sábado, 19 de agosto de 2017

A Princesa Traída por Pedro e Inês. Isabel Machado. «Abanei furiosamente a cabeça, tolhida para falar ou fugir dali. Tentei enxotá-lo de mim, esticando os braços para impor maior distância entre os nossos corpos»

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«E não sei qual foi mais desgraçada
se a zelosa esposa desdenhada
se a desditosa e sedutora amante...

Mas Constança, acredito, preferia
ter a morte de Inês, morte sombria
e ser amada do menos um instante!»
Luís de Camões, “Sonetos”

Constança
Castelo de Toro, Castela, 1328
«Libertai-me, senhor. À súplica soltara-se contra a minha vontade. Tentei aparrar-me do abraço forçado do rei de Castela e Leão, que me aprisionava o corpo. Afonso XI passou o rosto pela minha face e aflorou-me os lábios com os seus, enquanto me mantinha as mãos presas como uma condenada. Como vos sinto a falta, Constança, sibilou o jovem monarca, na sua voz suave e enganadora. O hálito quente bafejava-me o pescoço. A minha rejeição foi afrouxando e acabei por deixar-me ir naquela ilusão de bem-querença. A privação de afecto vencera, como de outras vezes, sempre que o rei aparecia do nada, tomando-me nos braços. Eu sabia que aquele roubo de ternura era condenado, mas não encontrava força nem desejo de lhe resistir. A solidão, amargurada e aflita, empurrava-me para o fugaz consolo do calor de uma pele sobre outra, para as suas palavras hábeis, com o suor a escorrer-me pelas costas de mulher-criança, de carne desperta para sensações que amaldiçoavam a alma e fraquejavam os sentidos.
Amava-o, apesar de tudo. Como se podia amar intensamente aos 10 anos, quando se crescera demasiado depressa, atirada com violência para o mundo dos adultos. E amava com a cegueira que a rejeição sempre atiçava. A vossa beleza entontece-me, tornou ele, volvido ainda mais meigo. E conduziu-me a mão pela sua face, de olhos cerrados. Eu abri os meus e demorei-me nele, vendo-o belo e confiando no seu enamoramento, com a escravatura do medo e da ilusão a condicionar-me o raciocínio. Sois minha, disse, repentinamente, alterado o tom de voz para a hostilidade que sempre acabava por se impor, desmoronando-se o fingimento, na dualidade de carácter do homem sinuoso que ocupava o trono de Castela e Leão e inquietava toda a Península.
Abanei furiosamente a cabeça, tolhida para falar ou fugir dali. Tentei enxotá-lo de mim, esticando os braços para impor maior distância entre os nossos corpos, mas nem o rei se afastou nem eu me senti melhor com a minha ousadia: Afonso XI soltava gargalhadas, o rosto contorcido a tomar as feições do Demo. Era esse o papel que melhor lhe assentava, quando deixava cair a máscara e mostrava toda a perfídia de que era feito. Pela frincha da porta, Violante Alarcón, a ama de quem eu bebera o leite, observava-nos. Impossibilitada de vir em meu auxílio, agarrava-se à fé de que o rei nunca fosse longe de mais, servindo-se do meu corpo intocado de donzela». In Isabel Machado, Constança, A Princesa Traída por Pedro e Inês, A Esfera dos Livros, 2015, ISBN 978-989-626-718-6.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Raparigas da Província. Edna O’Brien. «O único legume que se plantava era couve. Mas agora eu já falava menos em casamento. Em primeiro lugar porque ele nunca se lavava»

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«Acordei num instante e sentei-me na cama bruscamente. Só quando estou ansiosa é que acordo com facilidade; durante um minuto não percebi por que motivo o meu coração batia mais depressa do que o habitual. Depois lembrei-me. O motivo do costume. Ele não viera para casa. Ao levantar-me, fiquei um instante na beira da cama a alisar a colcha de cetim verde com a mão. Eu e a mãe tínhamo-nos esquecido de a dobrar na noite anterior. Deslizei para o chão devagar e senti o frio do linóleo na sola dos pés. Encolhi os dedos instintivamente. Eu tinha chinelos, mas a mãe queria que os poupasse para quando ia visitar as tias e os primos; também tínhamos tapetes, mas ficavam enrolados e metidos em gavetas até chegarem as visitas de Dublin, no Verão. Calcei os soquetes. Da cozinha vinha um cheiro a bacon frito, mas não me entusiasmou. Depois fui levantar a persiana. Subiu de repente e a fita ficou enrolada em volta dela. Foi uma sorte a mãe já ter ido para baixo, pois ela estava sempre a ensinar-me a levantar as persianas como deve ser, com delicadeza.
O Sol ainda não se erguera e a relva estava salpicada de boninas profundamente adormecidas. Havia orvalho por todo o lado. A erva por baixo da minha janela, a sebe em redor, o arame enferrujado da vedação, mais atrás, e os extensos campos no seu exterior, todos eram afagados por uma névoa delicada e errante. As folhas e as árvores estavam molhadas da neblina, e as árvores pareciam irreais, como se fizessem parte de um sonho. Em torno dos miosótis que despontavam dos lados da sebe viam-se auréolas de água. Água que cintilava como prata. Estava tudo sossegado, perfeitamente sereno. Das montanhas ao longe evolava-se fumo. O dia ia ser quente.
Vendo-me à janela, Bull's-Eye saiu de debaixo da sebe, sacudiu-se para expulsar a água e ergueu para mim o olhar preguiçoso e triste. Era o nosso cão pastor e pus-lhe o nome de Bull's-Eye porque os olhos dele eram às manchas brancas e pretas, como os rebuçados enlatados. Costumava dormir na casa da turfa, mas na noite passada ficou na toca de coelho por baixo da sebe. Ficava sempre lá para estar de guarda quando o papá não dormia em casa. Nem era preciso perguntar, o meu pai não viera para casa. Nesse instante Hickey chamou lá de baixo. Eu estava a despir a camisa de noite e, com ela a passar-me pela cabeça, a princípio não o ouvi. O quê? O que dizes?, perguntei, saindo para o patamar com a colcha de cetim em volta do corpo.
Safa, já estou rouco de dizer isto. Sorriu para mim e perguntou: queres um ovo branco ou castanho para o pequeno-almoço?
Pergunta-me com delicadeza, Hickey, e chama-me amorzinho. Amorzinho. Meu coração. Queridinha. Favo de mel, queres um ovo branco ou um ovo castanho para o pequeno-almoço? Um castanho, Hickey. Tenho um lindo ovinho de franga para ti, disse ele, voltando para a cozinha. Bateu com a porta. A mamã nunca conseguiu habituá-lo a fechar as portas com delicadeza. Era o nosso serviçal e eu amava-o. Para confirmar, disse-o em voz alta à Virgem Maria, que me olhava com frieza de uma moldura dourada. Amo o Hickey, disse eu. Ela não disse nada. Admirava-me que não falasse mais vezes. Uma vez falou comigo e o que disse foi muito íntimo. Aconteceu no meio da noite, quando me levantei para dizer um desejo. Todas as noites me levantava seis ou sete vezes, como um acto de penitência. Tinha medo do inferno. Sim, amo o Hickey, pensei; mas é claro que o que eu queria dizer era que gostava muito dele. Quando tinha sete ou oito anos, costumava dizer que havia de casar com ele. Dizia a toda a gente, incluindo a catequista, que íamos viver na capoeira e tínhamos ovos de borla, e leite e legumes que a mamã nos dava.
O único legume que se plantava era couve. Mas agora eu já falava menos em casamento. Em primeiro lugar porque ele nunca se lavava, exceptuando os borrifos de água da chuva que atirava para a cara à tardinha, debruçando-se sobre o barril. Tinha os dentes verdes e a última coisa que fazia à noite era urinar para uma lata de pêssego que guardava debaixo da cama. A mamã ralhava com ele. Costumava ficar acordada na cama à espera de ele vir para casa, à espera de o ouvir levantar a janela para despejar a lata de pêssego lá para fora, para o lajeado». In Edna O’Brien, Raparigas da Província, 1960, Relógio D’Água, 2010, ISBN 978-989-641-176-3.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Manique do Intendente. Uma Vila Iluminista. «José Manuel Carvalho Negreiros escreveu, em 1792, a “Jornada pelo Tejo”, em que também ele sugere a forma mais correcta e eficaz de construir as novas cidades e reformular as antigas»

jdact e wikipedia

Urbanismo: o Contexto Europeu. A engenharia militar e a tratadística
«(…) Cada povoação teria no centro uma praça, áreas de terra plana e figura quadrilátera, e são como salas da cidade, localizada no centro do quadrado, e cresceria em torno desta de forma igualitária, de modo a todos os pontos se encontrarem à mesma distância da praça principal. As ruas que saem da praça central são consideradas também elas ruas principais, havendo subjacente uma hierarquia viária. As estradas que ligam umas povoações às outras fazem-no em linha recta e partem das suas ruas centrais. As praças teriam dimensões segundo a extensão e importância das povoações (capital, 125 braças de lado; província, 96 braças de lado; vila, 65 braças de lado; paróquia, 36 braças de lado). Relativamente às funções presentes, o autor propõe localizar aí o palácio real, a catedral, o Tesouro Real, a casa do Senado e da Câmara. Outros edifícios que devem ter frente para uma praça, ainda que não necessariamente para a principal, são os conventos, o arsenal das munições reais, as cavalariças militares, os armazéns de contrato real e o açougue. As igrejas paroquiais, os palácios dos fidalgos e os conventos menores, se não tiverem frente para uma praça, deverão situar-se numa das ruas centrais.
Também os edifícios habitacionais teriam medidas estandardizadas e fachadas normalizadas. As casas seriam constituídas por 4 pisos, num total de 75 palmos de altura (16,5 m). Figueiredo Seixas apresenta mesmo desenhos (plantas e alçados) das casas que constituiriam as novas povoações. Na segunda parte do tratado, trata das questões práticas do planeamento e execução do seu projecto. Fala da realização de mapas com o levantamento das situações existentes, e do seu cruzamento com a situação ideal, de forma a ir substituindo edificações e regularizando as ruas e praças. Esses mapas teriam também a função de re-distribuir os terrenos pelos proprietários, sem prejuízo para ninguém. Acredita que é possível em 40 anos ter todo o reino arruado da forma que propõe. Descreve igualmente nesta parte do tratado como fazer a quadrícula no terreno, usando diversos instrumentos, superando os obstáculos, como desníveis do terreno e linhas de água.
José Manuel Carvalho Negreiros escreveu, em 1792, a Jornada pelo Tejo, em que também ele sugere a forma mais correcta e eficaz de construir as novas cidades e reformular as antigas, onde a tónica assenta numa perspectiva de desenvolvimento das actividades económicas, melhoria das condições de vida dos cidadãos, em suma, progresso do país, os motivos que devem interessar a todo o bom Patriota. Paulo Varela Gomes refere que as ideias e projectos do urbanismo de JMCN distinguem-se do Tratado de Ruação de Seixas por um realismo muito maior; Carvalho Negreiros menciona a adequação aos lugares (climas, solos e água), prevê canalizações, aquedutos, fossas.
O autor descreve o modo como devem ser construídos alguns equipamentos públicos (Alfândega, Açougue, Cadeia, Casa de Câmara, Igreja, Palácio Real, com particular atenção aos aquartelamentos militares), como se devem constituir as povoações e os terrenos agrícolas, aproveitando os baldios improdutivos. Descreve em termos gerais a constituição de habitações para pessoas de ocupações e condições variadas. Alonga-se a explicar o funcionamento da casa para um lavrador, com as suas diversas dependências agrupadas em torno de pátios. Relativamente às estradas, fala de materiais, de modos de construção, do escoamento das águas, da existência de passeios lajeados, guarnecidos de árvores e de chafarizes e de dimensões: a rua teria 40 palmos (8,8 m) e cada um dos passeios laterais 10 palmos (2,2 m).
O objectivo era torná-las o mais próximo possível da linha recta, sem grandes desníveis, cómodas aos viajantes. Para ele o sistema viário é preponderante e refere que alguns povos, como os romanos, e nações estrangeiras já tiveram essa preocupação. Menciona ingleses, franceses e espanhóis, elogiando no último caso a obra do monarca Carlos III. As praças são também um elemento indispensável, por questões de segurança sísmica e de protecção contra incêndios (o terramoto de 1755 estava ainda bem presente, nas suas consequências desastrosas) e desafogo dos habitantes no interior das povoações. Carvalho Negreiros sugere igualmente a sua existência em estradas rurais. As praças, excepção feita às destinadas a exercícios militares, deviam ser ornadas com colossos, pirâmides, colunas, chafarizes, e fachadas de Palácios e Igrejas, assim como edifícios públicos de variadas qualidades. Mas existirão praças com diferentes usos (comércio de produtos frescos, feiras, artesãos), e uma hierarquia implícita a esses usos. Também as ruas devem ser hierarquizadas por funções, havendo ruas dedicadas a diferentes artesãos e comerciantes, assim como ruas nobres». In Cátia Gonçalves Marques, Departamento de Arquitectura da FCTUC, Junho de 2004.

Cortesia de FCTUC/JDACT

O Harém de Kadafi. Annick Cojean. «Frequentávamos a mesma escola, e da parte dele eu sentia um misto de protecção e ciúme. Eu lhe servia como mensageira para possíveis namoradinhas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eu corria para lá logo que a aula terminava. Ali, eu renascia. Que prazer eu tinha! Primeiro, por ajudar a mãe, o que era delicioso. Depois, porque gostava do trabalho. Minha mãe não parava, passava de uma cliente para outra, mesmo tendo quatro funcionárias. Fazíamos cabelo, estética, maquiagem... E definitivamente posso dizer que, em Sirte, as mulheres, por mais que se escondam atrás do véu, têm sofisticação e exigência incríveis. A minha especialidade era depilação de rosto e sobrancelha com fio de seda, sim, um simples fio que eu enlaçava entre os dedos e movimentava bem rápido para arrancar os pelos. Bem melhor que pinça ou cera. E então eu preparava o rosto para a maquiagem, passava base; minha mãe fazia a parte mais geral, trabalhava os olhos, daí chamava: Soraya! O toque final! Então eu passava o batom, dava uma olhada no conjunto e acrescentava uma gota de perfume.
O salão logo se tornou o ponto de encontro das mulheres chiques da cidade. Portanto, daquelas do clã de Kadafi. Quando havia eventos internacionais em Sirte, mulheres de diferentes delegações vinham-se embelezar, esposas de presidentes africanos, de chefes de Estado europeus e americanos. É engraçado, mas lembro muito bem da mulher do presidente da Nicarágua, querendo que eu lhe desenhasse olhos imensos sob um coque enorme... Certa vez, Judia, a chefe de protocolo da esposa do Guia, apareceu num carro procurando a mãe para pentear e maquilhar a sua patroa. Era a prova de que minha mãe adquirira grande reputação! Ela foi e passou horas ocupando-se de Safia Farkash, que lhe pagou um valor ridículo, muito abaixo do preço normal. Minha mãe ficou furiosa, sentiu-se humilhada. Então, quando Judia veio procurá-la da próxima vez, ela pura e simplesmente recusou, alegando estar com excesso de trabalho. Noutra ocasião chegou a esconder-se, encarregando-me de dizer que não estava. Minha mãe tinha personalidade. Jamais se curvava.
As mulheres da tribo de Kadafi eram em geral detestáveis. Se eu me dirigisse a uma delas para perguntar, por exemplo, se desejava um corte ou uma pintura, ela me olhava com desdém: quem é você para me dirigir a palavra? Certa manhã, umas delas chegou ao salão elegante, sunptuosa. Fiquei fascinada com o seu visual. Como a senhora é linda!, disse espontaneamente. Ela me respondeu com uma bofetada na cara. Fiquei estarrecida e corri para contar à mãe, que murmurou entre os dentes: cala a boca. A cliente tem sempre razão. Três meses depois, vi, angustiada, a mesma mulher abrir a porta do salão. Ela veio até mim, disse que a sua filha, que tinha a minha idade, acabara de morrer de cancro e me pediu desculpas. Foi ainda mais inesperado que a bofetada.
Outra vez, uma moça que se ia casar reservou o salão para o dia da noiva. Adiantou uma pequena parte e depois cancelou. Como a mãe se recusou a reembolsá-la, ela ficou possessa. Urrava, destruindo tudo que visse pela frente, e contou ao clã de Kadafi, que apareceu em peso e acabou com o salão. Um de meus irmãos chegou para acudir e foi espancado. Quando a polícia chegou, ele é quem foi para a cadeia. Os Kadafi fizeram de tudo para que ele ficasse preso o maior tempo possível, e foi preciso uma longa negociação entre tribos para que se chegasse a um acordo, seguido de perdão. Ele foi libertado depois de seis meses, com a cabeça raspada e o corpo coberto de hematomas. Tinha sido torturado. E, apesar do acordo, os Kadafi, que estavam à frente de todas as instituições de Sirte, incluindo a autarquia, ainda se juntaram para impor o fecho do salão por um mês. Fiquei revoltada.
Meu irmão mais velho, Nasser, me dava um pouco de medo e mantinha comigo uma relação de autoridade. Mas Aziz, nascido um ano antes de mim, era como um irmão gémeo, um verdadeiro cúmplice. Frequentávamos a mesma escola, e da parte dele eu sentia um misto de protecção e ciúme. Eu lhe servia como mensageira para possíveis namoradinhas. Já eu nem sonhava com o amor. De forma nenhuma. Nem me ligava nessas coisas. Era virgem por inteiro. Talvez eu mesma me censurasse, sabendo que minha mãe era dura e muito severa. Não sabia de nada. Não havia nem uma conversinha, por menor que fosse. Nada que mexesse comigo. Nem o menor sonho. Acho que vou-me arrepender a vida toda por não ter tido amores adolescentes. Eu sabia que um dia me casaria, porque era esse o destino das mulheres, e que então deveria maquilhar-me e me fazer bonita para o meu marido. Mas não sabia nada além disso. Nem do meu corpo, nem de sexualidade. Que pânico senti quando menstruei pela primeira vez! Corri para contar à minha mãe, que não me explicou nada. E passou a ser uma vergonha para mim quando a TV exibia comerciais de absorventes íntimos. Que embaraço sentia ao ver aquelas imagens na presença de rapazes da família... E lembro-me da minha mãe e das minhas tias dizendo-me: quando tiver dezoito anos, vamos-lhe contar umas coisas... Que coisas? Coisas da vida. Não tiveram tempo. Muamar Kadafi adiantou-se. Ele me triturou». In Annick Cojean, no Harém de Kadhafi, Editora Albatroz, Porto Editora, colecção Memórias e Testemunhos, 2014, ISBN 978-989-739-010-4.

Cortesia de EAlbatroz/JDACT

O Harém de Kadafi. Annick Cojean. «Declaravam-se aristocratas, famílias da corte, diante dos jecas e caipiras das outras cidades. Você é de Zliten? Grotesco! De Benghazi? Ridículo. Da Tunísia? Que vergonha!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Era ela quem acabava arcando com as contas da família. Ralava dia e noite, sempre à espera de algo que nos levasse para bem longe da Líbia. Eu sabia que ela era diferente das outras mães, e por isso começaram a tratar-me com desprezo na escola, eu era a filha da tunisiana. Isso magoava-me. Os tunisianos eram tidos como modernos, emancipados, e em Benghazi, acredite se quiser, essas qualidades não eram bem-vistas. E eu, tola, senti-me depreciada. Desejava que meu pai tivesse escolhido como esposa alguém do próprio país. Por que foi casar-se logo com uma estrangeira? Não pensou nos filhos? Meu Deus, como eu era idiota!
Quando eu estava com onze anos, o pai anunciou que nos mudaríamos para Sirte, cidade também da costa mediterrânea, entre Benghazi e Trípoli. Ele queria aproximar-se do berço familiar, de seu pai, um homem muito tradicional, que tinha quatro esposas, de seus irmãos e primos. Na Líbia é assim: as famílias procuram formar grupos em torno do mesmo bastião, que supostamente lhes dará força e sustentação incondicionais. Em Benghazi, sem raízes nem relações, éramos como órfãos. Pelo menos foi assim que o pai nos explicou. Mas para mim a notícia foi uma catástrofe. Deixar a escola? Minhas amigas? Que drama! Fiquei doente. Doente de verdade. De cama por duas semanas. Incapaz de me levantar para ir à nova escola. E então finalmente eu fui. Com o coração apertado. E logo percebendo que não seria feliz. Antes de tudo, tenho de dizer que aquela era a cidade natal de Kadafi. Ainda não falei da figura porque não se tratava de uma preocupação nem de tema de conversa em casa. A mãe nitidamente o detestava. Mudava de canal sempre que ele aparecia na TV, referia-se a ele como o descabelado e repetia, sacudindo a cabeça: francamente, esse tipo lá tem cara de presidente? O pai, penso eu, tinha medo e mantinha-se mais reservado. Intuitivamente, todos nós percebíamos que, quanto menos se falasse dele, melhor seria; o menor assunto que saísse do núcleo familiar poderia passar de boca em boca e nos trazer grandes problemas. Sem fotos dele em casa e sobretudo sem militância. Digamos que, por instinto, éramos todos cautelosos.
Na escola, em contrapartida, era uma adoração. A sua imagem era onipresente; cantávamos o hino nacional todas as manhãs diante de um imenso póster de Kadafi ao lado da bandeira; diziam todos, entusiasmados: tu és nosso Guia, marchamos atrás de ti, blá-blá-blá; e, fosse na sala de aula ou no intervalo, os alunos se gabavam de meu primo Muamar, meu não-sei-o-quê Muamar, enquanto os professores falavam dele como um semideus. Não, como um deus. Ele era bom, zelava pelas crianças, tinha todos os poderes. Devíamos todos chamá-lo de pai Muamar. A sua estatura parecia-nos gigantesca. Havíamos-nos mudado para Sirte para ficar perto da família e nos sentir mais integrados no seio da comunidade, mas não valeu a pena. As pessoas de Sirte, aureoladas por seu parentesco ou proximidade com Kadafi, achavam-se donas do universo.
Declaravam-se aristocratas, famílias da corte, diante dos jecas e caipiras das outras cidades. Você é de Zliten? Grotesco! De Benghazi? Ridículo. Da Tunísia? Que vergonha! A mãe, decididamente, não importava o que fizesse, seria alvo de humilhação. E quando abriu, no centro da cidade, não muito longe de casa na Rua Dubai, o seu lindo salão de beleza, que as elegantes de Sirte passaram a frequentar, o desprezo só aumentou. Apesar de tudo, ela tinha talento. Todos reconheciam a sua habilidade em fazer os mais belos penteados da cidade e maquiagens fabulosas. Aliás, tenho a certeza de que era invejada. Mas não imagina como Sirte é massacrada pela tradição e pelo excesso de pudores. Uma mulher sem véu pode ser insultada na rua. E, mesmo com véu, é suspeita. Que diabos faz aqui fora? Não estará atrás de aventura? Será que tem um caso? As pessoas espionavam-se, os vizinhos observam as idas e vindas na casa da frente, as famílias sentem inveja umas das outras, protegem as suas filhas e falam mal das outras. A máquina de intrigas fica ligada o tempo todo.
Na escola, o problema era dobrado. Eu não era só a filha da tunisiana, mas também a menina do salão. Eu procurava um banco e ficava ali sozinha, sempre esquiva. E nunca poderia ter uma amiga líbia. Um pouco mais tarde, felizmente, simpatizei com uma garota que era filha de um líbio e de uma palestina. Depois, com uma marroquina. Então, com a filha de um líbio e de uma egípcia. Mas com as meninas da terra, jamais. Mesmo quando certa vez menti, dizendo que minha mãe era marroquina. Parecia-me menos grave que tunisiana. Foi pior. Minha vida então passou a girar quase que só em torno do salão de beleza. O salão virou o meu reino». In Annick Cojean, no Harém de Kadhafi, Editora Albatroz, Porto Editora, colecção Memórias e Testemunhos, 2014, ISBN 978-989-739-010-4.

Cortesia de EAlbatroz/JDACT

O Harém de Kadafi. Annick Cojean. «Acho que tenho um dom para captar o gestual e as expressões alheias. Juntas, chorávamos de tanto rir»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Nasci em Marag, povoado da região de Jebel Akhdar, a montanha Verde, não muito distante da fronteira com o Egipto. Era 17 de Fevereiro de 1989. Sim, 17 de Fevereiro! Para os líbios, é impossível ignorar essa data: foi o dia em que eclodiu a revolução que tirou Kadafi do poder, em 2011. Noutras palavras, um dia destinado a feriado nacional, ideia que muito me agrada. Três irmãos vieram antes de mim, e outros dois nasceram depois, assim como uma irmãzinha. Mas eu fui a primeira menina, e meu pai exultava de alegria. Ele queria uma menina. Queria uma Soraya. Tinha esse nome em mente bem antes de se casar com minha mãe. Ele falou-me muitas vezes da sua emoção no momento em que veio ver-me. Eras bonita! Muito bonita!, sempre dizia. E ficara tão feliz que, no meu sétimo dia de vida, na celebração que se costuma organizar após os nascimentos, ele fez uma festança, como uma festa de casamento. Convidados encheram a casa, tinha música, um grande buffêt... Queria tudo para a filha, as mesmas oportunidades, os mesmos direitos que os filhos teriam. Certa vez chegou a dizer-me que sonhava em ter uma filha médica. Tanto é verdade que no colégio fez com que eu me matriculasse em ciências naturais. Se minha vida tivesse seguido o curso normal, talvez eu tivesse mesmo estudado medicina. Quem sabe? Mas que ninguém me venha falar em igualdade de direitos com meus os irmãos. Ah, isso não! Que nenhuma moça líbia acredite nessa ficção. Basta ver como minha mãe, por mais moderna que seja, acabou por renunciar à maior parte dos seus sonhos.
E ela tinha sonhos enormes. E todos se frustraram. Ela nasceu em Marrocos, terra da avó que tanto adorava. Mas os pais eram tunisianos. Ela tinha bastante liberdade, visto que quando nova fez estágio num salão de beleza em Paris. Isso é que é sonho, não? Foi ali que conheceu meu pai, num grande jantar numa noite do Ramadão. Ele trabalhava na embaixada da Líbia e também adorava Paris. A atmosfera era tão leve, tão alegre em comparação com o clima de opressão na Líbia. Ele até pôde fazer cursos na Aliança Francesa, como lhe propuseram, mas era muito ansioso e preferia sair, passear, aproveitar cada minuto de liberdade, ver tudo o que era possível. Hoje ele se arrepende de não saber falar francês. Isso sem dúvida teria mudado a nossa vida. Em todo o caso, quando ele conheceu a mãe, não teve dúvida. Pediu a mão dela em casamento, que ocorreu em Fez, onde ainda morava a avó dela. E então o que aconteceu? Ele a levou de volta, todo orgulhoso, para a Líbia.
Que choque foi para a minha mãe! Ela jamais imaginara viver na Idade Média. Ela que era tão vaidosa, tão preocupada em andar na moda, bem penteada, maquilhada, teve de se esconder atrás de um tradicional véu branco e limitar ao máximo as suas saídas de casa. Ficou feita uma leoa enjaulada. Ela, que sempre se sentira solta, de repente viu-se amarrada. De forma nenhuma aquela era a vida que o pai a fizera imaginar. Ele havia falado em viagens entre a França e a Líbia, do seu trabalho, que ele poderia realizar alternando entre os dois países... E foi assim que, em questão de dias, ela foi parar no país dos beduínos. Entrou em depressão. Então o pai fez de tudo para se mudar com a família para Benghazi, a segunda maior cidade da Líbia, no leste do país. Uma cidade provinciana, mas sempre considerada um pouco rebelde em relação a Trípoli, onde o poder estava instalado. Ele não podia levá-la a Paris, para onde continuava viajando com frequência, mas pelo menos ela estaria morando numa cidade grande, não precisaria usar o véu e poderia até trabalhar como cabeleireira num salão que abriria em casa. Como se isso fosse consolá-la... Ela continuou deprimida e sonhando com Paris. Contava para nós, seus filhos, dos passeios pela Champs-Elysées, dos chás com as amigas no terraço dos cafés, da liberdade dos franceses. Falava também da protecção social, dos direitos dos sindicatos, de como a imprensa podia ser audaciosa. Paris, Paris, Paris... Isso acabou nos fazendo mal, mas por culpa do meu pai. Ele tinha a ideia de abrir um pequeno negócio em Paris, um restaurante no 15º arrondissement, que a mãe poderia tocar. Acontece que ele logo brigou com o sócio, e o plano foi por água-abaixo. Também deixou de comprar um apartamento na Défense. Na época, custava vinte e cinco mil dólares. Faltou-lhe coragem, e até hoje se lamenta por isso.
São, portanto, de Benghazi as minhas primeiras lembranças da escola. Elas estão um pouco confusas na memória, mas lembro que foi um tempo muito feliz. A escola chamava-se Os Leõezinhos da Revolução, e eu tinha quatro amigas inseparáveis. Eu era a palhaça do grupo, minha especialidade era imitar os professores quando eles deixavam a sala, ou fazer macaquices atrás do director. Acho que tenho um dom para captar o gestual e as expressões alheias. Juntas, chorávamos de tanto rir. Eu podia tirar zero em matemática, mas era a melhor em língua árabe. O pai não ganhava bem. E o trabalho da mãe tornou-se indispensável». In Annick Cojean, no Harém de Kadhafi, Editora Albatroz, Porto Editora, colecção Memórias e Testemunhos, 2014, ISBN 978-989-739-010-4.

Cortesia de EAlbatroz/JDACT

O Clube da Felicidade e da Sorte. Amy Tan. «O Clube foi uma ideia que minha mãe engendrou nos primeiros dias, do seu primeiro casamento em Kweilin, antes dos japoneses chegarem»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A velha lembrou-se de um cisne que comprara há muitos anos atrás, em Shangai, por uma barganha. Este pássaro, contou-lhe o vendedor, foi certa vez um pato que esticara o pescoço na esperança de tornar-se um ganso, e agora, veja!, era belo demais para ser comido. Então a mulher e o cisne velejaram o oceano muitas li milhas à distância, esticando seus pescoços em direcção à América. Em sua jornada, ela sussurrou para o cisne: na América, eu terei uma filha assim como eu. Mas lá, ninguém dirá que o seu valor é medido pela altura do arroto do seu marido. Lá, ninguém a verá por cima, porque a farei pronunciar apenas um perfeito inglês americano. E lá, ela estará sempre tão satisfeita que não engolirá qualquer tristeza! Ela saberá o que lhe quero dizer, porque lhe darei este cisne, uma criatura que se tornou muito mais do que esperava. Mas quando ela chegou ao novo país, os oficiais da imigração tiraram-lhe o cisne, deixando a mulher agitando os braços e com apenas uma pena de lembrança. Então, ela teve que preencher tantos formulários que esqueceu a razão de sua vinda e o que deixara para trás. Agora, a mulher estava velha. E tinha uma filha que crescera falando somente inglês e engolindo mais coca-cola do que tristeza. Agora, por um longo tempo, a mulher quis dar à filha a única pena de cisne e dizer-lhe: esta pena pode parecer sem valor, mas vem de muito longe e carrega consigo todas as minhas boas intenções. E ela esperou, ano após ano, pelo dia em que poderia dizer isto à sua filha num perfeito inglês americano.
Meu pai pediu-me para ocupar o quarto canto do Clube da Felicidade e da Sorte. Estou para substituir a minha mãe, cuja cadeira na mesa de mah-jong tem estado vazia desde que ela morreu, dois meses atrás. Meu pai acha que ela foi morta pelos seus próprios pensamentos. Ela tinha uma nova ideia na cabeça, disse meu pai. Mas antes que pudesse sair da sua boca, o pensamento ficou tão grande que explodiu. Deve ter sido uma ideia muito ruim. O médico disse que ela morreu de um aneurisma cerebral. E as suas amigas do Clube da Felicidade e da Sorte disseram que morreu como um coelho: rápido e com negócios inacabados deixados para trás. Minha mãe supostamente seria a anfitriã do próximo encontro do clube. Na semana antes da sua morte, ela chamou-me, cheia de orgulho, cheia de vida: tia Lin cozinhou sopa de feijões vermelhos para o clube. Eu vou cozinhar sopa de sementes pretas de Sézamo. Não se exiba, disse. Não é exibição. Ela disse que as duas sopas eram quase iguais, chabudwo. Ou talvez tenha dito butong, não era a mesma coisa de todo. Era uma daquelas expressões chinesas que significam a melhor parte de intenções misturadas. Nunca consigo lembrar-me de coisas que não entendo em primeiro lugar.
Minha mãe começou a versão do Clube da Felicidade e da Sorte de San Francisco em 1949, dois anos antes de eu nascer. Este foi o ano em que a minha mãe e o meu pai deixaram a China com um baú de couro repleto apenas de vestidos de seda enfeitados. Não houve tempo para empacotar mais nada, explicou a mãe ao meu pai depois que eles embarcaram no navio. Ainda assim, ele deslizava freneticamente as mãos entre as sedas escorregadias procurando pelas suas camisas de algodão e cuecas de lã. Quando chegaram a San Francisco, meu pai a fez esconder aquelas roupas brilhantes. Ela usou o mesmo vestido chinês marrom-axadrezado até que a Associação de Boas-Vindas aos Refugiados lhe deu dois vestidos em segunda mão, todos muito largos no tamanho para mulheres americanas. A Associação era composta por um grupo de senhoras missionárias americanas de cabelos brancos, da Primeira Igreja Baptista Chinesa. E por causa dos seus presentes, meus pais não poderiam recusar o convite para se juntarem à igreja. Nem ignorar o conselho prático daquelas senhoras para aperfeiçoarem o seu inglês através de estudos da Bíblia em aulas nas quartas-feiras à noite, e mais tarde, através da prática do coro nos sábados pela manhã. Foi assim que meus pais encontraram os Hsus, os Jongs e os St. Clairs. Minha mãe podia sentir que as mulheres destas famílias também possuíam tragédias indizíveis que deixaram para trás na China, e esperanças que não conseguiriam começar a expressar no seu inglês frágil. Ou no mínimo, a minha mãe reconheceu o entorpecimento nos rostos dessas mulheres. E ela viu quão rapidamente seus olhos moveram-se quando contou-lhes a sua ideia para o Clube da Felicidade e da Sorte.
O Clube foi uma ideia que minha mãe engendrou nos primeiros dias, do seu primeiro casamento em Kweilin, antes dos japoneses chegarem. É por isso que penso no Clube da Felicidade e da Sorte como a sua estória de Kweilin. Era a estória que ela sempre me contava quando estava entediada, quando não havia nada mais a fazer, quando cada tigela havia sido lavada e a mesa de fórmica tinha sido limpa duas vezes, quando o meu pai se sentava para ler o jornal fumando um cigarro Pall Mall atrás do outro, um aviso para não ser perturbado». In Amy Tan, 1989, Editora Rocco, 1994, ISBN 978-853-250-044-1.

Cortesia de ERocco/JDACT

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

As Palavras e as Coisas. Michel Foucault. «Não se sabe donde vem; pode-se supor que, seguindo por incertos corredores, contornou a sala onde as personagens estão reunidas e onde trabalha o pintor; talvez estivesse, há pouco, também ele à frente da cena»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ora, o nome próprio, nesse jogo, não passa de um artifício: permite mostrar com o dedo, quer dizer, fazer passar sub-recpticiamente do espaço onde se fala para o espaço onde se olha, isto é, ajustá-los comodamente um sobre o outro como se fossem adequados. Mas, se se quiser manter aberta a relação entre a linguagem e o visível, se se quiser falar não de encontro a, mas a partir da sua incompatibilidade, de maneira que se permaneça o mais próximo possível de uma e de outro, é preciso então pôr de parte os nomes próprios e meter-se no infinito da tarefa. É, talvez, por intermédio dessa linguagem nebulosa, anónima, sempre meticulosa e repectitiva, porque demasiado ampla, que a pintura, pouco a pouco, acenderá as suas luzes. É preciso, pois, fingir não saber quem se reflectirá no fundo do espelho e interrogar esse reflexo ao nível da sua existência. De início, ele é o verso da grande tela representada à esquerda. O verso ou, antes, a face dianteira, pois que mostra de frente o que ela, por sua posição, esconde. Ademais, opõe-se à janela e a reforça. Como ela, é um lugar-comum ao quadro e ao que lhe é exterior. A janela, porém, opera pelo movimento contínuo de uma efusão que, da direita para a esquerda, agrega às personagens atentas, ao pintor, ao quadro, o espectáculo que contemplam; já o espelho, por um movimento violento, instantâneo e de pura surpresa, vai buscar, à frente do quadro, aquilo que é olhado mas não visível, a fim de, no extremo da profundidade fictícia, torná-lo visível mas indiferente a todos os olhares. O pontilhado imperioso que está traçado entre o reflexo e o que ele reflecte corta perpendicularmente o fluxo lateral da luz. Enfim, e é a terceira função desse espelho, ele põe em paralelo uma porta que, como ele, se abre na parede do fundo. Também ela recorta um rectângulo claro, cuja luz fosca não se irradia pela sala. Não passaria de uma placa dourada, não estivesse ela aberta para fora através de um batente esculpido, da curva de uma cortina e da sombra de vários degraus. Aí começa um corredor; mas, em vez de se perder em meio à obscuridade, ele se dissipa num brilho amarelo, cuja luz, sem entrar, rodopia em torno de si mesma e repousa. Sobre esse fundo, ao mesmo tempo próximo e sem limite, um homem destaca a sua alta silhueta; ele é visto de perfil; com uma das mãos retém o peso de um cortinado; seus pés estão pousados sobre dois degraus diferentes; tem o joelho dobrado. Talvez vá entrar na sala; talvez se limite a espiar o que se passa no interior, contente de surpreender sem ser observado. Tal como o espelho, fixa o verso da cena: tanto quanto ao espelho, ninguém lhe presta atenção.
Não se sabe donde vem; pode-se supor que, seguindo por incertos corredores, contornou a sala onde as personagens estão reunidas e onde trabalha o pintor; talvez estivesse, há pouco, também ele à frente da cena, na região invisível que é contemplada por todos os olhos do quadro. Como as imagens que se distinguem no fundo do espelho, é possível que ele seja um emissário desse espaço evidente e escondido. Há, no entanto, uma diferença: ele está ali em carne e osso; surgiu de fora, no limiar da área representada; ele é indubitável, não um reflexo provável, mas uma irrupção. O espelho, fazendo ver, para além mesmo dos muros do ateliér, o que se passa à frente do quadro, faz oscilar, na sua dimensão sagital, o interior e o exterior. Com um pé sobre o degrau e o corpo inteiramente de perfil, o visitante ambíguo entra e sai ao mesmo tempo, num balancear imóvel. Ele repete, sem sair do lugar, mas na realidade sombria do seu corpo, o movimento instantâneo das imagens que atravessam a sala, penetram no espelho, nele se reflectem e dele ressaltam como espécies visíveis, novas e idênticas. Pálidas, minúsculas, essas silhuetas no espelho são recusadas pela alta e sólida estatura do homem que surge no vão da porta.
Cumpre, no entanto, retornar do fundo do quadro em direcção à frente da cena; é preciso abandonar esse circuito cuja voluta se acaba de percorrer. Partindo do olhar do pintor que, à esquerda, constitui como que um centro deslocado, distingue-se primeiro o reverso da tela, depois os quadros expostos, com o espelho no centro, a seguir a porta aberta, novos quadros, cuja perspectiva, porém, muito aguda, só deixa ver as molduras na sua densidade, enfim, à extremidade direita a janela, ou, antes, a fenda por onde se derrama a luz. Essa concha em hélice oferece todo o ciclo da representação: o olhar, a palheta e o pincel, a tela inocente de signos (são os instrumentos materiais da representação), os quadros, os reflexos, o homem real (a representação acabada, mas como que afastada dos seus conteúdos ilusórios ou verdadeiros que lhe são justapostos); depois, a representação se dilui: só se vêem as molduras e essa luz que, do exterior, banha os quadros, os quais, contudo, devem em troca reconstituir à sua própria maneira, como se ela viesse de outro lugar, atravessando suas molduras de madeira escura». In Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, 1966, Livraria Martins Fontes Editora, 1981, 2000, ISBN 853-360-997-3.

Cortesia de LMFontesE/JDACT

As Palavras e as Coisas. Michel Foucault. «Mas talvez seja tempo de nomear enfim essa imagem que aparece no fundo do espelho e que o pintor contempla à frente do quadro. Talvez valha a pena fixar de vez a identidade das personagens presentes…»

Cortesia de wikipedia e jdact 

«(…) Ora, ele não faz ver nada do que o próprio quadro representa. Seu olhar imóvel vai captar à frente do quadro, nessa região necessariamente invisível que forma a sua face exterior, as personagens que ali estão dispostas. Em vez de girar em torno de objectos visíveis, esse espelho atravessa todo o campo da representação, negligenciando o que aí poderia captar, e restitui a visibilidade ao que permanece fora de todo olhar. Mas essa invisibilidade que ele supera não é a do oculto: não contorna o obstáculo, não desvia a perspectiva, endereça-se ao que é invisível ao mesmo tempo pela estrutura do quadro e por sua existência como pintura. O que nele se reflecte é o que todas as personagens da tela estão fixando, o olhar recto diante delas; é, pois, o que se poderia ver, se a tela se prolongasse para a frente, indo mais para baixo, até envolver as personagens que servem de modelos ao pintor. Mas é também, já que a tela se interrompe ali, dando a ver o pintor e seu ateliér, o que está exterior ao quadro, na medida em que ele é quadro, isto é, fragmento rectangular de linhas e cores, encarregado de representar alguma coisa aos olhos de todo espectador possível. No fundo da sala, ignorado por todos, o espelho inesperado faz brilhar as figuras que o pintor olha (o pintor e sua realidade representada, objectiva, de pintor trabalhando); mas também as figuras que olham o pintor (nessa realidade material que as linhas e as cores depositaram sobre a tela). Estas figuras são, uma e outra, igualmente inacessíveis, mas de modo diferente: a primeira, por um efeito de composição que é próprio ao quadro; a segunda, pela lei que preside à existência mesma de todo quadro em geral. Aqui, o jogo da representação consiste em conduzir essas duas formas de invisibilidade uma ao lugar da outra, numa superposição instável, e em restituí-las logo à outra extremidade do quadro, a esse pólo que é o mais altamente representado: o de uma profundidade de reflexo na reentrância de uma profundidade de quadro. O espelho assegura uma metátese da visibilidade que incide ao mesmo tempo sobre o espaço representado no quadro e sua natureza de representação; faz ver, no centro da tela, aquilo que, do quadro, é duas vezes necessariamente invisível. Estranha maneira de aplicar ao pé da letra, mas invertendo-o, o conselho que o velho Pachero dera, ao que parece, ao seu aluno, quando trabalhava no ateliér de Sevilha: a imagem deve sair da moldura.
Mas talvez seja tempo de nomear enfim essa imagem que aparece no fundo do espelho e que o pintor contempla à frente do quadro. Talvez valha a pena fixar de vez a identidade das personagens presentes ou indicadas, para não nos atrapalharmos infinitamente nestas designações flutuantes, um pouco abstractas, sempre susceptíveis de equívocos e de desdobramentos: o pintor, as personagens, os espectadores, as imagens. Em vez de prosseguir sem fim numa linguagem fatalmente inadequada ao visível, bastaria dizer que Velásquez compôs um quadro; que nesse quadro ele se representou a si mesmo no seu ateliér, ou num salão do Escorial, a pintar duas personagens que a infanta Margarida vem contemplar, rodeada de aias, de damas de honor, de cortesãos e de anões; que a esse grupo pode-se muito precisamente atribuir nomes: a tradição reconhece aqui dona Maria Agustina Sarmiente, ali, Nieto, no primeiro plano, Nicolaso Pertusato, bufão italiano. Bastaria acrescentar que as duas personagens que servem de modelo ao pintor não são visíveis, ao menos directamente; mas que podemos distingui-las num espelho; que se trata, sem dúvida, do rei Filipe IV e de sua esposa Mariana.
Esses nomes próprios constituiriam indícios úteis, evitariam designações ambíguas; eles nos diriam, em todo o caso, o que o pintor olha e, com ele, a maioria das personagens do quadro. Mas a relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita. Não que a palavra seja imperfeita e esteja, em face do visível, num déficit que em vão se esforçaria por recuperar. São irredutíveis uma ao outro: por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões da sintaxe definem». In Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, 1966, Livraria Martins Fontes Editora, 1981, 2000, ISBN 853-360-997-3.

Cortesia de LMFontesE/JDACT

As Palavras e as Coisas. Michel Foucault. «É preciso reconhecer que essa indiferença só se iguala à do espelho. Com efeito, este nada reflecte daquilo que se encontra no mesmo espaço que ele: nem o pintor…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Esta janela encantoada, parcial, apenas indicada, libera uma luz inteira e mista que serve de lugar-comum à representação. Ela equilibra, na outra extremidade do quadro, a tela invisível: assim como esta, virando as costas aos espectadores, se redobra contra o quadro que a representa e forma, pela superposição de seu reverso visível sobre a superfície do quadro que a contém, o lugar, para nós inacessível, onde cintila a Imagem por excelência; assim a janela, pura abertura, instaura um espaço tão manifesto quanto o outro é oculto; tão comum ao pintor, às personagens, aos modelos, aos espectadores quanto o outro é solitário (pois ninguém o olha, nem mesmo o pintor). Da direita, derrama-se por uma janela invisível o puro volume de uma luz que torna visível toda representação; à esquerda, estende-se a superfície que encobre, do outro lado de sua textura demasiado visível, a representação que ela contém. Inundando a cena (quero dizer, tanto a sala quanto a tela, a sala representada na tela e a sala onde a tela está colocada), a luz envolve as personagens e os espectadores, impelindo-os, sob o olhar do pintor, em direcção ao lugar onde o seu pincel os vai representar. Esse lugar, porém, nos é recusado. Olhamo-nos olhados pelo pintor e tornados visíveis aos seus olhos pela mesma luz que no-lo faz ver. E, no momento em que nos vamos apreender transcritos por sua mão como num espelho, deste não podemos surpreender mais que o insípido reverso. O outro lado de um reflexo.
Ora, exactamente em face dos espectadores, de nós mesmos, sobre a parede que constitui o fundo da sala, o autor representou uma série de quadros; e eis que, entre todas essas telas suspensas, uma dentre elas brilha com um clarão singular. A sua moldura é mais larga, mais sombria que a das outras; uma fina linha branca, no entanto, a duplica interiormente, difundindo sobre toda a sua superfície uma luz dificilmente determinável; pois não vem de parte alguma senão de um espaço que lhe seria interior. Nessa luz estranha aparecem duas silhuetas e, acima delas, um pouco para trás, uma pesada cortina de púrpura. Os outros quadros só dão a ver algumas manchas mais pálidas no limite de uma noite sem profundeza. Esse, ao contrário, abre-se para um espaço em recuo onde formas reconhecíveis se dispõem numa claridade que só a ele pertence. Entre todos esses elementos destinados a oferecer representações, mas que as contestam, as recusam, as esquivam por sua posição ou sua distância, esse é o único que funciona com toda a honestidade e que dá a ver o que deve mostrar. A despeito de seu distanciamento, a despeito da sombra que o envolve. Mas não é um quadro: é um espelho. Ele oferece enfim esse encantamento do duplo, que tanto as pinturas afastadas quanto a luz do primeiro plano com a tela irónica recusavam.
De todas as representações que o quadro representa, ele é a única visível; mas ninguém o olha. Em pé ao lado de sua tela, a atenção toda absorvida pelo seu modelo, o pintor não pode ver esse espelho que brilha suavemente atrás dele. As outras personagens do quadro estão, na maioria, voltadas também elas para o que se deve passar à frente, para a clara invisibilidade que margeia a tela, para esse átrio de luz, onde os seus olhares têm para ver aqueles que os vêem, e não para essa cavidade sombria pela qual se fecha o quarto onde estão representadas. Há, com efeito, algumas cabeças que se oferecem de perfil: nenhuma, porém, suficientemente virada para olhar, no fundo da sala, esse espelho desolado, pequeno rectângulo brilhante que nada mais é senão visibilidade, mas sem nenhum olhar capaz de apossar-se dela, torná-la actual e comprazer-se no fruto, subitamente amadurecido, do seu espectáculo.
É preciso reconhecer que essa indiferença só se iguala à do espelho. Com efeito, este nada reflecte daquilo que se encontra no mesmo espaço que ele: nem o pintor, que lhe volta as costas, nem as personagens no centro da sala. Em sua clara profundidade, não é o visível que ele fita. Na pintura holandesa, era tradição que os espelhos desempenhassem um papel de reduplicação: repetiam o que era dado uma primeira vez no quadro, mas no interior de um espaço irreal, modificado, estreitado, recurvo. Ali se via a mesma coisa que na primeira instância do quadro, porém decomposta e recomposta segundo uma outra lei. Aqui o espelho nada diz do que já foi dito. A sua posição, entretanto, é quase central: a sua borda superior está exactamente sobre a linha que reparte em duas a altura do quadro, ocupa sobre a parede do fundo (ao menos sobre a parte visível desta) uma posição mediana; deveria, pois, ser atravessado pelas mesmas linhas perspectivas que o próprio quadro; poder-se-ia esperar que um mesmo ateliér, um mesmo pintor, uma mesma tela nele se dispusessem segundo um espaço idêntico; poderia ser o duplo perfeito». In Michel Foucault, As Palavras e as Coisas, 1966, Livraria Martins Fontes Editora, 1981, 2000, ISBN 853-360-997-3.

Cortesia de LMFontesE/JDACT

Número Zero. Umberto Eco. «Ou explodirmos nós a bomba, se for conveniente, disse Braggadocio em tom de chacota. Não diga disparates, repreendeu Simei»

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«(…) Nome estranho, de onde vem? Olhe, essa é uma das muitas obsessões da minha vida. Parece que em inglês tem significado feio, mas por sorte nas outras línguas não. Meu avô era um enjeitado e, como o senhor sabe, nesses casos o sobrenome era inventado por um funcionário municipal. Se fosse um sádico poderia impingir até um Ficarotta, no caso de meu avô o funcionário era sádico pela metade e tinha certa cultura... Quanto a mim, sou especializado em revelações escandalosas e trabalhava exactamente para uma revista do nosso editor, Por baixo do pano. Mas nunca me contratou, pagava por artigo. Dos outros quatro, Cambria tinha passado as noites em prontos-socorros ou esquadras policiais para obter notícias frescas, prisões, mortes em acidentes espectaculares em estradas, e não fizera carreira; Lucidi inspirava desconfiança à primeira vista e havia trabalhado em publicações de que nunca ninguém tinha ouvido falar; Palatino vinha de uma longa carreira em semanários de jogos e passatempos; Costanza trabalhara como chefe de composição em alguns jornais, mas os jornais passaram a ter páginas demais, ninguém conseguia revisar tudo antes da impressão, de modo que até os grandes diários já escreviam Simone de Beauvoire, Beaudelaire, Rooswelt, e o chefe de composição começava a cair em desuso como a prensa de Gutenberg. Nenhum daqueles companheiros de viagem vinha de experiências empolgantes. Uma verdadeira Ponte de San Luis Rey. Como Simei tinha conseguido desencavar aquela gente, não sei.
Terminadas as apresentações, Simei delineou as características do jornal. Portanto, vamos fazer um diário. Por que Amanhã? Porque os jornais tradicionais contavam, e infelizmente ainda contam, as notícias da noite anterior, e por isso se chamavam Corriere della Sera, Evening Standard ou Le Soir. Agora a gente fica sabendo das notícias do dia anterior pela televisão às oito da noite, portanto os jornais estão contando sempre as coisas que a gente já sabe, e é por isso que vendem cada vez menos. No Amanhã, essas notícias que já estão desactualizadas que devem ser resumidas e lembradas, mas para isso basta uma nota que se leia em alguns minutos. Então do que o jornal vai falar?, perguntou Cambria. O destino dos diários hoje é o de ficarem parecidos com semanários. Vamos falar daquilo que poderia acontecer amanhã, com artigos aprofundados, suplementos investigativos, previsões inesperadas... Dou um exemplo. Às quatro explode uma bomba, e no dia seguinte todos já sabem. Pois bem, das quatro à meia-noite, antes de o jornal ir para o prelo, precisaremos descobrir alguém que diga algo inédito sobre os prováveis responsáveis, coisas que a própria polícia ainda não sabe, e traçar um cenário daquilo que vai acontecer nas semanas seguintes por causa daquele atentado...
Braggadocio: mas para dar andamento a apurações desse tipo em oito horas é preciso uma redacção pelo menos dez vezes maior que a nossa e um exército de contactos, que sei eu... Justo, e, quando o jornal for feito de verdade, é assim que deverá ser. Mas agora, durante um ano, só precisamos demonstrar que é possível fazer. E é possível porque um número zero pode ter a data que se quiser e pode ser perfeitamente um exemplo de como teria sido o jornal meses antes, suponhamos, quando a bomba explodiu. Nesse caso já sabemos o que terá acontecido depois, mas vamos falar como se o leitor ainda não soubesse. Portanto, todas as nossas indiscrições terão gosto de coisa inédita, surpreendente, ouso dizer oracular. Ou seja: ao cliente nós deveremos dizer: veja como teria sido o Amanhã se tivesse saído ontem. Entenderam? E, querendo-se, mesmo que ninguém nunca tivesse explodido a bomba, poderíamos muito bem fazer um número como se.
Ou explodirmos nós a bomba, se for conveniente, disse Braggadocio em tom de chacota. Não diga disparates, repreendeu Simei. Depois, como se reflectisse: e, se quiser mesmo fazer isso, não me venha contar. Terminada a reunião, acabei descendo com Braggadocio. Nós já não nos conhecemos?, perguntou. Eu achava que não, ele disse , de um jeito meio desconfiado, e logo começou a me tratar por você. Na redacção Simei tinha acabado de instaurar o uso de senhor, e eu tenho o costume de manter as devidas distâncias, tipo, nunca dormimos juntos, mas evidentemente Braggadocio estava deixando claro que éramos colegas. Eu não queria parecer um cara que assume ares de superioridade só porque Simei me tinha apresentado como redactor-chefe ou algo semelhante. Por outro lado, aquela figura me intrigava e eu não tinha nada melhor para fazer. Segurou-me pelo cotovelo e disse-me que íamos beber alguma coisa num lugar que ele conhecia. Sorria com os seus lábios grossos e os olhos meio bovinos, de um modo que me pareceu obsceno. Era calvo como von Stroheim, tinha a nuca em linha recta com o pescoço, mas com a fisionomia de Telly Savalas, o tenente Kojak. Pronto, sempre a citação. Bonitinha aquela Maia, não?» In Umberto Eco, Número Zero, 2015, Gradiva Publicações, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-616-643-4.

Cortesia de GradivaP/JDACT

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Número Zero. Umberto Eco. «Maia Fresia. Solteira, ou single, como preferir. Vinte e oito anos, quase formada em Letras, precisei parar por razões familiares»

jdact

«(…) Estou vendo que me entende. Se o Comendador usar os nossos números zero para assustar alguém ou para limpar o traseiro, isso é lá com ele, não com a gente. Mas a questão é que o meu livro não deverá contar o que decidimos nas nossas reuniões da redacção, porque para isso eu não precisaria do senhor, um gravador seria suficiente. O livro deverá dar ideia de outro jornal, mostrar como durante um ano eu me esforcei para realizar um modelo de jornalismo independente de qualquer pressão, dando a entender que a aventura acabou mal porque não se podia dar vida a uma voz livre. Para isso o senhor vai precisar inventar, idealizar, escrever uma epopeia, não sei se me explico... O livro dirá o contrário do que aconteceu. Muito bem. Mas o senhor será desmentido. Por quem? Pelo Comendador, que precisaria dizer que não, que o projecto só tinha em mira uma extorsão? Melhor deixar pensarem que precisou desistir porque também foi submetido a pressões, preferiu matar o jornal para que ele não se tornasse uma voz, como se diz, teleguiada. E vamos ser desmentidos pelos nossos redactores, que serão apresentados no livro como jornalistas incorruptíveis? Meu livro será um betzeller, pronunciava assim, como todos, e ninguém vai querer, nem saber, se opor a ele. Tudo bem, já que nós dois somos homens sem qualidades, desculpe a citação, aceito o pacto. Gosto de tratar com gente leal que diz o que tem no coração.
Primeiro encontro com os redactores. Seis, parecem suficientes. Simei tinha avisado que eu não precisaria sair por aí fazendo falsas apurações, mas deveria ficar sempre na redacção para registar os vários acontecimentos. Por isso, para justificar a minha presença, começou assim: senhores, vamos-nos apresentar. Este é o doutor Colonna, homem de grande experiência jornalística. Vai trabalhar directamente comigo, e por isso vamos defini-lo como assistente da direcção; a principal tarefa dele consistirá em revisar todos os artigos dos senhores. Cada um aqui vem de experiências diferentes, e uma coisa é ter trabalhado num jornal de extrema-esquerda, outra é ter experiência, digamos, no La voce della fogna, e uma vez que somos espartanamente poucos (como podem ver), quem sempre trabalhou com anúncios fúnebres talvez precise escrever um editorial sobre a crise governamental. Portanto, é uma questão de uniformizar o estilo e, se alguém sucumbir à fraqueza de escrever palingenesia, Colonna vai dizer que não deve e sugerir o termo alternativo. Profundo renascimento moral, disse eu. Isso. E, se para definir uma situação dramática, alguém disser que estamos no olho do furacão, imagino que o doutor Colonna terá a lucidez de lembrar que, segundo todos os livros científicos, o olho do furacão é o único lugar onde reina a calma, enquanto o furacão se vai expandindo por todos os lados. Não, doutor Simei, interferi. Nesse caso direi que é preciso usar o olho do furacão porque, diga o que disser a ciência, o leitor não sabe disso, e é exactamente o olho do furacão que vai-lhe dar a ideia de estar no meio do problema. Foi assim acostumado pela imprensa e pela televisão. Assim como o convenceu de que se diz suspáns e manágment enquanto se deveria dizer suspens (e se escreve suspense e não suspence) e mánagment.
Óptima ideia, doutor Colonna, é preciso falar a linguagem do leitor, e não a dos intelectuais que dizem obliterar o documento de viagem. Por outro lado, parece que o nosso editor disse uma vez que os seus telespectadores estão numa faixa média de idade (digo, idade mental) de doze anos. Os nossos leitores não, mas é sempre útil atribuir uma idade a eles: os nossos terão mais de cinquenta anos, serão bons e honestos burgueses que desejam a lei e a ordem, mas adoram novidades e revelações sobre várias formas de desordem. Partiremos do princípio de que não são aquilo que se costuma chamar de leitor assíduo, aliás, grande parte deles não deve ter livro em casa, mas, quando necessário, falaremos do grande romance que está vendendo milhões de exemplares em todo o mundo. O nosso leitor não lê livros, mas gosta de pensar que existem grandes artistas excêntricos e bilionários, assim como nunca verá de perto a diva de pernas compridas e mesmo assim quer saber tudo sobre seus amores secretos. Mas vamos deixar que os outros também se apresentem. Cada um por si. Começamos pela única mulher, a senhorita (ou senhora)...
Maia Fresia. Solteira, ou single, como preferir. Vinte e oito anos, quase formada em Letras, precisei parar por razões familiares. Trabalhei durante cinco anos para uma revista de celebridades, precisava andar pelo mundo do espectáculo farejando quem estava mantendo uma amizade colorida com quem, e organizar uma tocaia dos fotógrafos; na maioria das vezes eu precisava convencer um cantor, uma actriz, a inventar uma amizade colorida com alguém e levá-los ao encontro com os paparazzi, quer dizer, um passeio de mãos dadas ou mesmo um beijo furtivo. No começo eu gostava, mas agora estou cansada de contar mentiras. E porque aceitou juntar-se à nossa aventura, queridinha? Acho que um diário falará de coisas mais sérias, e é um jeito de eu ficar conhecida com reportagens que não incluam amizade colorida. Sou curiosa, e acho que boa detective. Era miúda e falava com um brio ponderado. Óptimo. O senhor? Romano Braggadocio...» In Umberto Eco, Número Zero, 2015, Gradiva Publicações, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-616-643-4.

Cortesia de GradivaP/JDACT

Idade Média. Umberto Eco. «… entretanto, com o aumento das dimensões da vela de gurupés, o mastro de mezena e o mastro real deslocam-se pouco a pouco para a popa, chegando a haver um terceiro mastro»

Cortesia de wikipedia

Bárbaros. Cristãos. Muçulmanos
«(…) Na navegação também há uma revolução de importância semelhante. No Canto XII do Paraíso, Dante escreve: del cor de l’una de le luci nove/si mosse voce, che l’ago a la stella/parer mi fece in volgermi al suo dove…, e Francesco da Buti e Giovanni da Serravalle, dois comentadores da Divina Comédia do seculo XIV, explicam: hanno li naviganti uno bussolo che nel mezzo è imperniato una rotella di carta leggera, la quale gira su detto perno; e la detta rotella ha molte punte, et ad una di quelle che vi è dipinta una stella, è fitta una punta d’ago; la quale punta li naviganti quando vogliono vedere dove sia la tramontana, imbriacono colla calamita. Mas já em 1269 Pedro Peregrino de Maricourt mencionava uma bússola com agulha giratória (ainda sem a rosa dos ventos). Nestes séculos, são aperfeiçoados alguns instrumentos de origem antiga, como a balestilha e o astrolábio. Mas a verdadeira revolução medieval na navegação é operada pela invenção do leme axial posterior. Nas naus gregas e romanas, nas dos vikings e até nas de Guilherme, o Conquistador, que em 1066 aproaram às praias inglesas, os lemes, longas pás governáveis por meio de alavancas, eram dois, um de cada lado, e manejados de modo a dar à embarcação a direcção desejada. Este sistema, além de muito trabalhoso, tornava praticamente impossível a navegação contra o vento, era preciso bordejar, ou seja, manobrar alternadamente os lemes para que a embarcação oferecesse primeiro um flanco e depois o outro à acção do vento. Assim, os mareantes ficavam limitados à pequena cabotagem, isto é, a acompanhar a costa para poder arribar quando o vento não fosse favorável. É verdade que, com os seus lemes laterais, os vikings já teriam provavelmente alcançado o continente americano; mas não sabemos quanto tempo nem quantos naufrágios custaram estas empresas e é provável que tenham feito a travessia da Islândia para a Gronelândia e desta para a costa do Labrador, não tendo, portanto, atravessado o oceano como fará Cristóvão Colombo depois de, entre os séculos XII e XIII, ter aparecido o leme moderno, montado na popa, mergulhado na água e capaz de orientar a embarcação sem sofrer o impulso das ondas.
A este invento junta-se uma série de outras importantes modificações, como a âncora de braços abertos, na forma ainda hoje usada. Além disso, os normandos ainda construíam barcos com tábuas intrincadas, isto é, com tábuas sobrepostas umas às outras, formando uma escadinha; mas juntando as tábuas de modo a evitar obter uma curvatura contínua, é possível construir navios maiores; com o novo sistema, arma-se primeiro o esqueleto para depois o revestir, enquanto o sistema nórdico obrigava a construir primeiro o casco para depois o reforçar com o cavername, método que não permitia construir navios de grandes dimensões.
Outras modificações aperfeiçoam o velame. De facto, é já desde o século VII que os árabes sugerem aos povos mediterrânicos o uso da vela triangular, ou latina, extremamente adaptável como vela de gurupés. Com o novo leme, a nova vela de gurupés torna possível efectuar todo outro tipo de evolução, pois permite aproveitar qualquer orientação do vento. Todas estas inovações permitiram construir embarcações quatro vezes maiores do que as naus mercantis dos romanos, e este aumento de dimensões conduziu à introdução de um novo mastro, o mastro de mezena. Mais tarde, seriam gradualmente introduzidas velas redondas, acima da vela principal, e depois também da de mezena; entretanto, com o aumento das dimensões da vela de gurupés, o mastro de mezena e o mastro real deslocam-se pouco a pouco para a popa, chegando a haver um terceiro mastro». In Umberto Eco (organização), Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN: 978-972-204-479-0.

Cortesia PdQuixote/JDACT

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Idade Média. Umberto Eco. «O arado antigo não tinha rodas e tornava-se difícil dar-lhe a inclinação adequada; mas no século XIII é introduzido na Europa um arado já usado pelos povos nórdicos»

Cortesia de wikipedia

Bárbaros. Cristãos. Muçulmanos
«(…) A população, cada vez menos numerosa e mais débil, era ceifada por doenças endémicas (tuberculose, lepra, úlceras, eczemas, tumores) e por tremendas epidemias como a peste. É sempre difícil fazer cálculos demográficos pelos milénios passados, mas, segundo certos autores, a Europa, que no século III poderia ter entre 30 e 40 milhões de habitantes, estava reduzida no século VII a 14 ou 16 milhões. Pouca gente a cultivar pouca terra e pouca terra a alimentar pouca gente. Mas os números modificam-se com a aproximação da viragem do milénio e de novo se fala de 30 ou 40 milhões de habitantes no século XI; e no século XIV já a população da Europa oscilará entre os 60 e os 70 milhões. Ainda que os números não sejam exactos, podemos dizer que a população duplicou, pelo menos, em quatro séculos. Ficou célebre o trecho de Rodolfo, o Glabro, em que este, depois de descrever a fome de 1033, nos conta como na aurora do novo milénio a terra refloresce de súbito, como um prado na primavera: estava-se já no terceiro ano depois do 1000 quando no mundo inteiro, mas sobretudo em Itália e nas gálias, se dá uma renovação das igrejas basilicais. Todos os povos da cristandade competiam entre si para ter a mais bela. Parecia que, sacudindo-se e libertando-se da velhice, a própria terra se cobria toda com um cândido manto de igrejas.
Com a reforma de Carlos Magno, tanto as abadias como os grandes feudos fomentaram novas culturas, chegando a dizer-se que o século X estava cheio de feijões. Esta expressão não deve ser tomada à letra, porque os feijões que hoje conhecemos só chegaram com o descobrimento da América, e a Antiguidade conhecera, quando muito, o feijão-frade. A expressão é, porém, exacta se a palavra feijões significar legumes em geral, porque, por efeito de profundas modificações na rotação das culturas, houve no século X um cultivo mais intenso de favas, grão-de-bico, ervilhas e lentilhas, tudo legumes ricos em proteínas vegetais. Na mais remota Idade Média, os pobres não comiam carne, a não ser que conseguissem criar alguns frangos ou caçar às escondidas (porque os animais da floresta eram só para os senhores). E, como comiam mal, descuravam as terras. Mas no século X começa a difundir-se o cultivo intensivo dos legumes, para satisfazer as necessidades energéticas de quem trabalha: com o aumento da ingestão de proteínas, as pessoas tornam-se mais fortes, não morrem tão cedo, criam mais filhos e a Europa repovoa-se.
No início do segundo milénio, por efeito de algumas invenções e do aperfeiçoamento de outras, as relações de trabalho e as técnicas de comunicação sofrem profundas modificações. Na Antiguidade, o cavalo era ajaezado com uma espécie de coleira que exercia pressão no peito do animal, comprimindo os músculos que se contraíam e não podiam, portanto, produzir uma tracção eficaz (além disso, reduzia-lhe a resistência, oprimindo-lhe os pulmões). Isto dura até ao século X. Entre a segunda metade deste século e o século XII, vulgariza-se um novo tipo de arreio que desloca o ponto de aplicação do peito para a espádua. O esforço de tracção é transmitido da espádua para todo o esqueleto do animal, dando liberdade de acção aos músculos. Deste modo, a força exercida pelo cavalo aumenta, pelo menos, de dois terços e o animal fica habilitado a efectuar trabalhos em que até então só fora possível usar os bois, mais robustos mas mais lentos. Além disso, enquanto até aí os cavalos eram atrelados lado a lado, passa-se a pô-los em fila indiana, aumentando significativamente a eficácia da tracção. É só em algumas miniaturas de cerca do ano 1000 que se nota este novo sistema de ajaezamento. Além disso, o cavalo já é equipado com ferraduras (oriundas da Ásia, por volta de 900). Antes, os cascos eram guarnecidos, em casos excepcionais, com faixas de couro. Torna-se também comum o uso dos estribos, igualmente oriundos da Ásia, que melhoram a estabilidade do cavaleiro e evitam que ele aperte os joelhos contra os flancos do animal. A maior manobrabilidade do cavalo amplia as fronteiras do mundo. A passagem, no século XX, do avião a hélice para o avião a jacto (que reduz a metade a duração das viagens) não se compara com o salto técnico que o novo sistema de aparelhamento e ferragem do cavalo representa. O arado antigo não tinha rodas e tornava-se difícil dar-lhe a inclinação adequada; mas no século XIII é introduzido na Europa um arado já usado pelos povos nórdicos desde o século II da era antiga, com rodas e com duas lâminas, uma para rasgar a terra e a outra, curva, a relha, para revolvê-la». In Umberto Eco (organização), Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN: 978-972-204-479-0.

Cortesia PdQuixote/JDACT

O Baile de Máscaras. Joanna Taylor. «Avaliando o meu reflexo, dou um toque final aos meus seios. Depois aplico tanto pó branco no rosto quanto é possível»

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«(…) Em todo o caso, tenho traços perfeitamente simétricos, com grandes olhos verde-acastanhados, um nariz pequeno e direito, e uma boca generosa. A minha avó chamava-me sempre o seu pequeno duende, por causa do meu narizinho e dos meus olhos com uma expressão marota. O meu nariz é um pouco grande para um duende agora, mas tem a proporção exacta para o meu rosto, e os meus olhos ainda brilham nas circunstâncias certas. Com a minha boca larga, imagino que continuo a ter um ar um pouco travesso. Não voluptuoso como Rose, ou perfeito como Belle. Mas atraente o suficiente para chamar a atenção. Também tenho uma boa tez, e embora possua uma tendência para me bronzear, não contraí varíola. Por isso, tenho uma vantagem sobre muitas senhoras finas que tiveram varíola na infância. Especialmente à luz de velas. Reparem na Elizabeth, dizia mrs. Wilkes enquanto aplicávamos a maquilhagem em frente às nossas cómodas. Ela não é a mais bonita aqui. Mas os homens não se importam se uma menina é um pouco bronzeada, ou não enche um corpete. Eles gostam de uma jovem que pareça saudável e animada, e se mostre cooperante.
Mrs. Wilkes gostava de mim, porque, apesar de tudo, quando eu me adaptei àquela casa, estava sempre a rir. Ela dizia que era disso que os velhos ricos gostavam. Também tinha outras vantagens. Além da minha cara, sou alta, o que é bom, e jovem, o que é melhor. Mas a minha figura não tem muito mais a valorizá-la. Não engordo facilmente como algumas raparigas. Ainda não posso dar-me ao luxo de me alimentar bem. Então aproveito ao máximo o meu rosto, porque sempre tirei o melhor partido daquilo que tenho toda a minha vida. E neste estranho mundo nocturno, que nunca imaginei para mim, a minha cara é o meu maior bem. Pego na tinta para os lábios e reparo que mais uma vez está quase a acabar. Suspiro, espalhando a menor quantidade de pigmento vermelho de que sou capaz sobre os lábios. Uma das desvantagens de ter uma boca grande é usar muita tinta para os lábios.
Apanho o vestido para chegar aos sapatos, que foram feitos à mão e caros. São azul-escuros, para condizer com o vestido, e têm um salto pequeno. Pego nas luvas de onde as tinha deixado diante do espelho. As luvas são um hábito que todas nós aprendemos em casa de mrs. Wilkes. Ela ensinou-nos a desprezar as pobres coitadas cuja educação não foi cuidada o suficiente para perceberem que um par de luvas poderia dobrar o valor de uma rapariga. As minhas estão quase rotas no meio de dois dedos e não tão limpas como deviam. Mas não me atrevo a lavá-las, com medo de que se desfaçam completamente. Kitty e eu ficámos sem crédito na loja de fazendas e miudezas. Alcanço o chapéu, que é de abas largas ao estilo pastoril, um adereço em voga para afastar o sol do meu rosto. Uso o chapéu baixo, de modo que os meus olhos possam espreitar sedutoramente, e arranjo o cabelo para que pareça cair a partir da aba. O meu cabelo tem imensos caracóis castanhos, que são abundantes o suficiente para que eu possa fazê-los passar por uma peruca cara com os enfeites de cabelo certos.
Coloco o meu pente favorito, de estanho, que é decorado com pequenas borboletas e penas, ambas azuis para combinarem com o vestido e sapatos. Depois pego na minha bolsa, que está pendurada. Uma vez que Kitty fugiu com os nossos principais ganhos, tenho apenas algumas pequenas moedas. O suficiente para comprar um pouco de queijo e pão, se ficar com muita fome. Avaliando o meu reflexo, dou um toque final aos meus seios. Depois aplico tanto pó branco no rosto quanto é possível e uso rouge nas bochechas. Os meus olhos verde-acastanhados brilham no espelho, como se me desafiassem a fazer algo maldoso. Esta pode ser a noite, digo a mim mesma, tal como todas as noites. Esta pode ser a noite em que encontro o homem certo, e tudo pode mudar». In Joanna Taylor, O Baile de Máscaras, 2015, Edições ASA II, 2016, ISBN 978-989-233-518-6.

Cortesia de EASA/JDACT