segunda-feira, 29 de maio de 2017

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «Alice vira-se, alarmada, deixando cair o isqueiro. A caverna mergulha na escuridão. Ela tenta correr, mas fica desorientada no escuro»

cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eles não lhe podem fazer mal. Determinada a não se deixar dominar pelo medo, Alice se força a se agachar, tomando cuidado para não desarrumar mais nada. Corre os olhos pela sepultura. Uma adaga repousa entre os corpos, o fio cego devido aos anos, assim como alguns fragmentos de tecido. Ao lado da adaga há uma bolsa de couro fechada por uma tira embutida, grande o suficiente para conter uma pequena caixa ou um livro. Alice franze o cenho. Tem certeza de ter visto algo assim antes, mas a lembrança não vem. O objecto redondo e branco encaixado entre os dedos que parecem garras do esqueleto menor é tão pequeno que Alice quase não o vê. Sem parar para pensar se é a coisa certa a fazer-se, tira rapidamente a sua pinça do bolso. Abaixa-se e, com cuidado, retira o objecto, em seguida ergue-o em direcção à chama, soprando delicadamente a poeira para ver melhor.
E um pequeno anel de pedra, simples e sem atractivos, com uma faceta redonda e lisa. O anel também é estranhamente familiar. Alice olha mais de perto. Há um desenho gravado no interior. No início, ela pensa que é algum tipo de selo. Então, com um choque, percebe. Levanta os olhos para as marcas na parede dos fundos da câmara, depois torna a olhar para o anel. Os desenhos são idênticos. Alice não é religiosa. Não acredita nem no céu nem no inferno, nem em Deus nem no diabo, nem nas criaturas que dizem assombrar aquelas montanhas. Mas, pela primeira vez na vida, sente-se dominada pela sensação de estar na presença de algo sobrenatural, algo que ultrapassa a sua experiência e a sua compreensão. Pode sentir a maldade esgueirando-se sob a sua pele, seu couro cabeludo, as solas dos seus pés.
Ela perde a coragem. A caverna parece subitamente fria. O medo aperta a sua garganta, congelando o ar nos seus pulmões. Alice põe-se de pé atabalhoadamente. Não deveria estar ali, naquele lugar ancestral. Agora está desesperada para sair da câmara, para se distanciar das provas de violência e do cheiro da morte, para estar novamente na luz do sol, segura e brilhante. Mas é tarde demais. Acima ou atrás de si, não consegue distinguir onde, ela ouve passos. O som ecoa pelo espaço confinado, ricocheteando nos rochedos e nas pedras. Vem vindo alguém.
Alice vira-se, alarmada, deixando cair o isqueiro. A caverna mergulha na escuridão. Ela tenta correr, mas fica desorientada no escuro e não consegue achar a saída. Tropeça. As suas pernas parecem incapazes de sustentá-la. Ela cai. O anel é lançado de volta para junto da pilha de ossos, onde é o seu lugar.

Los Seres. Sudoeste de França
Alguns quilómetros em linha recta a leste dali, num vilarejo perdido nos Montes Sabarthès, um homem alto e magro vestido com um casaco claro está sentado sozinho diante de uma mesa de madeira escura e encerada. O tecto onde ele está é baixo, e o chão feito de grandes quadrados de cerâmica da cor da terra vermelha da montanha, que mantêm o aposento fresco apesar do calor lá fora. A única janela está fechada, tornando o lugar escuro excepto por uma pequenina luz lançada por uma pequena lamparina a óleo, em cima da mesa. Ao lado da lamparina há um copo de vidro cheio quase até à borda com um líquido vermelho. Espalhadas pela mesa há várias folhas de um papel grosso cor de creme, cada uma delas inteiramente coberta de linhas em tinta preta com uma caligrafia perfeita. O quarto está silencioso, excepto pelo arranhar e deslizar da caneta e pelo tilintar das pedras de gelo nas laterais do copo quando ele bebe. Paira no ar um leve cheiro de álcool e frutas. As batidas do relógio marcam a passagem do tempo enquanto ele pára, pensa, e torna a escrever. O que deixamos para trás nesta vida é a lembrança de quem fomos e do que fizemos. Uma marca, não mais do que isso. Eu aprendi muito. Tornei-me sábio. Mas será que fiz alguma diferença? Não saberia dizer. Pas a pas, se va luènh». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

O Labirinto Perdido. Kate Mosse. «De repente, ela não quer continuar. Não sente nenhuma vontade de estar ali»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Sentindo-se nervosa e ligeiramente culpada, Alice enrola a fivela num lenço e a enfia no bolso, em seguida avança com cautela. A luz da chama é fraca, mas ilumina o caminho imediatamente à sua frente, lançando sombras sobre as paredes cinza e ásperas. À medida que avança mais, ela vai sentindo o ar frio se enroscar pelas suas pernas e braços nus como um gato. Está caminhando sobre uma rampa. Pode sentir o chão descendo sob seus pés, irregular e arenoso. O atrito das pedras e do cascalho ressoa alto naquele espaço confinado, silencioso. Ela tem consciência de que, quanto mais longe e mais fundo avança, mais a luz do dia vai ficando pálida atrás de si. De repente, ela não quer continuar. Não sente nenhuma vontade de estar ali. Mas é como se houvesse algo irresistível naquilo, algo a puxá-la para as entranhas profundas da montanha.
Dez metros mais adiante, o túnel termina. Alice vê-se na soleira de uma câmara fechada como uma caverna. Ela está em pé sobre uma plataforma de pedra natural. Um ou dois degraus rasos e largos bem na sua frente levam à área principal onde o chão foi nivelado até ficar plano e liso. A caverna tem cerca de dez metros de comprimento e talvez cinco de largura, e foi obviamente construída por mãos humanas, e não só pela natureza. O tecto é baixo e abobadado, como o de uma cripta.
Alice olha fixamente, segurando mais alto a chama tremeluzente e incomodada por uma curiosa familiaridade que a vai dominando e que ela não consegue explicar. Está prestes a descer os degraus quando percebe letras gravadas na pedra do degrau de cima. Inclina-se e tenta ler o que está escrito. Apenas as três primeiras palavras e a última letra, N, ou talvez H, estão legíveis. As outras estão carcomidas ou lascadas. Alice limpa a poeira com os dedos e recita as letras em voz alta. Naquele silêncio, o eco de sua voz parece de certa forma hostil e ameaçador. P-A-S A P-A-S... Pas a pas. Passo a passo? Passo a passo o quê? Uma vaga lembrança percorre a superfície de sua mente consciente, como uma canção há muito esquecida. E logo desaparece. Pas a pas, murmura ela dessa vez, mas aquilo não significa nada. Uma prece? Um aviso? Sem saber o que vem depois, não faz sentido.
Agora nervosa, ela endireita-se e desce os degraus um a um. Curiosidade e um mau pressentimento brigam no seu íntimo, e ela sente a pele dos braços finos e descobertos arrepiarem-se, embora não saiba se é por ansiedade ou por causa do frio da caverna. Alice levanta a chama bem alto para iluminar o caminho, tomando cuidado para não tropeçar nem tirar nada do lugar. No nível inferior, pára. Respira fundo e dá mais um passo rumo à escuridão de ébano. Mal consegue distinguir a parede da câmara. Aquela distância, é difícil ter certeza se não se trata apenas de uma ilusão criada pela luz ou de uma sombra lançada pela chama, mas parece haver um desenho circular de linhas e semicírculos pintados ou esculpidos na pedra. No chão em frente ao desenho está uma mesa de pedra de pouco mais de um metro de altura, como um altar.
Mantendo o olhar fixo no símbolo na parede para se guiar, Alice avança mais. Agora pode ver o desenho com mais clareza. Parece algum tipo de labirinto, embora a sua memória lhe diga que há algo errado com ele. Não é um labirinto de verdade. As linhas não conduzem ao centro como deveriam. O desenho está errado. Alice não consegue explicar por que tem tanta certeza disso, só sabe que está certa. Mantendo os olhos cravados no labirinto, vai chegando cada vez mais perto. O seu pé bate em algo duro no chão. Ouvem-se um baque leve e oco e o barulho de algo rolando, como se um objecto houvesse sido deslocado. Alice olha para baixo.
As suas pernas ficam bambas. A pálida chama na sua mão estremece. Chocada, ela não consegue respirar. Está de pé na beira de uma cova rasa. Uma leve depressão no solo, não mais do que isso. Nela há dois esqueletos do que um dia foram seres humanos, os ossos totalmente limpos pelo tempo. Os buracos vazios dos olhos de um dos crânios a encaram. O outro crânio, deslocado por seu pé, está virado de lado como alguém que desvia o olhar. Os corpos estão dispostos um ao lado do outro, de frente para o altar, como estátuas numa tumba. Estão simétricos e perfeitamente alinhados, mas não há nada de plácido naquele túmulo. Nenhuma sensação de paz. Os ossos malares de um dos crânios estão esmagados, amassados para dentro como uma máscara de papier maché. Várias costelas do outro esqueleto estão partidas e apontam para fora de modo estranho, como os galhos secos de uma árvore morta». In Kate Mosse, O Labirinto Perdido, Labyrinth, 2005, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-202-969-8.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

O Templário Negro. Roberto Genovesi. «Leofric atirou com o capacete para o pó do chão. Estava sozinho. Longe dos companheiros. Mas, sobretudo, longe da batalha que estava prestes a começar»

jdact

Manescalia. Terra Santa. 3 de Julho, anno Domini 1187
«(…) Mais ainda, pensou Leofric, persignando-se apressadamente. Acompanhou pelo canto do olho o pequeno cortejo que continuava pela estrada fora e, quando viu a escolta da Vera Cruz muito longe, tentou levantar-se, esperando do fundo do coração que aqueles cavaleiros já houvessem esquecido o seu rosto. Como se chama?, perguntou uma voz em tom perentório. O soldado que pouco antes o admoestara estava agora ali. Agora já não volta para trás, respondeu Leofric ao levantar-se. O sargento observava-o do alto da sela, quase de pé sobre os estribos. A sobreveste negra cruzada de vermelho. O rosto violáceo do cansaço, do sol, da tensão. Não estou a falar do cavalo, estúpido. Refiro-me ao teu senhor. Leofric olhou em volta. A sua cavalgadura era agora um ponto cinzento em movimento pela estrada de Manescalia. Wigstan de Clontarf. Sir Wigstan, precisou, soprando a areia para fora do capacete. Um irlandês, imagino. Outro qualquer, acrescentou o graduado, desconhecendo que dizia uma meia-verdade, ter-te-ia deixado a descascar batatas. Deslocou o peso do escudo que levava a tiracolo para equilibrar os movimentos do cavalo. E posso saber, se não for demasiado incómodo, onde se encontra agora o teu cavaleiro?
Leofric tentou compor-se, arranjando o cinto de que pendia a bainha de uma espada curta de ferro que desaparecera sabe-se lá onde quando fora arrancado dos estribos. Não sei, senhor, respondeu, sincero, empurrando o elmo sobre a cabeça. O sargento esquadrinhou-o como se se encontrasse diante de um leproso. Rapaz, se quiseres continuar a servir como escudeiro de um monge do Templo, terás de aprender a manter-te colado ao teu senhor como um chato ao cu de um porco. Estamos entendidos? Sim, senhor. Obrigado pelo conselho, senhor. O sargento tentou dizer alguma coisa. Depois deteve-se. Desatou a rir de repente.
Obrigado pelo conse1ho..., repetiu, abanando a cabeça, divertido. O único conselho que te posso dar é ires para junto de sir Wigstan o mais depressa possível. De certeza que já deve ter chegado ao acampamento. Depois esticou um braço. Imagino que o jovem corcel que vi fugir para o lado contrário do inimigo que nos preparamos para combater seja um dos teus, disse, sarcástico. Depois olhou em volta como se tivesse perdido a armadura. Mas não vejo o outro (os cavaleiros templários tinham três cavalos ao seu serviço; um para o cavaleiro, outro para o seu escudeiro e outro ainda de reserva, normalmente utilizado para transportar aprovisionamentos, armaduras e cobertores). Ficou magoado esta manhã, pouco antes de nos pormos a caminho. Deixámo-lo nas cozinhas.
O sargento refletiu por instantes. Tentou proferir alguma coisa quando um som abafado, semelhante a uma carga de trovões, invadiu o vale. Os últimos conrois dos templários e dos hospitalários passaram à sua frente, a grande velocidade. O sargento esporeou com fúria os flancos do animal, fazendo-o relinchar de dor. Os nossos tocadores não usam tambores. Depois afastou-se, deixando o escudeiro pasmado. Lamento, rapaz, mas terás de te desenrascar sozinho, gritou-lhe de longe, sem se voltar. Se por acaso me cruzar com o teu senhor, concluiu com uma gargalhada que se perdeu no vento, digo-lhe que as formigas não te mataram.
Leofric atirou com o capacete para o pó do chão. Estava sozinho. Longe dos companheiros. Mas, sobretudo, longe da batalha que estava prestes a começar. Talvez fosse verdade. O seu senhor teria feito melhor se o tivesse deixado a descascar batatas naquela maldita embarcação fedorenta. Porque queres tornar-te meu escudeiro? O cruzado deitara-lhe uma olhadela distraída, continuando a sentir as entranhas esgotadas pelos constantes acessos de vómito. A embarcação que transportava a enésima mão-cheia de cavaleiros para a Terra Santa partira de Génova pouco depois da alvorada do dia anterior. (…) A reacção imediata do cavaleiro fora um encolher de ombros. Não tendes um escudeiro, certo? O que te faz pensar isso?, respondera-lhe o outro entre dentes. Depois vomitara mais uma vez. Porque um escudeiro nunca deixaria o seu cavaleiro aqui a..., a... A vomitar como uma menina? É isso que estás a pensar, certo? Leofric não respondeu. (…) Para mim não existem outros cavaleiros além dos defensores do Templo de Salomão. O templário pesara demoradamente aquela resposta. És irlandês, certo? Só então Leofric se apercebera de que se tinha dirigido àquele homem sem pensar se seria capaz se compreender a sua língua. A sua pronúncia. O cruzado ostentara um sorriso embaraçado. Chamo-me Oswald Wigstan e fui ordenado poucas horas antes de pôr os pés nesta embarcação, rapaz. E, mesmo que tenhamos em comum a terra em que nascemos ainda não me parece poder ser um bom guia. Mas um cavaleiro não poder estar sem um escudeiro. Na verdade, nem sequer pensei nisso. Aconteceu tudo tão depressa... (…) Sou ajudante de cozinha, senhor. Consigo descascar cem batatas antes do virar de uma clepsidra. O cavaleiro templário tossira. Leofric pensara que estaria a tentar reprimir o enésimo acesso de náusea, mas estava a procurar conter uma gargalhada. Assim sendo, a vossa resposta é não, certo, senhor? Leofric baixara a cabeça. Depois voltara-se enquanto a gargalhada do cavaleiro se perdia no rumar das ondas contra a quilha. Espera, rapaz. Talvez um cavaleiro feito há um dia se possa contentar com um escudeiro descascador de batatas. E depois, em toda a minha vida, foste a primeira pessoa a chamar-me senhor». In Roberto Genovesi, O Templário Negro, 2013, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-338-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

O Templário Negro. Roberto Genovesi. «Algures à sua volta, o capacete parara de rolar. Quando voltou a tê-lo entre as mãos, selou a descoberta com outra blasfémia picaresca»

jdact

Manescalia. Terra Santa. 3 de Julho, anno Domini 1187
«(…) São Patrício era um grande safado. Leofric maldisse o dia em que decidira tomar conta daquele potro. Mas fê-lo entre duas blasfémias sussurradas a meio-tom. Certamente, assemelhava-se um pouco ao escudeiro de um cavaleiro templário em posição de quatro patas, como um cão, com o pó a queimar-lhe a garganta e a terra a impedi-lo de abrir as pálpebras, mas São Patrício reparara nele desde o dia em que, para o ferrar, lhe espetara por engano aquele prego na cartilagem acima do casco. Tinha a certeza de que antecipava o gozo daquele momento há muito. Percebia-o pelos relinchos de satisfação que ouvia, cada vez mais afastados, enquanto o animal fugia a trote. Vai-te embora. Vai para casa ruminar aveia. É o que sabes fazer melhor!, gritou-lhe, enquanto o animal se afastava. És apenas uma pileca!
Algures à sua volta, o capacete parara de rolar. Quando voltou a tê-lo entre as mãos, selou a descoberta com outra blasfémia picaresca, certo de que daquela vez a salvação da sua alma também não estaria em perigo. O segredo era precisamente aquele. Explicara-lho o padre que o acompanhara desde o dia do baptismo até ao momento em que envergara o primeiro elmo de combate. Se quiseres tornar-te um bom cavaleiro, tens de ter a alma pura, mas, e o padre Sean também o reconhecia, nestes tempos é difícil manter as promessas. Sobretudo se o interlocutor é o Altíssimo. Mas se deres ao teu cavalo o nome de um santo, de um mártir ou de um apóstolo, nos momentos de confronto nunca te arriscarás a oferecer a alma a Satanás. Um magro consolo, tendo em conta tudo o que acontecera num segundo, e o seu senhor, que o precedia com o primeiro conroi da expedição, prosseguira sem se aperceber de nada. Agora era preciso dar tudo por tudo para recuperar o terreno perdido, nem que fosse preciso desestribar outro escudeiro. Tinha de chegar ao acampamento com os outros cavaleiros para que todos pudessem ver Leofric, o pitta, o filho do moleiro, desfilar, orgulhoso, à sombra do estandarte do Templo. Um estandarte que, seguramente, num dia não muito longínquo, seguraria com as suas próprias mãos.
Imaginara o momento em que, de madrugada, deixara para trás as torres de Manescalia. À cabeça do exército cristão, vira nada mais nada menos que Raimundo de Trípoli com os seus cinco mil soldados de infantaria e trezentos cavaleiros. Atrás de si, reconhecera as milícias citadinas e a cavalaria de Guido de Lusignan e de Henrique II de Inglaterra. Seguidos em silêncio por um grupo diminuto de cavaleiros leprosos da Ordem de São Lázaro. Ao Templo e aos seus monges cabia a honra de fechar a formação com duzentos sargentos e cento e cinquenta cavaleiros. Um deles era o seu senhor, e Leofric, na amálgama de carroças, catapultas e animais de carga, avançava montado no seu jovem corcel como se viajasse sustido por centenas de braços invisíveis, saboreando antecipadamente o momento em que enfrentaria a sua primeira e verdadeira batalha, aos ombros de heróis que na Europa eram considerados os baluartes do cristianismo na Terra Santa. Ele, um simples escudeiro arrancado à despensa de uma embarcação de carga de um jovem guerreiro em viagem a caminho da glória, que apenas no dia anterior fora ordenado cavaleiro. Um acaso? O destino? A vontade de Deus? Leofric não fora capaz de responder. Mas mesmo então, com o rosto empastado em suor e pó, diante de um pôr do Sol vermelho como a cruz que os cavaleiros traziam ao peito, a única coisa que desejava era chegar montado, nem que fosse numa mula, ao local definido pelo destino para a contenda.
Ajoelha-te! Um cavalo passou-lhe à frente, a trote, lançando-lhe mais pó à cara. O soldado que o montava lançou-lhe uma olhadela de soslaio. Leofric levantou a cabeça de repente. Reconheceu de imediato as insígnias dos bispos de Acre e de Lida, rodeados por uma dezena de cavaleiros armados até aos dentes. Entre os escudos fechados em protecção dos dois prelados surgiu um elmo em forma de mitra, sobre o qual se destacava em relevo uma grande cruz de bronze. O bispo de Acre sustinha um longo bastão que terminava com um estandarte que representava o rosto de Cristo. O sinal de que a Vera Cruz, o madeiro em que fora crucificado o filho de Deus, viajava com ele. E, de facto, precisamente atrás do seu cavalo, num grande baldaquim erguido sobre quatro rodas cheias, carregava, de forma lenta e orgulhosa, uma gigantesca cruz plantada com uma coroa de polé sobre um pedestal de ferro. A madeira escura destacava-se dos profundos sulcos produzidos pela luz do Sol e do movimento sobre a superfície de ouro com que fora banhada. No cruzamento dos braços estava encastoado um relicário dourado, incrustado com pérolas e pedras preciosas e protegido por uma grade. A santa relíquia repousava naquele precário guarda-jóias». In Roberto Genovesi, O Templário Negro, 2013, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-338-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. «O pano embebido em sangue deslizou da testa. Uma mão, rápida, apanhou-o para o voltar a colocar no lugar»

jdact

«(…) Depois de terem recuperado as selas e os atavios necessários, afastaram-se levando os animais pelas rédeas. Vinde até à minha tenda, convidou o picardo, satisfeito com a escolha. O espertalhão do meu criado arranjou aguardente, e sabe Deus como detesto beber sozinho... Ouviu-me, Rocheblanche? Maynard só pronunciou umas sílabas mal articuladas. O seu olhar embaciava-se, dando-lhe a impressão de vaguear num esplendor ofuscante. De repente, deixou de avistar o chão que pisava e então, tomado de pânico, agarrou-se às rédeas do cavalo para manter o equilíbrio. Mas a progressiva perda de forças fê-lo cair por terra.
O pano embebido em sangue deslizou da testa. Uma mão, rápida, apanhou-o para o voltar a colocar no lugar. Eu disse-vos, senhor, que estáveis com péssimo aspecto. Maynard acordou com um suspiro de alívio, encontrando-se nos seus aposentos. Sentia a testa em chamas e a perna incrivelmente inchada. Tentou levantar-se, mas o rapaz obrigou-o a permanecer deitado, comprimindo-lhe o tórax com a palma da mão. Incapaz de se opôr àquele gesto simples, o cavaleiro deu-se conta da própria fraqueza. Experimentou, além disso, uma grande angústia, que inicialmente não soube explicar. Depois, lembrou-se de ter sonhado com o Cristo crucificado da velha igreja, com as aberturas dos olhos escancaradas em órbitas negras, das quais saíam grandes vermes. Foi invadido por uma tal repugnância que sentiu o impulso de fugir. A mão, mais uma vez, impediu-o. O senhor de Vermandois trouxe-vos até aqui sem sentidos, explicou o rapaz. Carregando-vos nos braços como se fosseis uma mulher. O cavaleiro tentou falar, mas lembrou-se de que tinha a garganta seca. Esboçou um sorriso. Imagino..., sussurrou, o teu divertimento... As gargalhadas do rapaz distraíram-no da sensação de horror, permitindo-lhe cair novamente no sono. Em paz.
Demorou uma semana a recompor-se. Foi obrigado a permanecer deitado no catre, à espera de recuperar as forças, enquanto ouvia vozes sobre a partida de um grupo cada vez maior de soldados. A vontade de Filipe VI de suspender as operações militares espalhara-se, levando os guerreiros de alto estatuto a abandonar o acampamento para regressarem aos seus feudos. No entanto, sua majestade demorava-se na igreja derrocada juntamente com um círculo reduzido de fiéis. Maynard pedira ao rapaz que o informasse acerca dos seus nomes, descobrindo que no grupo também se encontrava Karel do Luxemburgo. Não conseguira outras notícias acerca dele, excepto o rumor de que era esperado com urgência em Colónia. Contudo, o príncipe hesitava em partir». In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

Abadia dos Cem Pecados. Marcello Simoni. «O cavaleiro fez sinal de compreender, abstendo-se de retomar a conversa. Filipe VI recrutara quinze mil besteiros genoveses para apoiarem a cavalaria»

jdact
«(…) Aqueles olhos não falavam de outra coisa. Era corno se o quisessem proteger, envolver numa aura de paz. Fixou-os sem ceder à comoção, invadido pelo remorso por todas as vidas que havia destruído. Depois, recuou um passo, em direcção ao arco do portal, e o encanto desvaneceu-se. Estava novamente sozinho, diante de um enorme mistério. Já percorrera metade da escadaria exterior quando viu um homem de armas correr na sua direcção para lhe oferecer ajuda. Maynard recusou com modos bruscos e depois tentou desculpar-se. Reconheceu então um rosto amigo. Robert de Vermandois, disse, que prazer voltar a ver-vos são e salvo.
Eu também, Rocheblanche. Moreno e de estatura hercúlea, Robert de Vermandois era um barão da Picardia caído em desgraça, mas movido por uma ligação marcial à honra. Ontem, na batalha, receei por vós. Arrisquei-me muito, reconheço. Pelo menos não vos haveis manchado de vergonha, respondeu o nobre, com ar triste. Combatia no flanco ocidental, entre hordas de soldados de infantaria, quando me ordenaram que massacrasse os nossos mercenários para evitar que batessem em retirada. Ouvistes os besteiros?, quis saber Maynard, começando a coxear até à sua tenda.
Robert seguiu-o, gesticulando com as grandes mãos. Sim, os sobreviventes genoveses. O cavaleiro fez sinal de compreender, abstendo-se de retomar a conversa. Filipe VI recrutara quinze mil besteiros genoveses para apoiarem a cavalaria, mas não era de espantar que aqueles pobres diabos tivessem revelado indecisão no combate. Chegados a Crécy depois de uma caminhada de mais de seis léguas, haviam-nos obrigado a atacar sem lhes ter sido permitido descansar. A voz de Vermandois voltou a chamar a sua atenção. Vindes com ar sombrio, Rocheblanche. Recebestes más notícias? Maynard evitou o assunto com um sorriso vago. Desejava apenas conferenciar com sua majestade, limitou-se a dizer, mas não se apresentou a oportunidade. O barão picardo encolheu os ombros. Desde que fomos derrotados, o rei não faz mais do que conversar com Karel do Luxemburgo.
Detectando uma ponta de desprezo, o cavaleiro ficou curioso. Conhecei-lo? Não tão bem quanto o pai, respondeu Robert. Karel é um homem ambíguo, sempre rodeado de padres e religioso até ao limite do fanatismo. Só sei que é um cobarde. O que haveis ouvido? É dado como certo que ontem se retirou da batalha antes do confronto decisivo. Maynard anuiu com interesse, pois aquela informação reforçava as suas suspeitas. Mesmo que não valesse como prova de traição, abandonar o pai no campo não depunha a favor do nobre Karel. De repente, foi obrigado a deter-se devido a uma pontada no joelho e, pedindo ao barão que o esperasse, percebeu ter passado os seus aposentos. Chegara à extremidade do acampamento, onde se encontravam os soldados de baixa classe e os cavalos.
Fi-lo andar mais do que devia, desculpou-se Robert, apontando para os estábulos, mas preciso de um novo corcel. E visto que em Crécy sobreviveram mais cavalos do que homens, gostava de tirar proveito do vosso conselho. Não precisais de vos justificar, amigo. Desprezando a dor, Rocheblanche apoiou-se no cajado e avançou direito. Tenho muito gosto em aproveitar a oportunidade, visto que também fiquei apeado. Na verdade, sentia-se cada vez mais fraco e teria preferido ir descansar, mas não suportava ser tratado como doente. Encontraram o guarda dos estábulos, ofereceram-lhe algumas moedas para poderem optar pelos melhores exemplares que haviam ficado sem dono e deram início à escolha. Não se tratava apenas de determinar se os animais eram saudáveis e robustos, mas também do temperamento adequado. Depois de um feroz confronto, um corcel podia perder a coragem e partir à desfilada ao menor sinal de perigo. Consciente do risco, Maynard avaliou com atenção os animais, os movimentos das suas pupilas, da cabeça e dos cascos, até escolher um cavalo preto de porte orgulhoso e uma égua de carga bastante robusta para transportar o peso da armadura. Por sua vez, Vermandois pousou os olhos num elegante cavalo branco». In Marcello Simoni, A Abadia dos Cem Pecados, 2014, tradução de Inês Guerreiro, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-278-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

domingo, 28 de maio de 2017

Papas. Imperadores e Hereges na Idade Média. José D’Assunção Barros. «A polémica em torno da ideia de decadência aplicada à transição entre os períodos antigo e medieval é, como nos poderiam mostrar outros autores, bastante problemática»

jdact e wikipedia

«(…) Neste sentido, é de lembrar que já remonta aos próprios tempos antigos a diversidade de leituras estabelecidas em torno dos marcos históricos que foram pressentidos pelos próprios antigos como sinais do fim de todo um período. Assim, enquanto alguns autores pagãos, particularmente tomados por uma visão pessimista, tenderam a encarar o saque de 410 sob a perspectiva de um acontecimento que sinaliza uma decadência que havia fragilizado o Império e possibilitado o saque de Alarico, já será outra a visão de Paolo Orósio (c. 385- c. 420), autor da primeira história universal escrita por um cristão e entretecedor de uma avaliação dos acontecimentos históricos onde cada aspecto ou acontecimento é medido em função da sua aproximação ou afastamento em relação ao cristianismo. Para Orósio, o saque visigodo do ano de 410 é positivado simultaneamente como demonstração do juízo de Deus e como anúncio de uma nova era que estaria por vir, acrescentando-se ainda a ênfase numa leitura sobre Alarico como visigodo convertido que desfecha um golpe fatal sobre a Roma pagã. Este tipo de leitura divinizante da história, aliás, onde cada acontecimento (seja este um sucesso ou uma catástrofe) fala directamente de Deus e de uma relação dos actores humanos com Ele, que pode no caso ser punida ou premiada, seria prontamente incorporada na Idade Média.
Os embates em torno da perspectiva da decadência do Império Romano já afloram, portanto, na própria época de desarticulação do mesmo. Em vista disso, amparando-se numa cuidadosa análise historiográfica sobre a apropriação e reapropriações desta noção carregada de sentido valorativo, Santo Mazzarino procura ressaltar os problemas de utilização da noção de decadência pela moderna historiografia, e sua recomendação taxativa é a de rejeitar a compreensão da Antiguidade Tardia como um período de decadência.
A polémica em torno da ideia de decadência aplicada à transição entre os períodos antigo e medieval é, como nos poderiam mostrar outros autores, bastante problemática. Por fim, veremos oportunamente, ao lado das ideias de declínio, queda e decadência, outros conceitos que têm sido propostos pela historiografia recente, incluindo o de desagregação, todos com implicações mais específicas para o estudo do último período do Império Romano.

Novos campos historiográficos e novas leituras da passagem
Por ora, consideraremos que os desenvolvimentos modernos da historiografia sobre a passagem da Antiguidade à Idade Média correspondem precisamente à superação desta dicotomia que, apesar de gerada por posições aparentemente inconciliáveis, o assassinato ou a morte natural do Império, trazem como pano de fundo um mesmo posicionamento historiográfico francamente baseado nos acontecimentos políticos em nível institucional. Com o desenvolvimento da historiografia do século XX, o olhar dos historiadores vai como que se desatrelando desta exclusividade em relação à história política de âmbito institucional, e cada vez mais novas dimensões vão sendo colocadas em cena como questões centrais passíveis de serem examinadas. Economia, cultura, mentalidades, imaginário, demografia, a afirmação de novas especialidades da história voltadas para o diálogo com estas dimensões fundamentais permite que um mesmo conjunto de acontecimentos seja beneficiado por diversificadas cronologias que dependerão do problema a ser examinado pelo historiador.
Os estudos de análise histórica de populações, por exemplo, ao instituírem a partir de meados do século XX um novo campo histórico a ser definido como história demográfica, rechaçam por princípio a antiga maneira historiográfica de apodar de invasões bárbaras ao fenómeno do adentramento do Império Romano por povos diversos. Nem invasões e nem bárbaras, aliás, pois duplamente tem sido revista esta antiga maneira de interpretar o movimento de gentes que iria transformar tão completamente a face do Império Romano». In José D’Assunção Barros, Papas, Imperadores e Hereges na Idade Média, Editora Vozes, 2012, ISBN 978-853-264-454-1.

Cortesia EVozes/JDACT

As Grandes Sociedades Secretas. David V. Barrett. «Enterramos uma semente e ela transforma-se em alimento. O cereal morre, e depois volta a ganhar vida»

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«A história das sociedades secretas é a história da religião esotérica e é também a história da magia. Quaisquer que sejam as suas actuais práticas e ensinamentos, aspecto e prioridades, a maior parte das sociedades secretas tem raízes religiosas. A religião é tão antiga como o homem, e o ofício de sacerdote compete com o de prostituta e o de espião pelo título de mais velha profissão do mundo. O presente capítulo analisa brevemente algumas das muitas influências religiosas nas actuais sociedades secretas, desde o início dos tempos até finais da Idade Média. Note-se que as datas apresentadas para alguns dos primeiros mestres e autores variam de fonte para fonte. Além disso, as mitologias, filosofias e movimentos religiosos do presente capítulo não se seguem, necessariamente, por ordem cronológica; muitos sobrepõem-se.

Sociedade primitiva
As origens da religião são, a um tempo, externas e internas. O homem primitivo estava muito mais à mercê dos elementos do que nós, sendo o seu quotidiano afectado por trovões, relâmpagos, vento, chuva, inundações e seca. Acima dele estava o céu, com os mistérios do Sol durante o dia, e a Lua e as estrelas à noite. O que eram essas luzes? Porque se deslocavam pelo firmamento em diferentes alturas do dia, do mês e do ano, e porque variavam de brilho, forma e dimensão? O calor e a luz do Sol davam vida. Como ter a certeza de que voltaria a recuperar a sua força geradora depois de passar pelo ponto mais fraco, a meio do Inverno? Enterramos uma semente e ela transforma-se em alimento. O cereal morre, e depois volta a ganhar vida.
É fácil perceber como se desenvolveram os deuses: a partir dos grandes poderes da natureza, poderes que fogem ao controlo do homem. Poder-se-ia fazer pedidos a esses poderes? Responderiam favoravelmente, caso se fizessem sacrifícios? Qual seria o modo mais eficaz de abordar tais poderes? Seria perigoso? Poderia qualquer um fazê-lo, ou seria preciso um especialista, uma competência, uma arte, um poder? E assim nasceram os sacerdotes.
O homem queria ainda respostas para outras questões. O que acontece quando alguém morre? Eu vou morrer? O que me acontecerá quando eu morrer? A haver vida depois da morte, que forma ela assumirá? Onde é? É boa ou má? Como posso ter a garantia de que vai ser boa? Se há vida depois da morte, houve vida antes do nascimento? Se as colheitas vivem e morrem e voltam à vida, será o mesmo verdade para as pessoas? E ainda mais questões. Para onde vou nos meus sonhos? Porque não posso trazer coisas de lá? Os sonhos prevêem o futuro? Quem me poderá revelar o seu significado? Além disso, numa altura em que um ferimento ou uma doença poderiam facilmente levar à morte, quem conhecesse o tratamento correcto, as ervas certas, era merecedor de honras, tornava-se um dos mais importantes elementos da tribo.
O sacerdote, ou xamã, ou curandeiro, conhecia os rituais adequados para garantir que o Sol voltava todos os anos. Ele sabia como trazer chuva, como conseguir uma boa colheita ou uma boa caçada, como alcançar uma vitória contra uma tribo vizinha. Conhecia o significado dos sinais e dos presságios, o sentido oculto dos sonhos; e nos seus próprios sonhos viajava, a seu bel-prazer, até à terra dos espíritos. Sabia curar e amaldiçoar. Era um homem sábio, que até o chefe da tribo procurava em busca de conselhos. Ninguém vive para sempre, pelo que uma das tarefas mais importantes do sacerdote, tendo o bem-estar da tribo presente, era formar um sucessor nas artes complexas do seu mister. À medida que esse papel se foi tornando mais poderoso, também o conhecimento passou a ser mais bem guardado; criava-se a ligação entre o poder e o secretismo.
As sociedades desenvolveram-se e tornaram-se mais complexas, e o mesmo aconteceu às formas exteriores, mais públicas, da religião, a religião exotérica, bem como ao conhecimento secreto e ao secretismo do conhecimento, no cerne da religião, a religião esotérica. Esses dois aspectos tornaram-se cada vez mais distintos, até que os segredos internos da religião foram escondidos não só do público, mas também de grande parte dos sacerdotes». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Recuando no tempo, o rei viera de Elvas para Salvaterra, daqui para Almada, escolhendo esta vila por ser cerca de Lisboa e a1i encontrar o sossego que tanta falta lhe fazia»

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«(…)
Morre o corpo fica a fama
Porque me fostes tão infiel?, quase implorou o monarca Fernando I quando a esposa entrou no aposento de Almada, onde o rei se refugiou para esconder o deplorável estado físico que a doença lhe provocava. Senhor, não é hora de falar de infidelidades, respondeu-lhe a rainha, sem vontade de alargar a conversa. Alguma vez vos abandonei? Isso é que conta. Não estive sempre do vosso lado? Sabeis bem o que digo. São infidelidades, senhora, não são opções, insistiu Fernando, sem já articular bem as palavras. Avisado pelo sofrimento, desde há algum tempo que o corpo do rei começara a mirrar, as dores e a febre a tomarem conta do sossego, até que viu nos sinais o fim dos seus ainda jovens dias. Após anos de frustrações militares e diplomáticas, Fernando I, cedendo ao sabor das contingências políticas e da fraqueza de carácter, estava agora no ocaso da sua existência a ser devorado pela doença, arrancando-lhe do fundo das entranhas manchas de um esverdeado pegajoso. Prostrado, estando acompanhado no aposento que lhe servia de enfermaria, na verdade era o homem mais solitário do mundo. Há meses que fugia do contacto do povo, dias e dias que não queria ver ninguém do seu serviço, a não ser as pessoas fundamentais que o ajudavam a sobreviver.
Recuando no tempo, o rei viera de Elvas para Salvaterra, daqui para Almada, escolhendo esta vila por ser cerca de Lisboa e a1i encontrar o sossego que tanta falta lhe fazia. Não é que a vila da margem esquerda do Tejo fosse um sanatório, não era isso. Escondia-se do mundo, encobria o belo aspecto que tivera, não queria que lhe vissem a carcaça ressequida de tanto vomitar as entranhas. A vida, para ele, resumia-se agora a pequenos períodos de vitalidade, pois já nem os chás nem as mezinhas tinham o efeito soporífero que os físicos desejavam. Sem vigor, sem esperança, em Setembro de 1383 decidiu voltar ao paço, a Lisboa que tanto amava, onde esperaria que a morte lhe fosse suavizada por um não sei quê de espiritualidade. Uma morte santa, talvez pensassem os seus servidores. No século XIV havia muito disto. Ainda não passara meio século desde que a Peste Negra derrubara um terço das almas na Europa conhecida, um castigo da divindade sobre os pecadores, por assim dizer uma ideia difundida pelos próceres mais sectários da Igreja. É que as mortes podiam ser invocações do Inferno ou requisições de Deus, e este rei, pelo seu percurso de vida, embora pecaminoso nos costumes, não deixava de ser uma alma inocente.
Em Almada, mestre Gil, o principal cirurgião do rei, perante a gravidade da doença, requisitou os bons ofícios de mestre Mohamad, um famoso cirurgião mouro, que não fez mais do que confirmar o que o português Gil afirmara. Sua majestade sobreviverá o tempo que os deuses deixarem. Em vista do estado crítico que o contaminava, já mal respirava e da sua garganta só saíam bocados dos pulmões embalados em viscosidade, Fernando transmitiu ao chanceler a necessidade de vir morrer a Lisboa. Ordem respeitada, o monarca Fernando quis um pouco mais: quando chegarmos, de noite, todas as luzes deverão estar apagadas, as ruas despidas de pessoas, as janelas e portas das casas cerradas.
Chegaria à capital sem darem por ele, uma toleima, pensariam os servidores, como se o mais alto magistrado do reino pudesse passar sem ser visto. Rei é rei, um pensamento que do mais humilde criado ao nobre mais notável tinha como divisa, e sendo assim, o melhor era respeitar os desejos do soberano. Mensagem recebida, mensagem transmitida. Foram enviados pregoeiros para percorrerem as ruas de Lisboa, em particular as que iam das Portas do Mar e da Porta Ferro ao Paço do Apar, avisando os moradores e passantes que deviam recolher às suas casas quando o crepúsculo assentasse sobre a cidade, ameaçando com pesadas penas aqueles que desobedecessem.
Qual seria o pensamento do rei? Nunca fora de grandes urdiduras, porquê tanto sigilo? Quereria ele apanhar Leonor Teles em flagrante delito de adultério? Não era a altura para isso. A rainha acabara de ter outra gravidez infeliz, por certo não se poria a derramar paixões adúlteras para cima do conde Andeiro, enquanto o marido se desprendia da vida. Não sendo por isto, que outra razão haveria? O povo perdera-lhe o respeito, desde o atribulado casamento com Leonor Teles, uma ideia consubstanciada pelo carácter fraco do rei, sem jeito para a guerra e menos ainda para a diplomacia, por isso talvez quisesse evitar encontros desagradáveis com a plebe». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.
                                                                               
Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Tentação de D. Fernando. Jorge S. Correia. «Quantos mais fidalgos galegos Fernando recebia, e foram muitos, mais fantasias territoriais o rei concebia»

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«Do justo e duro Pedro nasce o brando
(vede da natureza o desconcerto)
remisso, e sem cuidado algum Fernando,
que todo o Reino pôs em muito aperto,
que vindo o Castelhano devastando
as terras sem defesa, esteve perto
de destruir-se o Reino totalmente,
que um fraco Rei faz fraca a forte gente».
In Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas.

«Em Janeiro de 1367, o rei Pedro I, cognominado O Justiceiro, morre em Lisboa deixando o reino para o seu filho primogénito, Fernando de seu nome. O novo rei de Portugal tem atributos pessoais louváveis, embora os mais cépticos o considerem fraco. A primeira imagem que o jovem de vinte e dois anos transmitia ao seu povo era a de um homem valente, ledo e namorado, amador de mulheres e achegador delas. As virtudes apontadas ao rei podiam fazer dele um monarca respeitado, talvez até invejado, ainda mais que estando cerca de muitos homens, posto que conhecido não fosse, logo o julgavam por rei dos outros. A questão tem mais o que se lhe diga. Nesse tempo, como em outros, gostar de mulheres ou ser bem-parecido não era condição para triunfar na vida, quanto mais para chefiar um país. Podia ajudar, mas se compararmos Fernando I a Pedro I, seu pai, também ele um grande amador, não só com Inês de Castro, também com Teresa Lourenço e dona Constança, verificamos que não sendo bonito como o filho, aliou bem os arrebatamentos amorosos a uma boa governação.
Amadores de mulheres somos todos, até de homens também, como insinua Fernão Lopes na crónica que escreveu de Pedro I. A interpretação do cronista é arriscada, transparece dela a ideia de que o pai de Fernando I teve um fugaz interesse por um seu escudeiro, uma relação que talvez nesse tempo não fosse assim tão extravagante, pois Fernão Lopes dá mais ênfase às consequências do que à suposta relação: el-rei Pedro I, ao saber que um seu escudeiro se insinuava nas graças de uma mulher casada, e como quer que ElRey muito (o) amasse, mais do que se pode aqui dizer, posto de parte todo
o bem-querer, e amor, mandou-o prender em sua câmara, e mandou-lhe cortar todos aqueles membros que os homens em mais preço e estima têm, de maneira que não lhe ficou carne até aos ossos.
Não era preciso tanto! Cortar pela raiz o elemento que entretinha o escudeiro e os amores dele, não se faz. Assim, tal como o cronista, somos levados a pensar que se tratou de uma manifestação de ressentimento do monarca Pedro e uma irresponsabilidade de Afonso Madeira, o jovem escudeiro que se esqueceu da exclusividade que devia ao rei. Não saberia ele que em questões de preeminência sua senhoria estava em primeiro?
Ao contrário do pai, não consta que Fernando I tivesse desvios de género, nem que fosse brutal como ele. Era um homem sensível, um cavaleiro sem sorte, alguém que corria atrás de quimeras à procura de honra e fama, ignorando a força dos adversários e as suas próprias debilidades. Era também de uma vaidade ingénua, deixando-se facilmente seduzir por bajulices oportunistas com que muitos nobres o enredaram. Quando Henrique de Trastâmara, filho bastardo de Afonso XI de Castela, venceu o meio-irmão, Pedro I de Castela e Leão, este sim, filho legítimo, primo direito de Fernando, os nobres que respondiam pelo rei vencido vieram ressabiados procurar apoio em Portugal e encher a cabeça de Fernando com juras, adesões, promessas de fidelidade, tudo fantasias que o jovem monarca não soube discriminar.
Quantos mais fidalgos galegos Fernando recebia, e foram muitos, mais fantasias territoriais o rei concebia. Levado por uma ambição construída por outros, começou logo a pagar por conta: permitia aos que vinham lisonjeá-lo vida sossegada e abastada, cedia-lhes bocados de Portugal, premiava a sabujice com somas consideráveis de dinheiro. Anos mais tarde, já depois de Fernando I perder as ilusões e Henrique governar Castela com mão de ferro, Afonso Mujica, um fidalgo menor que também veio louvar o rei, pedir guarida e prometer o que não tinha, comentou mordaz numa roda de outros nobres como ele, tudo quanto o rei lhe deu: trinta cavalos, trinta mulas, trinta corpos de armas de todas as peças, trinta mil libras de prata lavrada, quatro azémolas muito bonitas carregadas de tapeçarias e roupa de cama; e ainda uma provisão, pela qual lhe dava de juro a vila de Torres Vedras.
A guerra e a diplomacia foram duas das tarefas que o rei também não soube exercer; lutou contra adversários que não podia vencer, construiu alianças errando no tempo e nos protagonistas. Os erros foram muitos, mas aqueles que trouxeram ao rei uma vida desafortunada estão ligados ao período em que este invadiu a Galiza e se apaixonou por dona Leonor Teles, mulher de carácter forte e pensamento ambicioso, determinada a conquistar-lhe o corpo e sobretudo a autoridade». In Jorge Sousa Correia, A Tentação de D. Fernando, Clube do Autor, 2017, ISBN 978-989-724-344-8.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sábado, 27 de maio de 2017

Pantaleão e as Visitadoras. Mario Vargas Llosa. «Com madeira faz o fogo que cozinha os seus alimentos, com madeira constrói a casa onde mora, a cama onde dorme»

cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Meus soldados não, soldados da Nação, faz gestos apaziguadores o general Victoria. Calma, calma, senhor prefeito. O Exército lamenta muitíssimo o incidente com a sua cunhada e fará tudo o que puder para compensá-la. Agora chamam estupro de incidente?, se desconcerta o padre Beltrán. Porque foi isso o que aconteceu. Florcita foi dominada por dois homens uniformizados que vieram da chácara e a violaram no meio da trilha, rói as unhas, pula sem sair do lugar o prefeito Teófilo Morey. Com uma pontaria tão boa que agora está grávida, general. Agora vai identificar esses bandidos, senhorita Dorotea, resmunga o coronel Peter Casahuanqui. Sem chorar, sem chorar. Vai ver como eu ajeito isto. Acha que eu vou lá?, soluça Dorotea. Ficar sozinha na frente de todos os soldados? Eles vão desfilar por aqui, em frente à esquadra, esconde-se por detrás da treliça metálica o coronel Máximo Dávila. Fica espiando pela janela e os aponta para mim quando descobrir os salientes, senhorita Jesus.
Salientes?, salpica salivas o padre Beltrán. Depravados, canalhas e miseráveis, isto é o que eles são. Fazer uma infâmia dessas com dona Asunta! Macular assim o uniforme! Luisa Cánepa, minha faxineira, foi estuprada por um sargento, depois por um cabo e depois por um soldado raso, limpa os óculos o tenente Bacacorzo. Ela gostou da coisa ou sei lá, comandante, mas o facto é que agora se dedica à prostituição com o nome de Maminha e tem um veado chamado Milcaras como cafetão. Agora diga com qual destas pessoinhas se quer casar, senhorita Dolores, passeia em frente aos três recrutas o coronel Augusto Valdés. E o capelão faz o casamento neste instante. Escolha, escolha, qual deles prefere para pai do seu futuro filhinho?
Pegaram a minha esposa na própria igreja, permanece rígido na ponta da cadeira o carpinteiro Adriano Lharque. Na catedral não, na igreja do Santo Cristo de Bagazán, senhor. Pois é, queridos radiouvintes, brama o Sinchi. Esses sacrílegos lascivos não foram contidos pelo temor a Deus nem pelo respeito devido à Sua santa casa nem aos nobres fios grisalhos dessa digníssima matrona, semente já de duas gerações de loretanos. Começaram a puxar-me, ai meu Jesus, queriam jogar-me no chão, chora a senhora Cristina. Estavam caindo de bêbados e nem queira saber os palavrões que falavam. Na frente do altar-mor, juro.
É a alma mais caridosa de todo o Loreto, general, retumba o padre Beltrán. Foi ultrajada cinco vezes! E também a filhinha e a sobrinha e a afilhadinha, já sei, Scavino, sopra a caspa das ombreiras o Tigre Collazos. Mas esse padre Beltrán está connosco ou com eles? É ou não é capelão do Exército? Protesto como sacerdote e também como soldado, general, encolhe a barriga, estufa o peito o comandante Beltrán. Porque esses abusos fazem tanto dano à instituição quanto às vítimas. O que os recrutas pretendiam fazer com aquela senhora é muito errado, claro, contemporiza, sorri, faz vénias o general Victoria. Mas os parentes quase os mataram de pancadas, não se esqueça disso. Aqui está o laudo médico: costelas quebradas, hematomas, rasgão na orelha. Neste caso houve empate, doutorzinho. Iquitos?, pára de humedecer a camisa, levanta o ferro Pochita. Cruz, como nos mandam para longe, Panta.
Com madeira faz o fogo que cozinha os seus alimentos, com madeira constrói a casa onde mora, a cama onde dorme e a balsa em que atravessa o rio, paira sobre o bosque de cabeças imóveis, caras ofegantes e braços abertos o irmão Francisco. Com madeira você fabrica o arpão que pesca o peixe, a zarabatana que caça a capivara e o caixão onde enterra o morto. Irmãs! Irmãos! Ajoelhem-se por mim! É um grande problema, Pantoja, balança a cabeça o coronel López López. Em Contamana, o prefeito emitiu um comunicado pedindo à população local que deixe as mulheres trancadas em casa nos dias de folga da tropa. E, principalmente, como é longe do mar, solta a agulha, arremata o fio e o corta com os dentes a senhora Leonor. Será que lá na selva há muito pernilongo? Eles são o meu suplício, você sabe.
Olhe esta lista, coça a testa o Tigre Collazos. Quarenta e três grávidas em menos de um ano. Os capelães do padre Beltrán casaram umas vinte, mas, é claro, o problema exige medidas mais radicais que os casamentos forçados. Até agora, castigos e vinganças não mudaram o panorama: todo soldado que chega na selva vira logo um porra-louca. Mas você parece o mais desanimado com este lugar, meu amor, começa a abrir e sacudir as malas Pochita. Porquê, Panta? Deve ser o calor, o clima, não acha?, se anima o Tigre Collazos. Pode ser, general, gagueja o capitão Pantoja. A humidade morna, essa exuberância da natureza, passa a língua pelos lábios o Tigre Collazos. Sempre acontece comigo: é chegar na selva e começar a respirar fogo, sentir o sangue ferver». In Mario Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, 1974, Editora Objectiva, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, Alfaguara, Prisa Edições, ePub, 2012, ISBN 978-857-962-175-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O Pecado Espanhol. Carlota Joaquina. «Fosse como fosse, o resultado destas provas de Carlota deu origem a uma Oración Gratulatoria publicada pela própria academia em finais de Fevereiro»

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«(…) Por causa dos problemas surgidos no passado com este tipo de pessoal estrangeiro, quando uma infanta espanhola se casava com um príncipe português (ou vice-versa), geralmente, os cortesãos do séquito permaneciam do seu lado da fronteira. Com isto, procurava-se uma mais rápida adaptação da recém-chegada aos costumes da nova corte, e evitar a formação de camarilhas suspeitas na câmara da recém-chegada. Até uma infanta conhecida pela sua prudência, como a imperatriz Isabel, casada com Carlos V, se viu obrigada a prescindir de muitos dos seus cortesãos portugueses pouco depois de chegar a Espanha, devido aos ciúmes que estes provocaram nos seus homólogos castelhanos, neste caso porque a remuneração que pagava o rei de Portugal, o Afortunado era muito mais elevada.
Indo contra este costume, a 26 de Fevereiro de 1785 Floridablanca escreveu a Louriçal informando-o de que Carlota iria acompanhada por uma camareira, uma moça de retrete e o padre Filipe, mais seis professores de Sua Alteza, dos quais não fornecia os nomes. É possível que esta excepção a uma regra estivesse relacionada com a pouca idade da infanta, se bem que no passado tenham ocorrido casos de algumas de 4 anos que passaram completamente sozinhas para o outro reino. Segundo o estipulado, todas as pessoas que formavam o séquito de Carlota podiam permanecer em Portugal por um período de dois anos ou o que fosse a vontade do rei (de Espanha), o qual continuaria a ser o responsável pelas remunerações que actualmente auferem e que continuarão a auferir durante a sua ausência, fórmula ambígua que acaba por não explicar se o monarca espanhol também lhes pagaria o que ganhavam em Portugal (algo que logicamente aumentava o controlo sobre eles e a dependência portuguesa).
No dia 28 de Fevereiro a infanta revalidou os seus exames perante os membros da Real Academia de História. Estas provas devem ser entendidas, antes de mais, como a exibição das qualidades da noiva que estava prometida ao infante português e, mas também como um tributo à moda, muito comum então em Espanha, de expor publicamente as capacidades intelectuais das mulheres da alta nobreza. Algumas delas eram membros da Academia, perante a qual costumavam dissertar sobre os mesmos temas que naquela altura mantinham ocupadas as salonières pertencentes à aristocracia francesa.
Um dos casos mais emblemáticos tinha sido recentemente o de dona Mariana Silva, mãe da décima terceira duquesa de Alba, nesse momento grande rival da rainha Maria Luísa de Parma. De facto, Teresa Cayetana Alvarez Toledo Silva tinha tido a sua iniciação cultural nessa academia, assistindo, quando ainda não tinha feito 6 anos, a uma conferência da sua mãe, dona Mariana, erudita, ensaísta e tradutora, de quem a filha tinha herdado o gosto pelo pensamento e a cultura espanhola, mas sem a profundidade intelectual e a paciência necessárias para se dedicar com seriedade aos estudos. A duquesa de Alba e o seu marido, o duque de Medina Sidónia, formavam assim parte do círculo mais íntimo do infante Gabriel, o mais culto, dos membros da família real e que em breve se iria converter no marido da infanta dona Maria Ana de Bragança.
É possível que a rivalidade que sentia face à duquesa tivesse feito aumentar em Maria Luísa o desejo de ostentar diante dela um bem que a Alba nunca tinha possuído, pois era estéril. Fosse como fosse, o resultado destas provas de Carlota deu origem a uma Oración Gratulatoria publicada pela própria academia em finais de Fevereiro, na qual se fazia referência à particularidade de ter tido o director... a honrosa responsabilidade de confirmar num exame privado o seu aproveitamento e singulares talentos em tão tenra idade, servindo de exemplo o cuidado dos seus augustos pais, e que deveriam imitar os particulares de todas as classes...» In Marsilio Cassotti, Carlota Joaquina, O Pecado Espanhol, tradução de João Boléo, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-626-170-2.

Cortesia EdosLivros/JDACT

Vera Cruz. João Morgado. «À sua volta todos franziam igualmente o sobrolho, pouco crentes na grandiosidade de um reino que se fazia representar por um barbudo porco e nauseabundo»

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«(…) Houve um alarido tremendo na costa e nas águas. A gentiaga acorreu à beira-mar e alguns mais afoitos foram de almadias até às novas embarcações, uns por curiosidade, outros mais arrojados a tentar escambo com os estranhos que pareciam de bolsa farta. Mas aqueles homens de além-mar tinham carrancas barbudas que davam mostras de pouca amizade. Só uns tantos saíram a terra. Degredados de pouca valia, gente ruim por quem ninguém verteria uma lágrima e outros tantos homens de armas. Saiu também Fernão Martins, que era o língua da armada, um homem de muitos falares. Ficaram deslumbrados com aquele estranho povo, uns escanzelados de barbas brancas e poucas vestes, outros anafados e de bons panos coloridos. Gente muito variada e muitos animais exóticos. Pelos adentros das narinas entrava um cheiro adocicado que indicava as praças de mercadores de especiarias. Os portugueses sorriram, mas por pouco tempo, pois a mourama era belicosa e as escaramuças aumentavam a olhos vistos. Depois de muito cruzar lâminas e injúrias, Fernão Martins lá encontrou um árabe que era mais senhor de falas que de espadas. E arabiando os dois, lá se entenderam e assim convenceram o dito a subir a bordo para falar com o capitão-mor. Sou Vasco da Gama, dizei ao samorim que quero falar-lhe. Trago uma missiva do meu rei e senhor, Manuel I, rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d’Além-Mar em Africa.
Moçaide, o árabe, era homem viajado. Tinha navegado no Mediterrâneo e conhecia a fama dos portugueses. No seu arengar meio-genovês, meio-castelhano, agradeceu as mordomias recebidas e prometeu ser célere em marcar audiência com o soberano daquelas terras. Mas o sultão era homem acautelado e, não sabendo dos intuitos daqueles forasteiros, tinha pegado no seu séquito e partido para um outro palácio, lá no anteparo da floresta, distante dos mares e do poder de fogo de tal gente. Por isso demorou tempo a resposta do soberano e muito tardou também a viagem dos portugueses pelo matagal adentro, sob um sol que matava e uma humidade que fazia gotejar os corpos; as fatiotas tiradas da arca húmida para tão especial ocasião estavam já encharcadas de um suor fétido. Os portugueses seguiram transportados em liteiras, mas sempre nervosos e desconfiados dos beberes e das poucas comidas que lhes eram dados. Só quando chegaram ao seu destino tudo esqueceram e abriram a boca num espanto sem fim, tinham chegado à terra dos seus devaneios. Por certo, nem em sonhos tinham estado num tão luxurioso lugar.
Todo o palácio era uma ilha de tesouros, nunca os portugueses tinham visto tal coisa: o debuxo ornamentado do edifício; os adornos de pedraria; o sem-fim de guerreiros e serviçais; um ror de gente coberta de sedas e pedras preciosas. Caminharam pelo palácio adentro em passo firme, orgulhosos, mas os presentes torciam o rosto e levavam lenços ao nariz. Uns serviçais foram borrifá-los com uns líquidos. Água benta por certo, devem ser cristãos, comentou Gama, escarrando no chão. Mas na realidade era perfume, pois o odor a esterco e suor estava-lhes apegado ao corpo. Por contraste, o samorim Manavikraman Rajá, homem de muitos anos, estava estirado num dossel bordado a ouro e reclinado em grande soma de almofadas cor de pérola. Convidou Gama a sentar-se e brindou a comitiva com fruta e beberagens frescas. Gama discorreu então sobre o reino de Portugal e seus egrégios antepassados, o seu poderio militar e económico, o seu agigantar nas aventuras do mar tenebroso. Fazia questão que das suas palavras emergisse a grandeza impressionante de um reino que a todos desse o mesmo pensar, melhor o ter por afeiçoado que por desavindo. O samorim ouvia a tradução das línguas mas não largava o lenço aromatizado sobre o nariz; desesperava com tal gente e mostrava cara de enfado. À sua volta todos franziam igualmente o sobrolho, pouco crentes na grandiosidade de um reino que se fazia representar por um barbudo porco e nauseabundo.
Vasco da Gama sentia que o ambiente lhe era adverso, por isso lhe tremiam os termos e as ideias, o que maior desagrado causava entre os presentes,- não dizia iá coisa com coisa. Aquela era gente perfumada, de corpo depilado e pele tratada, carregada de jóias e sedas coloridas. Em toda a volta tudo era primor e riqueza, deslumbre e opulência. Só aquela gente que escarrava no chão parecia saída da imundície. Por isso lhe pediam que falasse com as mãos sobre a boca, para que o hálito não emporcasse mais ainda aquele ambiente luzidio.
Vasco da Gama sentia que tudo revoluteava à sua volta, como se estivesse ainda no cabo tormentoso onde a morte tinha chamado por ele. E se a água o não tinha tragado, sentia agora que este povinho efeminado e senhoril o queria esmagar com uma vaga de desprezo. Temeu então que se perdesse o encargo que o rei Manuel I lhe confiara. Não posso malograr esta missão, repetia de si para si mesmo. O futuro do reino está nas minhas mãos, não posso falhar». In João Morgado, Vera Cruz, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-207-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

Noites de Jasmim. Julia Gregson. «Como foram as coisas em Rockfield?, dissera ela. Tudo o que ela sabia a seu respeito era que esse era o sítio para onde os rapazes queimados eram enviados»

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St. Briavels. Gloucestershire
«(…) Um táxi fora ao seu. encontro na estação. Quando atravessaram um rio Wye a cintilar ao brilho do sol primaveril, uma fila de cisnes, altivos e orgulhosos, avançava majestosamente sobre a água, e, no outro extremo do rio, um grupo de póneis galeses pastava, um deles com um pardal pousado na garupa. Ele pediu ao condutor do táxi para parar um momento. Disse que queria olhar para a vista, mas, na verdade, estava a sentir dificuldades em respirar. A sensação de asfixia, agora familiar, surgiu repentinamente como um animal a saltar do meio da escuridão, e fez-lhe o coração disparar e as palmas das mãos ficarem húmidas e frias. Ia passar. Apagou a beata do cigarro e deixou-se ficar sentado a respirar da forma mais pausada que conseguiu, tentando concentrar-se apenas em coisas boas.
Que maravilha, disse ele por fim, quando a sensação passou. É uma vista linda. É uma manhã perfeita para regressar a casa, senhor, disse o condutor, com os olhos firmemente virados para a frente. Está pronto para continuarmos? Sim. Estou pronto. À medida que o carro subia a colina íngreme, ele concentrou-se furiosamente no campo de gado negro galês à direita, e na dispersão de casinhas de campo rodeadas por primaveras e crocos de cores vivas. Estava a regressar a casa. Um longo caminho sulcado conduzia até à quinta; dali, ele via o estuário do Severn, a reluzir como a concha de um molusco à distância, e quando a quinta Woodlees ficou visível, os olhos dele encheram-se de lágrimas impotentes. Esta era a encantadora casa caiada para onde os pais se tinham mudado há vinte e cinco anos, quando o pai se tinha tornado cirurgião. Com tectos baixos, sem qualquer característica especial, para além das grandes janelas viradas a sul, erguia-se sozinha no meio de campos varridos pelo vento.
A pequena mata atrás dela fora onde ele brincara aos cowboys e índios com a irmã Freya em criança. Faziam igualmente corridas com os póneis ali, precipitando-se ao longo de trilhos enlameados e por cima de obstáculos improvisados. Ele nascera atrás da terceira janeia à direita no primeiro andar. O carro subiu, com um ruído seco, o caminho de entrada por entre a avenida de tílias que a mãe, uma entusiasta pela jardinagem, tinha plantado nos dias em que era uma rapariga com saudades da sua família na Provença. A cintilar com a chuva, gloriosas e verdes, limpas da poeira de Verão, surgiam como uma visão. Ele começara a odiar as sebes de alfena severamente aparadas que rodeavam os relvados do hospital. Para lá das árvores, relva nova, novos cordeiros no campo, toda uma terra na sua adolescência.
A mãe dele desceu o caminho de entrada a correr quando ouviu o táxi. Esperou-o sob as tílias e tomou o rosto dele entre as suas mãos. Meu querido Dom, disse ela. Estás novinho em folha. Enquanto caminhavam de volta para a casa de braço dado, cães andavam à roda das pernas deles e um velho pónei no campo esticou-se de forma inquisitiva por cima do portão. Como foram as coisas em Rockfield?, dissera ela. Tudo o que ela sabia a seu respeito era que esse era o sítio para onde os rapazes queimados eram enviados, para os adaptar de novo à vida real.
Surpreendentemente animado, disse ele. Ele falara-lhe da bonita casa perto de Cheltenham, emprestada por alguma senhora com posses, dos barris de cerveja, das enfermeiras bonitas, das festas incessantes, das queixas dos vizinhos, que diziam que estavam à espera de convalescentes, não de rufias. Ao ouvir o riso educado e ansioso da mãe, ele resistiu à tentação de deixar cair a cabeça como um rapaz culpado; naquela manhã, bem cedo, tinha estado três mil metros acima do Canal de Bristol, a subir a grande velocidade sobre ovelhas a pastar, pequenos campos em retalhos, as escolas, os campanários das igrejas, o mundo inteiro adormecido, e tinha sido estupidamente maravilhoso. Tiny Danielson, um dos últimos amigos que lhe restava da esquadrilha, conseguira deitar as mãos a um biplano Tiger Moth guardado num hangar perto de Gloucester. As mãos de Dom tinham tremido ao apertar o capacete de voo de pele pela primeira vez em meses, com o coração a bater violentamente enquanto deslizava cuidadosamente sobre a pista de descolagem com abrigos Nissen espalhados em ambos os lados, e depois, quando descolou rumo ao azul límpido lá em cima, ouviu-se a soltar um grito de alegria». In Júlia Gregson, Noites de Jasmim, Edições ASA, tradução de Ana Pereira, 2012, ISBN 978-989-231-964-3.

Cortesia ASA/JDACT