoras nobres com cetim debaixo do hábito que queriam ser consideradas apesar de estarem fora do mundo. Ou porque a ideia de fora do mundo é em tudo contrária à natureza social do homem. E ainda mais da mulher. Não fomos feitas para sermos sozinhas. Somos mães. A igreja é construída em profundidade com fortes colunas a suportar um coro de monjas fúteis que em nada dignificam a condição monástica. Quando entrei, estavam a cantar e calaram-se com a minha presença. Lembro-me da sensação de desconforto que a minha mente registou, ao ser escrutinada pelas monjas que ensaiavam. E lembro-me de olhar Jesus Cristo de frente, ele na cruz, eu na cruz, e pensar que ambos tínhamos pais fracos que mostravam mal o amor que sentiam por um filho». In Patrícia Muller, Madre Paula, Edições ASA II, 2014, ISBN 978-989-232-783-9.

Cortesia de ASA/JDACT

terça-feira, 18 de julho de 2017

Assim foi Auschwitz Primo Levi. «Ao meio-dia, os deportados recebiam um litro de sopa de nabo ou couve, absolutamente insípida devido à falta de qualquer tempero…»

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«(…) O estado higiénico-sanitário do Campo parecia, à primeira vista, realmente bom: as ruas e vielas que separavam os diversos blocos, eram limpas e bem conservadas, até onde permitia o chão lamacento; o exterior dos blocos, em madeira, era bem pintado e o interior tinha os soalhos cuidadosamente varridos e lavados todas as manhãs, com os chamados castelos (beliches) de três andares em perfeita ordem, as mantas dos catres bem estendidas e alisadas. Mas tudo isto era apenas aparência, sendo a substância completamente diferente: na verdade, nos blocos, que normalmente deveriam albergar entre 150 e 170 pessoas, amontoavam-se sempre pelo menos 200, muitas vezes até 250 pessoas, e portanto em quase todas as camas dormiam duas pessoas. Nessas condições, o tamanho do dormitório era certamente inferior ao mínimo exigido pelas necessidades de respiração e hematose. Os catres eram providos de uma espécie de saco grande, mais ou menos cheio com serragem de madeira, reduzida quase a pó pelo uso prolongado, e dois cobertores. Os cobertores, além de nunca serem trocados nem submetidos, a não ser muito raramente e por motivos excepcionais, a qualquer desinfecção, estavam, na maior parte dos casos, em péssimo estado de conservação: gastos pelo uso prolongado, rasgados, cobertos de todo o tipo de manchas. Só os catres mais à vista eram providos de cobertores mais decentes, quase limpos, e às vezes até bonitos: eram os catres dos andares inferiores e mais próximos da porta de entrada.
Naturalmente, essas camas eram reservadas para os pequenos líderes do Campo: capatazes e seus assistentes, ajudantes do chefe de bloco, ou simplesmente amigos de uns ou de outros. Assim se explica a impressão de limpeza, ordem e higiene que a pessoa tinha ao entrar num dormitório pela primeira vez e deitando um olhar superficial ao seu interior. Nas armações dos beliches, nas vigas de sustentação, nas tábuas dos catres, viviam milhares de percevejos e pulgas que impediam os prisioneiros de dormir à noite; nem sequer as desinfecções dos dormitórios com vapores de ácido nitrídrico, efectuadas de três em três meses ou de quatro em quatro, eram suficientes para destruir esses hóspedes que continuavam a vegetar e a multiplicar-se quase imperturbáveis.
Os piolhos, pelo contrário, eram combatidos a fundo, a fim de prevenir o surgimento de uma epidemia de tifo petequial: todas as noites, após regressar do trabalho, e com maior rigor nas tardes de sábado (dedicadas, entre outras coisas, a rapar o cabelo; a barba e por vezes também outros pêlos), praticava-se o chamado controlo dos piolhos. Cada prisioneiro tinha de se despir e submeter as suas roupas ao exame minucioso dos encarregados dessa função; se fosse encontrado um único piolho na camisa de um deportado, todas as roupas de todos os ocupantes do dormitório eram imediatamente enviadas para desinfecção e os homens eram submetidos a duches, depois de serem esfregados com lisol. Assim, tinham de passar a noite inteira nus, até às primeiras horas da manhã, quando as suas roupas voltavam do barracão de desinfecção, impregnadas de humidade.
No entanto, não se tomava qualquer outra providência para a profilaxia das doenças contagiosas, que eram frequentes: tifo e escarlatina, difteria e varicela, sarampo, erisipela etc., sem contar com as inúmeras infecções cutâneas contagiosas, como as epidermofitoses, os impetigos, as sarnas. É de facto surpreendente que, tendo em conta tanta negligência em relação às normas higiénicas de pessoas que viviam numa promiscuidade tão grande, nunca tenham surgido epidemias de rápida difusão. Uma das maiores possibilidades de transmissão de doenças infecciosas consistia no facto de uma razoável percentagem de prisioneiros não dispôr de gamela ou de colher, de modo que três ou quatro pessoas eram obrigadas a comer sucessivamente no mesmo recipiente ou com o mesmo talher, sem poder lavá-lo.
A alimentação, de quantidade insuficiente, era de má qualidade. Consistia em três refeições: de manhã, logo depois de acordar, eram distribuídos 350 gramas de pão quatro vezes por semana e 700 gramas três vezes por semana, portanto, uma média diária de 500 gramas, quantidade que seria razoável se o próprio pão não trouxesse incontestavelmente uma grande quantidade de escórias, entre as quais, de forma muito visível, serragem de madeira; além disso, ainda de manhã, davam-nos 25 gramas de margarina com uns vinte gramas de salame ou uma colherada de doce ou ricota. A margarina era distribuída só seis dias por semana; mais tarde, essa distribuição reduzir-se-ia para três dias. Ao meio-dia, os deportados recebiam um litro de sopa de nabo ou couve, absolutamente insípida devido à falta de qualquer tempero, e à noite, no final do trabalho, outro litro de sopa um pouco mais consistente, com algumas batatas ou, por vezes, ervilhas e grão-de-bico; mas esta também totalmente desprovida de componentes gordurosos». In Primo Levi, Assim foi Auschwitz, 2015, Penguin Randon House Grupo Editorial, Objectiva, 2015, ISBN 978-989-877-569-6.

Cortesia de Objectiva/JDACT

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «A leitura que Ibn Qasi e os almóadas faziam do Corão impunha normas duras e opressivas só compreensíveis para gente oriunda dos desertos africanos, inculta e bruta»

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As Princesas de Córdova. Silves, 1145
«Quase todos os acontecimentos relevantes passados durante este novo ano não foram presenciados por mim. Para os relatar, queridos filhos e netos, recorro às narrativas que me fizeram a minha cunhada Chamoa, Mem e também a princesa Zaida. São as descrições deles que aqui reproduzo, para que possais perceber o quanto os nossos sucessos militares, obtidos em Portugal nos anos seguintes, foram uma consequência directa da forma brutal e vertiginosa como a Andaluzia muçulmana se destruiu a si própria. Sentada na varanda do seu quarto, no palácio de Silves, Zaida constatou que os preparativos para a guerra tinham uma única virtude: haviam afrouxado a vigilância do marido. Desde que Mem a salvara dos assassins que Ibn Qasi ficara em alarido por temer pela vida dela e de Maryam, mas também por invejar o estatuto de salvador da princesa que o almocreve alcançara. Mais de ano e meio passara e Qasi não esquecera o que vira: Mem junto à cama dela, sentinela única em defesa de Zaida. Receoso, proibira-a de aproximar-se do pombal e de passear sozinha.
Em parte, Zaida compreendia, os feddayins tinham tentado eliminá-los. Mas não se tratava só disso. Ibn Qasi mudara, a ambição transformara-o, a religião exigira-lhe novas regras, o domínio da mulher era uma imposição dos almóadas de Marrocos, que não aceitavam que uma esposa se desse a terceiros. Na Córdova antiga e gloriosa, onde a sua mãe, Zulmira, crescera, as mulheres tinham direito aos mesmos prazeres do que os homens. A fidelidade não era exigida, nem a uns nem a outros; as brincadeiras com homens ou mulheres eram consideradas saudáveis e até necessárias, para que a trepidação carnal não baralhasse o espírito. Um casamento era apenas uma união legal, a formação de uma família, a transmissão de riquezas e propriedades. Não ficava em causa por se rebolar com alguém numa cama! Por isso, os homens tinham haréns e as mulheres dos sultões se banhavam com serviçais negros nas piscinas, como no início do belo e antigo livro das Mil e Uma Noites.
A leitura que Ibn Qasi e os almóadas faziam do Corão impunha normas duras e opressivas só compreensíveis para gente oriunda dos desertos africanos, inculta e bruta. Mas eles tinham poder, tanto poder! E, Ibn Qasi estava a segui-los cegamente, até a bela cidade de Silves já se ressentia. Os poetas fugiam e as mulheres já usavam véu, escondiam a cara e diziam que sim a tudo o que os maridos impunham. Mas o aproximar da guerra libertara um pouco a pressão em que Zaida vivera nos últimos tempos. A agitação das tropas e o planeamento das operações haviam distraído Ibn Qasi, que diminuíra a vigilância apertada imposta à princesa. Por isso, lhe chegou aquele pombo, com a mensagem de Afonso Henriques, onde este avisava que um padre, Mem e Chamoa haviam sido levados por Ismar para Córdova, onde já se encontravam também Abu Zhakaria, governador de Santarém, e Fátima, a sua irmã! A voz da mãe ecoava-lhe nos ouvidos, enquanto observava a pequena Maryam a brincar com as bonecas. Iria a filha ouvi-la também, um dia que ela morresse? Zaida não sabia, ninguém conseguia entrar na mente de outra pessoa, o pensamento e a dor eram impossíveis de partilhar». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

domingo, 16 de julho de 2017

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Desta vez, a cidade cairá e os infiéis serão vencidos!, exclamou o abade, que muitos já consideravam um santo. Nas suas palavras, descobri igualmente forte admiração por Afonso Henriques»

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«(…) Contudo, mal vi pela primeira vez a princesa da Sabóia, tive pena do meu melhor amigo. Que injustas eram as leis do mundo! Chamoa era uma beldade, um mulher entusiasmante e inimitável, mas aquela rapariga de dezanove anos jamais chegaria perto dela. Mafalda da Sabóia não era nem bonita, nem simpática. Baixa e feia, de olhar zangado e tenso, transpirava irritação e contrariedade, sendo absolutamente óbvio que abominava a ideia de deixar a sua terra para casar com um príncipe distante e reinar sobre gente que considerava inferior. Nem por uma vez nos sorriu, mirando-nos com desprezo, e recusou mesmo estar presente na ceia que Amadeu de Maurienne nos ofereceu, demonstrando uma consideração e uma amabilidade que a filha não herdara. Cristão e descendente de famílias nobres, Amadeu era parente de importantes figuras da Cristandade, onde se contavam um papa já falecido, Calisto II; o imperador romano-germânico, Henrique IV, de quem era vassalo; e o rei de França, Luís VII, de quem era tio por via do casamento.
A sua filha Mafalda era, portanto, sobrinha de um dos mais poderosos reis da Europa e prestava vassalagem ao único imperador que a Cristandade aceitava como legítimo, laços que permitiriam a Afonso Henriques autonomizar-se em definitivo de seu primo direito Afonso VII. Aquela seria, pois, uma união de máxima importância para o nosso rei. Porém, ao contemplar Mafalda da Sabóia uma última vez, quando nos despedimos, tive a certeza de que seria difícil o meu melhor amigo apaixonar-se por uma mulher tão desapontada com o seu destino, em cujo rosto e corpo não se viam dádivas que pudessem incendiar os desejos de um príncipe que dormia com a lindíssima Chamoa e com a estrondosa normanda, Elvira Gualter. Certamente pressentindo as minhas angústias, meu pai tentou dissolvê-las quando me disse, já a caminho de Cluny:
julgais que é a primeira que casa contrariada? As rainhas só têm de ser pacientes, deixar os reis tomá-las e dar-lhes filhos.
Era essa também a opinião de Bernardo de Claraval, que visitámos, dias depois, na Abadia de Cluny. O famoso religioso, principal responsável pela formação da Ordem do Templo e grande entusiasta das cruzadas, ficou muito agradado por saber que Afonso Henriques ia finalmente desposar Mafalda da Sabóia. Sereno e simpático, com o aspecto de um avô carinhoso, Bernardo de Claraval surpreendia, no entanto, pela vertiginosa velocidade dos raciocínios e pela impetuosidade feroz das vontades. A luta contra os infiéis era o centro da sua vida e pregava há vários anos a favor de novos contingentes serem lançados a caminho de Jerusalém, para garantir a conquista da cidade onde Cristo morrera. A1ém disso, defendia que aquela imensa guerra não se travava apenas na distante Terra Santa, mas também no nosso território. Embora sem estabelecer prazos, Bernardo de Claraval garantiu-nos que em breve uma nova vaga de cruzados, saída do Norte da Europa, poderia ajudar-nos a tomar Lisboa em definitivo, tirando desforra do acontecido dois anos antes.
Desta vez, a cidade cairá e os infiéis serão vencidos!, exclamou o abade, que muitos já consideravam um santo. Nas suas palavras, descobri igualmente forte admiração por Afonso Henriques, que julgava grande rei e valoroso guerreiro, mas não por Afonso VII, que o patrono dos templários desaprovava por encontrar nele semelhanças desagradáveis com sua mãe, dona Urraca, como a propensão para a mentira e o excesso de ambição. Para o emérito abade de Cluny, só uma qualidade distinguia o imperador da Hispânia da sua progenitora: a perícia guerreira. Ao contrário da mãe, está cada vez mais forte, uniu a Hispânia e em breve conquistará Córdova e Sevilha e chegará ao mar! A destreza nas batalhas fazia de Afonso VII um monarca cristão respeitável, mas era necessário não o deixar ir longe de mais. Embora não tivesse conseguido subjugar Afonso Henriques, o santo abade avisou-nos de que o imperador continuaria a tentar minar o primo direito de outras formas. Os portucalenses deviam tomar atenção redobrada às suas manigâncias extremas e sujos estratagemas». ». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Aquelas espantosas e velhas pedras iá haviam visto muito, tanta vileza humana ali despontara ou perecera, e eu preocupado com a rocambolesca intriga de Compostela!»

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O Massacre dos Templários. Roma, 1144
«Naquele novo ano, para azar de Chamoa, os papas mudaram ao ritmo das estações do ano. Celestino II, eleito no Outono, não durou sequer até ao final do Inverno. Se, em Dezembro anterior, a publicação da sua bula Clavis Regni nos dera novo alento, o papa prometera reconhecer Afonso Henriques como rei, em troca do recebimento anual de quatro onças de ouro, em Março a sua morte súbita desanimou-nos. A embirração que o desaparecido pontífice devotava à casa da Sabóia não era partilhada pelo sucessor, Lúcio II, que logo exigiu a renovação das negociações para o matrimónio com Mafalda da Sabóia, obrigando o arcebispo de Braga, João Peculiar, a apresentar-se em Roma para receber instruções. Apesar de incomodado com mais uma súbita mudança, Afonso Henriques sabia que a diplomacia religiosa se mantinha essencial. Nesses dias, meus queridos filhos e netos, o reino de Portugal era ainda uma entidade embrionária e tornava-se absolutamente imperativo convencer o novo papa da sua viabilidade e legitimidade. Por isso, a Roma não foi apenas o arcebispo Peculiar, mas também meu pai, o mordomo do novo reino.
Dias antes de partir, Egas Moniz desafiou-me a acompanhá-lo, coisa que minha mulher, Maria Gomes, apoiou, mas que Chamoa obviamente não aprovou. Desapontada, nem sequer veio despedir-se e segui para Roma com um sentimento misto. Por um lado, estava entusiasmado com a minha primeira grande viagem, ia conhecer a cidade onde morrera São Pedro e também viajar até Dijon e Cluny, pois meu pai desejava visitar o abade Bernardo de Claraval, um dos mais eminentes religiosos da Cristandade e patrono dos templários. Por outro lado, sentia alguma inquietação. Já imaginando de novo um futuro desagradável onde nunca seria rainha, Chamoa poderia espalhar a intriga de Compostela, aproveitando o vácuo deixado pela partida de Egas Moniz, única testemunha viva da cabala.
Temendo tal risco, pedi a Pêro Pais que convencesse a mãe a nada dizer sobre assunto tão delicado. Melhor seria que Chamoa esperasse pelo meu regresso, pois era incerto o resultado final daquelas negociações matrimoniais, que tantos avanços e recuos já tinham sofrido. Parti descansado, prometeu-me Pêro Pais. Confiei naquele rapaz, que já era um homem aos dezassete anos, e embarquei, em Montemor, num barco que subiu até Compostela, dobrou o cabo Finisterra e rumou à Vascónia, onde desembarcámos. Daí, seguimos a cavalo até Barcelona e nessa bela cidade tomámos nova embarcação, que nos fez chegar a Roma em poucos dias. Devo dizer que a cidade papal me causou forte impressão. Não tanto pelas múltiplas igrejas, mas sobretudo pelos vestígios imponentes da civilização romana que ainda existiam. No dia em que João Peculiar e meu pai foram recebidos pelo papa, na Igreja de São Pedro, visitei o Coliseu de Roma e foi junto a esse monumento gigante que senti a pequenez da minha vida e das malícias humanas que me consumiam.
Aquelas espantosas e velhas pedras iá haviam visto muito, tanta vileza humana ali despontara ou perecera, e eu preocupado com a rocambolesca intriga de Compostela! Que interessavam as acusações torpes dos nossos inimigos, que duravam desde os tempos da malfadada dona Urraca? A ideia de que Afonso Henriques podia ter sido trocado era uma enorme canalhice, meu pai e minha mãe tinham sido extremamente dedicados ao menino desde cedo, só mentes diabólicas podiam acreditar em tal patranha! Meu pai sempre fora um homem de princípios, era impensável que tivesse patrocinado uma intrujice tão requintada, e foi com esse pensamento solidificado dentro do meu coração que regressei para junto dele. No dia seguinte, partimos em direcção a Sabóia. O papa Lúcio II fora claro como água: era essencial Afonso Henriques desposar Mafalda e as negociações teriam de ser rápidas. Só assim pode aspirar a ser rei, confirmou meu pai». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

sábado, 15 de julho de 2017

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Não consegui pensar em nada que não parecesse acusação. Desculpa, Griet, gostaria de ter feito melhor por ti»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quando a minha mãe voltou, eu estava sentada, usando a máquina de legumes. Aguardei que ela falasse. Ela estava com os ombros encolhidos como se enfrentasse um frio de Inverno, embora fosse Verão e a cozinha estivesse quente. Amanhã começas como criada deles. Se for bem, vais receber oito tostões por dia. Vais morar lá. Apertei os lábios. Não me olhes assim, Griet. Temos de fazer isso, agora que o teu pai perdeu o ofício. Onde eles moram? Na Oude Langendijck com a Molenpoort. Na Esquina dos Papistas? São católicos? Podes vir para casa aos domingos. Eles concordaram. Minha mãe juntou os nabos com um pouco de repolho e cebola e jogou tudo na panela com água, no fogo. Acabaram-se as fatias de torta que eu havia arrumado com tanto cuidado. Subi a escada para ver o meu pai, sentado à janela da frente do sótão, com o sol batendo no seu rosto. A luz era o máximo que ele podia enxergar. O pai tinha sido pintor de azulejos, os seus dedos ainda estavam manchados de azul, de pintar cupidos, donzelas, soldados, navios, crianças, peixes, flores, animais em azulejos brancos, vitrificando-os, secando-os no forno e vendendo-os. Um dia, o forno explodiu e lá se foram os olhos e o ofício. Teve sorte: dois homens morreram. Sentei-me ao seu lado e segurei a mão dele. Ouvi, ouvi tudo, disse ele, antes que eu falasse. A audição tinha substituído a visão que lhe faltava.
Não consegui pensar em nada que não parecesse acusação. Desculpa, Griet, gostaria de ter feito melhor por ti. O lugar onde ficavam os seus olhos, onde o doutor havia costurado a pele, parecia triste. Mas ele é um bom cavalheiro e educado. Vai cuidar bem de ti. O pai não disse nada sobre a mulher. Como pode ter a certeza, pai? O senhor conhece-o? Não sabe quem ele é? Não. Lembras-te do quadro que vimos na prefeitura, alguns anos atrás, que van Ruijven estava expondo depois que o comprou? Uma paisagem de Delft, dos portões de Roterdão e Schiedam, com o céu, que tomava grande parte do quadro e a luz do sol batendo em algumas construções. A tinta tinha areia para que tijolos e tectos parecessem ásperos, acrescentei. E havia longas sombras na água e pessoas pequenas na praia mais próximas de nós. Esse mesmo. As órbitas do pai se esticaram como se ainda tivessem olhos e vissem o quadro outra vez. Lembrava-me bem, eu estivera várias vezes naquele lugar e nunca vira Delft como o pintor.
Aquele homem era van Ruijven? O mecenas? Não, não, filha. É o pintor Vermeer. Johannes Vermeer e a esposa. Você vai trabalhar como criada no atelièr dele. Minha mãe colocou mais uma touca, uma gola e um avental nas poucas coisas que eu estava levando, de modo que todo dia eu pudesse lavar um e usar o outro, e estar sempre limpa. Ela me deu também um pente de tartaruga para enfeitar o cabelo, em forma de concha, que tinha sido de minha avó, muito fino para uma criada usar, e um livro de orações que poderia ler quando precisasse fugir do catolicismo à minha volta. Enquanto juntávamos as minhas coisas, ela explicou por que eu precisava trabalhar com os Vermeer. Sabias que o teu novo patrão é chefe da guilda de São Lucas desde que seu pai sofreu o acidente, no ano passado? Concordei, ainda assustada por ter de trabalhar com tal artista.
A guilda funciona do jeito que dá. Lembras-te daquela caixa onde o teu pai depositou dinheiro todas as semanas, durante anos? Esse dinheiro vai para mestres necessitados, como nós estamos. Mas é pouco, principalmente agora que Frans está como aprendiz e não recebe nada. Não temos outra saída. Não queremos caridade pública, pelo menos nos esforçaremos para não aceitar. O seu pai soube que o seu novo patrão estava precisando de uma criada para limpar o atelièr sem tirar nada do lugar e então sugeriu o teu nome, achando que, como chefe da guilda e sabendo da nossa situação, Vermeer tentaria ajudar. Pensei em tudo que ela havia dito e perguntei: como se limpa um lugar sem tirar nada?» In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

Cortesia de BertrandB/JDACT

Moça com Brinco de Pérola. Tracy Chevalier. «Toda a nossa família, até meu pai e meu irmão, tinha baixa estatura. A mulher parecia ter sido soprada pelo vento, embora estivesse um dia sereno»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Minha mãe não me contou que eles estavam vindo. Depois, disse que não queria que eu parecesse nervosa. Fiquei surpresa, porque achava que ela me conhecia bem. Estranhos poderiam pensar que eu estava calma. Não chorei como um bebé. Só a minha mãe notaria o meu maxilar duro, os meus olhos grandes mais arregalados. Cortava legumes na cozinha quando ouvi vozes na porta da frente de nossa casa: uma voz feminina e radiante como latão polido, e a de um homem, grave e sombria como a madeira da mesa onde eu estava a trabalhar. Eram vozes que raramente ouvíamos em nossa casa. Havia nelas ricas alcatifas, livros, pérolas e peles. Fiquei contente por ter esfregado tanto os degraus da frente. A voz de minha mãe, uma caçarola, uma jarra, veio da sala da frente. Eles se encaminhavam para a cozinha. Afastei os alhos-pôros que estava cortando, coloquei a faca na mesa, limpei as mãos no avental e apertei os lábios para acalmá-los. Minha mãe surgiu na porta da cozinha, os olhos eram dois avisos. Atrás dela, a mulher teve de abaixar a cabeça por ser bem alta, mais do que o homem que a seguia.
Toda a nossa família, até meu pai e meu irmão, tinha baixa estatura. A mulher parecia ter sido soprada pelo vento, embora estivesse um dia sereno. A sua touca estava torta. Por isso, pequenos cachos louros apareciam e caíam na testa dela como abelhas que ela precisou afastar várias vezes, impaciente. A gola estava frouxa e não tão engomada como deveria. Ela empurrou o manto cinza para trás dos ombros e vi então que sob o vestido azul escuro crescia um bebê. Chegaria lá pelo final do ano, ou antes. O rosto da mulher era como uma terrina oval, às vezes vivo, outras sem graça. Os olhos eram dois luminosos botões castanhos, cor que raramente vi combinando com cabelos louros. Ela fez que me ia examinar com atenção, mas não conseguiu. Seus olhos percorreram a cozinha. Então, é esta a moça, concluiu ela, de repente. É minha filha, Griet, acrescentou minha mãe. Fiz um gesto respeitoso para o casal, concordando, bom, não é muito grande, será que vai ter força? Quando a mulher se virou para falar com o homem, a ponta do manto que vestia bateu no cabo da faca que eu estava usando, fazendo-a cair e girar no chão. A mulher soltou um grito.
Catharina, chamou o homem, tranquilo. Pronunciou o nome dela como se tivesse canela na boca. A mulher fez um esforço para se acalmar. Peguei a faca, limpei a lâmina no meu avental e tornei a colocá-la na mesa. A faca havia esbarrado nos legumes. Recoloquei um pedaço de cenoura no lugar. O homem olhava-me, os seus olhos cinzentos como o mar. Tinha um rosto comprido, anguloso, de expressão firme, em comparação com a da esposa, que tremulava como a chama de uma vela. Não usava barba nem bigode, e gostei, porque isso lhe dava uma aparência limpa. Tinha um capote negro nos ombros, camisa branca e uma linda gola de renda. O chapéu apertava os cabelos que eram ruivos da cor de tijolo lavado pela chuva. O que estava fazendo, Griet?, perguntou ele. Fiquei espantada, mas sabia como disfarçar. Estava cortando legumes, senhor. Para a sopa. Eu sempre colocava os legumes num círculo, cada um numa parte, como fatias de torta. Havia cinco fatias: repolho roxo, cebola, alho-pôro, cenoura e nabo. Usei a ponta de uma faca para fazer cada fatia e coloquei uma rodela de cenoura no centro. O homem tamborilou os dedos na mesa.
Estão na ordem em que vão ser colocados na sopa?, perguntou, examinando o círculo. Não, senhor. Fiquei constrangida. Não conseguia dizer por que tinha arrumado os legumes daquele jeito. Achei que deviam ficar assim, mas estava muito assustada para dizer isso para um cavalheiro. Vejo que separou os brancos, disse ele, indicando os nabos e cebolas. Depois, o laranja e o roxo não estão juntos: por quê? Pegou uma tira de repolho e uma rodela de cenoura e misturou-os como dados na mão. Olhei para a minha mãe, que concordou discretamente, num gesto de cabeça. As cores brigam quando ficam lado a lado, senhor. Ele franziu o cenho, como se não esperasse aquela resposta. E gasta muito tempo arrumando os legumes antes de fazer a sopa? Ah, não, senhor, respondi, confusa. Não queria que ele pensasse que eu era preguiçosa.
Com o canto do olho, vi um movimento. Minha irmã Agnes estava olhando da porta e balançou a cabeça por causa da minha resposta. Eu não costumava mentir. Olhei para baixo. O homem virou um pouco a cabeça e Agnes sumiu na porta. Ele colocou a cenoura e o repolho nas tiras correspondentes. A tira de repolho invadiu o espaço das cebolas. Tive vontade de colocá-la no lugar. Eu não sabia, mas ele sabia que eu queria fazer isso. Estava testando-me. Chega de conversa, decidiu a mulher. Não estava gostando da atenção que ele me dava, mas foi para mim que olhou, séria. Amanhã, então? Olhou para o homem antes de sair da cozinha, seguida por minha mãe. O homem deu mais uma olhada no que seria a sopa, despediu-se com um gesto de cabeça e acompanhou a mulher». In Tracy Chevalier, Moça com Brinco de Pérola, 1999, Bertrand Brasil, 2002, ISBN 978-852-860-957-8.

Cortesia de BertrandB/JDACT

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Contudo e para seu azar, as coisas foram de mal a pior. Nesse mês de Agosto, o legado do papa, o cardeal Guido Vico, deslocou-se a Coimbra para preparar o encontro de Zamora»

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A Paz de Zamora. Coimbra 1143
«(…) Deu meia-volta, saindo sem fazer barulho, mas nunca mais foi a mesma. Algo se estilhaçou dentro dela. Para sempre. O peito doeu-lhe violentamente e passou o resto da noite a chorar. Quando Afonso Henriques regressou à cama, já o dia nascia, fez de conta que estava a dormir. Ele era rei, podia fazer o que quisesse. Mas a lealdade cega que lhe tinha perdeu-se. Pela primeira vez em muitos anos, imaginou uma vingança, uma retribuição dolorosa. A partir dessa hora triste, à vontade secreta de retaliação Chamoa juntou, como ingredientes num cozinhado, um instinto de sobrevivência apurado e uma manha submersa, escondida em sorrisos forçados. Não fez cenas disparatadas, nem partiu para Tui, onde teria de aturar a sua insuportável mãe. O pai, conde de Toronho, estava com a cabeça a prémio e, além disso, Fernando Afonso e Pedro Afonso eram seus filhos. Permaneceria junto a Afonso Henriques, para que não se esquecessem deles.
Contudo e para seu azar, as coisas foram de mal a pior. Nesse mês de Agosto, o legado do papa, o cardeal Guido Vico, deslocou-se a Coimbra para preparar o encontro de Zamora, onde Afonso Henriques iria avistar-se com o imperador. Este reconheceria como rei de Portugal o seu primo, mas obrigava-o também a uma permanente vassalagem nos territórios da Baixa Galiza. Além disso, e como o príncipe portucalense não conquistara Lisboa nem se apoderara da relíquia da Terra Santa, para satisfazer o papa teria mesmo de casar com uma princesa da Sabóia. Não tendes alternativa, afirmou nesse dia meu pai, Egas Moniz. E o papa necessita de fundos, recordou João Peculiar.
Guido Vico acrescentou que Inocêncio II tinha de contribuir para a defesa de Jerusalém. Quatro onças de ouro seriam bem-vindas, afirmou o cardeal, com o topete próprio dos poderosos. Todos os anos... Um rumor indignado percorreu a nave central da Sé de Coimbra e meu pai afirmou que casar o príncipe saía bem mais barato! Então e pela primeira vez, Afonso Henriques admitiu a solução. Secundarizar Chamoa era-lhe custoso, mas, sem outras opções, rendeu-se: Egas Moniz, falai com a casa da Sabóia.
Um murmúrio entusiasmado percorreu a assistência, enquanto o príncipe de Portugal me olhava, amargurado com a terrível empreitada que tinha pela frente: explicar à sua amada que nunca seria rainha de Portugal. Podeis falar com e1a, Lourenço Viegas?, pediu-me, atrapalhado». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «A casa onde vivia Elvira Gualter não era longe, três esquinas, quatro ruelas e encontrou-se à porta. Nenhuma luz, nenhuma voz, nenhum soldado»

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A Paz de Zamora. Coimbra 1143
«A lealdade férrea de uma mulher resiste a quase tudo: às derrotas, às conspirações dos conselheiros e às más vontades do seu amado. Só não resiste à presença de uma rival. Há anos que Chamoa suportava as intrigas da corte, os projectos de casamento de Afonso Henriques com uma princesa estrangeira, os amuos e as frustrações do seu príncipe. A quase tudo reagira bem e até a querela que provocara em Lisboa fora ultrapassada. Valia a pena, Afonso Henriques amava-a e vencera as provações com ânimo, mesmo numa época de abatimento.
Chamoa acabara a sexta gravidez esgotada de mais uma gestação. Embora já tivessem passado seis meses sobre o nascimento de Pedro Afonso, seu segundo filho de Afonso Henriques, a recuperação da saúde fora lenta. Por isso, mandara vir da Maia uma antiga criada do seu primeiro marido, dona Justa, mulher seca de carnes, mas muito carinhosa com as crianças, que já cuidara dos seus outros filhos. A experiente cinquentenária permitiu-lhe tempo livre, que usou para se recompor. No entanto, não era mulher plena, não desejava o prazer. Afonso Henriques possuiu-a duas vezes, mas o bom entendimento carnal parecia congelado.
O príncipe de Portugal aceitou a fragilidade dela, mas, em finais de Julho, uma novidade perturbou-a. Elvira Gualter, mãe das duas primeiras filhas de Afonso Henriques, fora outra vez chamada por este a Coimbra, alegadamente porque desejava que as meninas convivessem com Fernando Afonso, quase com três anos, e com o recém-nascido Pedro Afonso. Saber da chegada da outra fez nascer na alma de Chamoa uma vertigem desconfiada. Os homens são tolos, pensam que enganam as mulheres, mas elas tudo pressentem. Carregada de dúvidas, a minha cunhada tentou vigiá-lo, mas adormecia vencida pelo cansaço, acordando alarmada na alta noite, sem ele ao lado na cama. Por onde andava? Sempre que o questionava, Afonso Henriques era vago: fora caçar, comer, falar com os soldados. Pareciam verdades, mas também falsidades, como se ele fizesse tudo isso e mais alguma coisa.
Quando certa noite acordou, não o vendo entre as mantas e as almocelas, decidiu procurá-lo. Era Verão, bastou-lhe cobrir-se com um manto leve e desceu para o piso inferior. Aflita, não o encontrou nos quartos onde dormiam os filhos, junto a dona Justa. Quando lhe confessou os receios, ela apenas lhe disse: ide dormir, os homens são como são. A minha cunhada fechou a porta do aposento a arder por dentro, como se um diabo malicioso lhe tivesse ampliado os terrores. A ama já no passado lhe dissera coisa igual, a propósito de Paio Soares. Mas ela não amava o primeiro marido, esse casamento fora-lhe imposto e a infidelidade dele não a fizera sofrer. Afonso Henriques não a podia trair, não depois do que ela abdicara! Enervada, saiu para o pátio e caminhou pela almedina. Estava urna noite quente, o luar de Agosto dava-lhe no rosto e sentia-se impelida por uma força superior, que já decidira o rumo dos pés.
A casa onde vivia Elvira Gualter não era longe, três esquinas, quatro ruelas e encontrou-se à porta. Nenhuma luz, nenhuma voz, nenhum soldado. Forçou a porta e entrou, de coração apertado. Conhecia bem aquela toca, era uma habitação propensa às tropelias. Uns anos antes, ela mesmo havia sido descoberta ali, deitada com Mem e Zarda, provocando uma forte desilusão no homem que agora procurava. Por isso, hesitou, à porta. As duas filhas de Afonso Henriques e de Elvira Gualter dormiam no chão da sala, deitadas em esteiras. Eram bonitas, altas e loiras como a mãe. Engoliu em seco e por instantes quis voltar para trás e esquecer. Mas não foi capaz e avançou. Ouviu gemidos no quarto e o coração bateu-lhe mais depressa. Aproximou-se da porta entreaberta, espreitou e viu dois corpos enormes, nus e abraçados. A normanda era muito alta e Afonso Henriques, um gigante, possuía-a com um fervor silencioso». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Quando Mem reentrou nos portões da muralha, nascia já uma revolta generalizada contra esses vagos inimigos que queriam acabar com a boa vida»

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O Assassin de Lisboa 1142-1143
«(…) Quem se destaca, os rivais ataca. Mem sentiu o alerta e, num dia de mais lucidez e menos pinga, abandonou Lisboa e partiu para Alcácer, onde se deteve algumas semanas. Contudo, mal regressou a Lisboa, Mem notou de imediato que a irrequieta irresponsabilidade que caracterizava a cidade fora substituída por um manto de receio, um coágulo de medo que paralisava a excitação do costume. Mulheres e homens já não se sentiam imunes e a ausência de soldados, antes tão gabada como condição essencial para a celebração livre do sexo, passou a ser vista como um perigoso vazio onde uma nova ordem nascia. Em ruas com medo, mata-se em segredo. Lisboa tinha a sua dose de bandidos, salteadores e ladrões, mas a selvajaria era pontual, motivada por minúsculos dramas ou praticada por recém-chegados mal habituados à vadiagem intrínseca dos indígenas. De repente, a povoação sofreu um solavanco alarmante, pois apareceu muita gente morta em plena rua. Primeiro, finara-se uma soldadeira anafada, depois, um mancebo jeitoso demasiado dado aos homens, de seguida, encontrara-se o cadáver de um artífice e certa noite haviam sido descobertos, junto ao porto, dois marinheiros de peito rasgado.
A princípio, não se desconfiara de qualquer ligação entre as inesperadas ocorrências, mas aos poucos, como estas se propagavam, foram notados pontos comuns. Os que morriam ou eram cristãos, pois havia-os também muitos em Lisboa, ou moçárabes convertidos à força, que mantinham em segredo as práticas antigas. E todos morriam da mesma forma, com um golpe de uma lâmina afiada, que lhes perfurava o peito junto ao coração. Feridas iguais, óbvios rituais. A população mais receosa ficou quando certos indivíduos descarados justificaram a mortandade com a devassidão de Lisboa. Surgira um grupo de vigilantes moralistas, determinado a pôr fim ao caos desbragado, mas ninguém percebia quem podia apresentar-se com tais ambições, pois a cultura lisboeta há anos que promovia os pecados carnais.
Quando Mem reentrou nos portões da muralha, nascia já uma revolta generalizada contra esses vagos inimigos que queriam acabar com a boa vida. Muitos queixavam-se ao wali da cidade, um velho ainda nomeado pelo califa de Marraquexe, que já nada mandava, pois nem soldados tinha; ou ao alcaide, um corrupto espertalhão, que não mostrava qualquer vontade de impor regras, pois era na desordem que prosperava. Perante a matança, morre a confiança. Inquietos, os moçárabes dirigiram-se ao bispo local, mas este também pouco podia, não tinha nem tropas nem aliados muçulmanos entre as famílias mais nobres, que se borrifavam para o bem-estar da comunidade convertida. Os protestos nada produziram, a não ser o crescimento da vaga de mortes. Vendo que a abúlica cidade não reagia, mais assassínios se cometeram e certa noite foram vistos vários homens, de manto vermelho e capuz da mesma cor, liderados por um mascarado, com a cara coberta por trapos e que carregava uma lança. Os denominados Mantos Vermelhos atacavam em matilha, paralisando as vítimas até que o chefe se aproximasse e espetasse uma lança no coração dos pobres coitados.
Perante tal manifestação horrorosa, a balbúrdia geral da cidade diminuiu fortemente de intensidade e, ainda decidido a esquecer Zaida com exageros físicos, Mem viu-se confrontado com a impossibilidade de os praticar. Desapontado, preparava-se para partir outra vez, talvez rumando a Évora, quando certa noite se cruzou com três irmãs moçárabes, numa situação de risco de vida. Um pouco à frente delas, Mem viu surgir dois Mantos Vermelhos, altos e tenebrosos, que as ameaçaram de morte. O almocreve nem hesitou e disparou logo duas flechas, matando um deles e ferindo com gravidade o outro. Ajoelhando junto ao moribundo, Mem ficou a saber que os Mantos Vermelhos viviam perto da povoação de Almada, na margem oposta do Tejo, sendo liderados por um tal Orimar, talvez normando, talvez bretão». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.


Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Homem sem tino, torna-se libertino. Quando partiu para Lisboa, Mem já era um fantasma ambulante e por isso sentiu-se em casa por lá»

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O Assassin de Lisboa 1142-1143
«Depois de deixar Zaida, o almocreve Mem regressou ao seu antigo labor, comerciando entre Alcácer, Évora e Beja. O novo território de trocas foi escolhido por várias razões, sendo que a primeira era estar mais perto de Silves, sabendo dessa forma notícias sobre Zaida. Além disso, evitava Santarém, onde Abu Zhakaria, o governador da cidade, e Fátima, esposa dele e irmã de Zaida, o hostilizariam. Talentoso e de palavra, bastaram alguns meses para Mem ressuscitar a fama de hábil fornecedor, fiável nos negócios. Durante as curtas estadas nas povoações, onde trocava frutas, carnes, peixe, tecidos e peles, ia coleccionando clientes, ao mesmo tempo que encantava corações femininos com o seu charme, minorando o desencanto causado por Zaida. Meninas aos molhos, apagam vossos olhos. Mem atravessou assim o Outono e o Inverno, mas quando no ar se sentiu o cheiro da Primavera de um novo ano, sofreu um profundo abalo. Certo dia, em Beja, um almoxarife contou-lhe que Ibn Qasi ia ser pai, a princesa Zaida estava grávida! Foi como se lhe tivessem espetado uma faca no peito e sentiu desabarem as esperanças.
Embora cumprisse o pedido de Zaida, fizera-o convencido de que um dia ela o chamaria de volta. Mas não, seguiam caminhos separados, a princesa cruzara o sangue real com o de Ibn Qasi, ia dar-lhe descendência, tornando-se não só a esposa de um dos mais célebres chefes da Andaluzia, mas também o ventre onde se gerava um futuro herdeiro ou herdeira do sufi e de uma Benu Ummeya. Marido emir, esposa a florir. Naqueles dias, Ibn Qasi ascendera a principal adversário do príncipe Ismar, rei de Córdova. Férreo na doutrina, o sufi acusava o outro de ser um usurpador do trono cordovês e os seus fiéis espalhavam pela Andaluzia que seria ele, e não Ismar, o futuro líder do vasto espaço mouro que ainda resistia aos cristãos. Não foi, contudo, a aura política de Ibn Qasi que desequilibrou Mem, mas sim a consciência dolorosa da sua irrelevância como amigo de Zaida. Ela estava grávida, o que atirou o almocreve para um abismo de abatimento.
Homem sem tino, torna-se libertino. Quando partiu para Lisboa, Mem já era um fantasma ambulante e por isso sentiu-se em casa por lá. Aquela cidade onde se fornicava nas ruas e nos logradouros, foi a concha em que se perdeu. Ao longo da vida, Mem nunca fora de usar em excesso a bebida, aplicando-a apenas para evaporar a relutância das mulheres mais tímidas. Porém, naqueles dias usou em si o poder irresistível dos espirituosos líquidos. O abuso deles minorava-lhe a dor, transportando-o para um limbo de anestesia sentimental, que lhe bloqueava a memória e lhe permitia o apagamento da ética do galanteador, substituindo-as pela selvajaria do macho descontrolado e incontinente que ele nunca fora. Amante de vinho, jamais fica sozinho.
Bêbado quase sempre, Mem começou a dar-se às práticas ímpias. Se uma soldadeira descarada lhe enviava um piropo, agarrava-se a ela com sofreguidão, como se o convívio breve com aquele corpo quente o libertasse da tristeza. Fornicava então, como os outros, num beco escuro de Alfama ou nas traseiras de uma loja da almedina. Homem perdido, tudo fo… Noite após noite, enrolava-se com raparigas famintas, que ficavam encantadas por lhe abrirem as pernas, pois ele era muito bonito e sentiam-se com sorte, acostumadas a homens rudes, porcos e feios. Para surpresa delas, Mem ainda as brindava com um enorme atributo íntimo. Mulher entusiasmada, gritaria exagerada. Em poucos meses, Mem ficou famoso entre a confraria das disponíveis. É claro que, perante tal frenesim, os homens agitaram-se e Mem passou a ser mirado com inveja e depois apontado a dedo, como um perturbador dos equilíbrios naturais daquela urbe pecaminosa». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «O desdenhoso arcebispo insistira: ainda por cima, meu pai e minha mãe Dordia haviam-me tido a mim, Lourenço Viegas, apenas meses antes do nascimento do príncipe de Portugal»

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A intriga de Compostela 1140-1142
«(…) Ao longo da vida escutara esta descrição e ainda recordo, tinha eu talvez seis anos, ouvir meu pai jurar: Lourenço Viegas, foi um milagre que curou Afonso Henriques! Só quando a intriga de Compostela me chegou aos ouvidos percebi que esta crença inabalável da minha família não era partilhada pelos mais fortes opositores do Condado Portucalense. Segundo contou o arcebispo Gelmires no seu leito de morte, já na época houvera quem desconfiasse de marosca. Como podia um menino aleijado ter sido curado? Um enfezado transformara-se, como era no presente, num gigante? Perante um boquiaberto Afonso VII, o malicioso Gelmires cuspira uma dúvida sinistra: não terão trocado o menino por outro? Como sempre acontece com as ideias que parecem estapafúrdias, no início Afonso VII terá desprezado tal tolice. Mas, pouco a pouco, os viscosos argumentos do arcebispo de Compostela foram fazendo o seu caminho. A criança acabou entregue à nossa família com poucos meses, enquanto o conde Henrique andara a viajar ou a combater, voltando a Astorga, para morrer, tinha Afonso Henriques apenas três anos. E dona Teresa, era sabido, não dava especial atenção ao filho, via-o uma ou duas vezes por ano e nunca demonstrara grande afecto por ele. Seria porque também ela desconfiava de que o menino não saíra das suas entranhas?
O desdenhoso arcebispo insistira: ainda por cima, meu pai e minha mãe Dordia haviam-me tido a mim, Lourenço Viegas, apenas meses antes do nascimento do príncipe de Portugal. Era ou não possível que, em algum momento inicial da vida do petiz, meu pai me tivesse trocado pelo verdadeiro Afonso Henriques? Quando o arcebispo Gelmires terminou a prosa, esgotado e sem fôlego, o espírito do imperador já fervilhava, contaminado pela desconfiança épica que o outro fizera nascer e entusiasmado com o potencial tenebroso da refinada intriga. Contudo, para um homem sagaz e inteligente como Afonso VII, era por demais evidente que seria difícil, trinta anos depois, provar a veracidade da suposta fraude. O conde Henrique e dona Teresa tinham morrido há muito, tal como minha mãe, Dordia Viegas. Depois do falecimento de meu tio Ermígio, uns anos antes, o único que poderia confirmar tão complexo estratagema era Egas Moniz, mas o imperador de Leão tinha a certeza de que jamais o mordomo-mor do Condado Portucalense iria trair o seu amado príncipe!
Porém, a verdade era-lhe irrelevante, bastava a mera suspeita, uma espécie de veneno verbal. Política impura. O potencial fabuloso da lenda estava em lançar a história contra Afonso Henriques, para o diminuir e enfraquecer, minando a sua autenticidade aos olhos de portucalenses, aliados e inimigos. O que acharia o papa Inocêncio II desta possibilidade escandalosa? Que reacção teriam os templários impulsionados por Bernardo de Claraval, abade de Cluny e Cister, sempre prontos a apoiarem Afonso Henriques? O que diriam dele os muçulmanos como Ismar, Abu Zhakaria ou as princesas de Córdova? E os portucalenses gostariam de saber que, em Ourique, tinham aclamado rei um usurpador? Se a intriga de Compostela fosse expandida pela Cristandade, a boa estrela de Afonso Henriques seria manchada por uma escura nódoa». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Trinta anos antes, um menino nascera, mas os seus pais haviam ficado pasmados quando lhe viram as pernas atrofiadas. O mocinho era aleijadinho…»

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A intriga de Compostela 1140-1142
«A mais vil e miserável intriga lançada sobre o meu melhor amigo, Afonso Henriques, ressuscitou, naquela tarde, no interior de uma Catedral de Compostela a tresandar a incenso, quando o seu primo direito e imperador de toda a Hispânia, Afonso VII, a lançou como arma de arremesso contra o príncipe de Portugal. Coberto por uma dalmática escarlate, digno e vaidoso como sempre, com a coroa imperial que herdara do seu avô Afonso VI pousada no topo da cabeça, o rei dos Cinco Reinos, Leão, Castela, Galiza, Navarra e Aragão, decidiu transformar um mexerico obscuro, remetido há trinta anos aos baús do esquecimento, num argumento político que visava enfraquecer, ou até eliminar, a justa pretensão de Afonso Henriques a reinar em Portugal. São assim os poderosos, destroem por capricho.
Apesar de ter sido derrotado, em Cerneja, pelos portucalenses, três anos antes, e de, em Tui, ter prometido ao primo reconhecê-lo rei de Portugal, Afonso VII pressentiu naquela rocambolesca história um poder sombrio e desatou a contá-la pelos quatros cantos da Península. É certo que Afonso Henriques não tinha cumprido as exigências do imperador, a que se comprometera nos acordos de Tui. Não havia ainda conquistado Santarém e Lisboa, perdera a relíquia da Terra Santa, que devia ter entregue ao papa, e também se recusara a ir a Toledo, no Verão, prestar vassalagem ao primo direito. No entanto, podia contrapor que vencera trinta mil muçulmanos na batalha de Ourique, onde desbaratara uma coligação de cinco reis mouros, e humilhara o líder destes e aspirante a califa, o príncipe Ismar, de Córdova, auxiliando de forma indirecta Afonso VII, que assim conquistou uma das praças fortes da Andaluzía, Colmenar de Oreja.
Os incómodos entre os dois primos podiam ser facilmente resolvidos com uma conversa diplomática, não sendo, portanto, necessária qualquer nova confrontação bélica e muito menos uma exibição de astúcia tão suja e maligna do filho da já falecida rainha Urraca. Quando, anos mais tarde, tudo se esclareceu, concluí que Afonso VII, que abominava a sua mãe por a considerar malévola, inconstante e desconfiada, afinal tinha a quem sair, pois usou armas semelhantes às da progenitora. Para nascer, Portugal teve de lutar contra inimigos poderosos, que nos atingiam com duros golpes. Foi o arcebispo de Compostela, Diogo Gelmires, a alma danada que pousou a taça do veneno nas mãos do imperador de Leão, ao contar-lhe aquela vergonhosa infâmia. Diz-se que o imperador ficou espantado ao escutá-lo. Tudo acontecera trinta anos antes e nunca a irrequieta mãe, dona Urraca, lhe mencionara alguma vez essa possibilidade. Mas uma intriga poderosa faz aos espíritos o mesmo que a resina dos pinheiros às mãos: cola-se a elas e é muito difícil de limpar. Principalmente quando a falácia pode ser usada com proveito próprio.
Naqueles tempos, Afonso VII nutria um certo fascínio pelo primo direito, mais novo e mais alto. Afonso Henriques era um valoroso combatente, um cristão enérgico envolto numa aura épica, abençoado pela Providência e capaz de feitos extraordinários. Porém, ao mesmo tempo que o admirava e reconhecia alguma legitimidade às suas pretensões, o imperador receava o príncipe de Portugal e invejava-o. Tinha ciúmes dele e do seu sucesso, e temia que aquela força da natureza, aquele gigante intrépido e corajoso, se transformasse no único adversário peninsular que lhe podia disputar o império. O conhecimento daquela lenda esdrúxula foi, pois, um bálsamo inesperado, que Afonso VII aproveitou como uma arma subtil, mas eficaz, para minar de forma subterrânea a honra do seu primo. Se existissem dúvidas sólidas sobre a identidade de Afonso Henriques, todo o seu crescente poder se desmoronaria... Afinal, era ele quem dizia ser? Era mesmo filho do conde Henrique e de dona Teresa de Portugal? O arcebispo Gelmires, prestes a expirar, fora um convincente narrador, desfiando pormenores mal esclarecidos.
Trinta anos antes, um menino nascera, mas os seus pais haviam ficado pasmados quando lhe viram as pernas atrofiadas. O mocinho era aleijadinho e Teresa e Henrique entristeceram. Talvez por isso, mas também porque era o costume da época, entregaram o recém-nascido à família dos Moniz de Ribadouro, que teria de o criar e educar. E foi isso que estes fizeram, com doçura e carinho, persistência e dedicação extrema. Meu pai, Egas Moniz, e minha mãe, Dordia Viegas, trataram do petiz definhado com tal empenho que aos três anos o menino já corria. Minha mãe jurava a todos, e meu pai secundava, que aquilo acontecera por vontade celeste de Nossa Senhora! Haviam sido as benditas águas do ribeiro de Cárquere a salvar o enfermo, razão pela qual meu pai mandara edificar no local uma igreja, junto ao mosteiro que ali existia e onde eram recebidas muitas outras crianças, doentes ou rejeitadas». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.


Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Assim foi Auschwitz. Primo Levi. «As repetidas desinfecções deterioravam os tecidos, acabando com a sua resistência. Todo este material resultava das roupas de pior qualidade retiradas aos passageiros dos vários comboios»

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«(…) Assim que chegou ao Campo, o grupo de 95 homens foi levado para o pavilhão de desinfecção, onde todos foram prontamente despidos e, depois, submetidos a uma completa e cuidadosa depilação: cabelos, barbas e tudo o resto caíram rapidamente sob tesouras, navalhas e máquinas. A seguir, os homens foram colocados na sala dos chuveiros e ali ficaram trancados até à manhã seguinte. Cansados, famintos, com sede e sono, atónitos com o que tinham visto e inquietos pelo seu destino imediato, mas, acima de tudo, inquietos pela sorte dos entes queridos de quem tinham sido brusca e brutalmente separados poucas horas antes, com o espírito atormentado por obscuros e trágicos pressentimentos, eles tiveram de passar a noite inteira em pé, com os pés na água que pingava das tubagens e corria pelo chão. Finalmente, por volta das 6 horas da manhã seguinte, foram submetidos a uma fricção geral com uma solução de lisol e depois a um duche quente; de seguida, foram-lhes entregues os uniformes do Campo e, para os vestir, foram conduzidos a outra sala, na qual tiveram de entrar pelo lado de fora do pavilhão, saindo nus para a neve, com o corpo ainda molhado do duche recente.
O uniforme dos prisioneiros de Monowitz durante o Inverno era composto por um casaco, um par de calças, um boné e um sobretudo de pano às riscas; uma camisa, um par de cuecas de algodão, um par de meias; um pulôver; um par de sapatos com sola de madeira. Muitas meias e muitas cuecas tinham sido visivelmente feitas a partir de alguns thaled, o manto sagrado com o qual os Judeus se costumam cobrir durante as orações, encontrados nas malas de alguns deportados e utilizados para aquela finalidade em sinal de desprezo. Mal chegava o mês de Abril, quando o frio, embora mais brando, ainda não desaparecera, as roupas de pano grosso e os pulôveres eram retirados, e as calças e o casaco eram substituídos por peças análogas de algodão, também às riscas; só em finais de Outubro voltavam a ser distribuídas roupas de Inverno.
No entanto, isso não aconteceu no Outono de 44, porque as roupas e os casacos de pano grosso tinham chegado ao limite extremo de uso, de forma que os prisioneiros tiveram de enfrentar o Inverno de 44-45 vestindo algodão, como nos meses de Verão; só uma pequena minoria recebeu uma leve gabardina impermeável ou um pulôver. Era rigorosamente proibido possuir mudas de roupa ou de peças íntimas, de forma que era quase impossível lavar camisas ou cuecas: essas peças eram trocadas, de acordo com as autoridades, a cada 30-40-50 dias, segundo a disponibilidade e sem possibilidade de escolha; as peças não vinham lavadas, eram apenas desinfectadas a vapor, pois não havia lavandaria no Campo. Em geral, eram cuecas curtas de algodão e camisas, sempre de pano, frequentemente sem mangas, sempre de aspecto repugnante devido a todo o tipo de manchas, com frequência reduzidas a farrapos; nalgumas ocasiões, em vez disso, recebia-se a camisa ou as calças de um pijama ou mesmo alguma peça de roupa feminina.
As repetidas desinfecções deterioravam os tecidos, acabando com a sua resistência. Todo este material resultava das roupas de pior qualidade retiradas aos passageiros dos vários comboios que, corno se sabe, chegavam continuamente ao Centro de, Auschwitz provenientes de todas as partes da Europa. Eram distribuídos sobretudos, casacos e calças, tanto de Verão como de Inverno, em péssimas condições, cheios de remendos e impregnados de sujidade (barro, graxa, tinta). Os prisioneiros tinham de tratar pessoalmente de os arranjar sem receberem linhas ou agulhas para isso. Era extremamente difícil conseguir trocá-los, o que só acontecia quando qualquer tentativa de arranjo fosse de todo impossível. As meias nunca eram trocadas, e a sua recuperação ficava entregue à iniciativa de cada um. Era proibido possuir lenços de assoar ou qualquer outro pedaço de tecido.
Os sapatos eram feitos numa oficina própria que existia no Campo; as solas de madeira eram pregadas em chapas de couro ou de couro sintético ou de pano emborrachado provenientes do calçado de pior qualidade retirado dos comboios que chegavam. Quando estavam em bom estado, constituíam uma defesa razoável contra o frio e a humidade, mas eram absolutamente inadequados para as caminhadas, mesmo curtas, e causavam escoriações na sola dos pés. Podia considerar-se afortunado aquele que tivesse sapatos emparelhados e do tamanho adequado. Quando se estragavam, eram consertados infinitas vezes, para além de qualquer limite razoável, de forma que era raríssimo ver calçado novo, e aquele que normalmente era distribuído não durava mais de uma semana. Não eram distribuídos atacadores, cada qual os substituía como podia por pedaços de papel retorcido ou por fio eléctrico, quando era possível encontrar algum». In Primo Levi, Assim foi Auschwitz, 2015, Penguin Randon House Grupo Editorial, Objectiva, 2015, ISBN 978-989-877-569-6.


Cortesia de Objectiva/JDACT

terça-feira, 11 de julho de 2017

Deslumbrante. Madeline Hunter. «Ele parecia determinado e irritado. Duvidava de que aquele interesse persistente pelo Dominó beneficiasse a sua própria causa»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Lord Sebastian fechou a porta para afastar os retardatários que persistiam em espiar perto da ombreira da porta. Em seguida aproximou-se do fogo e examinou mais atentamente o ferimento. Porque ficou tão preta?, perguntou Audrianna. Pólvora quente. A bala só me tocou de raspão, mas fiquei bem chamuscado. Voltou-se para ela. O seu nome. Preciso dele agora, e não pense em mentir. O juiz de paz o arrancará de você com certeza, e nem pense que vou continuar sem saber o que se passa aqui. Ela estava assustada e consternada demais para mentir. Sou Audrianna Kelmsleigh, filha de Horatio Kelmsleigh. Ele ficou perplexo. Vi uma mensagem no jornal de alguém que se autointitulava Dominó e parecia ser para o meu pai, explicou ela. Eu vim, para ver se o homem tinha informação que pudesse limpar o seu nome. Tudo aquilo havia parecido tão certo, tão necessário, no dia anterior. Porque está aqui? Também vi o anúncio, e também tive esperança de falar com o tal Dominó. Porquê? Meu pai está morto. O mundo seguiu em frente.
Acho que há algo mais nessa história. Não vejo como poderia obter informações do Dominó fingindo ser o próprio Dominó. A minha intenção era fingir ser o Kelmsleigh. Quando você presumiu que eu era Dominó, decidi entrar no jogo e descobrir quem era aquela mulher inesperada, e que papel desempenharia no esquema geral. Esquema geral? Então alguém abriu a porta. Uma criada trouxe uma bacia e um balde de água. Colocou alguns panos limpos sobre a cama. Um cavalheiro pediu-me que trouxesse também esta camisa, explicou, colocando-a de lado. Deu uma boa olhadela a Audrianna e saiu apressada. Lord Sebastian pôs o balde perto do fogo. Sentou-se na cama, despiu o colete e depois tirou a camisa rasgada. Fez uma careta de dor quando o tecido roçou na ferida.
Audrianna piscou os olhos repetidamente, espantada mais uma vez. Aquele homem não tinha nada que o cobrisse. Estava ali sentado, preocupado com o ferimento, sem roupa, meio nu na verdade. Não parecia achar nada estranho que ela estivesse sentada ali mesmo ao lado dele. Nunca vira um homem sem camisa. Tentou fingir uma indiferença espontânea, mas não pôde evitar reparar que, se uma mulher tinha de ver um homem meio nu pela primeira vez na vida, lord Sebastian não era um mau começo. Já não era rapaz, mas ainda possuía a firmeza ágil da juventude, que não interferia nos músculos que definiam o peitoral. Vou precisar dessa cadeira, miss Kelmsleigh. Se não se importar. Ela soltou-a num salto. Ele agarrou o móvel pelo encosto, posicionou-o à frente da lareira e sentou-se. Com a água quente e sabão, começou a limpar o corte que tinha no braço.
Supunha que aquilo devia doer, mas ele não mostrava reacção alguma. Talvez não estivesse tão indiferente à sua presença como parecia. Vou lá para baixo enquanto você... Dei a minha palavra de que não sairia deste quarto. Além disso, lá em baixo somente desprezo, senão pior. Ficará aqui até o magistrado chegar e decidiremos o que lhe dizer. Ela aproximou-se, hesitante. A parte de trás do braço escapara em muito aos cuidados dele. – Deixe que o ajude, então. Passe o pano. Ele deu-o a ela. Ela limpou o pó preto. Agora via melhor o corte. Não era profundo, mas tinha uma queimadura feia de uns dois centímetros à volta. Duvidava de que um cirurgião pudesse ter feito mais do que limpá-la como eles faziam. Conseguiu vê-lo bem?, perguntou ele. O Dominó? Acha que era ele? Tenho a certeza. Deve ter-me ouvido pedir indicações para o quarto e achou que o Kelmsleigh estava aqui. Viu o rosto dele? O reconheceria? Tentou resgatar a memória. Abrandar a explosão da acção. Vislumbrara o rosto do intruso por baixo da aba larga do chapéu, banhado pela luz da lareira quando se aproximou deles. Recordou o choque dele, primeiro ao ver que ela estava lá, bloqueada pelo corpo de lord Sebastian, depois ao ver a pistola na mão dele. Sim, acredito que conseguiria reconhecê-lo. Acha que ele ainda está aqui? Ele acaba de atirar num homem. A esta altura, já está bem longe da estalagem. No entanto, é bom, um de nós ter conseguido vê-lo bem. Pode vir a ser útil.
Ele parecia determinado e irritado. Duvidava de que aquele interesse persistente pelo Dominó beneficiasse a sua própria causa. Continuava limpando, enquanto ele olhava o fogo com um ar obstinado. Depois voltou-se para ela com o cenho franzido. Não devia ter vindo a este lugar. O que tinha na cabeça? Que mais ninguém se importava com a verdade e, por isso, eu mesma tinha que tratar disso. Criou complicações e distracções desnecessárias. Não acredito que um homem da sua envergadura seja escravo de alguma distracção. Nem tenho a ilusão de ser o tipo de mulher que faz um homem se esquecer de si mesmo. Mas lembro a você que qualquer distracção que tenha resultado neste ferimento foi por sua própria culpa. Os olhos dele incendiaram-se com a acusação dela, mas as chamas acalmaram com bastante rapidez. O rosto permaneceu com uma expressão severa, mas não voltou a culpá-la tão descaradamente». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT