domingo, 10 de dezembro de 2017

Uma Praça em Antuérpia Luize Valente. «O céu cinzento e a chuva fina escondiam os raios de sol do primeiro dia do novo ano, quase novo milénio. O mundo não tinha acabado»

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E assim declaro que darei, sem encargos, um visto a quem quer que o peça. O meu desejo é mais estar com Deus contra o Homem do que com o Homem e contra Deus. In Aristides Sousa Mendes, 1940

«Há uma saga que ainda não foi contada sobre a Segunda Guerra Mundial: a história de duas irmãs portuguesas, Olívia e Clarice. Olívia casa-se com um português e vai para o Brasil. Clarice casa-se com um alemão judeu e vai morar em Antuérpia, na Bélgica. Ambas vivem felizes, com maridos e filhos, até que a guerra começa e a Bélgica é invadida. Para escapar da sombra nazi que vai devorando a Europa, a família de Clarice conta com a ajuda de Aristides Sousa Mendes, o cônsul que salvou milhares de vidas emitindo vistos para Portugal, em 1940, enquanto actuou em Bordéus, França. A família recebe o visto mas, ao chegar à fronteira de Portugal, um destino trágico à espera... Destino que vai mudar e marcar a vida das irmãs para sempre, por causa de um segredo que só será revelado sessenta anos depois.
O céu cinzento e a chuva fina escondiam os raios de sol do primeiro dia do novo ano, quase novo milénio. O mundo não tinha acabado. Um grito ou outro na rua, a cantoria e as risadas na volta para casa, copos, latas e garrafas de champanhe encostados no meio-fio eram o máximo da desordem naquele sábado pós-réveillon em Copacabana. Do alto de seus oitenta e três anos, do alto da sua cobertura, no lugar mais cobiçado para acompanhar a virada, Olívia sentia-se pequena. Eram seis da manhã e ela não tinha pregado o olho. Pouco depois das duas da madrugada ela fora para o quarto, dando o sinal mudo de que era hora de todos partirem. Vinte minutos depois, a neta entrara no quarto e Olívia manteve os olhos fechados. Instantes depois, o barulho dos copos recolhidos e o clique da porta foram a senha para que se levantasse e fosse para a varanda, e ali continuou até o dia amanhecer.
Lembrava-se que, no momento exacto, quis que o mundo acabasse. O champanhe foi estourado como despedida do ano, despedida do filho. Beberam à troca de saudações triviais de feliz ano-novo e a palavras vazias que acompanham os momentos de profunda tristeza. Nos últimos vinte anos, desde que Olívia se mudara para a cobertura do anexo do hotel mais glamouroso da cidade, o apartamento vinha sendo o ponto de encontro da família nos fins de ano. À medida que se aproximava o fim do milénio, cresciam as expectativas e apostas sobre o réveillon. Olívia jamais pensara que passaria dos oitenta para ver aquele dia. Muito menos que Luiz Felipe não estaria ali. A urna com as cinzas descansava sobre o aparador, ao lado da fotografia dele, ainda bebé, com o pai, António. Em alguns minutos, cumpriria seu último desejo. Avó, a senhora tem certeza de que quer ir? A pergunta do neto mais velho foi seguida de silêncio. Ele insistiu: avó, de repente a gente deixa o dia clarear, vamos de manhã, vai ser mais tranquilo.
Olívia acariciou a urna e respondeu com um sorriso firme nos lábios. Tom, lembra–se como o seu pai se negava a ver os fogos aqui de cima? Vinte para a meia-noite e lá ia ele com a garrafa de champanhe, os copos de plástico... Feliz ano-novo, mãe, que o lugar deste português é lá em baixo, no mar de gente! Pois é para lá que nós vamos. Agora! Agora, Olívia permanecia ali, sentada na varanda, no primeiro dia do ano. O mundo tinha acabado, sim, não é justo ver um filho morrer sem poder fazer nada. Ela pegou na foto que costumava levar sempre junto ao peito. Olhou, então, demoradamente, a mulher, o homem, a criança. Nem ouviu o ruído da porta abrindo, nem os passos leves no tapete. Tita, a neta, que também se chamava Olívia, entrara devagar. Ela também não tinha pregado o olho a noite toda. Não era a morte do tio que tirava o sono de Tita, era a morte do sonho. Porque para algumas mulheres engravidar era tão difícil? Tita perdera o primeiro bebé, depois o segundo e agora o terceiro. Mantivera a gravidez em segredo já prevendo o fracasso. Só a avó sabia. Tita precisava contar para ela, precisava dividir a sua dor, embora soubesse que estava sendo egoísta. A avó acabara de perder o filho. Ela também». In Luize Valente, Uma Praça em Antuérpia, 2015, Saída de Emergência, colecção A História de Portugal em Romances, 2015, ISBN 978-989-637-844-8.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

sábado, 9 de dezembro de 2017

O Segredo do Oratório. Luize Valente. «Olhou o relógio mais uma vez e suspirou. A ida a Recife não estava programada. Quando recebeu o telefonema da professora Ethel, com passagem e hospedagem…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Milhares de judeus foram forçados a conversão em Portugal, por decreto real, no fim do século XV. Passaram a ser chamados de cristãos-novos. Em seguida veio a Inquisição (maldita). Muitos conversos fugiram para o Brasil. Alguns se embrenharam pelo Sertão. No breve período de domínio holandês no Nordeste, puderam retornar ao judaísmo. Fundaram em Recife a primeira sinagoga das Américas. Com a expulsão dos batavos, no século XVII, um pequeno grupo deixou Pernambuco. Após uma conturbada viagem chegaram à Ilha de Manhattan, onde estabeleceram a primeira comunidade judaica de Nova York».
«Ana? Ana, é você? Ana? A voz soou longe quando a mão tirou o telefone da base. Era Ioná. Mas o que ela estava fazendo no meio daquela praia? Ana reconhecia o sotaque levemente arrastado, mas não a via. O telefone pendia no ouvido, meio caído sobre o travesseiro. Aos poucos foi despertando. A praia foi sumindo e, subitamente, ela pulou da cama. Ioná!, respondeu, atónita, ao mesmo tempo que olhava o relógio na cabeceira: 6h05 da manhã. Tinha dormido menos de quatro horas. Levantou e saiu do quarto. Que bom te ouvir! Estou tentando falar há dias! Deixei vários recados e nada! Precisa saber o que está acontecendo por aqui. Desculpa não ter ligado antes...., e ter-te acordado. A voz de Ioná saiu baixa, abafada. Pode ligar à hora que quiser! Mas ainda é cedo aí... Ana sentiu que algo estava errado. O que foi, Ioná? Do outro lado, silêncio. Ioná olhou o relógio e esfregou os olhos. Não pregara o olho a noite toda. Tinha andado mais de setenta quadras, talvez oitenta. Uma leve brisa era o último resquício da madrugada fresca da Primavera. Logo surgiriam os primeiros raios de sol e, com eles, os passos, as buzinas, o entra e sai do metropolitano. Mas, naquele momento, a rua era apenas dela e de uns poucos pedestres que voltavam do trabalho ou da noitada. Ioná? Que houve? Está bem? Uma Ana aflita trouxe Ioná de volta. Ela estava sozinha, próxima ao cruzamento de Chatham Square, no coração de Chinatown. Aproximou o telefone da boca. Estava numa cabine de esquina. Eu não vou, Ana. Estou ligando para dizer que não vou. Agora foi a vez de Ana ficar muda.

14 de Março de 2000. Manhã
O relógio tocou às 5h15. Ana despertou com a sensação de quem acabava de pegar no sono. Todas as vésperas de viagem era igual. Virava para lá e para cá, levantava, deitava. Ilaga, estirado ao lado, mantinha os olhos abertos, em vigília. Fitava Ana profundamente. Dois olhos perdidos numa bola de pelos. Não me olhe assim..., não o posso levar. O cão virou o rosto e se pôs de barriga para cima. Ela afagou o peito branco e abraçou o bicho. Mesmo depois de três anos era doloroso deixá-lo a cada partida. Olhou o relógio mais uma vez e suspirou. A ida a Recife não estava programada. Quando recebeu o telefonema da professora Ethel, com passagem e hospedagem pagas, ela não pôde recusar. Não tinha como recusar. Levantou e pulou para o chuveiro. Teria uma longa jornada pela frente. Acompanhar a historiadora numa palestra era bem mais do que uma simples viagem de trabalho. Era um verdadeiro mergulho em horas e horas de conversas instigantes misturadas a deliciosas comidas e encontros inesperados. Pensando bem, era do que ela estava precisando.
Ana, corre, filhinha, nós já estamos atrasadas! Moishe, cuida bem da minha meidele, não vai dar torradas com requeijão! Ai, eu morro só de pensar que ela vai ficar aqui. Osvaldo, passeia com ela todos os dias duas vezes no mínimo, no mínimo! O segundo no mínimo saiu estridente e fino, com um toque dramático que colocava a professora Ethel no patamar das divas de Hollywood. A idade era um segredo mais bem guardado que as tábuas com os dez mandamentos, costumavam falar os alunos do curso de doutorando da Universidade de São Paulo. Ela também era dona de belíssimos olhos azuis que lhe concediam o poder de hipnotizar qualquer que fosse o interlocutor». In Luize Valente, O Segredo do Oratório, 2012, Editora Record, Brasil, 2012, ISBN 978-850-140-170-0.

Cortesia de ERecord/JDACT

A Mensageira. Daniel Silva. «O cabelo preto brilhava como a asa de um corvo. Os olhos eram também quase pretos, mas cintilavam com outro fulgor. Seu nome era Hamida al-Tatari. Dissera ser refugiada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O seu último livro fora basicamente um apelo a uma Reforma Islâmica. Os membros da jihad acusaram-no de ser herege. Os moderados proclamaram que tinha a coragem de Martinho Lutero. Nessa tarde, argumentara, para consternação de Sayyid, que a bola se encontrava no campo palestino. Enquanto os Palestinos não abandonassem a cultura do terror, alertara Massoudi, não se poderia esperar que os Israelitas cedessem um milímetro que fosse da Cisjordânia. Nem o deveriam fazer. Sacrilégio, bradara Sayyid. Apostasia. O professor Massoudi era alto, tendo um pouco mais de um metro e oitenta de altura, e era demasiado bem-apessoado para um homem que trabalhava com jovens mulheres impressionáveis. Tinha o cabelo escuro e encaracolado, malares largos e fortes e um queixo quadrado com uma covinha marcada ao centro. Os olhos castanhos e profundos conferiam-lhe ao rosto um ar de inteligência acentuada e tranquilizadora. Vestido como estava, com um casaco desportivo de caxemira e uma camisola de gola alta creme, parecia o arquétipo do intelectual europeu. Era uma imagem que lhe dava muito trabalho a transmitir. Com gestos deliberados, guardou metodicamente os papéis e as canetas na pasta coçada e desceu os degraus do palco, ao que se dirigiu ao corredor central, em direcção à saída. Vários elementos da assistência demoravam-se na entrada. A um lado, uma ilha tempestuosa no centro de um mar de tranquilidade, estava a garota. Vestia jeans desbotados, um blusão de couro e um kaffiyeh palestino axadrezado ao pescoço. O cabelo preto brilhava como a asa de um corvo. Os olhos eram também quase pretos, mas cintilavam com outro fulgor. Seu nome era Hamida al-Tatari. Dissera ser refugiada. Nascera em Ama, fora criada em Hamburgo e era agora uma cidadã canadiana que residia no Norte de Londres. Massoudi conhecera-a nessa tarde, durante uma recepção na associação de estudantes. Com um café na mão, acusara-o com fervor de mostrar insuficiente afronta contra os crimes dos americanos e dos judeus. Massoudi gostara do que vira. Tinham combinado tomar uma bebida nesse serão, no bar ao lado do teatro de Sloane Square. As intenções dele não eram românticas. Não queria o corpo de Hamida. Queria o seu entusiasmo e o seu rosto limpo. O inglês perfeito e o passaporte canadiano. A jovem lançou-lhe um olhar furtivo quando ele cruzou o hall, mas não tentou falar-lhe. Mantém a distância após o simpósio, indicara-lhe ele nessa tarde. Um homem da minha posição tem de ter cuidado com quem é visto. No exterior, abrigou-se por um momento debaixo do pórtico e olhou o trânsito que se arrastava ao longo da estrada molhada. Sentiu alguém a encostar-se ao seu cotovelo e depois observou Hamida a mergulhar silenciosamente na chuvada. Esperou que desaparecesse, pendurou a pasta no ombro e afastou-se na direcção oposta, para o hotel em Russell Square.
Deixou-se transformar, a mudança que ocorria sempre que alternava entre vidas. A aceleração do ritmo cardíaco, o aguçar dos sentidos, a repentina inclinação para os pormenores. Como o jovem calvo que vinha em sua direcção, ao abrigo de um guarda-chuva, e cujo olhar pareceu demorar-se no rosto de Massoudi por um instante mais do que deveria. Ou o vendedor do quiosque que fitara, sem pudor, seus olhos, quando comprara o Evening Standard. Ou o taxista que o observou, trinta segundos depois, quando jogou esse mesmo jornal numa lixeira em Upper Woburn Place. Um autocarro cruzou-se com ele. Enquanto passava ruidosamente, Massoudi espiou as janelas embaciadas e viu uma dúzia de rostos cansados, quase todos negros ou castanhos. Os novos londrinos, pensou, e, por um instante, o professor de Administração Global e Teoria Social debateu-se com as implicações. Quantos apoiariam em silêncio a sua causa? Quantos assinariam por baixo, se lhes apresentasse um contrato de morte?
Logo depois e o autocarro ter passado, viu no passeio oposto um único pedestre: capa de plástico, rabo-de-cavalo, duas linhas estreitas como sobrancelhas. Massoudi reconheceu-o de imediato. O jovem estivera na conferência, na mesma fila de Hamida, mas no lado oposto do auditório. Ocupara o mesmo lugar nessa manhã, quando Massoudi fora a única voz opositora durante uma discussão sobre os benefícios da proibição de académicos israelitas nas costas europeias. Massoudi baixou os olhos e continuou a andar, levando involuntariamente a mão à alça da pasta. Estaria a ser seguido? Se assim fosse, por quem? O MI5 seria a explicação mais plausível. A mais provável, pensou, mas não a única. A BND alemã poderia tê-lo seguido de Bremen até Londres. Ou talvez estivesse vigiado pela CIA». In Daniel Silva, A Mensageira, 2006, Bertrand Editora, 2007, ISBN 978-972-251-544-3.

Cortesia de BEditora/JDACT

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A Mensageira. Daniel Silva. «Palestino de nascimento, jordano de passaporte e europeu de formação e estudos, o professor Massoudi surgia ao mundo como um homem moderado»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Gabriel Allon, restaurador de arte e espião, está prestes a enfrentar o maior desafio da sua vida. Um alegado simpatizante da Al-Qaeda é morto em Londres, e no seu computador são encontradas fotos que levam o serviço secreto israelense a desconfiar de que a organização terrorista prepara um dos mais arrojados atentados no coração do Vaticano. Allon avisa o seu velho amigo, monsenhor Luigi Donati, secretário pessoal do papa, e parte para Roma a fim de ajudar na segurança. O que nem ele nem Donati sabem é que o inimigo já se infiltrou no Vaticano. Nas semanas seguintes, Allon travará mortífero duelo de astúcia contra um dos homens mais perigosos do mundo, que o levará de uma galeria londrina a uma ilha paradisíaca no Caribe, a um isolado vale na Suíça e, por fim, de volta ao Vaticano. Allon monta uma armadilha e espera não ser ele a presa. Com intriga intensa e imprevisível, A Mensageira consolida a reputação de Daniel Silva.

Londres
Foi Ali Massoudi quem, involuntariamente, arrancou Gabriel Allon do seu apartamento breve e inquieto: Massoudi, o grande intelectual e livre-pensador eurófilo que, num momento de pânico, se esqueceu de que os ingleses dirigem do lado esquerdo da estrada. O cenário de sua morte foi um fim de tarde chuvoso de Outubro, em Bloomsbury. A data, a sessão final do primeiro Fórum Político anual para a Paz e Segurança na Palestina, Iraque e Países Vizinhos. A conferência tivera início nessa manhã bem cedo, por entre votos de esperança e grande fanfarra. Ao fim do dia, contudo, assumira a qualidade de uma peça medíocre em digressão. Até mesmo os manifestantes que ali tinham comparecido, na esperança de partilhar um pouco da luz da ribalta, pareciam ter consciência de que representavam um guião já muito batido. O presidente americano foi queimado em efígie às dez. O primeiro-ministro israelense foi lançado às chamas purificadoras às onze. Por volta da hora de almoço, sob um dilúvio que por momentos transformou Russell Square num lago, tivera lugar uma qualquer tolice relacionada com os direitos das mulheres na Arábia Saudita. Às oito e meia, quando o painel final foi dado por encerrado, as duas dúzias de estoicos que tinham permanecido até o fim arrastaram-se para as saídas. Os organizadores do acontecimento detectaram pouco apetite para uma repetição do encontro, no Outono seguinte.
Um aderecista adiantou-se e removeu do púlpito um cartaz que dizia: Gaza foi libertada e agora? O primeiro congressista a levantar-se foi Sayyid, da London School of Economics, defensor dos homens-bomba suicidas e apologista da Al-Qaeda. Em seguida, o austero camareiro-mor de Cambridge, que falava da Palestina e dos judeus como se estes ainda fossem uma pedra no sapato dos elementos sisudos do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ao longo de toda a discussão, o idoso camareiro servira de Muro de Separação entre o inflamável Sayyid e uma pobre alma da embaixada israelita, chamada Rachel, que suscitara apupos e vaias de desaprovação sempre que abrira a boca. O camareiro procurava agora servir de soldado da paz, com Sayyid a perseguir Rachel até a porta, lançando-lhe invectivas em que lhe dizia que os dias de colonizadora chegavam ao fim.
Ali Massoudi, professor de Administração Global e de Teoria Social da Universidade de Bremen, foi o último a levantar-se. Tal não seria de surpreender, poderiam ter dito os colegas invejosos, pois no mundo incestuoso dos estudos sobre o Médio Oriente, Massoudi tinha a reputação de ser alguém que nunca abandonava de bom grado um palco. Palestino de nascimento, jordano de passaporte e europeu de formação e estudos, o professor Massoudi surgia ao mundo como um homem moderado. O futuro brilhante da Arábia, assim lhe chamavam. O rosto do progresso. Era conhecido por desconfiar da religião em geral e do islamismo militante em particular. Aproveitava todas as oportunidades, quer fosse em editoriais de jornais, nas salas de aula ou na televisão, para se lamentar da disfunção vivida pelo mundo árabe. Do seu fracasso em educar o povo. Da tendência para culpar os Americanos e os Sionistas pelas maleitas de que padecia». In Daniel Silva, A Mensageira, 2006, Bertrand Editora, 2007, ISBN 978-972-251-544-3.

Cortesia de BEditora/JDACT

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Poesia. Lord Byron. «Meu soberbo palácio está deserto, dentro dele a tristeza se assentou; bravias plantas pelos muros crescem; uiva meu cão à porta que guardou»

Cortesia de wikipedia

A despedida

«Adeus, adeus! De minha terra as praias
perdem-se ao longe no azular das águas:
geme a brisa da noite, brama a vaga,
solta a gaivota contristadas mágoas.

Do sol que no ocidente vai sumir-se
a luz seguimos que desmaia os céus;
a ele e a ti, ó terra de meu berço
inda a vez derradeira adeus, adeus!

Em breve o rei dos astros novo brilho
ao mundo c’o a manhã virá trazer;
e saudarei o mar e o firmamento,
mas não o solo que me viu nascer.

Meu soberbo palácio está deserto,
dentro dele a tristeza se assentou;
bravias plantas pelos muros crescem;
uiva meu cão à porta que guardou.

Chega, chega-te a mim, meu jovem pagem;
por que choras assim? O que lamentas?
Temes das vagas o rugir medonho?
O rosto à ventania não sustentas?

Enxuga o pranto que te rega as faces;
nosso forte navio corre ligeiro:
apenas meu falcão o mais querido
na apostada carreira irá primeiro.

Sopre o vento sem freio, ruja a vaga,
que nem o vento, nem as ondas temo;
contudo, meu senhor, não vos espante
se dentro d’alma tristemente gemo.

Porque meu pobre pai, e a tão querida
mãe, que deu-me a existência abandonei;
eis meus amigos a não serem eles,
a não ser Deus e vós outros não sei.

Deu-me a bênção meu pai na despedida
resignado na dor susteve o pranto:
mas até quo do novo a pátria volte
a minha triste mão chorará tanto!

Basta, meu jovem pagem, a teus olhos
ficam-lhes bem as lágrimas da dor;
se eu nesse qual tu ainda inocente
também teria lágrimas de amor.

Vem, meu servo fiel, vem a meu lado,
que tens? Por que descora o teu semblante?
Do inimigo francês acaso enfias,
ou do vento que sopra sibilante?

Não sou tão fraco, meu senhor; da morte
não julgues que ante os p'rigos esmorecera;
porém pensando numa ausente esposa
não é muito que o rosto empalideça.

Perto de vossa habitação meus filhos
companheira junto ao lago moram.
O que há de ela coitada responder-lhes,
se pelo pai que está distante choram!

Basta, meu servo, meu fiel mancebo,
ninguém pode estranhar-te essa tristeza;
mas eu que tenho o génio leviano,
rio, vendo dos mares a largueza.

Quem nos suspiros mentirosos fia
na esposa estremecida ou cara amante?
Novo amor limpará aqueles olhos
Que choravam por nós há um instante.

Não julgues que lamento o bem passado,
nem os perigos antever pareça,
a dor que sinto é que não deixe
em terra nada que um só ai mereça.

Solitário eis-me agora neste mundo
sobre o deserto, ilimitado oceano:
tudo se esqueça, que ninguém se lembra
também de mim, amargo desengano!

Talvez meu cão debalde à porta uivasse,
até ser pelo estranho alimentado;
mas se voltar a mão que o sustentara
infiel morderá já deslembrado.

Veloz contigo pelo mar voemos,
minha barca, eis o que a alma só deseja:
nem me importa a que terra me conduzas,
contanto que da pátria ela não seja.

Salve, ondas do mar azul escuro!
e quando vos perder dos olhos meus,
salve, grutas profundas! salve, ó ermos!
Terras da minha pátria, adeus, adeus!»

In Lord Byron, poema “A despedida”
tradução de JRamos Coelho


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Poesia. Heinrich Heine. «Jazem por terra as bandeiras dos que há pouco ali folgavam e ao som das marchas…»


Cortesia de wikipedia

O campo da batalha

«Brilhava a lua impassível
sobre o campo da batalha,
envolto da luta horrível
na ensanguentada mortalha.

Jazem por terra as bandeiras
dos que há pouco ali folgavam
e ao som das marchas guerreiras
em mil tropéis se cruzavam.

Passaram do sono à morte
em fero, nocturno assalto,
e a vencedora corte
seguiu de pendões ao alto.

Centenas de moribundos
vasquejam de espaço a espaço,
enviando aos sidéreos mundos
o olhar merencório e baço.

E a lua brilha impassível
sobre o campo da batalha,
envolta da luta horrível
na ensanguentada mortalha...»

In Heinrich Heine, poema ‘O campo da batalha’
Tradução de Freitas Costa

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Poesia. Lord Byron. «Muitas vezes o riso é do hipócrita um meio, com que o ódio mascara ou o temor; antes quero um conciso ai de trémulo seio, que uma lágrima orvalha, qual flor»

Cortesia de wikipedia 

A Lágrima

«Se há em nós simpatia,
que nos mova amizade
ou amor, soe dizê-lo um olhar;
mas o olhar nos mentia!
Diz o riso a verdade?
Só uma lágrima a pode expressar.

II
Muitas vezes o riso
é do hipócrita um meio,
com que o ódio mascara ou o temor;
antes quero um conciso
ai de trémulo seio,
que uma lágrima orvalha, qual flor.

III
Bom sinal é ter n'alma
compaixão, caridade;
é o mais belo louvor dos mortais!
E alcançais essa palma,
só á viuvez, à orfandade,
à desgraça uma lágrima dais.

IV
O que aos mares se afoita,
se em montões vendo as vagas
sob alguma receia ficar,
ao tufão que o açoita
depõe n'asa mil pragas,
porém manda uma lágrima ao mar.

V
Corre ao campo o soldado,
Corre, a glória por norte,
sobre o imigo a colher um laurel;
mas o imigo prostrado
ei-lo abraça, e da morte
co'uma lágrima adoça-lhe o fel!

VI
E se a justa ufania
para ao pé de sua amada
tão romântico assim o conduz,
então bem se extasia
de colher na rosada
face a lágrima que alva aí reluz.

VII
Sítio em que eu vivi moço!
Da amizade e franqueza
mansão doce, mansão d'áureo amor!
Sabes d'alma o alvoroço
quando disse-te, presa
a uma lágrima, o adeus de sua dor?

VIII
Bem que agora um só voto
não mais vá de meu peito
ao daquela a quem já tanto amei,
sempre lembro-me e noto
que os que outrora lhe hei feito
co'uma lágrima dela os c'roei.

IX
De outro embora, ditosa
viva a ingrata Maria;
sei-lhe ainda a lembrança adorar:
bem que foi-me enganosa,
sei chorá-la; e em vão ria,
co’uma lágrima a sei perdoar.

X
Meus amigos queridos,
dentre vós me apartando,
uma esp’rança me anima, e me diz:
sereis inda reunidos!
Vosso adeus é chorando?
Dai a lágrima ao encontro feliz!

XI
Quando houver meu esp’ríto
voado às plagas da noite,
e o meu corpo na cova jazer,
oh! Ter-me-ei por bendito
sê no pó, que o Euro açoite,
quem derrame uma lágrima houver.

XII
Não me erijam moimento
pela mão da vaidade!
Não carece o meu nome asas tais
para ao teu firmamento
voar, Celebridade!
Uma lágrima eleva-me assaz».

In Lord Byron, in poema ‘A lágrima’
Tradução de Fontenelle

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A Musa de Camões. Maria Helena Ventura. «…alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece»

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O Outono da Saudade
«(…) Suas Altezas estavam fora de Lisboa, mas não deixava de ser uma temeridade transpor os portões do paço com a Infanta por lá. Só que a necessidade falava mais alto, fazia esquecer o tamanho da ousadia. Porém não era dona Leonor quem acompanhava Sua Senhoria naquela quase manhã, era dona Paula Vicente. Não ficou decepcionado, antes grato pelo quase milagre que viveria a seguir. O destino permitia-lhe avistar de perto a irmã de El Rei, falar com ela depois, olhar o céu no claro azul de seus olhos. Foi a maior alegria da sua existência cinzenta... Com estas recordações as noites vão caindo mais devagar, tristes. Ou a tristeza que alberga é tão grande que chega para cobrir as noites todas que vierem. Cansado começa a falhar a conta das estrelas, o sentido virado para dentro de si mesmo a decifrar lampejos de alma embrulhados no aroma de outros anos. Ousou um dia crer no direito a ser ditoso como toda agente que na terra não semeia o mal... Não logrou obter o que buscava, só a compensação de gratas lembranças e um punhado de rimas. E a companhia da saudade, que sempre lhes dá passagem livre sem nada pedir em troca. Compreendo que é a força do seu sentimento que doravante me guia, nesta ronda. Eu voltei por Sua Senhoria, ainda vi os derradeiros instantes... Ela dedicou-lhe a última e mais sentida lembrança. Ele orienta para ela, para os momentos que viveram, a saudade que lhe corre no sangue.

Madrugada. Os Pássaros da Bonança
Ano da graça do Senhor de 1549. O Paço da Ribeira não acordou, ainda. Nem os primeiros raios de sol ousaram varar a manhã e já o rumor do Tejo, a agitação nos armazéns à beira rio, na Casa da Mina, da Índia, chegam ao quarto destinado à Senhora Infanta. Não é o mesmo onde nasceu, onde morou até aos dezasseis anos antes de lhe montarem a própria moradia, mas agrada-lhe esta vista desafogada com cheiro a maresia. Por tanto gostar da paisagem, do bulício criado pelos lugares de transacção, também seu pai El Rei Manuel I mandara construir o novo palácio, pronto se mudando da alcáçova de S. Jorge. A filha deve trazer no sangue igual atracção pelos espaços rasgados, o rio alegre e novos mundos para a frente. Vem cada vez menos nos últimos tempos por muito prezar a independência, o afastamento das intrigas da corte, porém não pode negar como lhe faz bem estar tão perto da vida a pulsar com mais força. Por detrás da janela dá uma olhada ao movimento exterior, intenso para os lados do cais. Mãos invisíveis misturam as cores de uma paleta viva de gentes do reino, almas de outras paragens, bestas carregadas, caixas, gigas, algumas direitas às tabernas das cercanias, às costas dos escravos. É o lugar mais importante da cidade, espelho de uma próspera nação no tempo de seu pai. Com Suas Altezas fora de Lisboa sente-se bem por ali alguns dias, enquanto lhe reformam a moradia e renovam o mobiliário. Seja pelo ar da madrugada ou ausência temporária de novas tristes, o paço parece menos carregado, mais arejados os corredores...
Até o riso das aias e escudeiros se expande sem constrangimento, longe da vigilância rigorosa de dona Catarina. Por dois dias não precisam falar castelhano em repetidas vénias, só o português que em Santa Clara os moradores apuram. Dona Paula Vicente vem tirá-la da janela lembrando o sol quase a nascer, o passeio lá fora, as orações na capela. O tempo arrefeceu desde a véspera, melhor que vista o brial fino, porém de merino puro, para evitar agressão da maresia. Entrega-lhe ainda o terço de contas de pérola e ligamentos em corrente de ouro. Assim protegidas atravessam o andar nobre desde a câmara privada, percorrem o labirinto de corredores a caminho da varanda fortificada, ligada ao corpo principal do paço. Passam a célebre sala dos embaixadores, por cima dos ministérios do Reino e da Justiça, o Arquivo Real. Descem ao piso inferior num curto espaço de tempo, sem abrandar a marcha, enquanto guardas, mordomos, aias e escudeirosainda vestem seus fatos, dão lustro ao calçado e às fivelas». In Maria Helena Ventura, A Musa de Camões, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-940-6.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A Musa de Camões. Maria Helena Ventura. «Deve achar-me uma fortaleza porque me pede a mercê de algumas horas por dia, para desabafar. E com um sorriso polido aguarda o meu assentimento»

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O Outono da Saudade
«(…) Do criado sinto um reconhecimento humilde. Mais incomodado com o descontrolo de seu amo do que consigo, volta a olhar-me, agora menos à vontade. Na sua terra de origem os homens raramente choram, não pedem quando têm direito, lutam até à morte por aquilo que desejam. Mas compreende quem precisa deixar escoar a mágoa tanto tempo guardada em segredo, como aquele a quem serve. Conhece-lhe a profundidade da dor pelos vincos do rosto, caminhos de lágrimas choradas na solidão das noites. Por certo amanhã há-de querer voltar. Misturado na romagem de saudade encontrará um canto seu, uma nesga de espaço-tempo para murmurar, em profundo recolhimento, tudo o que não conseguiu dizer em vida. Antecipo-me aos dois, saindo para o átrio do convento. Quando se aproximam, baixo-me a compor o sapato para não encarar a dor de nenhum deles. Bem sei que não é o momento para fazer saudações. Deixo que Camões avance um pouco, arrimado à muleta, e faço um sinal ao criado, ligeiramente atrás. Travo conversa com ele, procurando imitar-lhe o jeito suave. Responde afavelmente, com infinita doçura, como se desejasse há muito tempo alguém para se escorar. Digo-lhe quem sou, porque me acheguei a ambos numa hora destas, coisas de pouca novidade para quem está habituado a decifrar o rosto das pessoas. Sabe muito, pelo pouco que ouve, e garante-me que me conhece muito bem... Também já me viu uma ou duas vezes perto de Sua Alteza a Infanta dona Maria, a mesma que seu amo vem nomeando todos os dias dos anos em que partilham a mesma casa. Deve achar-me uma fortaleza porque me pede a mercê de algumas horas por dia, para desabafar. E com um sorriso polido aguarda o meu assentimento.
Passamos a encontrar-nos pelas manhãs, depois da ronda dele para arranjar alimento ou esmolar às escondidas, como já percebi mais do que uma vez. Eu falo da Infanta até aliviar a saudade, ele conta-me como vem passando Camões depois da morte dela. Discorremos ainda sobre o que os uniu, aquilo que os separou, comentamos como podia ter sido comparando, no fim, a incerteza da vida que levamos. A natureza íntima de Camões parece ter mudado no trato, na falta de vontade para escrever. Só a pouca abastança continua igual. A ida habitual de seu amo ao convento, confessa o jau, não é tanto pela satisfação da conversa como pelo pretexto de trazer alimento que os frades lhe dispensam. Garante-me ainda que, não havendo até à data provimento da tença prometida, a noite dos funerais foi uma noite de fome. Sem ânimo para sair, nada mais tinham que uma côdea de pão e um chá de folhas de limoeiro do quintal da vizinha.
Olho-o fixamente. Afinal precisam pedir até o pão, enquanto do lado da fazenda real não sopram ventos favoráveis. Difícil será, porquanto as medidas da coroa desvalorizam a moeda, encarecem os bens essenciais, até os moios de centeio..., um alqueire custa o que não ganha um homem e o trigo vem de fora. Vale-lhes a caridade de um, dois nobres amigos, e os limões acabados de colher, entregues sobre o muro que separa as casas. Às vezes mantém dois dedos de conversa com a vizinha, uma mulher do povo, acompanhados de conselhos e revelações que melhor o fazem entender uma cultura tão diferente da sua. Já sentiu o aroma de um chá de folhas verdes? Depois de sentir a primeira vez nunca mais dispensa, quando seu amo se afunda em cogitações e o armário está vazio. Para Camões mais importante que o alimento do corpo é poder saborear o silêncio, para rever generosamente os últimos vinte e três anos e um pouco mais atrás, quando a senhora Infanta parecia corresponder discretamente à sua admiração. Duas ou três vezes lhe sentiu de muito perto o perfume, o olhar mais terno a envolver as palavras, e esses raros momentos encheram-lhe os dias e noites atormentadas, no reino e fora dele, duram até hoje e mais além hão-de durar. Ainda que arrastando pelas vielas os danos causados pelos grilhões e pela revolta interior, leves serão sempre as lembranças daqueles momentos.
Todas as manhãs claras em que as tardes começam a sobrepor-se, confunde com o céu dos olhos dela. Deixa entrar essas frinchas luminosas no pensamento, os vultos que viu passar aquela madrugada na capela do paço da Ribeira, rente à coluna de pedra, tão fria como o vão da janela onde pousa os cotovelos, a ver a luz que se escoa. Não tinha intenção de perturbá-la. Admirava-lhe tanto a cultura superior, a graça que transbordava da gentil figura que nunca ousaria nada que lhe desse cuidado. Costumava até segui-la de longe, depois que lhe disseram como apreciava as suas rimas, mas naquele dia procurava dar uma palavra a dona Leonor Noronha, prima de seu antigo amo, quase a chegar da missão na embaixada de França. Convinha-lhe chegar às falas com ele, recuperar o antigo lugar de escudeiro que lhe fora retirado antes de ir para Ceuta. Havia fortes razões para não lhe perdoarem, mas sendo a prima a interceder, quem sabe se não seria mais prontamente atendido? Estava tão farto de viver de forma indigna, sem maior mantimento que uns míseros reais no bolso, que ousava procurar a dama ali mesmo, na igreja onde costumava ir de manhã bem cedo». In Maria Helena Ventura, A Musa de Camões, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-940-6.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

A Musa de Camões. Maria Helena Ventura. «Deixei tanta confusão, Senhora, acercar-se de vosso coração. Nas outras damas todas via Vossa Senhoria, mas nunca em Vossa Senhoria vi nenhuma delas, nenhuma…»

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O Outono da Saudade
«(…) O colorido das rosas, as gotas brilhantes da rega ou uma andorinha no peito, fizeram chover na sua alma perdida, e chorou pela primeira vez em muito tempo. Era a noção do vazio, o sentimento de ruim consciência a marcar-lhe ainda mais a pobreza. E quando saiu para a rua, rasgado o céu num bando de aves negras, sangravam no horizonte visual palavras aflitas de saudade. Dizia-me o criado que então se perguntou porque lhe faltara a coragem de procurar Sua Senhoria. Em vez de estar morto o sentimento antigo, ainda o sentia estremecer, parecia crescer de culpa feito, pesava
tanto como o remorso. Mas culpa, porquê? Remorso porquê? Porque se havia de lembrar de ambos?
Ainda não sei destes particulares ao tempo que lhe espio o rosto, cheio de aflição. Quase nem dou pela cerimónia terminar, absorto numa história que me devia ser alheia. Arquivo apenas o sussurro de vozes, muita gente a sair e a entrar ordeiramente, depois da rainha ter ido embora, em rendição constante para uns minutos de recolhimento. A certa altura informam as pessoas excedentes que nem todas poderão entrar o melhor é voltarem no dia seguinte. E chego a sentir injusta a minha presença, com pena dos que choram copiosamente, eu que me sinto incapaz de verter mais lágrimas sabendo contudo como se atropelam na torrente de tristeza. Com o espaço mais vazio e o criado logo atrás, o poeta aproxima-se, em passos incertos. Começa por depor no féretro a rosa murcha, colhida no dia anterior, eu fingindo não ver para não lhe causar constrangimento. Mas estou perto o bastante para lhe ofender a intimidade. Recuo então alguns passos, sem nunca o encarar, para me quedar ligeiramente atrás de António, sempre suspenso dos gestos de seu amo. Quando ele ajoelha chega mais perto, a mão pronta para lhe servir de arrimo.
Ninguém dedicou a Camões afecto mais verdadeiro do que aquele que lhe fez mercê a Senhora Infanta. As vozes maviosas de outras damas fazem-lhe falta, mas tamanho bem-querer vindo de tão alta Senhoria era o maior privilégio, a chave da liberdade que não chegou plenamente. E no entanto jamais alguém foi tão livre na agilidade das rimas, livre nos pensamentos, com igual engenho para colher do mal o maior bem. Pensa agora nas mercês que ela lhe concedeu, no mal que lhe devem ter feito por sua causa. Decerto amargaram-lhe a vida por ter descido o olhar, o afecto, até alguém tão humilde, deve ter recebido avisos, sugestões, ameaças subtis para decidir em contrário ao que seu coração determinava. Muita dor até ver-se condenada a esconder para o resto da vida o que sentia, sob pena de ser ele a sofrer maior castigo...
Tudo tão claro, neste vazio escuro. Devia ter rogado uma última audiência com ela para esclarecer momentos menos transparentes ainda no reino, coisas passadas durante a ausência no Oriente. Tempo não lhe faltou para dizer a muita gratidão que no íntimo sentia pela carta de perdão de João III, antes de partir para a Índia, pelas intercessões junto do Inquisidor mor até à edição de Os Lusíadas, um feito que no termo da vida lhe trouxe um quinhão do respeito que tanto procurou. Tempo não lhe faltou, faltou coragem, já muito esbanjada durante a mocidade. Tarde de mais. Agora de pouco vale lembrar momentos que não voltam, ali onde os restos mortais de Sua Senhoria nada mais esperam que a paz completa negada em vida.
Estamos só os três, perto do corpo. Por ordem do padre-mestre um menino de caracóis escuros vem pedir para nos afastarmos um pouco mais para trás. Querem queimar incenso e derramar bálsamos, depois do ar quase irrespirável. António guarda as costas de seu amo, ainda ajoelhado, a desfiar murmúrios em respiração mais forte. Sem afastar os brandos modos nega-se a cumprir as ordens implícitas nos gestos dele, preferindo ficar fielmente à espera de ajudar se acaso o poeta não conseguir controlar a emoção. Com as mãos no rosto, estrutura quase a ruir, Camões soluça, o jau agora a segurar-lhe os ombros sem lograr acalmá-lo. Vira a cabeça na minha direcção, ligeiramente perturbado, entendo que à procura de auxilio. Em nome de Sua Senhoria dou um passo em frente, coloco-lhe as mãos sob os braços para forçá-lo a levantar. Tem de ser genuína a sua mágoa, as palavras atormentadas que vai desabafando: deixei tanta confusão, Senhora, acercar-se de vosso coração. Nas outras damas todas via Vossa Senhoria, mas nunca em Vossa Senhoria vi nenhuma delas, nenhuma…». In Maria Helena Ventura, A Musa de Camões, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-940-6.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT