sábado, 19 de maio de 2018

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «Livre de obrigações, a presença agora aceite pelos guardas, exploro o caminho ao longo da Carrer dos Condes, rente à parede dos cómodos onde se aloja gente nobre de Montpellier e Maiorca»

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«(…) Uma porta entreaberta é uma voz que chama para um tempo novo. O que terá esta, para além do fausto que antecipa? Um perfil de princesa em passadas curtas ilumina, de quando em quando, o meu ângulo de visão, fazendo e refazendo a distância entre as gelosias e a parede oposta. Deve ser ela a neta de Jaime I de Aragão e Catalunha, filha de dona Constança de Hoenstaufen. Não parece tão loira como o trigo a ondular nos campos de Zaragoza, conforme se dizia em Penedès, mas o cabelo é claro, quase dourado nas madeixas da frente, ainda caídas de cada lado do rosto. Desliza ainda pela câmara de cabeça no chão, a ensaiar o compasso que daí a pouco marcará o ritmo do cortejo. Aliada ao nome suporta já uma aura de santidade, arrastada pelos feitos da tia avó da Turíngia, abrindo caminho no coração ingénuo da crença popular. Anseio que volte, instantes depois de a saber por detrás das janelas, a vigiar o movimento da praça. E à falta de largo campo, vejo-a como nos meus sonhos, prolongados neste fim de corredor.
De repente sobressalta-me a voz que tantas vezes me ordenou sossego, e me obrigou a rabiscar o pergaminho, a voz de minha tia Soledad. Devia estar nas arrumações do fato da infanta. Com certeza já de posse do recado do moço de estrebaria, porque informa dona Isabel que precisa fazer uma ausência curta, para tratar de um assunto urgente. E já no umbral da porta sossega a noiva: mas não vos enfadeis, senhora dona Isabel, num pronto chegarei; se prometes não demorar... Só tenho tempo de correr pelas escadas e anichar-me no vão da primeira fresta, como um santo de pedra. De pouco adianta. Como se vasculhasse um objecto por ela mesma guardado, o braço de minha tia alcança-me o exacto ponto da orelha a jeito, e obriga-me a olhá-la de pescoço torcido: ousado, como sempre. Estou a ver que seguiste Juan; ele pediu que viesse... ia negar? Ah foi? Mas não foi aguisado que subisses, pois não? Trata de esgueirar-te à minha frente, não quero ser responsável pela intromissão.
Posso agora confessar que Soledad, a menor de todos, minha mãe, a do meio, já falecida, meus tios Ángel e Juan, os gémeos mais velhos, são filhos do pecado de uma monja de Santa Liestra com um nobre trovador da Catalunha. O pecado maior seria de minha avó, escondida para sempre de olhos indiscretos num reino de silêncio. Ao nobre ficava bem exibir o fruto do apetite carnal de uma abadessa, que não lhe resistira. Ainda ouço minha tia pedir a uma criada menor que suba ligeira, para fazer companhia a dona Isabel, enquanto as damas se arranjam. Isto já depois de atravessarmos de novo o Salão do Trono, sem passar despercebidos. Há um cavaleiro fardado de modo estranho, que me lança um olhar surpreendido, depois um sorriso afectuoso. E uns passos adiante desço as escadas do átrio até ao exterior, não muito depois de minha tia. O rapaz esfrega o último cavalo. Juan parece menos agitado, já a cochichar com a irmã na parede da catedral, no lado contrário, mesmo por debaixo de uma das torres. Aí deve sentir-se a salvo de ouvidos indiscretos.
Livre de obrigações, a presença agora aceite pelos guardas, exploro o caminho ao longo da Carrer dos Condes, rente à parede dos cómodos onde se aloja gente nobre de Montpellier e Maiorca. Passo ao lado da porta do jardim de acesso ao scriptorium, entrada cómoda para o interior do paço quando não há guardas façanhudos. Furo a barreira de cavaleiros por entre duas bestas. Contorno sem medo o braço saliente do edifício pela perpendicular de Santa Clara, para entrar na Plaça del Palau, com muita gente concentrada. Mas ao fundo das escadas quatro escudeiros vigiam a ousadia de intrusos, ainda que esteja cerrada a entrada nobre do paço». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel, Saída de Emergência, 2008, ISBN 978-989-637-034-3.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Princesa Traída por Pedro e Inês. Isabel Machado. «Constança olhou em redor, com a sensação de destino cumprido e a certeza de que não regressaria àquele cativeiro de desonra e dor»

 
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Constança
Castelo de Toro, Castela
«(…) Para onde me levais, meu pai?, quis saber, afastando a atenção da jóia. Saberás em breve. Nenhuma informação será ouvida neste lugar. Os meus domínios são vastos. A filha sorriu timidamente. Só o rei castelhano estava à altura de pedir meças territoriais ao grande senhor que se transformara no seu maior inimigo. Uma das damas chegou-se à porta com uma almofada de veludo onde pousava um diadema em forma de coroa encimado por rubis e safiras, um presente do rei da época dos esponsais. Depois da vénia, lançou, provocadora: o que deverei fazer com a jóia, senhora? Essa coroa nunca me serviu. Senti-a sempre demasiado pequena, respondeu Constança prontamente. Um brilho de orgulho perpassou pelo olhar vivo do infante Juan Manuel. A melancolia da filha não amordaçava a altivez que herdara da sua estirpe. Ser-lhe-ia útil aquela têmpera. As montadas já deverão estar prontas. Ordenei que lhes dessem água e curto descanso, anunciou o fidalgo castelhano, desejoso de se ver dali para fora, não fosse a trégua de Afonso XI expirar subitamente, a boa vontade do rei poderia ter sido apenas um estratagema para o apanhar dentro do Castelo de Toro... Devemos partir, a jornada será longa.
Constança olhou em redor, com a sensação de destino cumprido e a certeza de que não regressaria àquele cativeiro de desonra e dor. Até a mãe lhe morrera, afundada no vexame da única filha, sem ter podido dar-lhe um beijo de despedida. Mas agora era tempo de olhar o futuro. As damas continuavam de olhos no solo, numa inversão de papéis. Endireitou o corpo, pronta para sair. Aceitou a capa de lã com que Violante lhe cobriu o corpo e abandonou a câmara em silêncio, sem olhar para trás.
Saíram sem sobressaltos. Os caminhos empoeirados não tapavam a grandiosidade da escolta, com dezenas de guardas e cavaleiros e o estandarte dos Manuel bem visível, para vincar o regresso a casa da descendente do homem que Afonso XI destratara. Como se cada momento dos dias de viagem entre Toro e o Castelo de Peñafiel, na meseta castelhana, se destinasse a provar que o neto de Fernando III de Castela e filho do infante Manuel não era alguém arredado dos grandes assuntos de Estado castelhanos. O poder precisava de ser visível e aquela viagem tinha uma leitura, independentemente da felicidade de um pai que resgatara a filha das garras do agressor. A algazarra ritmada e intimidante dos cascos dos cavalos sobre a terra fazia parar as gentes na borda dos caminhos. Os homens libertavam a cabeça de gorros e capuzes, as mulheres juntavam as mãos sobre o peito ou apertavam os aventais numa mudez de admiração, os petizes corriam atrás do pó deixado pelos últimos cavalos da comitiva». In Isabel Machado, Constança, A Princesa Traída por Pedro e Inês, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6.
                                                                                                                   
Cortesia de EdosLivros/JDACT

sexta-feira, 18 de maio de 2018

O Vaticano contra Cristo. I Millenari. «Mas lá se deslocaram os papas. Que Igreja via correctamente e que Igreja se enganava, então? O vértice ou a base?»

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Erros da cúpula da Igreja
«(…) Nos primórdios do século que agora termina (século XX), a Virgem Mãe de Deus proferia em Fátima, com grande sofrimento do Papa, impotente, palavras duras sobre o comportamento dos dignitários de topo da Igreja: bispos contra bispos e cardeais contra cardeais. Fazia entender àquelas três crianças analfabetas que a Igreja seria sujeita a violência a partir de dentro, como prostituta honrada, por parte de prelados em escala da para o poder através de conjuras urdidas na corte. Tenta-se esconder o fundamento da acusação, embora o prazo da revelação da mensagem profética já tenha passado. Enquanto a humanidade desliza, uma avalanche de lama e de podridão invade o sinédrio e espalha-se. Poderá a criatura contrariar a ordem do Criador silenciando-o? Na verdade, durante as aparições de Fátima, o patriarca de Lisboa, António Mendes Belo, várias vezes manifestou à opinião pública a sua clara oposição ao que estava a acontecer, chegando a proibir aos seus padres a sua deslocação a Fátima em peregrinação. Mas lá se deslocaram os papas. Que Igreja via correctamente e que Igreja se enganava, então? O vértice ou a base?
Um caso bastante estranho é o do padre Pio de Pietrelcina, que durante cinquenta anos foi simultaneamente considerado um santo taumaturgo pelos fiéis cada vez mais numerosos que a ele acorriam e um mistificador perigoso e corruptor dos costumes, pelo Santo Oficio (maldito). Basta recordar aqui a infamante acusação do dito dicastério que, por diversas vezes, intimou a rodos, mas em especial aos clérigos, a não se aproximar do padre Pio, religioso a evitar pela sua santidade impostora, visionária e milagreira. Por essa razão, aquele pouco santo oficio tomou a estranha iniciativa, jamais repetida nem antes nem depois, de trocar o director espiritual do padre Pio, interditando o religioso de se confessar por escrito, a partir daí (2 de Junho de 1922). Não satisfeita, a mesma suprema congregação, em 31 de Maio de 1923, promulgou um decreto contra o dito Padre, no qual declarava nada constar acerca da sobrenaturalidade dos factos, no respeitante ao fenómeno místico da estigmatização, decreto devidamente publicado no Osservatore Romano de 5 de Julho seguinte, para conhecimento de toda a Igreja. Mas que Igreja, responda, se souber, se enganava: a do vértice que proibia ou a da base que o venerava, se dirigia a ele e contrariava as directivas do vértice? A declaração foi retomada no fascículo Analecta Cappuccinorum através do qual o padre Pio soube da notícia, que lhe dizia respeito, ao abri-lo logo na página exacta, o que o entristeceu e fez chorar.
Para fazer cessar o escândalo, o mesmo dicastério, não satisfeito com a imposição da pena da suspensão sem prazo de celebrar a missa em público (de 1931 a 1933), projectava também a transferência secreta do padre Pio para a Itália Setentrional ou mesmo para Espanha. Atenuadas as condenações, foram, depois, retomadas com maior veemência em 1960, quando aquele religioso, já com73 anos, foi novamente considerado como pessoa imoral, invocando-se relações sexuais com algumas das suas penitentes, segundo constava de bobinas viciadas de um gravador colocado por um padre no confessionário do padre Pio por incumbência do visitador apostólico, que se atribuía, como se vê, poderes que nem o papa podia conferir-lhe». In I Millenari, Via col vento in Vaticano, Kaos Edizioni, 1999, O Vaticano contra Cristo, tradução de José A. Neto, Religiões, Casa das Letras, 2005, ISBN 972-46-1170-1.

Cortesia Casa das Letras/JDACT

quinta-feira, 17 de maio de 2018

A Verdadeira História. Margaret George. «Quem é ele?, perguntou Quezia. Aquele é o filho mais velho, Jesus, respondeu o rapaz que mostrara a família. É o preferido de José. Por quê? É bom carpinteiro?»

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Olá. Após intervenção cirúrgica, estou de volta!

A Mulher que Amou Jesus
«(…) O que é que está olhando?, perguntou Quezia. Então, riu-se e deu-lhe a mão. Vamos lá, vamos continuar a exploração. Encontraram-se com outro grupo que parecia comedido. Quando ouviram que vinha de Nazaré, riram. Não temos de nos preocupar, disse Sara. Ninguém presta atenção aos nazarenos. Eles não contam. Por quê? Não contam, em que sentido?, perguntou Maria. Segurava a sua nova amiga, Quezia, bem próximo a si, como se tivesse encontrado um tesouro perto da estrada e não o largasse. É um vilarejo de gente pobre, disse Sara. Até surpreende como conseguiram juntar um grupo para viajar a Jerusalém. Mas têm uma porção de camelos, disse Maria. E ela achava que pessoas que têm camelos deveriam ser mais interessantes que as que têm jumentos, pois os camelos têm mais personalidade que os jumentos. É verdade, disse Quezia. Vamos lá, vamos tentar juntar-nos ao grupo e aí poderemos saber como é que são.
Com cuidado, foram se aproximando, pouco a pouco, até se juntarem a uma família que caminhava bem devagar. Tentaram começar uma conversa, perguntando sobre Nazaré. Mas as pessoas respondiam com frases curtas, secas. Não temos muitos forasteiros em Nazaré, disseram. Nazaré era uma cidade tranquila. Boa para criar uma família, foi o que disseram. Como não há muito o que fazer, talvez por isso as crianças não se metem em encrencas, disse uma senhora mais velha. Como aquela família ali. Apontou um grupo de pessoas que caminhavam juntas, com duas crianças pequenas sentadas no jumento. Aquele pessoal. José e a sua família. Maria olhou para ver de quem a mulher falava. Um homem ainda jovem, simpático, caminhava na frente, seguido, presumia-se, por sua mulher e várias outras pessoas, com o jumento com as crianças no fim da fila. É carpinteiro, disse um jovem. Não faz a viagem todos os anos, mas com bastante frequência. Tinha um irmão em Cafarnaum cujos filhos ficaram rebeldes e se juntaram àquelas insurreições. Suponho que José queira evitar esse tipo de problemas. Logo atrás de José e da sua mulher, caminhava um jovem, alto, resoluto, quase um homem, mas ainda bem jovem, de cabelo espesso e escuro que parecia ruivo à luz do sol de meio-dia. A seu lado, caminhava outro rapaz e em seguida um bando de outros.
Nesse momento, o jovem voltou-se para olhar Maria e as suas amigas. Tinha olhos escuros e profundos. Quem é ele?, perguntou Quezia. Aquele é o filho mais velho, Jesus, respondeu o rapaz que mostrara a família. É o preferido de José. Por quê? É bom carpinteiro? O rapaz encolheu de ombros. Não sei. Deve ser, senão José não teria orgulho dele. Mas todos os adultos gostam dele. E as pessoas da idade dele? Bom, nós gostamos dele, mas ele é muito... sério. Mas ele gosta de brincar e é um bom amigo. Mas..., riu-se, gosta muito de ler e tenta guardar segredo disso. Talvez por gostar tanto de ler e estudar, quando todos nós achamos tão maçante. Dizem que ele até sabe ler grego. Aprendeu sozinho. Isso é impossível, disse uma moça alta. Ninguém aprende grego sozinho. Bom, talvez o tenham ajudado, mas ele estudou sozinho. E em segredo. Tenho a certeza de que isso não era segredo para os amigos mais próximos dele, disse a moça, com desdém. Maria e as amigas decidiram conhecer de perto aquela família intrigante. Não foi difícil aproximar-se e juntar-se a eles. José, o patriarca, conduzia o grupo, batendo, a cada passada, com o cajado no chão. Maria notou que o cajado tinha uma bela talha e, no castão, tinha esculpida uma tâmara: um toque de artista.Que lindo cajado, disse Quezia, aproximando-se. José olhou para elas e sorriu. Gostou? Fui eu que fiz a talha, mas foi Jesus, este moço aqui, que esculpiu a tâmara». In Margaret George, A Paixão de Maria Madalena, 2002, Saída de Emergência, Edições Fio de Navalha, 2005, ISBN 972-883-911-1.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A Solidão dos Números Primos. Paolo Giordano. «Eric chamou-a de novo, Alice não respondeu. Enquanto estivesse ali em cima o nevoeiro escondê-la-ia»

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O Anjo da Neve
«(…) Não se via um palmo à frente dos olhos quanto mais sol que rebenta as pedras. Estava tudo branco, só branco, em cima, em baixo, de lado. Era como estar envolvidos num lençol. Era o exacto oposto da escuridão, mas Alice tinha medo na mesma. Deslizou para a beira da pista de esqui em busca de um montinho de neve fresca onde pudesse aliviar-se. Os seus intestinos fizeram um ruído de máquina de lavar a louça a entrar em acção. Voltou-se para trás. Já não via Giuliana, por isso, Giuliana não a podia ver a ela- Subiu a encosta alguns metros, pondo os esquis em espinha de peixe, como a obrigava a fazer o pai quando pôs na cabeça que tinha que a ensinar a esquiar. Para cima e para baixo na pista de esqui infantil, trinta a quarenta vezes num só dia. Subia em passo de escadinhas e descia em estilo limpa-neve, pois que comprar o passe de esqui para uma só pista era desperdício de dinheiro, sem contar que, deste modo, também treinava as pernas.
Alice desapertou os esquis e deu mais alguns passos. Enterrou as botas até meio da barriga das pernas. Finalmente estava sentada. Deixou de reter a respiração e relaxou os músculos. Uma agradável descarga eléctrica propagou-se pelo corpo todo para depois se aninhar nas pontas dos pés. Deve ter sido o leite, seguramente foi o leite. Deve ter sido também por ter as nádegas quase congeladas por estar sentada na neve a mais de dois mil metros de altitude. Nunca tal lhe acontecera, pelo menos que ela recordasse. Nunca, nem uma vez. Aliviou-se pernas abaixo. Não chichi. Não só. Alice borrou-se toda, às nove em ponto de uma manhã de Janeiro. Borrou-se nas cuecas e nem sequer se apercebeu. Pelo menos até ouvir a voz de Eric vinda de um ponto indefinido dentro do banco de nevoeiro, a chamar por ela. Levantou-se num ápice e foi nesse momento que sentiu algo de pesado nas entrepernas das calças. Instintivamente tocou no rabo, mas as luvas tiraram-lhe a sensibilidade. De qualquer modo, não era preciso, pois já percebera tudo. E agora, que faço, questionou-se.
Eric chamou-a de novo, Alice não respondeu. Enquanto estivesse ali em cima o nevoeiro escondê-la-ia. Podia baixar as calças do fato de esqui e limpar-se com neve, ou então, ir ter com Eric e segredar-lhe ao ouvido o que lhe acontecera. Podia dizer-lhe que tinha de regressar à aldeia pois estava a doer-lhe o joelho. Ou então, borrifar-se para o sucedido e esquiar mesmo naquele estado, tendo o cuidado de ser sempre a última da fila. Mas, ao invés, deixou-se simplesmente ficar ali, atenta a não mexer um só músculo, protegida pelo nevoeiro. Eric chamou-a pela terceira vez. Mais alto». In Paolo Giordano, A Solidão dos Números Primos, 2008, tradução de José Serra, Bertrand Editora, Lisboa, 2013, ISBN 978-972-251-834-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 6 de maio de 2018

A Sagrada Família. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). «Na realidade há, nas fábricas inglesas, todas as gradações de salário, de um e meio xelim a 40 xelins e inclusive mais; na Crítica paga-se apenas um salário»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Crítica crítica sob a feição do mestre encadernador ou a Crítica crítica conforme o senhor Reichardt. Friedrich Engels
«(…) E a intrepidez estilística do senhor Reichardt anda lado a lado com a intrepidez do raciocínio em si. Ele é capaz de entabular transições como as que seguem: o senhor Brüggemann..., ano de 1843..., teoria do Estado..., todo o probo..., a grande modéstia de nossos socialistas..., milagres naturais..., exigências a serem expostas à Alemanha..., milagres sobrenaturais..., Abraão..., Filadélfia..., maná..., mestre-padeiro..., mas porque nós estamos a falar de milagres, Napoleão logrou etc.
Depois dessas amostras, não é de estranhar, nem um pouco, aliás, que a Crítica crítica sempre ofereça uma explicação à frase que ela mesma considera um modo popular de se exprimir. Pois ela apetrecha os seus olhos com a força orgânica de penetrar o caos. E, sendo assim, resta dizer que nem mesmo o modo popular de se exprimir da Crítica crítica pode restar incompreensível no final. Ela se dá conta de que o caminho dos literatos permanece torto, caso o sujeito que o percorrer não se mostrar forte o suficiente a ponto de conseguir endireitá-lo e, por isso, atribui com naturalidade operações matemáticas ao escritor. Per si se compreende, e a história, que prova tudo o que per si se compreende, prova também isso: que a Crítica não se torna massa a fim de permanecer massa, mas para libertar a massa de sua massificação massiva, ou seja, para elevar o modo popular de se exprimir na linguagem crítica da Crítica crítica. Este é o estágio mais estagiário da humilhação, quando a Crítica aprende a linguagem popular das massas e transcende esse jargão tosco para o cálculo superabundante da dialéctica criticamente crítica.

 A Crítica crítica na condição de moinhotenente. Friedrich Engels
Depois de a Crítica se ter rebaixado até ao absurdo em línguas estrangeiras, de ter prestado à autoconsciência os serviços mais essenciais, e ao mesmo tempo ter libertado o mundo do pauperismo através disso, ela se rebaixa também ao absurdo na práxis e na história. Ela se apossa das questões inglesas do dia e nos oferece um esboço da história da indústria inglesa, que é genuinamente crítico. A Crítica, que se basta a si mesma, que se completa e encerra em si mesma, naturalmente não pode reconhecer a história tal como ela de facto aconteceu, pois isso significaria reconhecer a massa ruim em toda a sua massificação massiva, quando se trata justamente de libertar a massa da massificação. Com isso, a história é libertada de sua massificação, e a Crítica, que adopta uma atitude livre em relação ao seu objecto, grita para a história: tu deves ter ocorrido de tal ou qual modo! As leis da Crítica têm, todas elas, efeito retroactivo; antes dos seus decretos, a história ocorria de modo bem diferente do que passou a ocorrer depois deles. Eis aqui por que a história massiva, a chamada história real, desvia-se da maneira significativa da crítica, que passa a acontecer a partir da página 4 do Caderno VI do Jornal Literário Geral.
Na história massiva não houve nenhuma cidade fabril antes de haver fábricas; mas na história crítica, na qual o filho gera o próprio pai, coisa que já acontecia em Hegel, aliás, Manchester, Bolton e Preston são florescentes cidades fabris, antes mesmo de se ter pensado em fábricas. Na história real, a indústria de algodão foi criada sobretudo graças à Jenny de Hargreaves e à throstle (máquina hidráulica de fiar) de Arkwright, ao passo que a mule de Crompton não foi mais que um aperfeiçoamento da Jenny através do princípio descoberto por Arkwright; mas a história crítica sabe distinguir, despreza a unilateralidade da Jenny e da throstle e dá a coroa à mule, fazendo dela a identidade especulativa do extremo. Na realidade, a invenção da throstle e da mule trouxe consigo de imediato a utilização da força hidráulica para esse tipo de máquinas, mas a Crítica crítica diferencia os princípios amontoados e confusos da história bruta e faz com que a utilização apareça apenas bem mais tarde, como se fosse algo bastante particular. Na realidade a descoberta da máquina a vapor precedeu todas as descobertas acima citadas, mas na Crítica vemos que ela ocorre no final, na condição de coroa para o todo.
Na realidade, a aliança de negócios entre Liverpool e Manchester foi, no seu significado actual, a consequência da exportação de mercadorias inglesas; na Crítica essa aliança de negócios é a causa desse fenómeno e ambas, aliança e exportação, a consequência do facto de aquelas duas cidades serem vizinhas. Na realidade, quase todas as mercadorias saem de Manchester, passam por Hull ao continente; na Crítica elas passam por Liverpool. Na realidade há, nas fábricas inglesas, todas as gradações de salário, de um e meio xelim a 40 xelins e inclusive mais; na Crítica paga-se apenas um salário ao trabalhador: 11 xelins. Na realidade a máquina substitui o trabalho manual; na crítica ela substitui o acto de pensar. Na realidade uma união dos trabalhadores com o objectivo de aumentar o salário é permitida na Inglaterra; mas na Crítica ela é proibida, uma vez que a massa tem, ela mesma, de perguntar à Crítica, se quiser se permitir tomar uma atitude. Na realidade o trabalho na fábrica fatiga de maneira significativa o trabalhador e origina enfermidades típicas, há, inclusive, várias obras medicinais que tratam exclusivamente dessas enfermidades; na crítica o esforço excessivo não impede nem estorva o trabalho, pois a força é empreendida toda ela pela máquina. Na realidade a máquina é uma máquina; na Crítica ela é dotada de vontade, pois, uma vez que ela não descansa, o trabalhador também não pode descansar e torna-se súdito de uma vontade estranha». In Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), A Sagrada Família, A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes, 1844, 1965, Boitempo Editorial, 2003, ISBN 978-857-559-032-4.

Cortesia de BoitempoEditorial/JDACT

A Sagrada Família. Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895). «A natureza de nosso objecto justifica, portanto, o facto de aqui não avaliarmos esse mesmo desenvolvimento»

Cortesia de wikipedia e jdact

A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes
«O humanismo real não tem, na Alemanha, inimigo mais perigoso do que o espiritualismo, ou idealismo especulativo, que, no lugar do ser humano individual e verdadeiro, coloca a autoconsciência ou o espírito e ensina, conforme o evangelista: o espírito é quem vivifica, a carne não presta. Resta dizer que esse espírito desencarnado só tem espírito em sua própria imaginação. O que nós combatemos na Crítica baueriana é justamente a especulação que se reproduz à maneira de caricatura. Ela representa, para nós, a expressão mais acabada do princípio cristão-germânico, que faz sua derradeira tentativa ao transformar a crítica em si numa força transcendental. Nossa exposição se atém principalmente ao Jornal Literário Geral de Bruno Bauer, e seus oito primeiros cadernos estavam a nosso dispor, porque é ali que a Crítica baueriana, e com ela o despropósito da especulação alemã como um todo, alcançam o ápice. A Crítica crítica (ou seja, a crítica do Jornal Literário) torna-se tanto mais instrutiva quanto mais converte a inversão da realidade, empreendida através da filosofia, na mais plástica das comédias. Veja-se, por exemplo, Faucher e Szeliga. O Jornal Literário oferece um material à luz do qual também o grande público poderá ser informado a respeito das ilusões da filosofia especulativa. E é essa a finalidade de nosso trabalho. A nossa exposição naturalmente é condicionada por seu objecto. Em regra, a Crítica crítica se encontra abaixo das alturas alcançadas pelo desenvolvimento teórico alemão. A natureza de nosso objecto justifica, portanto, o facto de aqui não avaliarmos esse mesmo desenvolvimento. Crítica crítica obriga, muito antes, a mostrar a validade dos resultados já disponíveis como tais, opondo-os aos resultados que ela alcançou. É por isso que antepomos essa polémica aos escritos propriamente ditos, nos quais nós, cada um por si, entenda-se, haveremos de expor nossa visão positiva, e com ela nossa atitude positiva ante as novas doutrinas filosóficas e sociais». In Engels – Marx. Paris, Setembro de 1844.

A Crítica crítica sob a feição do mestre encadernador ou a Crítica crítica conforme o senhor Reichardt. Friedrich Engels
A Crítica crítica, por mais que se considere acima da massa, sente uma compaixão infinita pela mesma massa. Foi tão grande o amor da Crítica pela massa que ela enviou o seu próprio filho unigénito a fim de que todos os que crerem nele se salvem e gozem as venturas da vida crítica. E eis que a Crítica se torna massa e habita entre nós, e nós vemos na sua magnificência a magnificência do filho unigénito do pai. Quer dizer, a Crítica torna-se socialista e fala de escritos sobre o pauperismo. Ela não vê um assalto no facto de querer ser igual a Deus, mas apenas renuncia a si mesma e assume a feição de mestre encadernador, rebaixando-se ao nível mais absurdo, sim, ao absurdo crítico em línguas estrangeiras. Ela, que em sua pureza virginal e celeste, retrocedia assustada diante do contato com a massa pecadora e leprosa, dominou-se a ponto de dar importância a Bodz (pseudónimo que Reichardt inventou para Charles Dickens, Boz, na verdade) e todos os escritores-fonte do pauperismo, marchando há anos passo a passo com o mal de nossa época; ela desdenha escrever aos eruditos especializados e escreve para o grande público, afasta todas as expressões de carácter estranho, todo o cálculo latino, todo o jargão corporativo, tudo isso ela afasta dos escritos de outros, pois seria querer pedir demais desejar que a Crítica se submetesse, ela mesma, a este regulamento da administração. Todavia até mesmo isso ela chega a fazer, em parte, pelo menos, desembaraçando-se com admirável facilidade, se não das palavras em si, pelo menos do seu conteúdo; e quem haverá de acusá-la de fazer uso da grande pilha de palavras estrangeiras ininteligíveis, se ela mesma nos obriga a chegar a essa conclusão através de manifestações sistemáticas que dão conta de que essas palavras permaneceram ininteligíveis também para ela? Algumas provas dessa manifestação sistemática:

Por isso lhes são abomináveis as instituições do pauperismo.
Uma lição de responsabilidade, na qual toda emoção do pensamento humano se converte na imagem da mulher de Ló.
Sobre a pedra que coroa este edifício artístico, de facto rico em convicções.
Este é o conteúdo fundamental do testamento político de Stein, que o grande estadista entregou antes mesmo de se despedir do serviço activo do governo e de todos seus escritos.
Este povo não possuía ainda nenhumas dimensões para uma liberdade tão ampla.
Porquanto ele, no fim de seu escrito publicista, parlamentou com relativa certeza, assegurando que falta apenas confiança.
Ao juízo varonil que levanta o Estado, que sabe elevar-se acima da rotina e do temor pusilânime, que se forjou na história e se nutriu com viva intuição nas instituições públicas estrangeiras.
[…]
Ao povo, ao qual também o senhor Brüggemann distribui a certidão de baptismo da sua emancipação.
Uma contradição bastante vivaz contra as demais determinações, proclamadas na obra com respeito aos dotes vocacionais do povo.
O egoísmo enfadonho dissolve todas as quimeras da vontade nacional com rapidez.
A paixão de adquirir muito etc., esse era o espírito que permeou toda a época da Restauração e que se integrou aos novos tempos com uma quantidade bastante significativa de indiferença (as construções bizarras do senhor Reichardt são um dos pontos criticados com dureza por Engels).
O obscuro conceito de significação política, passível de ser encontrado na nacionalidade prussiana de carácter rural, descansa sobre a lembrança de uma grande história.
[…]
In Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), A Sagrada Família, A crítica da Crítica crítica contra Bruno Bauer e consortes, 1844, 1965, Boitempo Editorial, 2003, ISBN 978-857-559-032-4.

Cortesia de BoitempoEditorial/JDACT

sábado, 5 de maio de 2018

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «Apesar do seu propósito procriador, o casamento romano existe juridicamente mesmo que não seja consumado. A realização do acto sexual não é necessária à sua existência…»

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A finalidade da procriação
«(…) O matrimonium romano é uma instituição que implica uma mãe (mater). Devemos a Benveniste o ter mostrado a singularidade do nome latino do casamento (matrimonium), que significa condição legal de mater: O casamento é o estado de mãe ao qual se destina a rapariga. A ideia que está implícita na palavra é a de que um homem se casa com uma mulher, in matrimonium ducere, para dela obter filhos, segundo a formulação legal. Ele pode ser dissolvido quer pela morte de um dos esposos, quer por separação (repudiação, divórcio). Uma das causas mais frequentes de repudiação de uma esposa pelo marido, a partir do século III a.C., é a sua esterilidade ou uma insuficiente fertilidade.
A mulher é, portanto, considerada pelos homens na sua capacidade para ser mãe. A antropóloga Françoise Héritier estima que todos somos submetidos a um mesmo modelo de representação que vem da nossa pré-história e ao qual chamo modelo arcaico dominante. Os homens têm necessidade de se apropriarem das mulheres para terem descendência e, sobretudo, uma descendência semelhante a eles, isto é, filhos homens. Portanto, elas foram tidas como um recurso. Neste ponto, nada distingue Roma das outras sociedades antigas, nem, de forma mais geral, da quase totalidade das sociedades humanas antes da emancipação das mulheres no mundo industrial contemporâneo. O que mais merece atenção, para além de todas as generalidades sociológicas que podem ser inspiradas pelo tema da mulher-mãe, é um facto de ordem institucional que, ele sim,. é original: o acontecimento que faz uma mulher aceder ao estatuto reconhecido pela sociedade de materfamilias já não é o parto, mas sim o casamento. Yan Thomas sublinha igualmente que o direito, forjando, para designar a esposa legítima, o nome materfamilias, constrói a maternidade da mulher como um estatuto que se realiza no único facto de estar unida a um paterfamilias: o código das dignidades institucionais desnaturaliza a maternidade para a absorver, ideal e ficticiamente, no estado de esposa de um cidadão maior. É a razão pela qual se diz mãe de família até mesmo de uma esposa que ainda não teve filhos.
Os romanos consideram convencionalmente o casamento como uma instituição necessária para o nascimento de filhos legítimos. Uma mulher é dada a um homem com o único intuito de procriar, de continuar a linhagem do esposo com descendentes legítimos. É este objectivo que define a mulher como uma esposa legal e a união como um casamento. No enunciado deste objectivo, é o ponto de vista masculino que predomina, claro e pragmático. A cidade e a sua sobrevivência precisam que os cidadãos se casem e produzam novos cidadãos. A satisfação do instinto sexual não é, portanto, a razão de ser do casamento, porque os homens podem licitamente satisfazer os seus desejos físicos sem recorrer ao casamento. A sexualidade conjugal tem como única finalidade a procriação. No século primeiro da nossa era, uma mulher a que se costuma chamar Túria, mas cujo nome é na verdade desconhecido, ilustra bastante bem a importância deste modelo tradicional do casamento nas mentalidades romanas.
No elogio fúnebre que lhe dirige o esposo, este recorda que ela lhe propôs o divórcio dado o casal ser estéril, mas que a isso ele opôs uma recusa veemente, em nome da fidelidade conjugal que os ligava indefectivelmente. Se um casal falha na tarefa de produzir filhos, a esterilidade é, em geral, imputada à esposa, e o marido pode unilateralmente divorciar-se. Quando Apuleio se casa com a rica viúva Pudentila em Oea, em meados do século segundo da nossa era, a finalidade do casamento ainda não mudou. O casal comporta-se plenamente de acordo com as normas romanas tradicionais, casando-se não ad lubidinem, não por sensualidade, mas com o intuito de ter filhos. Procurando justificar o facto de se ter casado com Pudentila no campo, ele lembra o valor simbólico de um casamento realizado no campo, num solo fértil, enquanto a cidade representa um lugar estéril.

Que aquela que deve ser mãe (mater futura) se case no próprio regaço maternal, por entre o trigo maduro, na gleba fértil [...].

A sexualidade conjugal está, assim, indissociavelmente ligada à procriação. Todavia, se não pode rimar com paixão, mas com razão e dever, ela pode ocupar um lugar importante em Roma. Com efeito, a actividade sexual no interior do casamento é natural, necessária e casta; possui um carácter sagrado. As esposas respeitáveis devem aceitá-la. Os maridos devem cumpri-la para perpetuar a raça, mesmo que lhe ofereça poucos atractivos.
Apesar do seu propósito procriador, o casamento romano existe juridicamente mesmo que não seja consumado. A realização do acto sexual não é necessária à sua existência, como Ulpiano e muitos outros juristas confirmam: não é o facto de se dormir em conjunto que faz o casamento, mas sim o consentimento. Uma outra razão, de ordem médica, pode justificar a necessidade de casamento. Por vezes, as relações sexuais permitem a recuperação da saúde. Pudentila, mulher de Apuleio, é disso um exemplo típico. No seguimento de um período de viuvez de catorze anos, Pudentila tornou-se, nas palavras de Apuleio, letárgica, devido a uma falta demasiado longa de relações sexuais, às quais ela estava bastante acostumada aquando do seu primeiro casamento. Pudentila sofre visivelmente de histeria, ainda que Apuleio não nomeie a doença exacta da esposa. O seu casamento com Apuleio é, portanto, um antídoto para os seus problemas de saúde femininos. Os médicos antigos pensam, de facto, que a abstinência sexual involuntária de uma mulher, se for prolongada, pode acarretar complicações físicas e, em casos extremos, uma sufocação histérica, à qual os latinos chamam doença da vulva (uuluae morbus),para não esquecer a epilepsias». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «O casamento romano é ele próprio baseado na noção de societas, comunidade de património e de vida entre duas pessoas de sexo oposto»

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Um fundamento filosófico
«(…) Cícero, na sua obra filosófica Dos Deveres, concordando com os peripatéticos e com os estóicos, considera o casal como o grupo animal original do qual derivam todos os grupos maiores: a sociedade reside primeiro na união conjugal, e depois nas crianças. O casal e os seus filhos formam a unidade de base que serve para fazer nascer a cidade e o Estado. O casamento é, por assim dizer, o viveiro do Estado, e o seu objectivo é gerar crianças, liberorum creandorum causa, de acordo com a fórmula ritual. No princípio de De inuentione, Cicero, interrogando-se acerca da origem da eloquência, descreve o estado natural antes da civilização, quando os homens erravam ao acaso pelos campos à maneira dos animais e quando ninguém vira ainda casamentos legítimos: estes são um critério decisivo de civilização, e Cícero liga todo o desenvolvimento social à união dos dois sexos no seio da instituição do casamento.
Esse tema é igualmente tratado por Lucrécio num texto poético que mostra que o surgimento da civilização humana põe fim ao reino das pulsões sexuais cegas e incontroladas, canalizando-as pela instituição do casamento. Vénus juntava os corpos dos amantes nos bosques; com efeito, cada mulher cedia quer a um desejo recíproco, quer à força violenta do homem e à sua paixão imperiosa [...]. Antes da civilização, os seres humanos eram governados pelas suas pulsões (cupido et libido); conheciam apenas copulações fortuitas, à semelhança dos animais. A civilização traz consigo a vida em comum: a mulher, pelos laços do casamento, torna-se propriedade de um único esposo. Este fundamento filosófico do casamento é ridicularizado, com humor, mas também com uma certa provocação, pelo poeta elegíaco Ovídio, que apresenta, pelo contrário, o primeiro acto sexual como o meio de civilizar os homens primitivos selvagens e que insiste no prazer sentido pelos animais fêmeas ao copularem: no início havia uma massa confusa de coisas, sem qualquer ordem [...]. O género humano errava, solitário, pelos campos [...] e durante muito tempo os homens ignoravam-se uns aos outros. Diz-se que foi a voluptuosidade fagueira que lhes suavizou as almas bravias; um homem e uma mulher encontraram-se num mesmo lugar; o que ambos fizeram aprenderam por si mesmos, sem qualquer mestre; Vénus realizou o seu doce ofício sem qualquer manual.
Não é o casamento que traz a civilização aos olhos de Ovídio, mas sim a paixão sexual, o que Lucrécio, por seu turno, associa ao estado primitivo do homem selvagem. Esta passagem de Ovídio contém algumas evidentes reminiscências do poema de Lucrécio, mas sustentando deliberadamente o oposto da demonstração epicurista a propósito da natureza do amor. Lucrécio pinta a paixão sexual como uma força destrutiva que é preciso evitar a qualquer preço, porque impede o homem de atingir a ataraxia; ele aceita o acto sexual unicamente quando este é necessário para a reprodução. Virgílio, igualmente, mostra no conjunto da sua obra poética que o desejo sexual conduz a um comportamento irracional, violento, que leva à loucura furiosa (furor) e à raiva (rabies). A Vénus ovidiana, pelo contrário, tem o apanágio da doçura e constitui-se como o agente da concórdia entre os amantes. O acto sexual é o melhor meio de apaziguar uma amante ciumenta e irritada. Não são as palavras que podem dissipar uma querela de apaixonados, mas os prazeres de Vénus, gaudia Veneris. Ovídio parece apresentar aqui, de maneira séria, uma doutrina científica segundo a qual o acto sexual é eficaz para trazer a paz aos dois parceiros, mas, na realidade, o jogo intertextual com Lucrécio e Virgílio, que demonstram o contrário, ilustra o carácter incongruente e discrepante das suas afirmações, característica da sua escrita poética.
Apesar deste jogo poético subversivo, o casamento surge habitualmente como uma instituição fundamental sobre a qual assenta o equilíbrio da sociedade romana. O casamento romano é ele próprio baseado na noção de societas, comunidade de património e de vida entre duas pessoas de sexo oposto. Esta parceria entre o homem e a mulher exclui a poligamia, que parece recolher um julgamento negativo, ainda que raros sejam os autores que a ela façam alusão. A poligamia é uma instituição própria dos bárbaros. É Salústio quem exprime mais claramente o seu desprezo pelas sociedades poligâmicas dos númidas e dos mouros, nas quais nenhuma esposa ocupa a posição de parceira igual: [...] cada um, de acordo com os seus recursos, tem o maior número de esposas possível, uns dez, outros mais, e os reis mais ainda. Assim, o espírito é assediado pela quantidade; nenhuma obtém o estatuto de associada, todas são igualmente sem valor. Já Tácito faz o elogio dos casamentos dos germanos, porque estes últimos, quase únicos entre os bárbaros, se contentam em ter apenas uma esposa, com a excepção de alguns que, não por sensualidade (libido), mas devido à sua nobreza, são invadidos por numerosas propostas de casamento». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

sexta-feira, 4 de maio de 2018

A Empresa das Índias. Erik Orsenna. «A notícia correra célere. Ninguém queria faltar à prédica. Alguns acabavam de se apear do cavalo. Aspergiam-se com água da fonte para não entrarem na casa de Deus demasiado cobertos de pó»

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Ilha de Hispañola. Natal de 1511
«(…) Sem lhe dar tempo a responder, Diego apresentou-me: Bartolomeu, o meu tio, irmão do Almirante e primeiro governador desta ilha nos anos entre 1496 a 1500. Montesinos teve um sobressalto. Olhou-me a direito nos olhos e pronunciou uma só palavra: porquê? Já o Vice-Rei o empurrava para a saída. Conto convosco, frei António. Aqui, os equilíbrios são frágeis. Todos devem manter-se no seu lugar. Como Montesinos abrisse a boca para responder, foi mandado sair. E na alta sociedade espanhola todos compareceram à missa no domingo seguinte confiantes, persuadidos de que o incidente estava encerrado.
Durante toda a semana, aquele porquê não me largou. De cada vez que o expulsava da cabeça, de cada vez ele voltava, como uma vespa assanhada, de cada vez precedida pela mesma visão: os dois olhos profundos do pregador. E de noite, por trás dos barulhos familiares do porto, ouvia um som que não conhecia, como uma roda a pisar a estrada ou uma mó a girar. Acudiu-me a convicção de que esse Montesinos, maldito seja, tinha reposto o Tempo em movimento. Ia perder o meu refúgio. Os tormentos da memória, que tanto temia, já não tardariam. No domingo seguinte, muito antes do início da missa, a ilha inteira, quero dizer tudo o que a ilha conta de espanhóis, estava reunida diante da entrada do convento. Muitos tinham vindo de longe, dos cantos mais remotos, da província de Vega, das montanhas e mesmo da costa norte, da península de Samaná.
A notícia correra célere. Ninguém queria faltar à prédica. Alguns acabavam de se apear do cavalo. Aspergiam-se com água da fonte para não entrarem na casa de Deus demasiado cobertos de pó. Não se viam há lustros. Julgavam-se já falecidos. Soltavam exclamações. Abraçavam-se. Dir-se-ia uma festa de família. Trocavam-se as últimas más notícias, os óbitos, os nascimentos, a severidade do clima, a decepção das colheitas, a pobreza das minas. Após duas, três frases, chegavam aos Índios. À preguiça, à bestialidade, à depravação, à imbecilidade, à crueldade dos Índios. Depois engatavam no padre louco, transformado em alguns dias na pessoa mais célebre da ilha. Conhece-lo, tu, esse... Montesinos? Que serpente o picou? Parece que o Vice-Rei o recebeu. E chamou-o à razão. Senão, terá com quem se haver. Os semblantes mostravam-se severos. Tinham vindo armados.
Os dominicanos não sabiam para onde haviam de se virar. A não ser que se apartassem as paredes, na igreja não podia caber mais ninguém. Já três boas centenas de fiéis tinham sido repelidas, para sua fúria. E continuavam a chegar mais. Ainda antes que António Montesinos tivesse pronunciado uma palavra sequer, já a atmosfera estava tumultuosa. Por fim, entre murmurações, começou a missa. Parece-me, mas não dispunha de um instrumento para medir o ritmo, que a primeira parte foi acelerada. E de súbito, uma voz forte retiniu por cima das nossas cabeças. Aí estava Montesinos, chegado ao seu púlpito não se sabe como. Talvez os seus amigos índios lhe tivessem transmitido a capacidade de se mover sem ser visto? O púlpito assentava numa grossa serpente de madeira esculpida. Alguns, na assistência, murmuraram que o maldito pregador firmara um pacto com o animal para estar protegido da multidão.

Porque mantendes os Índios em tão cruel servidão? Porque fazeis tão detestáveis guerras a estes povos pacíficos? Porque os matais exigindo deles um trabalho a que nenhum de vós sobreviveria? Porque não os vedes como homens, eles, que Deus dotou de uma alma igual à vossa?...

Longe de intimidarem Montesinos, as recomendações do Vice-Rei tinham-no estimulado. A autoridade da sua palavra consolidara-se. No domingo anterior, as suas palavras tremiam, não de medo, mas de indignação. Desta vez trespassavam o ar tão duras e precisas como projécteis. A assistência reagiu sem demora. Ergueram-se vozes, cada vez mais fortes». In Erik Orsenna, 2010, A Empresa das Índias, Teorema, 2011, ISBN 978-972.

Cortesia de Teorema/JDACT

A Empresa das Índias. Erik Orsenna. «Quem vos autoriza a fazer tão detestáveis guerras a estes povos que vivem pacificamente na sua terra, onde perecem em quantidade infinita?»

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Ilha de Hispañola. Natal de 1511
«(…) Ousarei confessar que nesta espécie de presente permanente vivo em paz como nunca? Liberto do cansaço de sonhar, uma vez que Cristóvão se foi deste mundo, mas também isento dos remorsos que a multidão dos meus pecados haveria de engendrar. Naquele domingo, o primeiro do Advento de 1511, acordámos juntos, a cidade e eu. Gosto deste palácio pelas suas pedras de coral que deixam passar os sons. Ouço primeiro as aves que saúdam o regresso da luz, depois os homens a tossir e a escarrar; os cavalos a resfolegar; a chiadeira das carroças; os primeiros rangidos das serras. Chega uma caravela. Reconheço de ouvido qual a vela que recolhem, em que parte do porto vai atracar. Os cães ladram. Continuarão a ladrar cada vez mais alto até serem alimentados. Já mexe um novo dia, pesadamente, como um barco que se afasta do cais. A cada um destes novos dias digo da minha gratidão por ele me aceitar a bordo. E, sem prever os ataques que iriam dentro em pouco devastar a minha alma e arrasar a minha serenidade, parti para a igreja. Começou a missa.
Difícil rezar na minha situação: sentado na primeira fila, entre o Vice-Rei Diego e a sua mulher, Maria Toledo, tinha todos os olhares virados para mim. Deus me perdoe. Em vez de me dirigir a Ele e só a Ele, não parava de responder aos cumprimentos. De súbito, sobressaltei-me. Um dominicano tinha subido para o púlpito e começava a sua homilia:

Eu sou a voz de Cristo que clama no deserto desta ilha... Eu sou a voz de Cristo que clama no deserto desta ilha [...] esta voz diz que estais todos em estado de pecado mortal por causa da crueldade e da tirania de que usais para com este povo inocente.

De frase em frase, a voz ia ganhando força e distinguiam-se melhor as palavras. Dir-se-ia que se transformavam noutras tantas pedras lançadas aos nossos rostos.

Dizei-me, por via de que direito e de que justiça mantendes estes Índios em tão cruel e horrenda servidão? Quem vos autoriza a fazer tão detestáveis guerras a estes povos que vivem pacificamente na sua terra, onde perecem em quantidade infinita? [...] Porque os mantendes em tal estado de opressão e de esgotamento, sem lhes dar de comer nem os cuidar na doença de que sofrem e morrem por causa do trabalho excessivo que deles exigis, matando-os tão-só para dia após dia extrairdes ouro? Estes Índios, não são eles homens? Não têm razão, não têm alma? Não devíeis amá-los como a vós mesmos? [...] Porque mergulhastes num tão profundo sono letárgico? Tende por certo que no estado em que vos encontrais tereis tanta salvação como os Mouros e os Turcos que recusam a fé de Jesus Cristo.

Tal foi o sermão desse dia de frei António Montesinos. Perante todas as autoridades de Hispañola e todos os encomenderos, aqueles espanhóis a quem tinham sido dadas as terras dos Índios juntamente com índios para as cultivar. A estupefacção da assistência depressa deu lugar à cólera. Os olhares iam e vinham entre o pregador que ia encadeando estas palavras terríveis e o vice-rei que tentava conservar um semblante de impassibilidade. Foi necessário toda a autoridade do padre oficiante para que a missa terminasse sem revolta dos fiéis.
Mal regressou ao nosso palácio, o Vice-Rei convocou esse dominicano de quem ninguém até então tinha ouvido falar e dirigiu-se-lhe nesta linguagem paternal: qualquer um de nós, se estiver mal informado, pode ver-se levado a proferir contraverdades. Não iremos acusar aquele que mergulhou no erro por causa de uma informação imperfeita. No caso vertente, a informação em falta era que o trabalho dos Índios era necessário à boa exploração da ilha, logo, à glória de Espanha. Por conseguinte, o pregador, cujo talento, aliás, todos admiravam, cuja comoção compreendiam, não poderia, no domingo seguinte, agora que já estava completamente informado, deixar de pronunciar um sermão de natureza inteiramente diferente do anterior e que devolveria à população uma paz a que Sua Majestade o Rei tinha em particular apreço...» In Erik Orsenna, 2010, A Empresa das Índias, Teorema, 2011, ISBN 978-972.

Cortesia de Teorema/JDACT

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Policarpo. «Ligado desde cedo ao comércio do Mediterrâneo, a este pequeno porto atlântico chegaram também os ecos e as consequências dos grandes acontecimentos que ali se desenrolavam»

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«(…) Quem hoje passa pela Rua Augusta também está longe de imaginar que, instalado no rés do chão da sede do Millennium BCP, no Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros, se escondem séculos de histórias e vivências, e a soleira da porta onde o pescador arranjava as suas redes. Aqui, o passado chega até nós não através de histórias contadas à lareira, mas de um conjunto de intervenções arqueológicas, iniciadas em 1991. Devido a um projecto de remodelação que pretendia criar garagens subterrâneas num edifício pombalino, a existência de vários vestígios levou a que o espaço fosse alvo de uma escavação integral e musealizado. Após a conclusão, em 1995,o novo Núcleo Museológico (doravante NARC) abriu as portas e as histórias ao público.
O NARC é hoje um sítio a não perder na cidade de Lisboa, onde os vestígios arqueológicos e as vitrinas recheadas de peças contam a História daquele local, tão diferente do que já foi! Na verdade, olhando à volta para a Baixa Pombalina e as suas ruas geometricamente organizadas, poucos conseguem imaginar o profundo vale que aqui se estendia há dois mil anos, escavado por duas ribeiras que confluíam junto ao actual Rossio e se juntavam a um braço do rio, uma pequena enseada do Tejo. Sobre o leito encanado desses cursos de água descem hoje as avenidas da Liberdade e Almirante Reis, e o vale separa as colinas hoje chamadas do Castelo e de São Francisco, tendo perdido a sua profundidade depois de séculos de aterros e da construção de uma nova cidade.
Nas margens deste esteiro estendiam-se as praias onde, desde o século VIII a. C., aportaram e se estabeleceram vários povos oriundos do Mediterrâneo Oriental e do Norte de África, na sua demanda por metais que pudessem comerciar e exportar para várias zonas do Mediterrâneo. Assim surge o nome fenício de Allis Ubbo, que significa pequena enseada, descrição apropriada para este porto seguro onde Fenícios e  Cartagineses se fixam e abrem os seus entrepostos comerciais. Nas praias fluviais do braço do rio vão também criar uma pequena comunidade, um núcleo de pescadores vivendo em simples habitações, que surgem à nossa frente quando descemos ao piso subterrâneo do NARC. Aqui as casas têm planta rectangular, e as quatro habitações que foram escavadas encostam-se umas às outras, partilhando paredes comuns. Hoje apenas conseguimos ver a sua base em pedra, uma vez que as paredes, construídas em canas e barro, há muito desapareceram. Também o restante casario fica entregue à nossa imaginação, estendendo-se para além das fundações que rodeiam a área arqueológica. No interior das casas, ao centro, pequenas lareiras de seixos rolados iluminavam e aqueciam os habitantes, que ali cozinhavam e se reuniam à luz da fogueira.
As peças do dia a dia desta comunidade, incluídas na exposição, reflectem bem as actividades ali desenvolvidas, como os pesos utilizados nas redes de pesca, os grandes potes de cerâmica para armazenar alimentos ou os pequenos fragmentos de taças, como aquela onde se vê gravado o pequeno barco fenício que hoje dá a imagem ao Núcleo Arqueológico.
Ligado desde cedo ao comércio do Mediterrâneo, a este pequeno porto atlântico chegaram também os ecos e as consequências dos grandes acontecimentos que ali se desenrolavam. O crescimento de um novo Império e as guerras pelo domínio do comércio marítimo, a destruição de Cartago e o fim da influência púnica chegam à Península pela mão das Guerras Púnicas e de um novo conquistador, o Império Romano.
Em 138 a.C., o general romano Décimo Júnio Bruto conquista a região e estabelece-se no topo da actual colina do Castelo. Tem início um próspero período para a nova cidade romana de Felicitas Iulia Olisipo, que adquire grande importância comercial pela sua posição estratégica no comércio marítimo entre o mar Mediterrâneo e o Norte da Europa. Relevante para a prosperidade da cidade foram também os recursos naturais da região, que permitiram o desenvolvimento de uma importante indústria de conservas de peixe, ainda hoje tão próximas da nossa gastronomia. A abundância de peixe e sal e a proximidade com o rio fizeram surgir ao longo da costa de Olisipo dezenas de fábricas que se dedicavam a produzir variados tipos de conservas, desde o simples peixe salgado às pastas e molhos como o garum e o liquamen.
Uma das bases da alimentação romana, os produtos piscícolas eram aproveitados por uma indústria muito desenvolvida que levava o pescado a todos os romanos que não viviam perto da costa e com acesso ao melhor peixe fresco. Sem acesso a conservantes artificiais ou frigoríficos, maravilhas do século XX, a salga foi, durante milénios, a única forma de conservar o peixe e a carne». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Policarpo. «Muitos séculos tinham passado desde que os grandes barcos a remos chegavam e partiam daquelas costas repletos do cobre e estanho que os locais exploravam rio acima»

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«(…) Depois de muitos anos afastado da vida da cidade, abre hoje os seus braços e recebe portugueses e estrangeiros de igual forma, mostrando-se no seu melhor. Quem sabe, alguns poderão ouvir ainda os apressados passos de dona Mécia a caminho das cozinhas, sons de um passado longínquo que continuam a ecoar nestas ruas e paredes tão antigas.

O núcleo arqueológico da Rua dos Correeiros. Um bolo de camadas sob a sede de um banco
O Sol descia lentamente sobre o rio e levava consigo os últimos raios de luz de um dia de trabalho árduo. Sentado à porta da sua cabana, o pescador apressa as mãos e tenta dar os últimos pontos na rede que estava a remendar. Se não conseguisse acabar a tarefa enquanto ainda havia sol não poderia voltar ao rio na manhã seguinte, o que significaria mais um dia de trabalho perdido. Do interior da cabana chegavam os ruídos típicos de uma família na azáfama das tarefas domésticas. Sobre o barulho das panelas e do almofariz sobressaía a discussão dos mais novos sobre quem acenderia o lume na pequena lareira escavada no centro da casa, e os resmungos do vencido, a quem cabia a tarefa de ir buscar água para começar a fazer o jantar. A falta de peixe fresco causada pelas redes estragadas e pela paragem forçada do pescador obrigaria a uma refeição de peixe seco, o que, por sua vez, reduziria os ganhos da venda deste produto no mercado da povoação. Mas enfim, eram os contratempos habituais da vida de pescador, e certamente que alguma outra família cederia uns quantos mexilhões frescos para ajudar a compor a refeição, como ele próprio tantas vezes fizera.
Na pequena comunidade de pescadores da praia, a proximidade e a amizade cresciam através das paredes partilhadas das cabanas e do espírito de entre ajuda, ligação esta que não se estendia ao restante núcleo da povoação que habitava o topo da colina e se dedicava ainda ao comércio dos metais com os povos de longe. Concentrado no ritmo da agulha que rapidamente passava pelas malhas da rede, o pescador relembrava as histórias que desde miúdo ouvia contar aos mais velhos, sobre as gerações mais antigas e a grande viagem que as trouxera até à pequena enseada onde viviam desde então. À volta da lareira, reviviam as aventuras dos antigos navegadores que tinham saído do pequeno mar que banhava as costas da Fenícia e atravessado o estreito, rumo a um desconhecido oceano e aos famosos metais da península.
Muitos séculos tinham passado desde que os grandes barcos a remos chegavam e partiam daquelas costas repletos do cobre e estanho que os locais exploravam rio acima. Nos seus dias, esses comerciantes eram já ama minoria entre uma população dedicada ao trabalho do campo, à pesca e à olaria, que desenvolvera a cidade e assim encontrara uma alternativa às épocas de crise que, mesmo por mar traziam conflitos e a queda do valor dos metais, até então a base das colónias fenícias. Da soleira da sua porta, o pescador não consegue imaginar que novas mudanças a sua aldeia ainda irá sentir nos próximos anos. Na paz da sua enseada, muito menos conseguirá imaginar os séculos de conquistas e os impérios que por ali passarão e mudarão completamente a paisagem daquela pequena colina que um dia se chamará Lisboa». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

quarta-feira, 2 de maio de 2018

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «É! Vê esta palavra, filho. ALEXANDROS, soletrou. Fiquei tão comovido que me apeteceu chorar. Quem fez isto?»

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O Homem de Alexandria e a Pedra Filosofal
«(…) Existira outro pretendente ao trono de Castela, o infante Afonso, filho de Isabel de Portugal e de João II, e bisneto, portanto, do velho Bragança, dessa filha do infante João, que era mãe também da Isabel que agora se intitulava Rainha e herdeira do irmão pederasta ou impotente, o monstruoso e fraco Henrique IV. No entanto, cedo os que tinham apoiado Afonso passaram para o lado oposto porque o jovem morreu e as más-línguas diziam que envenenado…, depois da Beltraneja ficar (mais uma vez!) noiva desse tio. Entretanto, o Rei Henrique fizera Beltran duque de Albuquerque e as coisas complicaram-se. Levantou-se um portentoso motim. Henrique foi deposto, em Ávila, e a sua efígie, com a do irmão Afonso e a da filha, ferozmente queimadas. Foi então que a Rainha dona Joana procurara Afonso na Guarda, mas este, na altura, recusou a meter-se no vespeiro... Só que em Dezembro de 1474 Henrique morria e de novo, e definitivamente, se repunha o problema. Claro que Afonso pensava candidamente que a França o apoiaria, pois Luís XI estava em guerra com o Aragão mas tal não aconteceu. O ingénuo Afonso jamais poderia confrontar-se com o subtil Rei cie França nem a bem nem a mal..., e muito menos, como se viu, contar com ele.
Em Placência. o casamento não se consumou porque não fora concedida ainda a autorização papal, mas os títulos eram válidos para Afonso e dona Joana como Reis. A divisão em Castela apertava o seu cerco. Uns apoiavam dona Joana, mas as divergências avolumavam-se. As notícias chegavam ao Reino com grandes lacunas. Por essa altura eu já estudava os primórdios da Física e tornava-me aprendiz de cirurgião, com a ajuda de mestre Bartolomeu que me não curara, mas era bom físico e até operava as cataratas. Visitava um dia meu tio Gil quando lhe propus a leitura de um manuscrito que encetara sobre Alexandre. Ele sorriu e mostrou-me algo que me deixou siderado. No scriptorium do Mosteiro faziam-se cópias e raspavam-se obras antigas. Ele trouxe um rolo de pergaminho que o tempo tornara amarelo-escuro e com manchas cinzentas. Abriu-o cuidadosamente sobre a mesa de carvalho que o fogo da chaminé nas noites de Inverno também curtira e a que dera a cor do bronze fundido: vê bem, rapaz. Frei Sancho, o raspador, trouxe-me isto. Mirei, estupefacto. O monge raspara, mas a espessura da pele mantivera parte do texto porque a tinta penetrara fundo. Santo Deus! Está escrito em grego! É grego, não é, tio?
É! Vê esta palavra, filho. ALEXANDROS, soletrou. Fiquei tão comovido que me apeteceu chorar. Quem fez isto?, perguntei. Não te exaltes. É necessário aproveitar o pergaminho antigo. Bem sei que agora, com a nova técnica inventada na Alemanha, os livros são diferentes. Já há vinte anos, quase, no tempo de Gonçalo Enes, que vieram gramáticas da arte nova para as infantas dona Joana e dona Catarina, a mando do Rei. Gonçalo Enes era tesoureiro das infantas e mandou vir, parece, que da Alemanha, ou da França, não sei, os livros. Este é dos antigos, tal como a maior parte dos que possuímos nas nossas casas e bibliotecas. Leva-o a mestre Tadeu. Ele conhece o grego, esse malvado judeu! Em baixo, pois o manuscrito já fora raspado e reescrito, ainda li a frase: orai a Deus pelo copista. Orai a Deus! Onde estaria aquele monge morto há séculos, cego certamente, de uma vida inteira debruçado sobre velhas páginas de pergaminho, e onde estaria a sua alma e o seu corpo?» In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.

Cortesia de EPresença/JDACT