quarta-feira, 29 de março de 2017

À volta do casamento do infante Pedro. Douglas Mota Xavier Lima. «Pedro aparece na “idade adulta” quando resolveu casar (trinta e seis anos), aliás, próximo da “maturidade”»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A descrição cronística dessa missão diplomática é oscilante nas informações oferecidas, pois afirma ser o infante Pedro o noivo buscado pela rainha da Sicília, depois indica que Duarte era o objecto da negociação e que o Infante era uma proposta secundária no consórcio (a partir da crónica, é possível inferir que a proposta de envolver Pedro na negociação foi de João I, não da rainha da Sicília, como o próprio Zurara afirma no capítulo anterior, visto que o rei formou a embaixada como uma forma de dissimulação pois sabia os problemas implicados no estatuto do Infante, a qual cousa eu sei pelo requerimento que me ela enviou fazer que me prouvesse de casar meu filho o Infante dom Pedro, a qual cousa eu sei bem que certo ela não há-de fazer; empero a aproveitará muito semelhante cometimento porquanto meus embaixadores terão azo de ir e vir por acerca daquela cidade, Ceuta, onde poderão devisar todo o que lhe por mim for mandado), e finaliza com a menção do descontentamento da rainha perante a proposta de casamento com o secundogénito português (trata-se de dona Branca I de Navarra, esposa de Martin I, o Jovem, rei da Sícília e herdeiro de Aragão; após a morte deste, em 1410, Branca permaneceu à frente do reino da Sicília até 1415).
É possível inferir que alguma proposta de casamento possa ter surgido na cidade de Viena em inícios de 1426, visto que, de acordo com Albert Starzer, o baile oferecido ao Infante, na chamada casa de Praga, foi largamente concorrido pelas damas da cidade. Contudo, com a excepção desta inferência a partir do estudo de Domingos Maurício Santos, não há outra informação que envolva o tema do casamento durante a viagem. Sabe-se que os casamentos entre famílias régias eram, sobretudo, um acto político, comumente lento na condução das negociações, o que se dava em virtude das estratégias políticas das casas reais e das disponibilidades de noivos e noivas das mesmas. Tais dificuldades e frequentes mudanças de políticas matrimoniais possibilitavam vários casos de nobres que não contraíam casamento, sendo emblemático o exemplo do infante Henrique. Todavia, aos trinta e seis anos, Pedro casou-se.
Tal aspecto, a idade do Infante, chama a atenção e demanda uma reflexão pormenorizada, a qual não aparece valorizada na bibliografia que trata do casamento dos infantes avisinos. Perspectivas gerais sobre as idades na Europa do período, trazem a seguinte indicação:













Idades

Segundo este esquema, Pedro aparece na idade adulta quando resolveu casar (trinta e seis anos), aliás, próximo da maturidade. No entanto, para não fundamentar uma posição apenas em perspectivas genéricas, espacial e temporalmente, veja-se a seguinte consideração de Duarte acerca das idades:

Idades segundo Duarte I

Estes apontamentos foram feitos pelo próprio irmão de Pedro que, ao estabelecer esta teoria das idades, permite que a decisão do casamento seja redireccionada para o início da decadência da vida do homem. De qualquer forma, pelos elementos já levantados, mostra-se nítido que o matrimónio do duque de Coimbra foi decidido numa idade avançada da sua vida, facto que também ocorreu com Duarte I, que casou aos trinta e sete anos. Não obstante, antes de finalizar esta observação e a fim de oferecer ainda mais elementos que corroborem a posição tomada, recupera-se um novo levantamento sobre o tema, este feito por Armindo Sousa abordando a média de vida dos reis, rainhas e príncipes:


Idades e médias de vida (1300-1500)

In Douglas Mota Xavier Lima, À volta do casamento do infante Pedro, UFOdoPará, ICE, PCHumanas, Santarém, Brasil, Revista Medievalista, Nº 21, Janeiro-Junho 2017, Universidade Nova de Lisboa, FCS e Humanas, FC e Tecnologia, ISSN 1646-740X.

Cortesia da RMedievalista/FCT/JDACT

À volta do casamento do infante Pedro. Douglas Mota Xavier Lima. «Assim, é importante notar que os quatro casamentos dos filhos legítimos de João I e Filipa ocorreram nos anos de 1420»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) João I e dona Filipa tiveram oito filhos, dos quais dois faleceram. Dos seis infantes, apenas dois não casaram, Henrique e Fernando, mesmo tendo existido oportunidades nesse sentido. O primeiro a casar-se foi o penúltimo filho, o infante João, em Novembro de 1424, matrimónio que uniu o infante à sua sobrinha, única filha do conde de Barcelos, dona Isabel. No entanto, tal enlace, somado ao de Afonso com a filha do Condestável, representa uma tendência secundária das uniões estabelecidas pelos filhos de João I, visto que de oito filhos (legítimos e bastardos), quatro casaram fora de Portugal. A partir das fontes acerca das negociações matrimoniais de Afonso, dona Beatriz e do infante João, pode-se entrever que estas transacções não conheceram delongas, sendo o casamento da infanta com o conde de Arundel o que mais se protelou. A constatação reitera-se na observação das negociações que envolveram os matrimónios de Duarte I, Pedro (o Regente) e dona Isabel, pois este segundo conjunto de casamentos reafirma a tendência de que a procura de um marido ou de uma esposa por um príncipe era um processo longo e complexo. O estabelecimento de dois conjuntos de casamentos, sendo o primeiro representado por Afonso, dona Beatriz e João, e o segundo por Duarte I, Pedro e dona Isabel, permite ainda que se delimitem distinções entre as consequências de cada um dos grupos de matrimónios para a dinastia de Avis. Acredita-se que ambos reforçaram os laços avisinos dentro e fora de Portugal, contudo também reflectem momentos diferentes do reinado de João I. Os primeiros ocorreram num período de busca de afirmação e legitimação dinástica, para o qual a aliança do rei com os Lancaster (1387) já tinha contribuído, com os problemas internos apresentando-se como difíceis obstáculos, e o segundo conjunto de consórcios deu-se num contexto de consolidação e ampliação das alianças externas existentes até então.
Assim, é importante notar que os quatro casamentos dos filhos legítimos de João I e Filipa ocorreram nos anos de 1420. Chama ainda mais atenção o facto de três casamentos terem ocorrido entre Setembro de 1428 e Janeiro de 1430. Destes, o enlace do herdeiro (1428) foi investigado no citado estudo de Dias Dinis, no qual se expõe a importância do matrimónio para as relações ibéricas do período. O principal consórcio foi o de dona Isabel (1430) com o duque da Borgonha, que consolidou a presença portuguesa no norte europeu. E o casamento de Pedro? Tal como outros aspectos da vida do duque de Coimbra, o enlace mostra-se um obscuro, porém crucial, momento na trajectória biográfica do viajante das Sete Partidas.
Portanto, para finalizar as considerações sobre a política matrimonial de João I, afirmamos que os casamentos dos anos de 1420 foram reflexo de uma nova etapa da diplomacia portuguesa. A posição interna de Avis já estava estabilizada e a aliança inglesa estruturada e reafirmada com o consórcio de Beatriz. A conquista de Ceuta (1415) tinha permitido a construção de uma imagem do reino e da dinastia reinante articulada com os valores cristãos e com a defesa da Cristandade, elementos que favoreciam a honra da família real avisina no cenário das casas principescas. Por fim, os casamentos do período demonstram o esforço do reino de Portugal em consolidar-se no cenário político ibérico, mormente através da aliança com Aragão e, ultrapassando este quadro diplomático tradicional, enrijecer os laços com o mar do Norte, por meio do enlace com o ducado de Borgonha.
A fim de organizar a exposição sobre o enlace do Infante, orientaremos a discussão de acordo com os seguintes tópicos: as anteriores propostas de casamento; o momento do enlace, como etapa da vida de Pedro; a escolha da noiva, dona Isabel de Urgel; o casamento e as suas consequências. As primeiras menções sobre propostas de aliança matrimonial envolvendo o infante Pedro aparecem em dois documentos do rei Martin de Aragão, datados de Aabril de 1410, no qual o monarca expõe o interesse de casar a infanta dona Leonor de Urgel, ou com Duarte ou com o Infante. Novas alusões surgem alguns anos depois, de acordo com o texto da Crónica da Tomada de Ceuta, ao descrever o envio dos embaixadores portugueses à Sicília. Esta missão teve como pretexto tratar do matrimónio proposto pela rainha viúva, dona Branca, com o infante Duarte, ou com Pedro. De acordo com Zurara, após descartarem o avanço das negociações com o príncipe herdeiro, os enviados portugueses afirmaram que João I via com prazer que o casamento da rainha se concretizasse com o secundogénito. Contudo, ainda segundo o cronista, a rainha ficou mui pouco contente com a posição da embaixada, visto que lhe parecia que seu estado receberia abatimento, mandando ela, primeiramente, tratar casamento com o infante Duarte, que era herdeiro do reino, e tornar a casar com o infante Pedro que era sojeito a seu irmão por razão de sua primeira nascença». In Douglas Mota Xavier Lima, À volta do casamento do infante Pedro, UFOdoPará, ICE, PCHumanas, Santarém, Brasil, Revista Medievalista, Nº 21, Janeiro-Junho 2017, Universidade Nova de Lisboa, FCS e Humanas, FC e Tecnologia, ISSN 1646-740X.

Cortesia da RMedievalista/FCT/JDACT

terça-feira, 28 de março de 2017

Histórias Brejeiras. Artur Azevedo. «Enquanto foi solteira, achava a minha mulher que nenhum homem era digno de ser seu marido; depois de casada (por conveniência) achou que todos eles eram dignos de ser seus amantes. Mato-me»

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À Não-Me-Toques!
«(…) Um dia, tudo mudou de repente. Sem dar ouvidos a Seu José, que lhe aconselhava o contrário, o Comendador Costa empenhou a sua casa numa grande especulação, cujos efeitos foram desastrosos, e, para não fechar a porta, viu-se obrigado a fazer uma concordata com os credores. Foi este o primeiro golpe atirado pelo destino contra a altivez da Não-me-toques.
A casa ia de novo se levantando, e já estava quase livre dos seus compromissos de honra, quando o Comendador Costa, adoecendo gravemente, faleceu, deixando a família numa situação embaraçosa. Um verdadeiro deus ex machina apareceu então na figura de Seu José que, reunindo as suadas economias que ajuntara durante trinta anos, e associando-se a dona Guilhermina, fundou a firma Viúva Costa & Fernandes, e salvou de uma ruína iminente a casa do seu finado patrão. O estabelecimento prosperava a olhos vistos e era apontado como uma prova eloquente de quanto podem a inteligência, a boa fé e a força de vontade, quando o falecimento da viúva dona Guilhermina veio colocar a filha numa situação difícil... Sozinha, sem pai nem mãe, nem amigos, aos trinta e dois anos de idade, sempre bela e arrogante em que pesasse a todos os seus dissabores, aonde iria a Não-me-toques? Antonieta foi a primeira a pensar que o seu casamento com José Fernandes era um acto que as circunstâncias impunham... Antes da sua orfandade, jamais semelhante coisa lhe passaria pela cabeça. Não que Seu José lhe repugnasse: bem sabia quanto esse homem era digno e honrado; estimava-o, porém, como a um tio, ou a um irmão mais velho, e ela, que recusara a mão de tantos doutores, não podia afazer-se à ideia de se casar com ele.
Entretanto, esse casamento era necessário, era fatal. Demais, a Não-me-toques lembrava-se de que o pai, irritado contra os seus contínuos e impertinentes muxoxos, um dia lhe dissera: não sei o que supões que tu és, ou o que nós somos! Culpa tive eu em dar-te a educação que te dei! Sabes qual é o marido que te convinha? Seu José! Seria um continuador da minha casa e da minha raça! Tratava-se por conseguinte, de homologar uma sentença paterna. A continuação da casa já estava confiada a Seu José: era preciso confiar-lhe também a continuação da raça. Assim, pois, uma noite ela chamou-o e, com muita gravidade, pesando as palavras, mas friamente, como se se tratasse de uma simples operação comercial, lhe deu a entender que desejava ser sua mulher, e ele, que secretamente alimentava a esperança desse desenlace, confessou-lhe trémulo, e com os olhos inundados de pranto, que esse tinha sido o sonho de toda a sua vida.
Casaram-se.
Nunca um marido amou tão apaixonadamente a sua esposa. Seu José levou à Antonieta um coração virgem de outra mulher que não fosse ela; fora das suas obrigações materiais, amá-la, adorá-la, idolatrá-la, tinha sempre sido e continuava a ser a única preocupação do seu espírito... Entretanto, não era feliz; sentia que ela o não amava, que se entregara a ele apenas para satisfazer a uma conveniência doméstica: era apática; sem querer, fazia-lhe sentir a cada instante a superioridade terrível das suas prendas. Ninguém melhor que ele, tendo sido, aliás, até então, o único homem que lhe tocara, se convenceu de quanto era bem aplicada aquela ridícula alcunha de Não-me-toques. O pobre diabo tinha agora saudades do tempo em que a amava em silêncio, sem que ninguém o soubesse, sem que ela própria o suspeitasse.
Antonieta aborrecia-se mortalmente naquele casarão onde nascera, e onde ninguém a visitava, porque o seu carácter a incompatibilizara com toda a gente. O marido, avisado e solícito, bem o percebeu. Admitiu um bom sócio na sua casa comercial, que prosperava sempre, e levou Antonieta à Europa, atordoando-a com o bulício das primeiras capitais do Velho Mundo. De volta, ao cabo de um ano, construiu uma bela casa no bairro mais elegante da cidade, encheu-a de mobílias e adornos trazidos de Paris, e inaugurou-a com um baile para o qual convidou as famílias mais distintas. Começou então uma nova existência para Antonieta, que, não obstante aproximar-se da medonha casa dos quarenta, era sempre formosa, com o seu porte de rainha e o seu colo opulento, de uma brandura de cisne. As suas salas, profundamente iluminadas, abriam-se quase todas as noites para grandes e pequenas recepções: eram festas sobre festas.
Agora já lhe não chamavam a Não-me-toques; ela tornara-se acessível, amável, insinuante, com um sorriso sempre novo e espontâneo para cada visita.
Fizeram-lhe a corte, e ela, outrora impassível diante dos galanteios, escutava-os agora com prazer. Um galã, mais atrevido que os outros, aproveitou o momento psicológico e conseguiu uma entrevista. Esse primeiro amante foi prontamente substituído. Seguiu-se outro, mais outro, seguiram-se muitos... E quando Seu José, desesperado, fez saltar os miolos com uma bala, deixou esta frase escrita num pedaço de papel: enquanto foi solteira, achava a minha mulher que nenhum homem era digno de ser seu marido; depois de casada (por conveniência) achou que todos eles eram dignos de ser seus amantes. Mato-me. In Correio da Manhã, 12 de Outubro de 1902.

In Artur Azevedo, Histórias Brejeiras, 1962, Projecto Livro Livre, nº 519, Iba Mendes, 2014.

Cortesia de IMendes/JDACT

Histórias Brejeiras. Artur Azevedo. «Teria sido realmente amada? Não, mas apenas desejada, tanto assim que todos os seus namorados se esqueceram dela...»

jdact e wikipedia

À Não-Me-Toques!
«Passavam-se os anos, e Antonieta ia ficando para tia, não que lhe faltassem candidatos, mas, infeliz moça!, naquela capital de província não havia um homem, um só, que ela considerasse digno de ser seu marido. Ao Comendador Costa começavam a inquietar seriamente as exigências da filha, que repelira, já, com desdenhosos muxoxos, uma boa dúzia de pretendentes cobiçados pelas principais donzelas da cidade. Nenhuma destas se casou com rapaz que não fosse primeiramente enjeitado pela altiva Antonieta. Que diabo!, dizia o comendador à sua mulher, dona Guilhermina, estou vendo que será preciso encomendar-lhe um príncipe! Ou então, acrescentava dona Guilhermina, esperar que algum estrangeiro ilustre, de passagem nesta cidade… Está bem aviada! Em quarenta anos que aqui estou, só dois estrangeiros ilustres cá têm vindo: o Agassiz e o Herman. Entretanto, eram os pais os culpados daquele orgulho indomável. Suficientemente ricos tinham dado à filha uma educação de fidalga, habituando-a desde pequenina a ver imediatamente satisfeitos os seus mais custosos e extravagantes caprichos. Bonita, rica, elegante, vestindo-se pelo último figurino, falando correctamente o francês e o inglês, tocando muito bem o piano, cantando que nem uma prima-dona, tinha Antonieta razões sobejas para se julgar um avis rara na sociedade em que vivia, e não encontrar em nenhuma classe de homem que merecesse a honra insigne de acompanhá-la ao altar.
Uma grande viagem à Europa, empreendida pelo comendador em companhia da esposa e da filha, completara a obra. Ter estado em Paris constituía, naquela boa terra, um título de superioridade. Ao cabo de algum tempo, ninguém mais se atrevia a erguer os olhos para a filha do Comendador Costa, contra a qual se estabeleceu pouco a pouco certa corrente de animada diversão. Começaram todos a notar-lhe defeitos parecidos com os das uvas de La Fontaine, e, como a qualquer indivíduo, macho ou fêmea, que estivesse em tal ou qual evidência, era difícil escapar ali a uma alcunha, em breve Antonieta se tornou conhecida pela Não-me-toques.
Teria sido realmente amada? Não, mas apenas desejada, tanto assim que todos os seus namorados se esqueceram dela... Todos, menos o mais discreto, o mais humilde, o único talvez, que jamais se atrevera a revelar os seus sentimentos. Chamava-se José Fernandes, e era o primeiro empregado da casa do Comendador Costa, onde entrara aos dez anos de idade, no mesmo dia em que chegara de Portugal. Por esse tempo veio ao mundo Antonieta. Ele vira-a nascer, crescer, instruir-se, fazer-se altiva e bela. Quantas vezes a trouxera ao colo, quantas vezes a acalentara nos braços ou a embalara no berço! E, alguns anos depois, era ainda ele quem todas as manhãs a levava e todas as tardes ia buscá-la ao colégio. Quando Antonieta chegou aos quinze anos e ele aos vinte e cinco, Seu José (era assim que lhe chamavam) notou que a sua afeição por aquela menina se transformava, tomando um carácter estranho e indefinível; mas calou-se, e começou de então por diante a viver do seu sonho e do seu tormento Mais tarde, todas as vezes que aparecia um novo pretendente à mão da moça, ele assustava-se, tremia, tinha acessos de ciúmes, que lhe causavam febre, mas o pretendente era, como todos os outros, repelido, e ele exultava na solidão e no silêncio do seu platonismo.
Materialmente, Seu José sacrificara-se pelo seu amor. Era ele, como se costuma dizer (não sei com que propriedade) o tombo da casa comercial do Comendador Costa; entretanto, depois de tantos anos de dedicação e amizade, a sua situação era ainda a de um simples empregado; o patrão, ingrato e egoísta, pagava-lhe em consideração e elogios o que lhe devia em fortuna. Mais de uma vez apareceram a Seu José ocasiões de trocar aquele emprego por uma situação mais vantajosa; ele, porém, não tinha ânimo de deixar a casa onde ao seu lado Antonieta nascera e crescera». In Artur Azevedo, Histórias Brejeiras, 1962, Projecto Livro Livre, nº 519, Iba Mendes, 2014.

Cortesia de IMendes/JDACT

segunda-feira, 27 de março de 2017

Poesia. Eróticas, Satíricas e Burlescas. Bocage. «Devoto incensador de mil deidades, (digo de moças mil) num só momento. Inimigo de hipócritas, e frades»

jdact

Auto-retrato
«Magro, de olhos azuis, carão moreno,

bem servido de pés, médio na altura,

triste de cara, o mesmo de figura,

nariz alto no meio, e não pequeno.


Incapaz de assistir num só terreno,

mais propenso ao furor do que à ternura,

bebendo em níveas mãos por taça escura

de zelos infernais letal veneno.



(digo de moças mil) num só momento.

Inimigo de hipócritas, e frades.


Eis Bocage, em quem luz algum talento;

saíram dele mesmo estas verdades

num dia, em que se achou cagando ao vento».


Soneto do membro monstruoso
«Esse disforme, e rígido porás

do rosto me faz perder a cor;

e assombrado de espanto, e de terror

dar mais de cinco passos para trás;


A espada do membrudo Ferrabrás

decerto não metia mais horror;

esse membro é capaz até de pôr

a amotinada Europa toda em paz.


Creio que nas f… recreações

não te hão de a rija máquina sofrer

os mais corridos, sórdidos cações;


de Vénus não desfrutas o prazer;

que esse monstro, que alojas nos calções,

é pi… de mostrar, não de f…»


Soneto (des)pejado
«Num capote embrulhado, ao pé de Armia,

que tinha perto a mãe o chá fazendo,

na linda mão lhe foi (oh céus) metendo

O meu …, que de amor fervia;


entre o susto, entre o pudor, a moça ardia;

e eu solapado os beijos remordendo,

pela fisga da saia a mão crescendo

a cha… saca… lhe fazia;


começa a … a menina... Ah! Que vergonha!

Que tens?, diz-lhe a mãe sobressaltada;

Não pôde ela encobrir na mão ...;


sufocada ficou, a mãe corada;

Finda a partida, e mais do que medonha

A noite começou à bofetada».
[…]


In Bocage, Poesia, Eróticas, Satíricas e Burlescas, Projecto Livro Livre, livro 270, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes, 2014.

Cortesia de IMendes/JDACT

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Começarão a fugir d'água do poço os que em vê-la somente tem espanto, que em pagodes, merendas e jantares empinar querem só de Baco os mares»

Cortesia de wikipedia e jdact

Festas bacanais. Argumento 
«(…) Fazem concílio os bêbados de porte,

opõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;

favorece-os o Catigela forte,

no Lamarosa tem seu lava-dente.

De inveja Lieo lhes busca a morte,

descendo a Monte-mor contra esta gente,

que vê em rio Mourinho a acção traidora,

e a Peramanca chega venceora.


XI

Ouvi, que não vereis com vãs façanhas

fantásticas, fingidas, mentirosas,

louvar os vossos, como nas estranhas

musas, de engrandecer-se desejosas:

bebedices dos vossos são tamanhas,

que excedem as sonhadas fabulosas,

que excedem ao primeiro vinhateiro,

e a Baco inda que fora verdadeiro.


XII

Por estes vos darei um Claudio fero,

que fez a Peramanca tal serviço,

um fulano Coutinho, que de mero

b borracha para ele só cobiço.

Pois pelos doze Pares dar-vos quero

uns doze que sobre um pobre chouriço

entornaram tão rijo que de cama

um monte lhes serviu de esterco e lama.


XIII

E se a troco de Nun'alvres e Barbança

ou do Luna quereis igual memória,

vede primeiro a Pedro, cuja lança

no beber escurece qualquer glória;

e aquele que do enxame a segurança

no copo só quis ter, por ter vitória;

aquele Diogo, invicto cavaleiro,

que em quatro não é quarto, mas primeiro.


XIV

Nem deixarão meus versos esquecidos

aqueles que na sede gastadora

se fizeram no copo tão subidos,

de Lieo a bandeira vencedora:

um Daniel fortíssimo e os temidos

lacaios, por quem sei que sempre chora

da Chamusca e Louredo o vinho forte,

e outros a quem Tétis causa a morte.


XV

Em quanto a estes canto, e a vós não posso,

bom Fernando, que não me atrevo a tanto,

essa mão alargai ao vinho vosso,

dareis matéria a nunca ouvido canto.


os que em vê-la somente tem espanto,

que em pagodes, merendas e jantares

empinar querem só de Baco os mares.


XVI

Em vós os olhos tem o Mouro frio,

frio, que usar de vós lhe não é dado;

pelo contrário o bárbaro gentio

com desejo de ver-vos 'stá squentado;

Peramanca o vermelho senhorio

vos tem s'enviuvais aparelhado;

que pois em dar seus bens sois brando e tenro,

deseja de comprar-vos para genro».

[…]



In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.

Cortesia de IbaMendes/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Não, padre. Nada disso. Esse homem, seja quem for, pede-nos ajuda, e já não lha podemos negar por mais tempo»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Subimos até ao meu pequeno estúdio, um recinto escuro lotado de caixas e manuscritos, de onde se dominava Roma inteira, e, mal a porta se fechou, o padre Torriani confirmou os meus temores: claro que vim por causa dessas benditas cartas!, protestou arqueando as suas sobrancelhas brancas. E se me pergunta quem penso que é o seu autor? Justo você, padre Leyre? Torriani respirou fundo. A sua natureza doentia lutava para se aquecer enquanto o vinho o ia ruborizando aos poucos. Do lado de fora, a neve recrudescia sobre o vale. A minha impressão, prosseguiu, é que o nosso homem tem de ser alguém do séquito do duque, ou algum irmão do novo convento de Santa Maria delle Grazie. Trata-se de uma pessoa que conhece bem os nossos costumes e que sabe a quem está encaminhando as suas cartas. Contudo… Contudo? Veja, padre Leyre: desde que li a carta que lhe dei a conhecer ontem, mal tenho dormido. Ali fora há alguém que nos avisa de uma grave traição contra a Igreja. O assunto é muito sério, especialmente se, como receio, o nosso informante proceder da comunidade de Santa Maria. Acredita que o Áugure é um dominicano, padre? Tenho quase a certeza disso. Alguém de dentro, uma testemunha do avanço do Mouro, que não se atreve a denunciá-lo por medo de represálias. E suponho que já tenha pesquisado a vida desses frades em busca do seu candidato, estou enganado? Torriani sorriu satisfeito: todos. Sem excepção. E a maioria procede de boas famílias lombardas. São religiosos leais ao Mouro e à Igreja, homens pouco afeitos a fantasias ou conspirações. Bons dominicanos, em suma. Não posso imaginar quem deles pode ser o Áugure. Se é que seja algum deles. Evidente. Permita que lhe recorde, mestre Torriani, que a Lombardia sempre foi terra de hereges.
O prior geral da ordem, friorento, sufocou um espirro antes de responder: isso foi há muito tempo, padre. Muito. Há mais de duzentos anos que não resta nenhum rasto da heresia cátara na região. É verdade que aqueles malditos que inspiraram o nosso amado São Domingos a criar a Santa Inquisição (maldita) se refugiaram ali depois da cruzada albigense, mas todos morreram sem poder contagiar ninguém com as suas ideias. Contudo, não se pode descartar que a sua blasfémia tenha penetrado a mentalidade dos milaneses. Senão, por que estes são tão abertos a ideias heterodoxas? Porque haveria o duque de aceitar crenças pagãs se ele mesmo não houvesse crescido num ambiente predisposto a isso? E porque razão, prossegui, um dominicano fiel a Roma haveria de se esconder por detrás de mensagens anónimas, não fosse porque ele mesmo participa da heresia que agora denuncia? Aldrabice, padre Leyre! O Áugure não é um cátaro. Ao contrário: preocupa-se em manter a ortodoxia com mais zelo que o próprio inquisidor geral de Carcassonne. Esta manhã, antes de o senhor chegar, li outra vez todas as cartas desse indivíduo anónimo. E o Áugure tem clareza de seu objectivo desde a primeira que nos mandou: deseja que enviemos alguém para deter os planos do Mouro em Santa Maria delle Grazie. É como se o que o duque fez no restante Milão, as praças, os canais para a navegação interna, as eclusas, não tivesse importância… E isso abona a sua hipótese. Torriani assentiu satisfeito.
Mas, mestre, eu o contradisse, antes de agir, deveríamos avaliar se o seu pedido encerra alguma armadilha. Como? Ainda pretende deixar o Áugure desamparado, apesar das provas que nos ofereceu? Mas se você mesmo, há tempos, vem denunciando os desvios doutrinais da falecida esposa do Mouro! Justamente. Essa família é astuta. Não será fácil encontrar argumentos contra eles. O que digo, é que devemos extremar a prudência antes de dar um passo em falso. Não, padre. Nada disso. Esse homem, seja quem for, pede-nos ajuda, e já não lha podemos negar por mais tempo. Além disso, sabe que, por meio do cardeal Ascânio, irmão do duque, comprovei até os mínimos detalhes que aparecem em seus informes. E acredite: todos são exactos. Exactos, repeti, enquanto tentava pôr em ordem as minhas ideias. Sabe de uma coisa? Creio que o que mais me surpreende neste assunto é a sua mudança de atitude, mestre Torriani. Não há mudança, protestou. Arquivei as cartas do Áugure enquanto não tinha provas sólidas que as respaldassem. Se não tivesse acreditado nelas, eu as teria destruído, não lhe parece?
Então, mestre, se ao nosso informante lhe assiste a verdade, se é um dominicano preocupado com o futuro do seu novo convento, porque o senhor acredita que ele esconde a sua identidade quando lhe escreve? Frei Gioacchino encolheu os ombros, devolvendo-me uma careta de perplexidade: quem dera eu soubesse, padre Leyre. E isso me preocupa. Quanto mais tempo passo sem respostas, mais me incomoda este assunto. São muitas as frentes que a nossa ordem mantém abertas nestes dias, e abrir mais uma ferida no seio da Igreja equivale a fazê-la esvair em sangue irremediavelmente. Por isso, chegou a hora de agir. Não podemos permitir que se repita em Milão o que já ocorre em Florença. Seria um desastre! Mais uma ferida. Hesitei quanto a trazer o assunto à baila, mas o silêncio de Torriani não me deixou alternativa: suponho que se esteja a referir ao padre Savonarola. E a quem mais? O ancião inspirou antes de prosseguir. A paciência do Santo Padre já acabou e já pensa em excomungá-lo. Os seus sermões contra a opulência do papa crescem em acritude; ainda por cima, as suas profecias sobre o fim da casa dos Medicis se cumpriram, e agora, seguido por uma multidão, anuncia grandes castigos do Senhor contra os Estados Pontifícios. Diz que Roma deve sofrer para purgar os seus pecados, e o maldito se alegra por isso. O pior, sabe o que é? É que a cada dia tem mais seguidores. Se por um acaso o duque de Milão aderisse a essa ideia de desastre, ninguém poderia deter o descrédito da nossa instituição». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «O vaticínio tão preciso do Áugure sugeria a existência de algum sinistro plano ocultista, talvez idealizado pelo duque Ludovico»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Frei Giovanni cumpriu sem hesitar a segunda parte da missão que lhe atribuiu o prior geral. Depois de nossa conversa e de me mostrar a última carta do Áugure, voltou à sede da ordem e deixou Betânia antes do anoitecer. Torriani havia-lhe ordenado que voltasse para informá-lo da minha reacção. Queria, principalmente, saber qual a minha opinião sobre os rumores a respeito de graves anomalias nas obras de reforma da Santa Maria delle Grazie. O meu assistente devia-lhe transmitir a minha mensagem, clara e simples: se, finalmente, levassem em consideração os meus velhos temores, e se somassem a eles, como prováveis, as revelações do Áugure, havia de localizar esse sujeito em Milão e saber dele, directamente, o alcance dos projectos secretos que o duque tinha para aquele convento. Haveremos de examinar, especialmente, os trabalhos de Leonardo da Vinci, insisti com frei Giovanni. Em Betânia, já temos conhecimento da sua afeição por mascarar ideias heterodoxas em obras de aparência piedosa. Leonardo trabalhou muitos anos em Florença, manteve contacto com os descendentes de Cosme, o Velho, e, entre todos os artistas que trabalham em Santa Maria, é o mais inclinado a partilhar das ideias do Mouro.
Gozzoli somou a minha outra grande preocupação ao seu relatório para o mestre Torriani: insisti na necessidade de abrir uma investigação sobre a morte de donna Beatrice. O vaticínio tão preciso do Áugure sugeria a existência de algum sinistro plano ocultista, talvez idealizado pelo duque Ludovico ou pelos seus pérfidos assessores, para implantar uma república pagã no coração da Itália. Embora não fizesse muito sentido que o duque mandasse assassinar a sua esposa e seu filho nonato, a mente dos adeptos das ciências ocultas discorria muitas vezes por caminhos imprevisíveis. Não era a primeira vez que ouvia falar da necessidade de sacrificar uma vítima renomada antes de empreender uma grande obra. Os antigos, esses bárbaros da Idade do Ouro, faziam isso com frequência. Suponho que a minha determinação animou Torriani.
O prior geral avisou o irmão Gozzoli das suas intenções, e na manhã seguinte, com a geada ainda em Roma, abandonou as suas dependências no convento de Santa Maria, disposto a acabar definitivamente com aquele problema. Desafiando os acessos nevados à Cidade Eterna, Torriani subiu de mula até ao quartel de Betânia e solicitou que eu o recebesse com a maior brevidade. Ainda ignoro que termos empregou o irmão Gozzoli para informá-lo sobre as minhas ideias, mas era evidente que o havia impressionado. Eu jamais vira o nosso superior assim: duas bolsas roxas pendiam verticalmente sob o seu olhar cinza, apagando-o; as suas costas pareciam se vergar sob o peso de uma responsabilidade soturna, devorando pouco a pouco seu carácter alegre e afundando
uns ombros que também languesciam cada vez mais. Torriani, mentor, guia e velho amigo, consumia o que lhe restava de vida com as marcas da decepção gravadas no rosto. Contudo, por trás do brilho de seus olhos se denotava uma sensação de urgência: pode receber um pobre servo de Deus molhado e doente?, disse assim que me viu no átrio de Betânia. Eu mentiria se jurasse que não me surpreendi ao encontrá-lo ali tão cedo. Havia subido até ao nosso posto sozinho, sem séquito, com uma manta sobre o hábito e as sandálias cobertas por peles de coelho. Se o superior da Ordem de São Domingos abandonava assim a nossa sede e a sua paróquia e atravessava a cidade em pleno temporal para se encontrar com o responsável por seu serviço de informação, o assunto devia ser gravíssimo. E, embora o seu rosto sombrio convidasse a iniciar a conversa o quanto antes, não me atrevi a lhe perguntar nada. Aguardei até que tirasse os seus andrajos e terminasse a taça de vinho quente que lhe ofereci». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

Um Gato de Rua Chamado Bob. James Bowen. «Havia nele uma confiança calma e imperturbável. Parecia estar muito bem acomodado ali nas sombras e, a julgar pela forma como me fitava com um olhar firme»

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«Há uma citação famosa que li em algum lugar. Ela diz que recebemos segundas chances a cada dia de nossas vidas. Elas estão ali para serem agarradas, só que não costumamos agarrá-las. Passei grande parte da vida provando essa citação. Deram-me um monte de oportunidades, às vezes a cada dia. Por um longo tempo, falhei em não agarrar nenhuma delas, mas depois, no início da Primavera de 2007, isso finalmente começou a mudar. Foi quando fiz amizade com Bob. Olhando para trás, algo me diz que aquela pode ter sido a segunda chance dele também. A primeira vez que o encontrei foi numa sombria noite de quinta-feira, em Março. Londres ainda não havia se livrado do Inverno e ainda havia um frio cortante nas ruas, especialmente quando os ventos sopravam do Tamisa. Havia até mesmo um indício de geada no ar naquela noite, razão pela qual retornei para minha nova moradia subvencionada em Tottenham, no norte de Londres, um pouco mais cedo do que o habitual, depois de um dia fazendo apresentações de rua na região de Covent Garden. Como sempre, trazia o meu estojo de guitarra preto e a mochila pendurados nos ombros, mas naquela noite também tinha comigo a minha amiga mais próxima, Belle.
Nós havíamos saído juntos anos atrás, mas, agora, éramos apenas colegas. Pretendíamos comer alguma comida pronta e barata com curry e assistir a um filme na pequena televisão a preto e branco que eu conseguira encontrar numa loja de caridade virando a esquina. Como de costume, o elevador do prédio não estava a funcionar. Por isso, dirigimo-nos para o primeiro lance de escadas, resignados em encarar a longa subida até ao quinto andar. A lâmpada fluorescente no corredor estava queimada e parte do térreo estava imersa na escuridão, mas, enquanto caminhávamos para a escada, não pude deixar de notar um par de olhos brilhantes nas sombras. Quando ouvi um miado suave e ligeiramente melancólico, percebi o que era. Chegando mais perto, à meia-luz, vi um gato laranja enrolado sobre o capacho de um dos apartamentos do andar térreo, no acesso que partia do corredor principal. Cresci no meio de gatos e sempre tive certa queda por eles. Ao me mover até ele para olhá-lo melhor, constatei que se tratava de um macho. Eu não o havia visto antes perto dos apartamentos, mas, mesmo na escuridão, pude notar que havia algo de especial nele. Eu já era capaz de afirmar que ele tinha certa personalidade. Ele não estava nem um pouco nervoso; na verdade, era exactamente o oposto. Havia nele uma confiança calma e imperturbável. Parecia estar muito bem acomodado ali nas sombras e, a julgar pela forma como me fitava com um olhar firme, curioso e inteligente, era eu quem estava entrando no seu território. Era como se ele estivesse dizendo-me: então, quem és tu e o que e o fazes aqui?.
Não pude resistir a me ajoelhar e me apresentar. Olá, companheiro. Eu nunca te vi antes, moras aqui?, disse. Ele apenas olhou para mim com a mesma expressão compenetrada e um pouco distante, como se ainda me estivesse a avaliar. Decidi acariciar o seu pescoço, em parte para ser amigável, mas também, em parte, para ver se ele usava uma coleira ou qualquer forma de identificação. Era difícil ter a certeza no escuro, mas percebi que não havia nada, o que imediatamente me sugeriu que ele fosse um gato de rua. Londres tinha mais do que a sua justa cota deles. Ele pareceu estar a gostar do carinho e começou a se esfregar levemente contra mim. Enquanto eu o acariciava um pouco mais, pude perceber que sua pelagem estava em mau estado, com trechos irregulares sem pelos aqui e ali. Claramente, estava a necessitar de uma boa refeição. E, pela maneira como se esfregava contra mim, também precisava de uma boa dose de amor. Pobrezinho, acho que é um vira-lata. Ele não tem coleira e está muito magro, disse, olhando para Belle, que me esperava pacientemente ao pé da escada. Ela sabia que eu tinha um fraco por gatos. Não, James, tu não pode ficar com ele, disse ela, apontando para a porta do apartamento em frente à qual o gato estava sentado. Ele não pode ter simplesmente aparecido aqui e acomodado nesse local. Deve pertencer a quem vive aí. Provavelmente está esperando que a pessoa volte para casa e o deixe entrar. Relutantemente, concordei com ela. Eu não podia simplesmente pegar o gato e levá-lo para casa comigo, mesmo que todos os sinais indicassem que ele realmente não tinha um lar». In James Bowen, Um Gato de Rua Chamado Bob, 2012, Editora Novo Conceito, cdd 636-70929, 2013, ISBN 978-858-163-152-3 ou ISBN 978-858-163-291-9.

Cortesia de ENConceito/JDACT

Número Zero. Umberto Eco. «Mas o que espera o Comendador desta experiência? O Comendador pretende entrar no salão reservado da finança, dos bancos»

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«(…) Compreendi. Mas, se quiser que eu colabore lealmente, talvez seja bom me dizer quem paga, porque existe o projecto Amanhã, porque ele talvez não dê certo e o que é que vai dizer no livro que, modéstia à parte, será escrito por mim. Pois bem, quem paga é o comendador Vimercate. Deve ter ouvido falar dele... Sei quem é Vimercate, de vez em quando aparece nos jornais: controla dezenas de hotéis na costa Adriática, muitas casas de repouso para aposentados e inválidos, uma série de negócios variados sobre os quais correm imensos rumores, algumas televisões locais que começam a transmitir às onze da noite só leilões, televendas e alguns shows licencioso… E umas vinte publicações. Revistazecas, parece-me, fofocas sobre celebridades como Loro, Peeping Tom, e semanários sobre inquéritos judiciais como O Crime Ilustrado, O Que Se Esconde, porcarias, trash. Não, também revistas especializadas, jardinagem, viagens, automóveis, veleiros, O Médico em Casa. Um império. É bonito este escritório, não é? Até temos um ficus, uma figueira-da borracha, como os manda-chuvas da RAI. E temos à disposição um open space, como se diz na América, para os redactores; um pequeno estúdio para si, pequeno mas digno, e uma sala para o arquivo. Tudo grátis, neste prédio que reúne todas as empresas do Comendador. Quanto ao resto, a produção e a impressão dos números zero far-se-ão com o aparelho das outras revistas; assim o custo da experiência reduz-se de forma aceitável. E estamos praticamente no centro, não como os grandes diários que, hoje em dia, é preciso apanhar dois metros e um autocarro para lá chegar.
Mas o que espera o Comendador desta experiência? O Comendador pretende entrar no salão reservado da finança, dos bancos, e mesmo dos grandes jornais. O meio é a promessa de um novo jornal disposto a dizer a verdade sobre tudo. Doze números zero, digamos 0/1, 0/2, e por aí fora, publicados em pouquíssimos exemplares reservados que o Comendador avaliará e depois fará com que sejam vistos por pessoas que ele lá sabe. Quando o Comendador demonstrar que pode pôr em dificuldades aquilo que se chama de clube de elite das finanças e da política, é provável que o clube de elite lhe peça para parar com essa ideia, então ele desiste do Amanhã e consegue licença para entrar no clube de elite. Imagine, só para dar um exemplo, que apenas uns dois por cento de acções de um grande diário, de um banco, de um canal de televisão importante. Eu assobiara: dois por cento é muito! Ele tem dinheiro para um empreendimento desse tipo? Não seja ingénuo. Estamos falando de finanças, não de comércio. Primeiro compras, depois tratarás de que o dinheiro para pagar te chegue.
Compreendi. E também compreendo que a experiência só vai funcionar se o Comendador não disser que no fim o jornal não vai sair. Todos deverão acreditar que as suas rotativas estão a patear, por assim dizer... Naturalmente. Que o jornal não sairá, o Comendador não o disse nem a mim, simplesmente suspeito, ou seja, tenho certeza. E os nossos colaboradores não vão poder saber disso; vamos vê-los amanhã: eles precisarão trabalhar achando que estão a construir o seu futuro. Só eu e você é que estamos a par desta história. Mas o que ganha você com isso, se depois escreve tudo o que fizeram durante um ano para favorecer a chantagem do Comendador? Não use a palavra chantagem. Nós publicaremos, como diz o New York Times, all the news that’s fit to print... e talvez mais alguma… » In Umberto Eco, Número Zero, 2015, tradução de José Vaz Carvalho, Gradiva Publicações, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-616-643-4.

Cortesia de Gradiva/JDACT

O Tesouro do Templo. Eliette Abécassis. «Havia ali mil e cem túmulos profanados, com ossadas alinhadas num eixo de norte para sul, em que os esqueletos se achavam estendidos sobre as costas»

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«(…) A sul, Sodoma, destruída pelo fogo celestial, testemunha do cataclismo que, um dia, castigara a região. O cheiro a enxofre e as formas tenebrosas, esculpidas na areia e na rocha, revelam o império da destruição, o princípio do fim. Fora por isso que, dois mil anos antes, os essénios se haviam refugiado neste deserto, que se estende, a leste de Jerusalém, até à grande depressão do Ghor, onde o rio Jordão desagua no mar Morto, um deserto calmo e silencioso no qual se pode crer no fim dos tempos. A sul do nosso deserto, estende-se um outro, e a sul desse um outro ainda, onde Moisés recebeu as Tábuas da Lei. Em cada um desses desertos existem pastores imemoriais, testemunhas dos tempos, e os homens retiram-se do mundo para ir habitar o nosso deserto e deixar-se habitar por ele. Ao meio-dia, cheguei ao local do crime. O calor era sufocante. Passara em frente das grutas onde foram descobertos os restos de cerca de mil manuscritos, alguns remontando ao século III a.C., que tinham pertencido à nossa seita. Fora em 1947 que havia sido encontrado o primeiro jarro e assim começara a estranha história dos manuscritos do mar Morto, a descoberta arqueológica mais extraordinária de sempre. Desde os tempos em que aquele local era visitado em peregrinação, acreditava-se que nada de novo existia sob o solo da Judeia. Ao longo de dois milénios, os homens passavam ao lado daquele tesouro, ignorando que aqueles rolos de manuscritos, milagrosamente conservados em jarros, datavam da época de Jesus e se encontravam escondidos nas grutas de Qumran, em pleno deserto da Judeia, perto do mar Morto, a trinta quilómetros de Jerusalém.
Quando, em 1999, o grande sacerdote Osée, que participara na descoberta, fora encontrado crucificado na igreja ortodoxa de Jerusalém, a minha história pessoal cruzara-se com a dos manuscritos do mar Morto. Fora-lhe roubado um dos rolos e Shimon Delam, comandante do exército israelita, procurara meu pai, para lhe pedir que o ajudasse nas investigações. E eu, Ary, seu filho, havia-o acompanhado. Naquelas mesmas grutas, eu descobrira que, ao longo de inúmeras gerações, homens tinham vivido ali, sem que ninguém o soubesse, guardando e copiando os rolos de pergaminhos que constituíam os seus textos sagrados. Após mais meia hora de caminhada, alcancei a margem do mar Morto, e dirigi-me ao penhasco onde se achavam as ruínas de Khirbet Qumran. O local, selado pela polícia, estava deserto, aquela hora em que o Sol atingia o zénite. Passando por baixo do cordão que cercava o local do crime, avancei até ao cemitério contíguo às ruínas. Meu Deus! Como desejaria não me aventurar naquele vale de lágrimas, como gostaria de poder afirmar: não, não estive aqui, nada sei nem quero saber, nada vi, para não ser forçado a contemplar a terrível visão que se me deparou. Havia ali mil e cem túmulos profanados, com ossadas alinhadas num eixo de norte para sul, em que os esqueletos se achavam estendidos sobre as costas, com as cabeças viradas para sul. Existia ali um vale de ossadas expostas e eu ignorava porquê. Não soprava a menor brisa e, no entanto, parecia-me escutar como que um murmúrio: eram vozes, as vozes dos mortos, que se erguiam, na minha direcção, como se saíssem dos túmulos. As vozes de antepassados, atraídas pela santidade, pela pureza do acto e da intenção, que habitavam o último refúgio das suas aspirações, onde os homens zelavam ardentemente pelo cumprimento da lei de Moisés, onde aqueles essénios, os últimos dos últimos, cuja derradeira morada fora o deserto árido, tentavam, para lá dos seus túmulos, inspirar a Judeia, para que nunca se rendesse. A imensa progenitura de Judá e de Benjamin, tudo fazia por espalhar a mensagem e preservar a história de um povo. Foi então que reparei numa pequena cruz, perto de um aglomerado de pedregulhos e, quando ergui a cabeça, avistei o altar de pedra, erigido no meio do cemitério profanado, onde se procedera ao sacrifício. Uma faixa de plástico vermelho contornava-o e fora traçada, com giz branco, a silhueta de um homem. Tinham-lhe atado os pés e as mãos, antes de o matar, e degolado, como se fosse um cordeiro, em cima do altar, e sacrificado pelo fogo, que lançara o odor infame daquele homem em direcção ao Senhor. Havia sido necessário amarrá-lo firmemente, de modo a que ficasse completamente imobilizado e com o corpo retorcido, antes de lhe segurarem, com força, o pescoço e de lhe abrirem com um punhal de lâmina afiada. Fora preciso deixar que o seu sangue escorresse, a sua carne ardesse, até o fumo se elevar no ar. Por baixo, viam-se vestígios do lume, cinzas a toda a volta e, no altar, sete marcas de sangue». In Eliette Abécassis, O Tesouro do Templo, 2001, tradução de Catarina Lima, Círculo de Leitores, ISBN 972-423-086-4, Editora Livros do Brasil, Colecção Suores Frios, 2003, ISBN 978-972-382-671-5.

Cortesia de CL/ELBrasil/JDACT

domingo, 26 de março de 2017

A Rosa de Sebastopol. Katharine Mc Mahon. «O meu querido, querido menino. Nunca te esqueças da tua Mamã, do muito que ela te amou»

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«(…) Ele apontou para uma minúscula moldura de madeira lisa, talvez com dez centímetros por sete e meio, que enquadrava um retrato de Eppie aparentemente nos seus tempos áureos, antes da penúria. Anéis de cabelo brilhante enfeitavam-lhe o rosto miúdo e do colo nu emergia o pescoço alongado. Envergava um vestido com a cintura subida que se lhe colava ao peito, apesar do amplo decote em V que terminava nos ombros. Posava quase de perfil, de tal modo que olhava algures para a direita do artista e ostentava um sorriso tímido, como se preferisse não ser o alvo das atenções. As outras relíquias da tia Eppie eram um par de luvas brancas de pelica com botões de pérola, um pouco encardidas na ponta dos dedos. Cheirei-as porque sabia que o perfume permanecia nas luvas, e lembrei-me imediatamente do aroma a água de rosas e do odor a transpiração que sempre a tinham caracterizado. Havia um pequeno guarda-jóias com flores bordadas na parte de cima, forro de seda e um espelho no interior da tampa. O anel de noivado de Eppie com uma fiada de três pequenos diamantes, que eu conhecia tão bem dos tempos da costura, estava embrulhado num pedaço de tecido amarrotado, junto de uma folha de papel dobrada de modo a caber exactamente na caixa. Nela, Eppie escrevera com uma mão pouco firme: para o Harry. O meu querido, querido menino. Nunca te esqueças da tua Mamã, do muito que ela te amou. Era muito meiga, a tua mãe, disse eu em surdina. Deixou-me a sua caixa de costura. Sabias?
Henry não respondeu. Agarrei-me ao seu pescoço e tentei abraçá-lo, mas ele não reagiu; continuava esquivo como no dia em que chegara. Pouco depois, desisti e afastei-me, mas, ao chegar à porta, ouvi um som roufenho e terrível que lhe saía da garganta e, quase sem dar por isso, encontrei-me sentada na cama, com a cabeça dele enterrada no meu regaço. Os meus dedos acariciaram-lhe o cabelo e a saia do meu vestido de algodão ficou quente e húmida com as suas lágrimas. Os seus soluços vinham das profundezas do corpo, e ele agarrou-se ao meu braço e às minhas costas. Por fim, recompôs-se e fitou-me, com o rosto molhado. Agora, terás de ser tudo para mim, Mariella.
A tia de Derbyshire não conseguiu operar um milagre no pai de Henry (o infeliz e incapaz Richard Thewell), que foi a enterrar passados dois verões. Entretanto, Henry desapareceu no longo túnel que era a aprendizagem da medicina, absorvido por uma série interminável de palestras e exames de disciplinas tão inatingíveis como a Química e a Fisiologia. Ambicionava ser cirurgião, e desconfio de que o meu pai lhe pagou muitas contas. De vez em quando, ao domingo à tarde, aparecia para beber uma chávena de chá à pressa, despejar informações fragmentadas sobre gessos, assistentes de cirurgia e turnos de trinta e seis horas sem sono, e partia uma hora depois, carregado de carnes frias e bolos preparados com esmero pela nossa cozinheira.
Os negócios do Pai prosperaram e, passado pouco tempo, já ele administrava vários projectos ao mesmo tempo e fora convidado a integrar diversos conselhos de administração e comissões ligados ao planeamento e às obras públicas. A Mãe andava mais atarefada do que nunca a dar aulas de catequese, a angariar dinheiro para a Female Aid Society e a visitar doentes em hospitais. Eu frequentava uma escola diurna, onde aprendi a tocar pianoforte, Francês, Aritmética e regras de conduta. Graças à tia Eppie, destacava-me na arte da costura». In Katharine Mc Mahon, A Rosa de Sebastopol, 2007, tradução de Filomena Duarte, Casa das Letras, 2010, ISBN 978-972-461-938-5.

Cortesia de CdasLetras/JDACT